domingo, 29 de maio de 2011

Para jornalista é preciso olhar bases

Salvador - O autor do Mapa da Intolerância Religiosa no Brasil, que será lançado neste sábado (28/05), em Salvador, jornalista Márcio Alexandre (foto), disse em entrevista à Afropress que o Movimento Negro deve olhar menos para Brasília e mais para as bases, e relativizou a importância da SEPPIR - a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da Presidência da República - que, segundo ele, “já nasceu aparelhada”.

“Apesar de ver a Seppir como um interlocutor privilegiado, gosto muito da idéia de dialogar com a Fundação Palmares a partir do que está posto, a entrada de Elói [Ferreira de Araújo] como presidente e de Martvs [Chagas], com uma função executiva próxima à que ocupava na SEPPIR.

Penso que a Palmares te dá um manejo político mais tranquilo que a SEPPIR. A SEPPIR é muito vitrine; poucos entendem o que é realmente a SEPPIR e a lógica de pedinte ainda vigora entre nós. Portanto, a maioria da pessoas quando torcem o nariz, o faz porque nao conseguiu seu recurso, ou seu apoio para uma ou outra atividade”, afirma.

Na longa entrevista, concedida ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Alexandre mostrou-se otimista quanto aos rumos do Movimento Negro brasileiro.

“Hoje vejo um amadurecimento político muito maior entre as organizações nacionais do Movimento Negro. O CEN [Coletivo de Entidades Negras] acaba de fazer uma mudança estrutural importante em suas linhas de atuação que é ampliar seu foco além da discussão sobre religiosidade de matriz africana; os APNs [Agentes Pastorais Negros] vão realizar agora sua assembléia nacional e fará importantes alterações em seu Estatuto; a CONEN [Coordenação Nacional de Entidades Negras, ligada ao PT] vem se abrindo para um diálogo com os outros setores do Movimento Negro de uma forma menos imperial e, com a UNEGRO [União de Negros pela Igualdade, ligada ao PC do B] a relação no geral sempre foi muito boa. Enfim, creio que estamos vivendo um momento interessante onde, mais uma vez afirmo, mais que olhar para Brasília, precisaremos olhar para as periferias, para as favelas, para o interior do país”, acrescentou.

Veja, na íntegra, a entrevista do jornalista à Afropress.

Afropress - Você acaba de assumir a coordenação geral do CEN. Qual a linha que pretende imprimir à frente dessa importante articulação do Movimento Negro Brasileiro? Que mudanças pretende fazer na forma como o CEN vinha atuando sobre o comando do Marcos Rezende?

Márcio Alexandre Martins Gualberto - A despeito do que muita gente pensa ou quer fazer pensar, o CEN hoje é uma das grandes organizações nacionais do Movimento Negro brasileiro. Estamos em mais de 15 estados da Federação, temos uma estrutura sólida de coordenação, temos uma pauta política ampla, criamos redes de articulação e interlocução com outras organizações negras e também com organizações que não estão no campo da luta anti-racista, tal como as organizações de direitos humanos, LGBTs, mulheres, MST entre outras.

Participamos do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, do Conselho Nacional de Segurança Pública, do Conselho Nacional de Juventude, do Forum Nacional de Entidades de Direitos Humanos, do Círculo de Juventude Afro-Descendente das Américas, enfim, o CEN é uma realidade que tende a se tornar cada vez mais presente no cotidiano do Movimento Negro e das pessoas negras deste país.

Com relação às mudanças, penso que antes de tudo o que ocorre é uma mudança de estilos. Marcos, que é meu amigo, meu irmão de Axé e um valoroso companheiro tem uma postura mais para fora. Marcos projetou o CEN em espaços importantes a partir da sua forma de agir. Eu já sou um cara mais dos bastidores, gosto do diálogo antes das ações, prefiro as costuras onde outros atores apareçam e não necessariamente eu. Enfim, creio que comigo o CEN ganhará mais no diálogo interno, no maior empoderamento e cobrança das coordenações estaduais e nacionais mas, talvez perca um pouco com essa presença marcante de Marcos de subir em carro de som, de pegar o microfone, falar, se colocar.

