domingo, 13 de novembro de 2011

Entrevista: Carlos Moore / Palavras Essenciais



Tenho o prazer de receber, para uma conversa franca e contundente, o Mestre Carlos Moore. Espero, com isso, aprofundar algumas discussões que tenho levantado. Há um grande interesse de minha parte em compreender e divulgar a questão da negritude em Cuba, na diáspora e continente africano. Para tanto são muito esclarecedores os relatos de experiências vividas e as análises sócio-políticas que o mestre faz, não só do regime revolucionário cubano, no que toca mais diretamente a causa negra, mas de muitas questões que extrapolam as barreiras nacionais. 

Mestre Carlos Moore fala um pouco de sua trajetória de exílios até sua permanência em Salvador, na Bahia, sua morada atual. A partir daí, segue uma conversa inspiradora sobre grandes questões como literatura, música e muito mais. Com emoção, Carlos Moore destaca companheiros de trajetória que se tornaram célebres. 

Dedica profundas palavras a dois dos homens que tanto colaboraram para a formatação do ativismo negro contemporâneo no mundo inteiro. Trata-se dos fenomenais Aimè Césaire e Fela Anikulapo Kuti. O primeiro fundador da Negritude, movimento que revolucionou as relações raciais no século XX. O segundo um músico extraordinário que desenvolveu o incrível afro-beat. Ambos, além da reviravolta que causaram com sua arte, tiveram uma atuação política vigorosa contra os opressores do continente africano e da diáspora negra. Carlos Moore explica a importância dos dois para as lutas negras atuais. 

Carlos Moore nasceu e cresceu em Cuba. Doutor em Ciências Humanas e Doutor em Etnologia da Universidade de Paris-7 na França, ele é atualmente Chefe de Pesquisa (Sênior Research Fellow) na Escola para Estudos de Pós Graduação e Pesquisa da University of the West Indies (UWI), Kingston, Jamaica. Ele foi consultor pessoal para assuntos latino-americanos do Secretário Geral da Organização da Unidade Africana (atualmente União Africana), Dr. Edem Kodjo, de 1982 a 1983, e consultor pessoal do Secretario Geral da Organização da Comunidade do Caribe (CARICOM), Dr. Edwin Carrington, de 1966 a 2000. Foi assistente pessoal do professor Cheikh Anta Diop, diretor do Laboratório de Radiocarbono do Instituto Fundamental da África Negra, de 1975 a 1980, em Dakar, Senegal. 

(Para ler a entrevista na íntegra: 
www.gramaticadaira.blogspot.com / Nelson Maca - Blackitude.Ba)

Nelson Maca - Professor Carlos Moore, antes de tudo, é uma honra para nós entrevistar um homem de sua envergadura histórica e importância política. Um negro que, apesar de uma vida tão aguerrida, soube permanecer lúcido e incorruptível. Além do mais, simples e acessível aos que chegam. Professor, diz pra gente como o Senhor gosta de ser apresentado na intimidade e nos espaços das várias lutas que tem sido sua vida. 

Carlos Moore - Obrigado pelas considerações singelas. A auto-definição é sempre problemática, porque os humanos têm uma marcada tendência a se projetar de maneira exclusivamente positiva. Ora, a realidade não é sempre essa. Eu tenho cometido tantos erros na minha vida política e na minha vida pessoal, que para me definir completamente, implicaria a admissão desses erros. Eu me vejo como uma pessoa que teve de lutar muito para adquirir a identidade racial, a serenidade humana, que possuo hoje. Por isso, eu me auto-defino, fundamentalmente, como um crítico social, como um militante das causas sociais. Me sinto muito privilegiado, como militante, porque tive a honra de ter militado ao lado de homens e mulheres hoje considerados como ilustres: Malcolm X, Cheikh Anta Diop, Aimé Césaire, Maya Angelou, Stokely Carmichael, Lelia Gonzalez, Walterio Carbonell, Abdias Nascimento, Harold Cruse, Alex Haley, e tantos outros e outras. Todas essas figuras ocuparam um lugar importante no combate que, ao meu ver, constitui a maior das causas sociais que a humanidade tem sido obrigada a sustentar: o combate contra o ódio racial, contra a opressão racial, e contra as discriminações e vexames de todo tipo que são inerentes a esse fenômeno criado pela história das relações dos humanos entre si. Sinto orgulho de tê-los acompanhado nessa trajetória de combate por um mundo melhor para todos nós. 

