quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um mundo com 6 bilhões de sexos

Enquanto união civil gay é comemorada, novas letras somam-se ao alfabeto arco-íris,
apontando para um mundo sem gêneros

A caravana da comunidade arco-íris e dos simpatizantes da liberdade sexual comemoram a institucionalização da união civil gay. Enquanto isso, o mundo real já deu voltas que lei não vai alcançar tão cedo. Nos círculos mais avançados, a sigla LGBT já é passado: classificações enormes (!) como LGBTTTS (acrônimo de “lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais, transgêneros e simpatizantes” já estão em uso. A letra H aparece eventualmente — para que não se excluam... os heteros, quem diria! E o P, de panssexual, já reivindica seu lugar ao sol prismatizado. Mas as letras não bastam: como classificar, por exemplo, um homem que corta o membro para virar lésbica e usar bigode e cinta peniana para satisfazer sua amada? E os executivos engravatados que pegam travestis e fazem papel de passivos? Qual a letra? Por isso, começa-se a falar de um mundo sem gêneros, em que cada indivíduo tenha sua própria identidade sexual. Ou seja, um mundo com 6 bilhões de habitantes seria um mundo com 6 bilhões de sexos. Nesta edição da página Logo, o jornalista do GLOBO Ronald Villardo traz as últimas novidades. (Arnaldo Bloch)




Com quantos sexos se faz uma sociedade? A pergunta tem sido objeto de estudo para os que
tentam entender (catalogar?) as diversas cores do arco-íris do desejo. Nas últimas semanas, a
discussão esquenta ainda mais com os debates nos corredores do Congresso, mais uma vez às voltas com as reivindicações das representações LGBT, sigla que agrega cada vez mais letras, escancarando o que especialistas nas psique humana afirmam há tempos: a sexualidade é bem mais complexa do que imaginam até os ministros do STF.

Recentemente, um amigo de adolescência cujo casamento testemunhei no Mosteiro de São Bento há quase vinte anos me informou que havia se separado de sua mulher e estava namorando “sério” seu sócio na empresa de eventos. Apesar de trafegar há mais de dez anos na reportagem da mundanidade das pistas, música e moda, me vi totalmente surpreso com a novidade, já que sequer suspeitava de qualquer tendência homossexual no meu amigo. Peraí… homossexual? Quem disse? O engenheiro não gosta de ser classificado desta maneira. Rejeita veementemente o rótulo e faz questão de me confirmar que jamais viveu um casamento de fachada, reafirmando com todas as letras a paixão por sua ex-mulher, com quem tem uma bela filha, atualmente uma jovem adulta a cursar a universidade em Londres. E agora?