É importante que as pessoas entendam que há muitas similaridades entre mim e Marcos. Não tenho dúvidas em afirmar o que até as pedras sabem, que se o CEN é o que é hoje deve-se basicamente a uma parceria altamente exitosa que se constituiu entre mim e Marcos. Aos poucos nós agregamos pessoas ao CEN, eu de um lado, Marcos de outro. Trouxemos gente que ficou, trouxemos gente que foi embora, trouxemos gente que chegou mais perto mas não quis entrar, enfim, fizemos o tempo todo um movimento de fazer o CEN se aproximar das pessoas e estas do CEN. Na maioria das vezes tivemos pleno êxito, em outras, infelizmente, fracassamos.

No entanto, há também diferenças de estilos marcantes e creio que essas diferenças é que darão a tônica de uma "mudança" dentro do CEN. Coloco entre aspas a questão da mudança porque não há dentro do CEN uma perspectiva de mudança, mas sim de continuidade e aprofundamento de determinadas linhas de atuação. Apesar de eu ser ogan como Marcos também é, eu penso que o CEN tem que se abrir mais além da questão religiosa de matriz africana; penso que o CEN precisa começar a pensar numa perspectiva internacional; precisa ser menos Movimento Negro e mais movimento para aqueles e aquelas que sofrem e lutam contra o racismo em fronteiras que vão além do MN. Ou seja, quero dizer com isso que o CEN precisa ser uma instituição com menos militantes clássicos e mais base, mais povo e que temos que ir buscar esse povo nas favelas, nas periferias, nas casas de Axé, mas também nas universidades, nos grupos culturais etc.

Afropress - Qual a avaliação que faz do Movimento Negro brasileiro, em um momento em que ataques como os desferidos pelo deputado-racista Jair Bolsonaro, parece que começam a se diluir, sem uma reação efetiva?

Márcio Alexandre - Não podemos resumir a atuação do MN [Movimento Negro] a uma reação contra o Bolsonaro ou qualquer outro imbecil de gravata que resolva abrir a boca por aqui para falar bobagem. Há setores do MN que acharam que não deveriam simplesmente fazer nada para não dar nome ao Bolsonaro. Outros, como nós, lançaram documentos, promoveram manifestações, enfim, cada setor agiu a seu modo. Bom isso.

Penso, no entanto, que o MN encontra-se num momento interessante de sua história, mas isso não é de agora, isso é próprio desta virada de século. Em 2008, publiquei um artigo, na Revista Raça onde colocava alguns desafios para o Movimento Negro no século que se iniciava e, olhando em restrospectiva, percebo que tudo que coloquei naquele artigo está extremamente atual neste momento.

Basicamente eu apontava os avanços significativos alcançados pelo MN nas últimas décadas e a necessidade estratégica de se dar um salto agora rumo a uma aproximação com a massa negra brasileira. Em síntese, eu afirmava, ali, e afirmo agora, que só seremos realmente vencedores se conseguirmos articular nosso discurso político (que é ótimo), com uma articulação forte junto à população negra (que é, historicamente, péssima).

A percepção do racismo está dada. Hoje, talvez mais que 30, 40 anos atrás, mais homens e mulheres negras percebem as situações de racismo e muitas vezes até os denunciam. Mas nem por isso vêem nas organizações negras sua "voz" para expressar toda indignação que sentem.

Esta não é uma falha das pessoas, é uma falha das organizações negras. As ditas organizações nacionais, o CEN inclusive, hoje não conseguem colocar cem mil pessoas nas ruas. E olhe que estamos falando de um país em que uma visita do Papa põe 2 a 3 milhões nas ruas, isso sem falar carnaval, micareta, Marchas para Jesus e Paradas Gays. Ou seja, o povo brasileiro gosta de ir para a rua. Se chamar o povo vai. Mas porque o Movimento Negro quando chama as pessoas não vão? O problema está na linguagem? No discurso? No fato de que estamos desconectados do dia-a-dia da população negra em geral? Não sei, mas responder a estas questões é essencial para trazer esta população para a militância negra.