Nelson Maca- O Senhor é conhecido, internacionalmente, como um dissidente do regime cubano de Fidel Castro, principalmente por questões que envolvem os conflitos raciais. O Senhor pode nos falar um pouco sobre sua percepção histórica desses conflitos, e como tem sido sua relação com os ativistas marxistas do movimento social negro que admiram profundamente a revolução cubana? 

Carlos Moore- Teria que escrever todo um livro para responder a isso, o que já fiz em Pichón: Race and Revolution in Castros’s Cuba (Raça e Revolução na Cuba castrista), que acaba de ser publicado nos Estados Unidos. A minha disputa com o regime Cubano foi violenta porque esse regime decidiu que ele não tinha por que discutir com um “bando de neguinhos equivocados”, como a liderança castrista nos qualificou. Eles pensaram que, como eles eram brancos, inteligentes, marxistas e antiimperialistas, nós, negros, só tínhamos que nos alinhar sob comando deles, e seguir as instruções políticas que eles nos davam. Ou seja, que deveríamos arriscar as nossas vidas no combate contra o inimigo imperialista, e, claro, trabalhar para edificar a nova sociedade socialista. Mas, como bons soldados negros marxistas, devíamos nos calar no que diz respeito aos problemas da sociedade cubana, sobre as grandes decisões políticas, e seguir as instruções dos nossos dirigentes super-inteligentes. Mas, nós que tínhamos outra idéia da Revolução, achamos que havia algo de errado nessa relação que nos propunha a liderança castrista – composta em mais de 95% por brancos provindos da alta burguesia e da classe media cubana. Pensávamos que havia que encarar a situação racial em Cuba como primeiro passo na construção do socialismo e da igualdade, mas essa liderança respondeu que em Cuba não havia racismo; que vivíamos numa “sociedade mestiça” onde todos os cubanos eram “mulatos”; que o socialismo estava “além da raça”, e que a única cor na Cuba revolucionaria era a “Cor Cubana”. Claro, compreendemos que se tratava da demagogia de sempre, a mesma que tinha sido usada durante todo o período republicano anterior, e que a liderança revolucionária tinha recuperado, para elaborar uma nova ideologia mentirosa baseada numa suposta “pos-racialidade socialista”. É por isso que o movimento negro Cubano daquele momento, ou seja, o período de 1959 até 1965, chocou-se, quase de imediato, com a nossa liderança revolucionária. Esta última estava composta por homens e mulheres que usufruíam de grande prestígio, dentro e fora do país, e que estava liderada por um dos grandes gênios políticos do século XX: o Fidel Castro Ruz. Sabíamos disso, mas também sabíamos que Fidel Castro Ruz não era Deus, e que mesmo se ele o fosse, ele estava cometendo uma barbaridade em relação à questão racial. Assim, todos aqueles que levantaram as suas vozes para alertar o regime revolucionário que ele estava levando Cuba por um caminho errado no que diz respeito à questão racial, fomos catalogados como “negros ingratos” e, finalmente, como “racistas negros” e “negros contra-revolucionários”. A partir daí, a impossibilidade de diálogo com o regime se tornou patente, e terminou em confronto. Como as forças em presença eram desiguais, pois eles tinham o poder do Estado e nós somente o poder das nossas idéias, nós fomos impiedosamente esmagados. Em resumo, isso foi o que aconteceu. Fidel Castro, Che Guevara e Raúl Castro tinham sido elevados ao estatuto de Deuses gregos. Ninguém que tivesse idéias diferentes aos deles tiveram o direito de ser ouvidos. Nós, dissidentes revolucionários negros, devíamos nos prostrar diante deles de maneira obsequiosa, submissa e covarde, ou ser esmagados. Então, fomos detidos, enviados para as cárceres abomináveis que o regime já tinha aberto, ou para os diferentes campos de trabalho forçado que já existiam no país, ou enviados para a destruição mental nos hospitais psiquiátricos. O mais célebre desses casos foi o do grande pensador Walterio Carbonell, demolido num manicômio. Cinqüenta anos tiveram de transcorrer para que o mundo começasse a se perguntar o qué é que estava ocorrendo em Cuba com a população negra majoritária? Foram cinqüenta anos de defesa do “paraíso pós-racial” cubano pela esquerda toda, branca ou negra. Inclusive, essa novela continua sendo de atualidade em praticamente toda a chamada América Latina - principalmente em países como o Brasil - onde a esquerda é de um infantilismo racista digno de estudo pelos psicanalistas. Eles pensam que os Cubanos negros não tem o direito de se opor a um regime que os oprime de um jeito similar à maneira em que os militares oprimiram aos brasileiros durante duas décadas. Não tão somente em América “Latina” mas no mundo inteiro, essa esquerda marxista tem problemas sérios quanto à analisar a questão racial, ou quanto a se relacionar com os negros, individualmente, ou como coletividade racial que tem um percurso histórico singular. 

