segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ex-namorada de estudante morto diz que ele foi vítima de racismo


Filho de uma família tradicional de Guiné-Bissau, o ex-estudante da UFMT Toni Bernardo da Silva, 27 anos, morto por policiais militares e um empresário na noite de quinta-feira (22), teria sido vítima de racismo, de acordo com sua ex-namorada brasileira, que hoje vive em Brasília.
Segundo ela, o pai de Toni, que tem o mesmo nome do filho, é formado na Rússia em agronomia. Um tio é oficial das forças armadas em Guiné-Bissau. Toni ainda tem mais 14 irmãos, alguns vivem em outros países. Uma irmã faz direito na França, e outro exerce a arquitetura em Lisboa, Portugal.
De acordo com a ex-namorada de Toni, Lis Andreia Ferreira, o pai do ex-estudante da UFMT o mandou para o Brasil a fim de fazer economia em um dos países que despontam nesse segmento no mundo, para que em seu retorno à Guiné-Bissau pudesse exercer a profissão na estrutura do governo.
“O pai dele é muito idealista e por isso mandou alguns de seus filhos para fazer faculdade em outras universidades pelo mundo; o objetivo era que eles pudessem ajudar no desenvolvimento de seu país”, afirma Lis Andreia, a ex-namorada de Toni.
Lis Andreia, que é publicitária, afirma que a trajetória de Toni, que culminou com a tragédia, pode se tratar de caso de racismo, que camufla uma realidade para um país miscigenado como o Brasil. “Muitas vezes é velado (o racismo)”.
“A característica desse crime bárbaro que cometeram com o Toni é social. Olharam para uma pessoa negra, pobre e que apenas esbarrou em uma pessoa; eles já pensam que é muito perigoso para a sociedade e quiseram exterminar”, disse Lis, que namorou o jovem rapaz durante um ano, entre 2007 e 2008.
Lis Andreia Ferreira trabalha atualmente na Secretaria de Publicidade no Governo do Distrito Federal. Na manhã seguinte à tragédia, Lis ligou para a Embaixada de Guiné-Bissau no Brasil, onde irá exigir, junto com todos os familiares de Toni Bernardo, as investigações à Policia.
“Liguei para a embaixada e eles já estavam a par de toda a situação. Estamos nos organizando para exigir uma resposta do porquê Toni foi brutalmente agredido. Conhecia ele muito bem e a convivência era pacífica. Ele não gostava de violência”, afirmou.
A ex-namorada disse ainda que o caso está tendo repercussão internacional, já que a família do estudante é formada por pessoas de classe média, que vão exigir explicações para a morte trágica. Toni deixou uma namorada brasileira grávida de oito meses.
OUTRA SITUAÇÃO
Toni Bernardo se encontrava em situação de risco. De acordo com amigos, ele estava envolvido com o uso de drogas pesadas (como pasta-base ou cocaína) há alguns meses, e a UFMT não teria dado a assistência necessária para que ele fizesse tratamento.
De acordo com Ernani Ernesto Dias, estudante de letras de Guiné-Bissau e amigo de Toni Bernardo, a assistência se resumiu a três ou quatro consultas realizadas por uma psicóloga da Instituição.
“Deram assistência através de uma psicóloga, não duradoura e nem intensiva” complementou Ernani Dias.
O acordo de cooperação de intercâmbio acadêmico colocou Toni Bernardo sob a tutela da União, por meio da UFMT. O estudante havia se afastado da faculdade desde o início deste ano.
Para casos em que há problemas com algum estudante de intercâmbio internacional que não está correspondendo com o Programa de Estudante-Convênio Graduação (PEC-G), o procedimento é comunicar à Polícia Federal no Estado, ao Departamento de Cooperação Científica e em seguida à Secretaria de Educação Superior (SESu). A questão é se esse procedimento foi realizado ou não pela instituição.
O objetivo, conforme à cláusula da PEC-G, é para que sejam tomadas as providências necessárias ao retorno do estudante. A Instituição é tutora do aluno nesta situação.

TRAGÉDIA
De acordo com Ernani Ernesto Dias, familiares do estudante estão consternados e de lá da África também buscam informações na Embaixada do Brasil naquele país. A estudante de letras Luana Soares, amiga brasileira dos estudantes africanos disse que alguns não têm a assistência devida por parte da instituição.
“Eles (os estudantes africanos) vêm sofrendo na UFMT, com condições de moradia e por falta de bolsas. A instituição os recebe por meio de um convênio e os estudantes não têm assistência!”, exclamou Luana.

TRATADO
O acordo de cooperação entre os países observa que os participantes do programa poderão usufruir de auxílios econômicos por parte da instituição de origem ou acolhimento, no caso a UFMT. Mas será um esforço já que os gastos com alimentação, viagem e moradia ficam por conta do estudante que, além disso, tem que arcar com seguro saúde e todas as despesas com material educativo, cabendo à instituição a promoção de aulas e eventos.
Atualmente a UFMT mantém intercâmbio com vários países. Segundo Luana Soares, que também faz parte da frente acadêmica de luta, existe cerca de 20 estudantes do continente africano.

ATO DE REPÚDIO
Nesta segunda-feira (26), às 14h, a UFMT realiza ato de repúdio contra violência no centro cultural.
Em nota, a UFMT divulgou repúdio ao fato: “A violência de que foi vítima o ex-estudante de Economia, Toni Bernardo, da República da Guiné-Bissau, ex-integrante do programa de mobilidade internacional PEC-G, exige punição dos responsáveis e reflexões sobre a cultura da paz”.
Na noite de sexta-feira (23), cerca de 150 alunos fizeram um protesto em forma de vigília, em frente à pizzaria Rola Papo, local onde o estudante foi morto no dia anterior. Amigos e colegas acenderam velas para lembrarem a forma como o rapaz foi morto.

OUTRO LADO
A reportagem tentou entrar em contato com o Departamento de Relações Internacionais da UFMT. Porém, por ser final de semana, não conseguiu falar com nenhum integrante do setor.
Na sexta-feira (23) à tarde, a pró-reitora Myriam Serra, da Pró-reitora de Ensino e Graduação, e outros representantes da instituição se reuniram com os estudantes africanos às portas fechadas.
De acordo com Luana Soares, alunos brasileiros foram impedidos de participarem da reunião pela alegação que eles não tinham nada a ver com a morte do estudante africano Toni Bernardo.

Fonte: http://hipernoticias.com.br/TNX/imprime.php?cid=5510&sid=112

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