domingo, 7 de agosto de 2011

Brasil: mestiço, improdutivo e desarmônico?

Livro atribuído a norueguês que matou 77 pessoas em ataque afirma que miscigenação seria causa de atraso brasileiro

Ronaldo Pelli

O absurdo ataque do norueguês Anders Behring Breivik que resultou em 77 vítimas fatais também resvalou – em muito menor escala, é verdade – no Brasil. Logo após o massacre no país nórdico, foi divulgado um manifesto com mais de mil páginas chamado “2083 – A European Declaration of Independence” (algo como “2083 – uma declaração de independência europeia”) que seria de sua autoria. A obra prega, entre outras medidas de extrema direita, uma Europa “livre” de imigrantes, o que ocorreria em 20 a 70 anos – daí a data do título. O Brasil é citado algumas vezes nesse tratado de intolerância exatamente como um péssimo exemplo por ser um país miscigenado.

Para Breivik, que, escreve em inglês e assina com o nome Andrew Berwick – uma adaptação para o inglês de seu nome – os conservadores europeus “devem tomar o poder político e militar através de uma combinação de lutas armada e democrática dentro de 70 anos”. Segundo o homem de 32 anos, a alternativa a essa “tomada de poder” “é o modelo de abastardamento contínuo, muito semelhante ao modelo brasileiro”.

A partir de então, Berwick começa a explicar o que seria esse paradigma verde-amarelo e a consequente, em sua opinião, falta de união nacional. Para começar, ele afirma que a mistura de raças no Brasil foi feita a partir de europeus, africanos e asiáticos – sem explicar se os indígenas representariam os asiáticos citados. É possível que sim, já que em outros trechos, ele assegura que os indígenas são “nórdicos por definição” e que junta no mesmo grupo de nações produtivas e harmônicas a Escandinávia, a Alemanha, a Coreia do Sul e o Japão. Como se “nórdico” assumisse a denotação de “puro”, de “não-contaminado”. Portanto, em uma lógica torta, os indígenas seriam asiáticos, porque puros, e todos, em conclusão, “nórdicos”.

Outro trecho sem uma explicação clara afirma que essa mistura entre europeus, asiáticos e africanos teria acontecido graças à “revolução brasileira marxista”. De qualquer forma, o texto defende enfaticamente que essa mistura de raças se mostrou catastrófica tanto para o Brasil quanto para qualquer outra nação que tenha institucionalizado e facilitado esse cruzamento.

“O Brasil se estabeleceu firmemente como um país de segundo mundo com um baixíssimo grau de coesão social. Os resultados são evidentes e são manifestados através de um elevado grau de corrupção, falta de produtividade e eterno conflito entre as várias ‘culturas’ concorrentes como a miríade de recém-criadas ‘subtribos (preto, mulato, mestiço, branco) paralisa qualquer esperança de algum dia chegar ao mesmo nível de produtividade e harmonia como, por exemplo, Escandinávia, Alemanha, Coreia do Sul ou Japão”, escreve ele, em uma tradução livre, que completa: “Vendo a falta de coesão social no Brasil, e a produtividade média do brasileiro médio, é evidente que uma abordagem semelhante na Europa seria devastadora e retardaria a nação, sem mencionar que seria um crime grave (genocídio) para contribuir de qualquer forma para a aniquilação desconstrução e genocídio dos povos indígenas que são nórdicos, por definição.”

Tal afirmação repercutiu nos meios de comunicação e entre nomes como o músico Caetano Veloso. Em sua coluna no jornal “O Globo” do último domingo (31 de julho), Caetano disse que sua oposição a esse programa é “visceral”: “Tudo o que faço tem esse núcleo”, escreveu.

“É a velha hipótese que tinha vigência dentro do próprio Brasil (e, claro, nunca foi descartada de todo — nem por todos), só sendo realmente abalada pela virada que representou ‘Casa grande e senzala’, digam o que disserem os neorracialistas. Gilberto Freyre, ‘Gabriela, cravo e canela’, o ‘Amálgama’de Jorge Mautner e aquele hino à miscigenação que Aldir Blanc escreveu faz uns anos para a TV Globo parecem mais bonitos se confrontados com o criminoso norueguês que matou dezenas de jovens individualmente”, completou.