Nelson Maca- Que outros textos e livros o Senhor já lançou no mercado internacional que podem nos auxiliar na compreensão do dilema racial brasileiro? 

Carlos Moore- Todos os meus trabalhos tratam de algum aspecto da questão racial, ou da luta emancipadora dos povos africanos ou da origem africana de todos os povos do planeta. O meu primeiro trabalho não foi propriamente um livro, mas um longo ensaio sobre a questão racial e a Revolução cubana. Ele foi publicado, em Paris, em 1965, pela revista Présence Africaine, sob o titulo: “Les Noirs-ont-ils leur place dans La Révolution Cubaine?” (Qual o lugar dos Negros na Revolução Cubana?). Foi esse documento que deflagrou a guerra aberta com o regime e que me valeu às acusações, pelo regime cubano e seus seguidores, de ser um “agente do imperialismo” e um “agente da CIA”. Ora, o meu primeiro livro sobre esses problemas só foi publicado em 1970: Were Marx and Engels Racists? (Marx e Engels eram racistas?). Foi a minha primeira análise teórica da questão racial sob a ótica do que os fundadores do marxismo tinham dito sobre a questão racial. Claro, esse trabalho foi condenado massivamente pelos marxistas e os esquerdistas porque a tese que sustentava essa obra se resumia à conclusão de que o marxismo carecia de bases teóricas para compreender o racismo e muito mais para resolvê-lo. O segundo livro, This Bitch of a Life (Esta Puta Vida), publicado em 1982, foi a biografia de Fela Kuti, o grande líder panafricanista e compositor nigeriano. Eu queria que a mensagem desse extraordinário líder e artista atingisse o resto do mundo. O terceiro livro, Castro, the Blacks and Africa (Castro, os Negros e a África), publicado em 1989, é a primeira análise profunda da questão racial em Cuba sob a Revolução. Nele, analisei impacto da situação racial interna sobre a política internacional de Cuba, especificamente voltada para o continente africano. O quarto livro, African Presence in the Americas (A Presença Africana nas Américas), publicado em 1995, e uma coletânea de textos, sendo um do fundador do movimento da Negritude, Aimé Césaire, falecido na Martinica em 2008. O quinto livro, From Comecon to Caricom (Do Comecom ao Caricom), é também uma coletânea de textos, publicado em 1999, analisando a situação de Cuba após a queda do mundo Comunista. O sexto e sétimo livros, Racismo & Sociedade e A África que Incomoda, foram publicados respectivamente em 2007 e 2008, no Brasil. Essas duas obras são as únicas que se encontram disponíveis em Português. O oitavo livro é Pichón; Race and Revolution in Castro’s Cuba (Pichón: Raça e Revolução na Cuba castrista), lançado nos Estados Unidos em novembro de 2008. Ele é parte de uma trilogia que narra os acontecimentos no mundo dos últimos 50 anos, na perspectiva de um militante negro. E, nestes momentos, estou terminando A última Fronteira do Ódio, que é uma análise histórica do racismo que prolonga e expande as reflexões iniciadas em Racismo & Sociedade. Acho que uma vez terminada essa última obra, mas aquelas duas outras que pertencem à trilogia iniciada com Pichón, vou dar uma paradinha. Ou seja, resumindo: ainda tenho três obras a terminar. Acho que após ter terminado essas três últimas obras, terei cumprido com a minha “missão” no sentido político e humano. 

