sábado, 19 de novembro de 2011

Posição do CEN sobre a reunião com os chefes de estado - AfroXXI


Indignação, revolta, tristeza, sensação de impotência foram alguns dos sentimentos que se apossaram de nós, membros do Coletivo de Entidades Negras no transcorrer do curto processo de organização e realização do Encontro Ibero-Americano do Ano Internacional dos Afro-Descendentes – Afro XXI, em Salvador, Bahia, em novembro de 2011.

Como membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o CEN foi informado, dois meses atrás da realização do encontro e, numa reunião muito mal conduzida deste conselho foi tirada uma comissão da sociedade civil para organizar o evento. A verdade dos fatos é que, desde o inicio a Seppir se apoderou do evento como se fosse dela e a comissão não teve condições efetivas de construir um bom processo, tanto na discussão dos critérios com relação à participação, quanto da organização real do encontro que, em vários momentos beirou a um amadorismo que há muito não se via no campo dos movimentos sociais.

Desde nossa chegada ao evento - como coordenação geral do Coletivo de Entidades Negras - fomos informados da necessidade de se tirar cinco nomes da sociedade civil para um almoço com os chefes de estado e, desde o primeiro momento o assédio, em torno de nós era para garantir a participação das maiores organizações nacionais. Estabelecemos, desde então um constante diálogo com as organizações que compreendemos nossas parceiras e, mesmo havendo alguns desgastes, se compreendeu que o importante, no caso em questão, era firmar uma posição forte no campo da religiosidade de matriz africana, pois, tradicionalmente, sobre esta temática muito se fala mas poucos são os espaços reais de representação das mesmas.

Houve uma reunião das entidades nacionais envolvidas no evento e destas, cinco foram votadas para participar da reunião com os chefes-de-estado. A proposta que foi derrotada nesta reunião, estabelecia a votação por representações setoriais (garantindo-se, assim, a representação da juventude, da religiosidade, das mulheres, dos movimentos lgbts e das organizações tradicionais do MN, retirando-se aí,  uma de cada campo de atuação política). Com a derrota desta proposta encaminhou-se um processo de votação onde cada entidade nacional votava em si mesma e em mais quatro. Por este critério surpreendentemente o CEN apareceu como a segunda entidade mais votada, sendo a primeira os Agentes de Pastorais Negros, Unegro e Conen em terceiro e quarto, respectivamente e por último, numa votação pelo desempate acabou entrando o Intecab. 

Nossa imediata percepção foi de que teríamos problemas uma vez que as representações institucionais seriam feitas por quatro homens e apenas uma mulher, além disso, percebemos que a única entidade que poderia usar de algum manejo para tentar amplificar o arco de representação era o próprio Coletivo de Entidades Negras. Sendo assim, encaminhei consulta à coordenação nacional do CEN e à Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e ambos concordamos que, por ser Mãe Lúcia de Oxum, integrante da Rede e também compor o CEN no estado da Paraíba, que este seria um caminho interessante para ampliar o arco de representação e equilibrar um pouco mais a disparidade de gênero. Aprovamos a ação e a demos por encerrada no momento em que encaminhamos à coordenação do encontro a informação sobre a troca de nomes. No transcorrer do dia fomos informalmente informados que a troca poderia não acontecer e a noite veio a confirmação oficial que a Presidência da República não aceitaria a troca por todos os argumentos do mundo, nenhum deles político. Ou seja, no ano do afro-descendente, no primeiro 20 de novembro da Presidente Dilma, em um encontro na Bahia, a Presidência da República e seus órgãos afins não tiveram a capacidade de compreender o quão delicado seria barrar uma mulher, nordestina, sacerdotisa do Candomblé e integrante de duas grandes organizações nacionais que lidam com o tema. Sendo assim, ao fim da noite, concordamos, Mãe Lúcia e eu, que ambos não iríamos mais à reunião com os chefes-de estado, marcando assim nosso total descontentamento  com o desrespeito à vontade soberana da sociedade civil e a imposiçao de regras arbitrárias e autoritarias que preferem desprivilegiar a política podendo, até mesmo se transformar em grande constrangimento para a Presidente da República.

Consideramos que a má condução e o aparelhamento do encontro Ibero-Americano pela Seppir foi um grave erro estratégico desde o seu início. A notável inabilidade que a atual equipe da Seppir tem em reconhecer e dialogar com as organizações do Movimento Negro, têm nos levado a uma lógica autofágica onde, as disputas políticas maiores por espaços políticos menores têm se tornado a tônica de eventos como estes e da relação cotidiana com a Seppir.

Entendemos que, ao promover um evento com os chefes de estado em que as organizações nacionais assistirão a reunião por um telão e apenas cinco a assistirão in loco, mas mesmo assim sem direito a fala ou mesmo a possibilidade de entregar um documento às autoridades, a Seppir cometeu o grave erro de avaliação de estimular uma luta fatricida entre as organizações nacionais para levar a absolutamente nada.

Nesta perspectiva tornamos público nosso desagrado, entendendo que a cada dia se esgotam quaisquer possibilidades de diálogos com uma equipe que se apresenta surda e indiferente a qualquer relação mais profunda com as organizações do movimento social negro. 

Estes acontecimentos são a face visível de uma relação que se encontra bastante desgastada  e que, lamentavelmente entendemos cada vez mais a importância estratégica da Seppir, como órgão de governo, e cada vez menos que a equipe atual tenha o devido traquejo político para estar a frente de tal órgão.

Acreditamos ser absolutamente necessária uma grande reunião nacional do Movimento Negro Brasileiro para avaliar o quadro atual e apresentar alternativas à Presidência da República no sentido de que a problemática étnico-racial no Brasil não pode e nem deve estar restrita apenas a um ou outro órgão, mas precisa ser vista como um todo onde a sociedade brasileira avance na superação das desigualdades provocadas pela discriminação e pelo racismo.


Atenciosamente,

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Marcio Alexandre M. Gualberto 
Coordenador Geral do Coletivo de Entidades Negras - CEN/www.cenbrasil.org.br
Membro Titular do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial/SEPPIR
Editor do Palavra Sinistra & Colunista do Afropress

Telefones:
            (22) 2664-1213      
MSN: marciodexango@hotmail.com

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