Agora, eu sempre tenho um olhar positivo sobre o MN, sempre. Mesmo quando erramos, mesmo quando temos imensas dificuldades, eu tenho um amor profundo pelo Movimento Negro, pois quando vejo que resistimos sem recursos financeiros e mesmo assim formulamos políticas, influímos na agenda política do país, incomodamos a direita racista e rancorosa, eu digo, somos um sucesso!!! O Movimento Negro é um sucesso!!

Afropress - Qual a sua expectativa em relação à gestão da ministra Luiza Bairros e como está vendo as primeiras ações, no sentido da troca de toda equipe, bem como ações nos bastidores como parte de uma estratégia que, ao que se comenta em Brasília, visa a desconstrução do que foi feito pelos outros três titulares que ocuparam a SEPPIR?

Márcio Alexandre - Na maioria das vezes quem chega quer impor sua marca, né? Seu modus operandi. Até a Dilma que era a candidata do Lula, que foi eleita pelo Lula e que se dizia sua discípula já entrou mudando um monte de coisas, né? Então é até normal que se busque "desconstruir" um pouco o que foi feito pelo outro. Não é bonito, no entanto. Eu sempre fui um crítico da SEPPIR e vou continuar sendo, porque acho que como sociedade civil organizada, meu papel é ser crítico. Eu sempre gosto de dizer que nós, sociedade civil, somos a consciência crítica da sociedade, daí advém minha crítica às organizações que se vinculam partidariamente, pois, a meu ver, elas perdem a capacidade de isenção.

Acho que precisamos dar uma colher-de-chá à nova ministra. A SEPPIR é um órgão novo que foi criado por uma pressão muito grande do Movimento Negro. A CONEN bate no peito da dizer o tempo todo que quem criou a SEPPIR foi ela, numa clara estratégia de "descontruir" todas as articulações anteriores que falavam da necessidade de se criar órgãos públicos que problematizassem a questão étnico-racial na máquina do Estado, como foi a Sedepron no Rio e tantas outras iniciativas país afora.

Foram artigos e artigos escritos aos borbotões, foram muitas reuniões e conversas, seminários mil, enfim, não foi um dia que um grupo resolveu criar, foi lá bateu na porta do Lula ele balançou a cabeça e assim surgiu a SEPPIR. Mas enfim, o que sempre gerou muito incômodo é que a SEPPIR já nasceu aparelhada. Por a CONEN dizer que a SEPPIR era dela, ocorreu o que ocorreu e todos lembram como ficou feia a lambança dos cartões e a vergonha que tomou conta de todos nós militantes, quando vimos surgirem as denúncias de um festival no mínimo indecente de uso e abuso dos recursos públicos.

Depois veio o Edson Santos e a SEPPIR continuoU aparelhada. Agora não mais pela CONEN, mas mesmo assim, ela (a CONEN), a UNEGRO e outros grupos (sempre os político-partidários), mantiveram sua zona de influência. Eu tive algumas rusgas com Edson a ponto de uma vez chamá-lo de truculento. Pois penso que foi este estilo que ele impôs à SEPPIR. Se com Matilde havia um diálogo que não levava a nada (pois ela nunca dizia não, mas nunca cumpria aquilo a que ela tinha tido sim), no caso do Edson passou a ser praticamente o não pelo não. Hoje, penso que foi talvez até uma forma auto-defesa, para que não incorresse no mesmo erro de Matilde, que por muito confiar naqueles que a cercavam, se viu em palpos de aranha de uma hora para outra.

Com a saída de Edson para disputar as eleições ocorreu uma troca de guarda onde todo mundo entendeu que Elói ficaria apenas mantendo a cadeira quente para a volta de Edson. Mas como política é como nuvem, como já dizia o velho Tancredo Neves, eis que a votação do Edson no Rio foi surpreendetemente baixa e aí, na correlação de forças, fez-se valer os acordos internos do PT que catapultou Luiza Bairros da Sepromi da Bahia, para a SEPPIR de Brasilia e Eloi, como uma grata surpresa, para a Fundação Palmares.

