quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Encontro e os desencontros de Salvador

O Encontro Íbero-Americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes realizado em Salvador de 16 a 19 deste mês de novembro - e encerrado com a Declaração, assinada pelos chefes de Estado presentes, incluindo a Presidente Dilma Rousseff - foi a própria expressão de como a agenda do movimento negro brasileiro foi capturada pelo oficialismo chapa branca...

...que nada tem a propor senão resoluções - que não sairão do papel - e Declarações retóricas apenas para justificar o dinheiro gasto na promoção de tais eventos.

Esvaziado, sem a presença dos 14 chefes de Estado anunciados nos releases distribuídos pela SEPPIR e pelo Governo da Bahia (apenas quatro compareceram e nenhum de países importantes do mundo íbero americano, com excessão do Brasil), suas resoluções já tem um destino: serão citadas nas mesas dos próximos encontros, sem nenhuma eficácia nem resultado concreto.

Alguém saberá responder no que resultaram as resoluções e decisões disputadas por diferentes correntes do movimento negro nas duas Conferências Nacionais da Igualdade Racial?

A única resposta honesta é simples: em nada. O pior é que em tais conferências, em tais encontros, diferentes facções do movimento negro - boa parte deles submetidos a agenda dos partidos no poder - se engalfinham em debates estéreis que a nada levam e que só explicitam que a disputa real não é por posições políticas nem expressam diferenças ideológicas para dar algum norte ou direção a um movimento sem rumo, que se pauta por uma agenda defasada em pelo menos 30 anos, mas são, na verdade, apenas e tão somente o que aparentam: shows de egos inflados.

Nada têm a propor, inclusive, porque tais posições partem de grupos que fazem parte do Governo Federal, do qual participam e apóiam sem nenhum poder ou influência.

O orçamento da SEPPIR para o ano de 2012, para se ter uma idéia, não passa de míseros R$ 31 milhões de reais, o que é menos do que uma migalha para uma Secretaria encarregada, em tese, de transversalizar as políticas públicas de interesse da metade da população do país, que é negra.

Não se pense que a submissão ao oficialismo chapa branca só se dá no plano federal. Nos Estados, como S. Paulo - que tem a maior população negra do país em números absolutos - os tucanos há 16 anos no Poder, não tem política alguma e seu orçamento para os órgãos encarregados de as implementar - se houvessem - é zero.

Seus dirigentes vivem a mendigar dos Secretários a quem estão subordinados, um recursozinho aqui ou acolá para promover eventos que nada mais são do que uma fórmula gasta - e desgastada - de aparentar algum compromisso.

No caso do Encontro de Salvador, que terminou com uma declaração óbvia e redundante da Presidente Dilma Rousseff, de que a pobreza no Brasil é negra e atinge mais pesadamente as mulherees (coisa que até os queros-queros que infestam a Esplanada sabem) ficaram evidentes duas coisas: primeiro que seus organizadores - no caso o Governo federal, por intermédio da SEPPIR, MRE e Governo da Bahia - armaram um teatro para mostrar a participação da “sociedade civil”, representada por entidades e suas lideranças.

O segundo aspecto é ainda mais desanimador: ficou evidente também que lideranças expressivas e tidas como referências do movimento negro brasileiro como Edna Rolland e Sueli Carneiro, apenas para ficar nas mais ilustres, absorveram o discurso oficial e se renderam ao discurso de gestoras, muito distante, por óbvio, do discurso de lideranças da sociedade civil não atreladas ao Estado nem ao oficialismo.

A distância fica evidente com a comparação do tom das intervenções de Epsys Campbell, a liderança negra da Costa Rica mais destacada, e dos representantes brasileiros. Não há necessidade de doutorado em lingüística, nem ser expert em análise de discursos para a constatação óbvia.

Enquanto os representantes latino-americanos falam do seu lugar - de um movimento social ativo, vivo, que tem demandas históricas represadas, que espera há séculos e cobra há séculos dos Estados respostas a essas demandas, os representantes brasileiros se limitam - estejam nos partidos ou na Academia - a fazer o discurso do gestor público, a falar como representantes do Estado, o que é revelador de onde chegamos.

O discurso desses representantes foi esvaziado de radicalidade, até mesmo na forma, para não falar na ausência total e completa de conteúdo, repleto de remissões a Declarações de Conferências como a de Durban (cujos resultados permanecem no papel), seguidas de Declarações de Santiago, seguidas de outras tantas acrescentadas de + 10, + 20 ou o número de anos que tenham se passado sem o cumprimento de uma virgula do que foi pactuado por Estados e Governos.

Diante do oficialismo reinante, a atitude do Coletivo de Entidades Negras da Bahia ao denunciar o aparelhamento do Encontro por parte da ministra Luíza Bairros e de sua equipe de gestores, foi a nota dissonante no oficialismo reinante.

Mesmo porque, admita-se, a atitude de vetar a presença de Mãe Lúcia de Oxum, como representante de uma Comissão de lideranças negras escolhidas para participar do momento solene com os chefes de Estado - foi a evidência, para quem ainda tinha dúvidas, de que a participação da sociedade civil era só um rótulo para legitimar decisões há muito tomadas e também de há muito conhecidas pela procedência e pelos resultados, ou seja: zero.

O chocante e, ainda assim, a definitiva evidência da postura chapa branca, foi a reação dos que participaram das tais articulações para o fulminante veto a Mãe Lúcia, precedidas de reuniões frenéticas nos bastidores do Centro de Convenções da Bahia. O silêncio, neste caso como em outros, tem um nome: cumplicidade.

São Paulo, 27/11/2011

Dojival Vieira
Jornalista Responsável
Registro MtB: 12.884 - Proc. DRT 37.685/81
Email: dojivalvieira@hotmail.com; abcsemracismo@hotmail.com

Equipe de Redação:
Dojival Vieira, Dolores Medeiros, Julia Medeiros e Gabriel Silveira

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