sábado, 11 de junho de 2011

IBGE: negro se identifica cada vez mais como negro

No programa “Brasil em Pauta” de 17/5, o diretor-presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, avaliou que uma das grandes informações positivas levantadas pelo Censo 2010 é que o processo de expansão demográfica do Brasil já não está mais concentrado nas grandes cidades brasileiras – como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre – mas se estendendo por uma quantidade importante de cidades de médio porte em todo o país, o que traz mais oportunidades de emprego para a sociedade. Um exemplo disso é a cidade de Rio das Ostras, que do ano 2000 para o ano de 2010 triplicou sua população, e foi o município que mais cresceu em todo o país.

Por outro lado, Pereira Nunes avalia como negativo o fato de o Brasil ainda ter cerca de 16 milhões de pessoas que vivem em uma faixa de renda considerada de extrema pobreza. O diretor-presidente do IBGE afirmou que o primeiro passo em relação à população brasileira considerada de extrema pobreza foi exatamente a identificação de cidadãos nessas condições de vida. Segundo ele, as informações coletadas pelo IBGE foram repassadas ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que está avaliando os dados e elaborando um programa voltado para esse grupo.

Mas o diretor-presidente do IBGE revela que embora se esteja falando de 16 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, essa pobreza não é homogênea no Brasil, pois em cada lugar ela tem características diferentes: no Maranhão é de uma natureza, na periferia de São Paulo é de outra, em Brasília é de outra natureza. E o que o governo federal está fazendo – não o IBGE, ressalta – é analisar as características socioeconômicas de cada um dos grandes grupos (analfabetos, idosos, sem acesso à saneamento etc) para estabelecer políticas públicas específicas.

Uma outra questão revelada pelo Censo, ao longo dos anos, é o processo cada vez maior de autoreconhecimento do brasileiro em relação à sua cor. Segundo Pereira Nunes, se compararmos o Censo de 2000 com o censo de 2010, houve um aumento da proporção da população que se declarou negra, assim como da que se declarou como indígena. Para se ter ideia, 1,2 milhão não declarou a sua própria cor no Censo de 2000. Esse número caiu para apenas 60 mil pessoas em 2010.

“Isso não quer dizer que a população desse grupo esteja crescendo mais que os demais, não. É simplesmente porque está havendo cada vez mais um autoreconhecimento de cada agrupamento específico (…) ou seja, cada qual se reconhecendo cada vez mais como um cidadão na própria sociedade.”

A questão da idade do brasileiro também é um fator, de acordo com o diretor-presidente do IBGE, que daqui para a frente também passará a fazer parte da agenda de todas as discussões de planejamento da sociedade brasileira para o futuro. A população brasileira está, proporcionalmente, apresentando um número maior de pessoas com mais idade, explicou.

“Só para se ter uma ideia, encontramos no Censo de 2010 cerca de 24 mil pessoas com mais de cem anos de idade.”

Na avaliação dele, a população está envelhecendo por dois motivos que são concomitantes: o cidadão está vivendo cada vez mais, a expectativa de vida está aumentando, e a taxa de fecundidade (dada pelo número médio de filhos que a mulher brasileira tem) está caindo, ou seja, estão nascendo menos crianças.

Pelos dados do IBGE, em 2000 o Brasil tinha 50 milhões de crianças de zero a 14 anos de idade; já em 2010 esse número caiu para 45 milhões. Ou seja, uma queda absoluta de 5 milhões em um país que aumentou – em termos absolutos – em 21 milhões de brasileiros: “Éramos 169 milhões em 2000, e somos 190 milhões em 2010″, esclarece Pereira Nunes. Nesse sentido, deverá haver uma mudança significativa no planejamento da sociedade, explica ele.

“Se eu olho para as próximas décadas eu vejo uma sociedade onde cada vez mais a atenção ao idoso, à saúde, a Previdência Social, o mercado de trabalho, tudo isso terá que levar em consideração uma sociedade envelhecida.”

Em relação à identificação do número atual de homossexuais no país, o diretor-presidente do IBGE explicou que houve a oportunidade de o cidadão responder sobre a sua relação de parentesco com a pessoa de referência do domicílio. Mas o modelo adotado pelo IBGE não conta o total da população que se declara espontaneamente homossexual mas, sim, os casais do mesmo sexo. “Em termos de casais do mesmo sexo, o que nós encontramos no Brasil foi exatamente o número de 60 mil pessoas nessa situação.”

Os dados apurados pelo IBGE sobre analfabetismo (número de pessoas com mais de 15 anos que declaram não saber ler ou escrever) identificaram um índice de 9,6% em 2010. Segundo Nunes, se hoje a taxa de analfabetismo é de 9,6%, cinquenta, quarenta anos atrás essa taxa era de 50% da população. O que aconteceu, explica o diretor do IBGE, é que essas pessoas de antigamente ingressaram no mercado de trabalho, constituíram família, envelheceram, e ainda hoje são os mesmos que compõem o contingente muito grande de analfabetos, ou seja, os que no passado eram jovens e analfabetos, são hoje os idosos e analfabetos.

Então, a taxa de analfabetismo de idosos no Brasil chega a 26% da população, de cada quatro pessoas com mais de 65 anos de idade, quase uma delas é analfabeta, explica Nunes. Já o analfabetismo da população em idade jovem, até 19 anos, por exemplo, é de 2%, o que significa que para o jovem e para a criança de hoje o acesso à escola está universalizado, e o desafio é outro.

“O desafio que o Brasil tem daqui para a frente não é abrir portas para colocar crianças na escola. As portas já existem. O que precisa é fechar as portas para impedir a evasão escolar e garantir um bom ensino para cada criança brasileira.”

De acordo com Pereira Nunes, o Censo 2010 – do ponto de vista do trabalho de campo, da contagem da população, e do tratamento dos dados – já está concluído. O documento pode ser baixado pela internet no endereço www.ibge.gov.br . A partir de agora, cada um dos temas será aprofundado, com análise do perfil da população, da família e de outros fatores. O diretor-presidente do IBGE informou também que daqui para a frente o Instituto fará uma série de publicações, e chamou a atenção para uma que, especificamente, será muito importante para o planejamento urbano das grandes cidades brasileiras: a que vai identificar, em cada bairro do município, as condições de habitação do cidadão. Pereira Nunes explicou que além de fazer perguntas sobre o cidadão e seu domicílio, o IBGE também estuda o entorno da localidade onde o cidadão habita, para saber se tem iluminação publica, saneamento básico, calçamento, arborização, e acessos para a mobilidade de pessoas portadoras de deficiência.

Na avaliação dele, “trata-se de uma série de informações que servem para o planejamento urbano, e para que o governo local possa tomar medidas para melhorar as condições de vida da população.”

Essas informações serão divulgadas pelo IBGE dentro de algumas semanas. Mas antes de divulgar, o Instituto vai discutir com os gestores de cerca de 375 prefeituras onde foram encontradas situações de habitação não adequadas (que são chamadas de aglomerados subnormais), para que eles conheçam a leitura feita pelo IBGE. “Mas isso não significa dizer que se a prefeitura discordar da leitura do IBGE, o IBGE vai mudar, não”, explicou.

“Se a prefeitura discordar e provar que o dado do IBGE não é como a gente está lendo, a gente vai rever. Não necessariamente a revisão implicará em refazer o trabalho que foi feito.”

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