Sou membro titular do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e nesta semana participei da minha primeira reunião como conselheiro. Gostei da postura da Ministra e de seu Secretário Executivo, Mário Theodoro. Participaram da reunião (se não o tempo todo, uma boa parte de tempo), interagiram com os membros do Conselho, foram flexíveis quando podiam ser e firmes quando foi necessário. Enfim, creio que começam bem. Sinto certa dificuldade nas secretarias específicas, mas debito isto ao fato de que é uma turma nova que está chegando e que precisa realmente se habituar a uma outra energia que é a cidade de Brasilia com todos os seus meandros e labirintos.

No entanto, penso que a pergunta não pode, nem deve se restringir à SEPPIR. Apesar de ver a SEPPIR como um interlocutor privilegiado, gosto muito da idéia de dialogar com a Fundação Palmares a partir do que está posto, a entrada de Elói como presidente e de Martvs, com uma função executiva próxima à que ocupava na SEPPIR. Penso que a Palmares te dá um manejo político mais tranquilo que a SEPPIR. A SEPPIR é muito vitrine; poucos entendem o que é realmente a SEPPIR e a lógica de pedinte ainda vigora entre nós. Portanto, a maioria da pessoas quando torcem o nariz, o faz porque nao conseguiu seu recurso, ou seu apoio para uma ou outra atividade.

Precisamos olhar além. Agora começam as discussões sobre o Plano Pluri Anual que regerá a forma de investir e gastar deste governo. Se nós, como Movimento, como organizações do Movimento Social não estivermos presentes neste momento, perderemos o bonde e aí, babau, não adiantará chorar o leite derramado e reclamar da SEPPIR, da Palmares ou de quem quer que seja.

Hoje vejo um amadurecimento político muito maior entre as organizações nacionais do Movimento Negro. O CEN acaba de fazer uma mudança estrutural importante em suas linhas de atuação que é ampliar seu foco além da discussão sobre religiosidade de matriz africana; os APNs vão realizar agora sua assembléia nacional e fará importantes alterações em seu Estatuto; a CONEN vem se abrindo para um diálogo com os outros setores do Movimento Negro de uma forma menos imperial e, com a UNEGRO a relação no geral sempre foi muito boa. Enfim, creio que estamos vivendo um momento interessante onde, mais uma vez afirmo, mais que olhar para Brasília, precisaremos olhar para as periferias, para as favelas, para o interior do país.

Afropress - O CEN é uma articulação que, tem uma forte presença do Movimento Negro da Bahia, em especial, de lideranças ligadas às religiões de matriz africana. Como viu a "Operação Abafa", que resultou na impunidade dos acusados no caso da Mãe de Santo Bernadete, de Ilhéus, vítima de um caso de tortura explícita, segundo denunciou por parte de policiais da PM da Bahia?

Márcio Alexandre - Ao fazer o Mapa da Intolerância Religiosa - Violação ao Direito de Culto no Brasil", percebi como é incrível como temos casos em que a polícia está envolvida. E aí, camarada, quando são os "homi" que estão envolvidos, o buraco é mais embaixo. Sobre este caso em especial temos que ter a exata dimensão da participação da polícia no processo. Foi o aparelho policial o principal agressor, num caso que aconteceu no interior, de um Estado nordestino.

Tem que se ter muita coragem para denunciar, e isso as vítimas fizeram. De repente, se viram confrontadas com o poder do sistema policial dentro da máquina estatal. É natural que haja um recuo. Ninguém em sã consciência quer virar mártir. Mas de todo modo as investigações continuam ocorrendo e penso que não houve de fato uma operação abafa, o que houve, sim, foi a compreensão que tinha que se ter cuidado e responsabilidade ao esticar a corda, pois se compreendeu exatamente para qual lado ela iria partir.

Afropress - Como o caso ainda não se esgotou, pretende tomar alguma providência?

Márcio Alexandre - Não. Há vários grupos em Salvador acompanhando este caso, inclusive nossa representação local. Como Coordenação Geral, nosso papel é acompanhar e responder a qualquer demanda que surja de nossas coordenações estaduais. Se em algum momento nossa coordenação na Bahia nos demandar uma participação maior neste caso, aí entramos. Caso contrário, continuaremos acompanhando.

Afropress - Como ficou a articulação que você estava liderança com outras entidades do Movimento Negro para uma resposta efetiva a agressão no caso Bolsonaro?