Segundo o psiquiatra Reinaldo Pamplona da Costa, o desejo sexual vai bem além do quadro
homem (homo ou heterossexual) e mulher (homo ou heterossexual). No livro “Os onze sexos — As múltiplas faces da sexualidade humana” (Editora Gente) ele adiciona à lista os possíveis bissexuais (homem e mulher), transsexuais (homem e mulher) e os hermafroditas.
Levante a mão quem ficou de fora: não vão faltar mãos levantadas...
Buck Angel é um famoso ator pornô norte-americano. Nasceu menina, uma graça. Cresceu tão
bela que chegou a trabalhar como modelo já na adolescência, atormentada por um único problema: Buck se sentia um rapaz. Tal desconforto, na maior parte dos casos, recebe o diagnóstico de transsexualidade, definida por psicólogos como o caso em que a identidade sexual de um indivíduo não coincide com o gênero da certidão de nascimento. Pensou em Roberta Close? É por aí. E como é comum em situações deste tipo, Buck começou a sua via crúcis para se tornar um rapaz na jovem idade adulta. Cirurgias, administração de hormônios masculinos e tudo mais o que envolve a mudança de sexo. Só que, diferentemente de Chastity Bono, a filha do ícone gay Cher que agora atende por Jack e adicionou o “plus” à sua anatomia, Buck preferiu preservar sua única parte “feminina”, por assim dizer. Tudo porque depois de se enxergar um homem, como se apresenta socialmente, Buck descobriu que se tornou… “um homem gay”. Ou seja, a satisfação sexual de Buck é com outros homens, desafiando até mesmo o conhecimento da ciência sobre o assunto. E você que não ouse a
chamá-la do mulher.
Enquanto você talvez tenha a necessidade de voltar ao parágrafo acima para entender melhor por que Buck Angel carrega como mote a frase “a identidade sexual não está no órgão genital”, vamos adicionando mais algumas histórias para perturbar o seu café da manhã.
Lu e Gabi vêm formando um casal famoso no underground paulistano, na década de 2000. Lu, lésbica, ex-guitarrista da banda de rock Mercenárias, era completamente apaixonada por Gabi, uma travesti loura. E lá vai você de novo voltar ao início do parágrafo para entender (catalogar?) o formato deste casal. Talvez a principal questão que atravessa a sua mente seja o suposto paradoxo do namoro: se lésbicas são mulheres que gostam de mulheres, por que raios essa tal de Lu vai se apaixonar por um travesti, que nada mais é do que um homem vestido de mulher? O vice-versa, neste caso, também vale. Já que Lu veio sem o “plus”, dá para imaginar que Gabi tenha na imagem masculina mais do que apenas a genitália. Bom, mas aí já e outro assunto.  
Recentemente Lu virou, biblicamente falando, Luciano. Pode procurá-lo no Facebook. Gabi deixou a indústria do entretenimento noturno para se tornar taróloga. Atende por Mãe Gabi. Ambos seguem casados e felizes. História parecida é contada no filme “Elvis e Madona”, de Marcelo Lafitte, de 2009. É baseado na história real de um travesti que se apaixona pela namorada do seu filho. OK, leia de novo, eu espero. Leu? Então... é isso mesmo.
D.B. é uma jovem, bela e charmosa menina que gosta de meninas. Frequentadora do high ao low do Rio de Janeiro, é amiga de muitos personagens da chamada alta sociedade carioca (isso ainda existe?). Pode ser vista tanto em um jantar no Chopin quanto na pista da The Week, o megaclube gay do Centro do Rio. E foi justamente lá que, dia desses, uma das lésbicas mais populares de quase todos os círculos da cidade foi vista aos agarros com um belo e louro heterossexual, motivo de olhares desejosos de vários meninos e meninas naquela noite. O moço estava na boate para celebrar o aniversário de um amigo em comum. Quando D. foi ao banheiro, tendo alguns minutos longe do rapaz, uma amiga não se conteve e perguntou: “O que aconteceu? Virou hétero?”. D. não pensou duas vezes: “Ah, amiga, sou sapatão mas não tô morta”.

Muito confuso esse negócio de desejo, não é mesmo, leitor amigo? Então, para descomplicar um pouco, vamos encerrar com um caso simples: um jovem rapaz gay. Filho do jogador de futebol Edmundo e da ex-modelo Cristina Mortágua, Alexandre Mortágua tem 16 anos. Ganhou as páginas dos jornais e sites por denunciar a própria mãe por maus-tratos. Ele agora vive com a avó, diz que contou para os pais sobre sua orientação sexual aos 14 anos e, como todo adolescente, já teve o seu primeiro namorado. Sonha com a profissão de estilista e já se prepara para o exame de seleção da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, referência nacional no curso de Moda. Como você pode ver, Alexandre é um rapaz como outro qualquer e tem a vantagem de poder se casar, opa, de concretizar sua “união civil” quando encontrar sua cara-metade. Como diz a ícone pop favorita dos jovens gays no momento, Lady Gaga, ele está “no caminho certo”. Afinal de contas, ele “nasceu assim”. OK, deputados?



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