sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Rocinha, que passas?

Estamos vivenciando no Rio de Janeiro o que muitos estão denominando de momento histórico de retomada de território. Gostaria de propor, para reflexão, uma questão bastante deleuzeana, norteadora do presente texto, “Rocinha, que passas?”

Tenho estado frequentemente na Rocinha, tanto para o lazer com minha família (filhos, mãe e irmã) e com os amigos de infância – todos moradores – quanto para pesquisa, na qual realizo diálogos com as professoras de creches da localidade.

A partir desses encontros, pude perceber, após dar ouvidos aos muitos sons que ecoam na favela, que alguns fatos locais parecem coadunar com acontecimentos mais amplos, situados fora da singularidade do local. Por exemplo, ouvimos dizer que as lojas “Casas Bahia” e “Ricardo Eletro” tiveram que pagar uma quantia muito grande para poderem se instalar na Rocinha.

O que esse fato tem a ver com a “pacificação e/ou tomada de território”? E mais, o que tem a ver com o contexto mais amplo da economia e da política do Estado?

Estamos vivendo um momento não só histórico, mas ambivalente. A retirada do território não atingirá somente aos bandidos na medida em que a favela for repartida entre empresários. As “legalizações” tendem a construir uma outra conjuntura não só política e econômica, mas, fundamentalmente, simbólica.

Vimos que durante as operações, muitas empresas de turismos não adiaram suas visitas, pois estas já estavam previstas e previamente pagas por seus clientes, em pacotes de viagens que desconhecemos as cláusulas contratuais. Enquanto isso, minha família e meus amigos não podiam sair de casa para não correrem o risco de terem as portas arrombadas, conforme avisado pelas autoridades, caso não houvesse ninguém em casa.

É interessante lembrar que, concomitante à euforia da “vitória” do Estado pela “pacificação da Rocinha”, presenciamos um outro fato que, no mínimo, provoca uma ambiguidade: a saída forçada do país, sob ameaça de morte, do deputado Marcelo Freixo, após o mesmo Estado que toma territórios não lhe garantir a devida proteção.

Em entrevista a uma emissora de televisão, o Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, ao ser questionado várias vezes acerca do por que as favelas com milícias não estarem na rota de enfrentamento da segurança pública, ele justificou dizendo que o Batan foi pacificado.

Ora, sabemos que a participação da favela citada não tem nenhuma expressividade no que tange às articulações políticas, econômicas e bélicas que possam causar grandes impactos à conjuntura do Estado, quiçá do país.

Esses “sinais” evidenciam que estamos diante de um processo de desterritorialização concomitante a um processo de “re-territorialização” da Rocinha, em prol do segmento empresarial. Por isso, reporto-me à poesia do grupo “O Rappa”: “essa é a paz que eu não quero seguir admitindo.”

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