sexta-feira, 13 de maio de 2011

Libertar a alma negra do Brasil


Neste 13 de maio, quando se comemora o 123º aniversário da Abolição da Escravatura no Brasil, os afrodescendentes têm a festejar uma vitória contra a história cruel da escravidão negra no país e as pretensões raciais das elites políticas e econômicas republicanas: os negros e mestiços, contrariando a “teoria do branqueamento” gradativo da sociedade brasileira, tornaram-se maioria da população nacional, somando 50,74% dos indivíduos.

Com o fim da escravidão em 1888, a idéia de “branquear” a população brasileira marcou o final do século XIX e a primeira metade do século XX. O africano, negro e escravo, seria substituído pelo europeu, livre e branco, não só na produção, como também nas famílias. Com essa idéia, entre 1872 e 1953, entraram no Brasil cerca de 5,5 milhões de imigrantes, em sua maioria italianos e alemães. Começava assim o delírio bizarro de se criar uma Europa austral nos trópicos. A entrada em massa desses imigrantes europeus no Sul e Sudeste do Brasil permitiu que em poucas décadas a população negra e mestiça fosse superada pela população branca, situação que perduraria até o censo de 2000.

Mas, pelas ironias da história, os números do censo de 2010 revelam que a maioria da população brasileira deixou de ser branca, tornando-se agora, negra e mestiça. Do total de 190.749.191 brasileiros contados, 96.795.294, isto é, cerca de 50,74%, se declararam pretos ou pardos. Negros autodeclarados compõem, 7,61% da população, somando cerca de 14,5 milhões de indivíduos. Pardos, isto é, mestiços, somam 82.277.333 pessoas, representando 43,13%.

Sustentada “cientificamente” pela nascente sociologia brasileira de Nina Rodrigues e Silvio Romero, influenciada pela teoria racial da chamada escola histórica de Arthur de Gobineau – um interprete social do evolucionismo darwinista que chamava a mestiçagem de “depravação” e os mulatos de “a ralé do gênero humano” – a idéia do “branqueamento” da população alcançaria os limites da loucura mórbida com o médico e intelectual fluminense João Batista de Lacerda. Em trabalho apresentado no Congresso Universal das Raças, em 1911, em Paris, Lacerda previu que a população brasileira alcançaria 80% de brancos exatamente em 2011. E funestamente profetizou: “Em um século, a população do Brasil será representada, em sua maior parte, por indivíduos da raça branca latina, e no mesmo período, o negro e o índio terão sem dúvida desaparecido desta parte da América. Um futuro brilhante está reservado ao Brasil, que se tornará a principal estação onde a raça [branca] latina virá revigorar-se, como os Estados Unidos tem sido, na América do Norte, para a raça saxônica.” As pessoas que se declararam brancas no censo de 2010 representam 47,73% da população.

Assim, contrariando os prognósticos chocantes e lamentáveis das elites brancas, o Brasil, demograficamente, é hoje mais preto que branco. No entanto, decorridos quase 500 anos desde os primeiros desembarques de negros africanos no solo pátrio e 123 anos desde a Abolição da Escravatura, o que se verifica, de fato, é ainda a nacionalidade dividida pela existência de duas cidadanias: a branca e a negra. Uma, o Brasil econômico e rico, do mundo do trabalho e das finanças, que continua se vendo a partir dos olhos dos brancos nacionais e estrangeiros. Outra, o Brasil miserável e pobre, dos cidadãos subalternos e das favelas, que continua se vendo com um pé na senzala e outro na África ancestral e mais que subdesenvolvida. Conexão entre as duas cidadanias, o legado da escravidão: riqueza para uns, miséria para outros, racismo e discriminação nas relações raciais.

No Brasil contemporâneo, a narrativa dominante continua sendo a do branco. As milhões de vozes negras que agora formam a maioria populacional continuam caladas ou subjugadas. Por isso, uma radical (no sentido de ir à raiz) mobilização dos negros brasileiros é necessária. Além de uma luta por espaço político, econômico e social, contra o racismo e a discriminação racial no corpo da nação, ela pode forçar o Brasil a enfrentar todas as suas falhas históricas – desigualdade, miséria, corrupção institucionalizada, má educação e saúde para pobres, insegurança e violência, desenvolvimento periférico, etc. – que formam um amplo painel do fracasso moral da nação, e um reflexo da subutilização dos talentos da população afrobrasileira, atirada ao limbo pelo preconceito dos descendentes dos coronéis e barões que fizeram a escravidão.

Acho que chegou o momento de nós, negros e mestiços, cobrarmos do Estado o reconhecimento da dívida econômica e cultural que este tem em relação aos escravos e aos afrodescendentes. O Brasil só será uma grande potência mundial quando a raça negra e os mestiços se incorporarem ao seu pleno potencial econômico.

Na mesma medida, os números do censo exigem dos afrobrasileiros posições radicais e independentes que não mais podem ser satisfeitas pela forma superficial e maniqueísta como está estruturado o movimento negro nacional e seus diversos grupos, cooptados por partidos de esquerda ou de direita e cujo poder de mobilização se esvai nas fronteiras do jogo político das elites nacionais. É preciso incorporar uma nova qualidade de “massas” a essas organizações negras de “lideranças”, para que possam cumprir um papel verdadeiramente transformador da nação.

A luta por justiça socioeconômica e racial dos negros deve ser a base dos movimentos negros na atual agenda política do Brasil. Se queremos participar do bolo econômico devemos buscar não apenas a igualdade como um direito teórico, mas igualdade como um fato e como resultado prático, a fim de cultivar um conjunto de líderes talentosos com legitimidade aos olhos desta nação de pretos. A revolução negra humanista, iniciada pelos heróis abolicionistas de 1888, precisa ser concluída na alma da nação brasileira que a abolição não libertou.

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