Nelson Maca- Professor Carlos Moore, o Senhor conviveu, irmanadamente, com um dos artistas populares mais criativo e polêmico de toda a história: o nigeriano Fela Anikulapo Kuti. Desta convivência surgiu um livro de sua autoria chamado This Bith of Life (algo como Esta Puta Vida). Onze anos após sua morte, Fela Kuti vem sendo redescoberto em todos os continentes. É considerado, hoje, uma espécie de "Bob Marley" do Continente Negro. Na França e Inglaterra, está em alta, com direito, inclusive, a grandes exposições temáticas. Nos EUA, entre tantas ações, teve, no último dia 04 de setembro, a estréia de uma peça baseada no perfil do artista no Off Broadway Theater, a ante-sala da Broadway, para onde a peça seguirá com certeza. Sabe-se que, no mundo, apenas a partir da biografia de sua autoria, entre 15 e 20 trabalhos, principalmente em áudio-visual, vem representando a trajetória de Fela. De minha parte, penso que o seu livro, dentre outros, é vital para oxigenar a arte e o ativismo negro no Brasil, principalmente na cultura que participo mais pontualmente: o hip hop. Qual a real importância da história musical e política de Fela, o que significa para o Brasil conhecer mais a fundo sua experiência radical? 

Carlos Moore- Em uma palavra: não se pode realmente pretender ser culto, e muito menos culto nas questões do Mundo Negro, sem conhecer a obra e o pensamento de Fela Kuti. Fela foi um dos grandes ativistas e pensadores do panafricanismo no século XX. O que o distingue dos outros pensadores panafricanistas é que ele desenvolveu a luta panafricanista não no contexto da luta pela descolonização, mas dentro da problemática complexa e terrível que representa a sociedade africana pós-colonial; ou seja, uma sociedade controlada, oprimida e esmagada não diretamente pelas potências européias ou por regimes minoritários brancos, como na África do Sul ou na Rhodesia (atualmente o Zimbábue). O Fela teve de desenvolver o panafricanismo no contexto da opressão dos africanos pelas oligarquias e as elites africanas surgidas da independência do continente. Ninguém estava preparado para o que aconteceu após a independência: a chegada ao poder de oligarquias traidoras e assassinas que espertamente confiscaram o panafricanismo e o transformaram em uma ideologia de Estado, para servir os interesses bastardos das novas elites opressoras africanas. O Fela teve de repensar o panafricanismo tradicional e reformular as bases de um novo panafricanismo de luta pelos interesses dos povos africanos esmagados do continente e nas diásporas africanas. Ele foi um gigante e usou seu poder criativo, como músico, para propagar essa nova orientação ideológica do panafricanismo. É por isso que me juntei a ele e que estimei que havia que escrever um livro sobre sua vida. Eu queria que o mundo inteiro ouvisse a mensagem que carregava na sua musica maravilhosa e nos seus pronunciamentos. Esta Puta Vida irá ser traduzida e publicada, também no Brasil, o ano que vem. A partir daí, as pessoas se darão conta da grandeza do personagem, e de sua imensa contribuição ao Mundo Negro, ao mundo das artes e à musica em geral. Para países como o Brasil, com sua maioria negra, conhecer a obra de Fela é indispensável para o fortalecimento da consciência cultural. Além disso, a música de Fela é uma das coisas mais belas do mundo. É por isso que solicitei ao Gilberto Gil de se incumbir do prefácio de This Bitch of a Life, que será publicada nos Estados Unidos em abril de 2009. O Gil fez um lindo, profundo e comovedor prefácio - realmente. E, dentro de alguns meses, essa biografia de Fela Kuti, com o prefácio de Gil, também será publicado no Brasil, em português, pela editora Nandyala, de Minas Gerais. 

Nelson Maca- Como o senhor recebeu a notícia do falecimento de seu amigo e parceiro, o poeta e ativista Aimé Cesáire, fundador do Movimento da Negritude? Recentemente, foi publicado o Discurso sobre a Negritude a partir do registro de um colóquio que o Senhor organizou. Apesar do termo Negritude ser um estandarte entre os militantes do movimento social negro no Brasil, poucos conhecem a obra poética e filosófica de Césaire . Hoje, no Brasil, cresce de maneira vertiginosa um movimento literário que tenho chamado Literatura Divergente, mas que também tem recebido os rótulos de Literatura Marginal, Periférica, Maloqueirista, etc. O Senhor pode nos instruir um pouco sobre o poeta Césaire? Como o Senhor avalia a importância que teve a literatura no processo da Negritude e qual pode ser o potencial poético e político dos escritores que fazem este movimento que citei, oriundo dos bolsões de misérias e racismo do Brasil? 

