quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pela vida e liberdade religiosa, caminhamos!


O Coletivo de Entidades Negras (CEN) realiza neste 20 de novembro de 2011 a VII Caminhada Pela Vida e Liberdade Religiosa em Salvador, Bahia. Saindo do Busto de Mãe Runhó e encerrando no Dique do Tororó, pelo sétimo ano consecutivo o CEN consolida um modelo de luta onde, agregar as tradições religiosas de matrizes africanas é palavra de ordem. A partir da Caminhada Pela Vida e Liberdade Religiosa vários estados desenvolveram modelos semelhantes e hoje, podemos afirmar que as caminhadas são realidades inspiradas num modelo de sucesso instituído pelo CEN a partir do ano de 2005.

Nestes sete últimos anos vimos a temática religiosa de matriz africana se tornar o eixo central da ação político-institucionais do CEN e, consequentemente se tornar pauta de atuação das várias organizações do Movimento Negro que, até dez anos atrás tratavam a questão religiosa como algo menor. Através de sua intervenção o CEN deu, ao tema da religiosidade a devida importância no momento em que tirou dos espaços religiosos a discussão sobre a intolerância e a trouxe para os espaços políticos de discussão da temática étnico-racial. Assim, o CEN construiu ações de impacto, como a campanha "Quem é de Axé diz que é", que buscou resgatar a auto-estima dos praticantes de religiões afro-brasileiras para assim se classificarem perante o Censo de 2010; lançou, articulou e construiu as bases para a formaçao do Forum Nacional das Religiões de Matrizes Africanas; formulou e articulou a Frente Parlamentar em Defesa das Comunidades Tradicionais de Terreiro; valorizou o dia 21 de Janeiro, como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa; apoiou a publicação do Mapa da Intolerância Religiosa e, recentemente, entrou de cabeça nas discussões em torno do sacrifício de animais, lançando a campanha "Não Toquem em Nossos Terreiros", visando formar uma linha de frente em defesa da religiosidade de matriz africana, diante dos ataques permanentes que estas tradições religiosas vêem sofrendo. 

O Coletivo de Entidades Negras, como organização nacional do Movimento Negro presente em 18 estados da Federação, configura-se hoje como a principal entidade do país a atuar no campo da defesa da liberdade religiosa e do direito de culto no Brasil. Através de suas coordenações locais e de ações específicas o CEN vem, a cada dia, colocando demandas essenciais diante da lógica vigente hoje onde, o que se vê, é uma ocupação cada vez mais constante dos espaços políticos, econômicos, culturais e sociais pelas ditas igrejas evangélico-pentecostais que têm, como alvo principal em sua lógica de dominação, os praticantes das religiões afro-brasileiras.

O CEN entende que estamos vivenciando um processo no país onde uma ditadura religiosa de viés evangélico-pentecostal já não é mais uma possibilidade, mas algo que vem se concretizando a passos largos. Segundo a agência de notícias Adnews, a partir do próximo ano a Rede TV terá um Reality Gospel e a Rede Globo de Televisão produzirá um festival de músicas gospel. Ao promover tais eventos, as emissoras de TV estão claramente dando o recado que se dobraram ao poderio econômico e de convencimento que este setor (evangélico-pentecostal) têm hoje perante a sociedade brasileira. Na verdade, de maneira às vezes silenciosa, e de outras de forma bem transparente, as igrejas vêem se colocando não só como alternativa possível no campo da fé, mas também no campo da moral e da ética, trazendo para a política, a economia e a cultura novos olhares e perspectivas onde, efetivamente, os setores pensantes da sociedade brasileira ainda não entenderam como assimilar e/ou reagir a estes novos modelos.

Diante de tudo isso, a maioria silenciosa que enche as praias no fim do ano e em fevereiro para dar presentes a Yemonjá; que visita casas de Candomblé, centros de Umbanda e Tendas Espíritas; que usa branco na sexta-feira, derrama uma bebida para "o santo", mas não assume sua identidade religiosa, torna-se o principal alvo desta grande engrenagem que ora se move em direção à tomada do poder real em nosso país. Verdade é que, mais que nós mesmos, os setores evangélico-pentecostais, reconhecem a força que temos, e nos anulam a partir de nossas próprias debilidades, gerando entre nós desconfianças, divisões e, mais que tudo, nos atacando com leis e fechando a nós todos os espaços possíveis.

Ter a plena clareza deste cenário é essencial para compreender que estamos diante de um grande dilema pois não é mais possível, às tradições religiosas de matrizes africanas, se ensimesmarem em seus terreiros e acreditarem que ali estarão a salvo do que está por vir. Na verdade, essencialmente precisamos mudar a correlação de forças. Precisamos fazer com que os veículos de comunicação percebam isso e se conscientizem que, ao comprarem o pacote "gospel", estão, na verdade fortalecendo uma máquina que no futuro se voltará contra eles mesmos uma vez que o projeto evangélico-pentecostal pressupõe a imposição se valores próprios e altamente intolerantes.

O Coletivo de Entidades Negras, a partir desta visão vem agindo, vem promovendo suas atividades e vem estabelecendo diálogos cada vez mais importantes no sentido de deixar nítida não só a nossa posição institucional, mas, também, buscando diálogos com setores evangélico-pentecostais, quando algumas das lideranças, e são raras, as que acreditam na necessidade do fortalecimento no diálogo inter-religioso.

Depois, de nada adiantará chorar o leite derramado, quando virmos daqui dez, quinze, vinte anos, o Brasil tornar-se um país fundamentalista com viés religioso pentecostal, pois é sobre isso que há sete anos o CEN vem alertando a partir da Caminhada Pela Vida e Liberdade Religiosa.


Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador Geral do Coletivo de Entidades Negras

Marcos Rezende
Coordenador do CEN/BA
 

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