Márcio Alexandre - Não ficou. Fizemos um balão de ensaio e recuamos por entender que precisávamos de uma pauta mais ampla que simplesmente dar uma resposta a Bolsonaro. No Rio, em Salvador, São Paulo, Brasilia e outros estados ocorreram manifestações importantes de reação às falas reacionárias deste senhor e de outros de sua patota. O CEN lançou um documento oficial se posicionando a respeito, enfim, fizemos o dever de casa neste caso.

Mas o que acontece, Dojival, é que toda vez que falamos numa manifestação de "massa" as organizações nacionais têm dificuldades em dar uma pronta resposta exatamente por três questões básicas: a primeira é financeira. Poucas são as organizações que têm estrutura mínima para articular rapidamente sua militância nos estados e levá-las para Brasilia. Imagine colocar 50 mil pessoas de uma hora para outra em Brasilia? Isso exige uma logística enorme, uma infra-estrutura minimamente montada, sem contar em poder de mobilização.

Portanto, como se pode perceber, não é simples, há quem tente, ou diga que vai tentar, mas não é simples; em segundo lugar, temos o problema das visões políticas muitas vezes divergentes entre nós com relação a aspectos metodológicos, e aí, novamente, a questão político-partidária aparece, ou seja, há organizações que ouvirão primeiro a orientação de seu partido, para depois ter uma posição de movimento. Este é um dado da realidade, é concreto e não se alterará de uma hora para outra, temos que assimilar isso e colocar este elemento em nossos processos de avaliação. Por fim, e sendo o mais importante, caímos novamente na questão da mobilização das massas.

Eu apresentei à Coordenação Nacional do CEN um plano para trazer cem mil militantes para o CEN no período de quatro anos, criando-se núcleos nos estados, cada núcleo composto por no mínimo cem pessoas, cada uma delas contribuindo com quinze reais para a instituição mensalmente. A Coordenação Nacional se assustou com a proposta. Asssimilou, é verdade, mas ocorreram intensas discussões sobre se as pessoas contribuiriam ou não. Estamos falando de 15 reais, o que dá mais ou menos, 4 ou 5 cervejas, se eu estiver bem antenado com o preço da cerveja, visto que não bebo mais. Depois se discutiu que cem pessoas por núcleos poderia ser muito, que deveria se flexibilizar. Por fim, houve a concordância que se criasse um grupo de trabalho para melhor analisar essa proposta e apresentar, novamente à Coordenação Nacional, algo que fosse mais factível. Isso para mim deixa claro que mesmo as lideranças nacionais de uma organização como o CEN, que a meu ver é hoje a organização do MN que está mais próxima da base da população negra, ainda enxerga grande dificuldade para trazer para si o cidadão comum.

Eu acredito na ousadia, penso que temos que pensar grande, não podemos ter medo de dar saltos no abismo; no entanto, minha Coordenação Nacional assumiu uma posição mais conservadora e eu, como Coordenador Geral eleito nesta mesma reunião tive que aceitar essa postura.

No entanto, penso que para qualquer organização do MN, seja ela qual for, se não combinarmos rapidamente ações estratégicas que visem trazer recursos financeiros e recursos humanos novos para nossas organizações, talvez daqui cinco ou dez anos, não tenhamos mais organização nacional alguma para contar a história.

Por isso vejo com esperança a assembléia geral dos APNs e a sinalização de mudança em suas linhas de atuação; vejo com bom grado uma retomada um bom diálogo com a UNEGRO e a CONEN e penso que se nós, que somos as grandes organizações, não conseguirmos estabelecer entre nós um diálogo mínimo, pouco avançaremos e ficaremos reféns sempre da lógica de criticar a Seppir, a Fundação Palmares e outros órgãos e não construiremos ações concretas de intervenção política a partir de nossas bases.

Afropress - Como acompanhou o caso do protesto do metalúrgico negro, que queimou a Bandeira em Brasília?