Carlos Moore- Claro, foi um momento de tristeza para mim, como militante, mas também como alguém para quem o Césaire sempre foi como um pai. Césaire me ajudou na vida, ao longo de mais de quatro décadas e, junto com o Abdias Nascimento, foi um dos meus maiores amigos pessoais e aliados políticos. A obra de Aimé Césaire, como a obra de Cheikh Anta Diop, é fundamental para todos, brancos e negros, que se interessam realmente pela problemática racial. A Negritude foi o movimento mais revolucionário que tivemos até agora, na definição dos parâmetros da luta contra o racismo. Cada qual, nas condições que são as suas, tem adaptado a Negritude de Césaire às condições específicas do seu contexto. Por exemplo, a Negritude foi trazida para dentro do Brasil pelo Abdias Nascimento e outros que, nos anos trinta e quarenta, militavam com ele. Na África do Sul, foi Steve Biko quem adaptou a Negritude de Césaire às condições de lá, chamando-a “Consciência Negra”. E nos Estados Unidos foram os intelectuais da Harlem Rennaissance (Countee Cullen, Langston Hughes, Claude McCay), e, muito mais tarde, os militantes do Black Power (Poder Negro), que assumiram a bandeira da Negritude e que o sintetizaram nas palavras: Black is Beautiful! Na atualidade, a Negritude de Césaire está sendo reelaborada pelo movimento Hip-Hop mundial, e está atingindo os jovens do mundo inteiro, sejam negros ou não: todos aqueles que desejam uma mudança fundamental da sociedade na direção da cooperação solidária e o fim do racismo. O grande sucesso da Negritude de Aimé Césaire se encontra, justamente, nesse fato: se trata de uma visão que já alcançou todo o planeta, implicando-nos todos. A Negritude é de todos, para evolucionar como seres humanos, e para estabelecer sociedades justas. Mas o fato de Césaire ter sido um dos maiores poetas do século XX nos conduz a outra dimensão do problema do mundo negro, universo dominado de maneira marcante pela oralidade. O mundo da oralidade tem sido reduzido pelo Ocidente a um mundo de inferioridade, pois só a expressão escrita teria valor. As elites negras que assumiram o poder nos diferentes países africanos acreditaram nessa postulação racista e, conseguintemente, abandonaram as línguas africanas e as tradições de oralidade das nossas civilizações; eles privilegiaram as línguas européias estrangeiras e as tradições da escrita, elevando estes a uma posição de hegemonia total. Césaire compreendeu que se tratava de uma decisão trágica que condenava os povos africanos a uma situação de inferioridade de fato diante do mundo ocidental dominante. Ele reagiu, e inventou a Negritude, que nasceu de um gesto poético. A poesia é o modo fundamental por meio do qual uma sociedade que privilegia a comunicação oral para transmitir seus fundamentos éticos, filosóficos e morais, se perpetua organicamente. É isso que o Césaire tinha compreendido, bem antes que qualquer outro: que a nossa tradição de oralidade, desde os tempos do Egito faraônico até os dias de hoje, não deveria ser desestimada nem abandonada. Césaire viu que a poesia desempenha, nas nossas sociedades, um papel orgânico fundamental, na medida em que ela nos permite fundir as diferentes dimensões e aspectos da verdade social: a informação, a formação, a transmissão dos valores morais, e a expressão dos sentimentos: de amor, de amizade, de revolta, de ira, de generosidade, de perdão, de solidariedade. Devemos aproveitar as vantagens da escrita, pois ela ajuda a preservar a memória histórica e é um instrumento maravilhoso para a transmissão do conhecimento tecnológico, mas sem abandonar a oralidade, pois esta é, em ultima instância, o modo de comunicação entre humanos que nos obriga a entrar em contato com o nosso próximo da maneira mais imediata que seja: a fala. A poesia nos permite nos enraizar no humano através de uma capacidade que nenhum outro animal tem: a capacidade de falar. Ou seja, que, para as sociedades e civilizações africanas – o chamado Mundo Negro - a poesia é um modo orgânico de comunicação privilegiado para reinventar a sociedade. Acho que é por isso que a tradição Hip-Hop/Rap tem tido um impacto tão revolucionário no mundo, pois ele chega ao povo diretamente, de boca a orelha, através da expressão poética ligada à música.

* Para ler a entrevista na íntegra: 

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