A escritora e professora do Departamento de Antropologia da USP Lilia Moritz Schwarcz mostrou ainda um ângulo que torna essas declarações mais complicadas. Apesar de esse tipo de discurso não fazer mais parte do âmbito acadêmico nem do político, já que a ciência acabou com qualquer apoio para o conceito de raça, no século XIX, ainda, ela chama a atenção para como em ambientes públicos essas ideias ainda encontram solo para se propagar.

“O que me chama atenção desse discurso não é o quanto ele pode ser anacrônico, mas o quanto essa declaração faz parte do senso comum. O senso comum é uma ideologia muito poderosa. Não é incomum no Brasil que se fale mal da mestiçagem, dizendo que ela é deletéria”, opinou a antropóloga por telefone. Ela, de qualquer forma, defende a possibilidade de qualquer pessoa se expressar, mesmo que um extremista. Essa proposta ecoa a opinião do primeiro-ministro norueguês Jens Stoltenberg, que, mesmo em um momento de intensa crise em seu país, argumenta que a circulação de pensamentos é livre, desde que não haja a tentativa de “implementar essas ideias com violência”.

“A única forma de esclarecer é permitir que essas ideias apareçam, que a intolerância apareça”, acrescentou Schwarcz, elogiando a coragem do primeiro-ministro norueguês. “A política de esclarecimento é contrária à proibição. Bem claro que sobre a violência que foi aplicada, não há tolerância que dê conta. Estamos falando da expressão de ideias que nós consideramos execráveis. A diferença é exatamente isso.”

A antropóloga também ressaltou o fato de o Brasil ser um exemplo da miscigenação, lembrando que é uma leitura freyreana, “que faz o igual ser igual à igualdade”, exemplificando que “inclusão cultural e a mestiçagem biológica não são sinônimos de igualdade”.

“Gilberto Freyre teve papel fundamental na divulgação dessas ideias, mas ele fez parte de uma geração, o que as pessoas esquecem em geral”, explicou. “Ele só pôde fazer isso porque desde o século XVI a representação do Brasil é de um país mestiço. A diferença é que a representação varia do positivo ao negativo. As primeiras descrições do Brasil dos viajantes seiscentistas eram do país da grande fauna e da mistura de raças. Claro que alguns viam isso com descrédito. Mas se você pegar Montaigne, em ‘Dos canibais’, é evidentemente positiva à gente do Brasil. Essa mesma noção é a de Rousseau, do bom selvagem. Que está lá no movimento romântico. Os indigenistas do século XIX falavam em uma mistura entre os nobres da terra e os nobres portugueses.” Ela continua:

“O primeiro vencedor do concurso do IHGB, que perguntava como escrever a história do Brasil, é Von Martius, cuja tese falava que o Brasil era composto de três grandes rios: o rio branco, mais caudaloso; o indígena, menor; e o negro, ainda menor. Para você ver, a primeira tese em que se escreve a história do Brasil, já foi feita com esse modelo”, explica a professora, para quem “não existira Gilberto Freyre sem existir outros”.

Mesmo que o Brasil seja visto até hoje como o país da mestiçagem, principalmente externamente, há também movimentos preconceituosos e que prezam por uma suposta pureza no Brasil, contrários a nordestinos por exemplo. A professora lembra que, se o Brasil não vivenciou o ódio racial escrito em lei, ou que provocou chacinas, a experiência da escravidão nos deixou marcas até hoje.

“Lidamos com a escravidão de maneira silenciosa. Um exemplo é o nosso hino da República, feito, portanto, um ano e meio após a abolição da escravidão que dizia: ‘nós nem cremos que outrora escravos tenha havido em tão nobre país’. Outrora era um ano e meio”, ressalta ela. “Estamos numa época em que há vários marcadores sociais da diferença. Toda a sociedade carrega os seus marcadores, classe, etnia, região, idade. Raças vêm aparecendo mais. É impressionante que quanto mais a gente destrói o conceito biologicamente, mais ele vai sendo recriado. Cria-se novos eixos, novos olhos, novas representações. É impressionante.”


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