Márcio Alexandre - De perto, bem de perto. Vamos aos fatos: um cidadão brasileiro subiu no mastro da bandeira, colocou fogo na mesma, foi preso e disse que estava protestando contra várias questões inclusive o racismo. No mesmo dia, estávamos reunidos em Brasilia, participando do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial. A companheira Regina Adami, da Secretaria Especial dos Direitos das Mulheres e a companheira Guta, do Ministério da Justiça, colocaram a questão como ponto de pauta de nossa reunião. Enquanto Regina fez a gestão política junto ao CNPIR, Guta esteve no MJ levantando todas as informações sobre o caso. Quando ela chegou, imediatamente criamos uma comissão para ir ao presídio para conversar diretamente com o rapaz. Entre os membros dessa comissão estavam o Ouvidor da SEPPIR, uma representante da Cojira, Regina e Guta e o companheiro Brito, do Congresso Nacional Afro-Brasileiro. Quando eles voltaram do presídio, o rapaz já havia sido solto e o representante da Defensoria Pública foi à nossa reunião para dar mais detalhes de tudo que havia acontecido. Portanto, ao contrário do que foi dito na Afropress, as organizações se posicionaram sim, mas se posicionaram com cautela, pois precisavam entender o que estava acontecendo.

Senão vejamos: como cidadão brasileiro, não acho aceitável que se queime a bandeira do meu país. Como militante, entendo que o racismo pira as pessoas e que este homem precisava de nosso apoio. Na real dimensão do caso, penso que fizemos o que deveria ser feito. Não devemos incentivar que outras ações como estas ocorram. Imagine que este rapaz que subiu ao mastro e queimou a bandeira chegasse à delegacia e dissesse que era do CEN, quem responderia por ele??? Eu, é claro! Aí eu, que estou assumindo uma instituição, que temos uma marca de grande responsabilidade em nossas ações políticas teria que responder por uma ação passional de uma pessoa acometida por vários problemas.

Esse rapaz não disse se tem família, não deu endereço, não deixou claro em momento algum quais foram os reais elementos que o levaram a agir como agiu. Quem diz isso não sou eu, mas o defensor público que agiu juridicamente para que o rapaz fosse solto. Ele foi convidado a ir à reunião do Conselho, para que pudéssemos conversar com ele e aí, sim, pensar que ações poderiamos empreender até para protegê-lo. Ele não apareceu. Portanto, caríssimo, agimos na medida do possível, creio eu.

Afropress - Como pretende dirigir uma articulação nacional, a partir de Saquarema, onde está vivendo no momento? E como está de saúde.

Márcio Alexandre - Arquimedes dizia "dê-me uma alavanca e um ponto de apoio, que moverei o mundo". Hoje, tal como um Arquimedes moderno eu movo meu mundo com um computador e uma conexão à Internet. A verdade é que não moro em Saquarema, mas em Araruama, um município que está a mais ou menos uma hora e meia do centro do Rio. Se eu morasse na Baixada Fluminense, ou na Zona Oeste, eu gastaria este mesmo tempo, ou mais, para chegar ao centro do Rio por conta do trânsito. Então a distância não é um fator preponderante.

Me mudei para Araruama em busca de uma melhor qualidade de vida. Meu problema de saúde que é por demais conhecido piora a cada dia e eu preciso criar estratégias para me proteger daquilo que me faz mal, como o estresse. Portanto, hoje vivo num lugar com minha companheira, meus animais de estimação e com os móveis artesanais que faço.

Quando preciso viajar, viajo. Quando preciso agir mais de perto numa determinada ação, lá estou eu. No entanto, como disse, em resposta à primeira resposta, quero muito empoderar mais as coordenações estaduais do CEN. No Rio, o CEN tem uma coordenação estadual. Então não preciso agir por ela, preciso apenas apoiá-la. Quando me vêem as demandas, eu respondo. Eu sou, antes de tudo, um formulador político e penso que esta é a melhor contribuição que devo dar ao CEN neste momento, uma boa e consistente formulação política.

Afropress - Faça as considerações que julgar pertinentes.

Márcio Alexandre - Quero apenas agradecer a oportunidade de expôr um pouco nossas idéias e dizer que considero a Afropress um veículo vital para o fortalecimento do MN a partir da veiculação de informações sérias e consistentes.

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