sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Exu é o Diabo!


Ademar Oliveira Cirne Filho[1]




1. A construção do Mito

O Texto Bíblico do Livro de Ezequiel, no capítulo 28 v 12 a 19 mostra que Satanás era um anjo que se rebelou, posto que queria estar acima de Deus. Em razão disso, o mesmo foi expulso do Éden.

Esta passagem bíblica demonstra o quanto o cristianismo explora a existência do bem e do mal, numa visão maniqueísta, atribuindo todo bem a Deus e todo mal ao demônio, lúcifer, diabo, satanás, ou qualquer outra nomenclatura criada para caracterizar tal entidade.

A referida divisão do mundo entre o bem e o mal, tão difundida há tempos, encontra-se presente também nas mais singelas concepções defendidas pela Igreja Católica. Como exemplo, podemos citar a visão maniqueísta presente na própria concepção da relação sexual. Expliquemos: para os católicos tal prática possui uma única finalidade, a procriação. Desta forma, toda manifestação sexual que não tem este objetivo é interpretada como um dos sete pecados capitais, a luxúria (apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia) passível de condenação ao inferno, espaço eterno de sofrimento, comandado pelo mal, tendo o demônio como o seu comandante e sedutor de almas.


No caso específico do Brasil, tal concepção maniqueísta surgiu no momento da chegada dos colonizadores europeus, de tradição eminentemente cristã, que enxergavam os povos africanos como seres animalescos, e desprovidos de alma. Deste modo, sua cultura, costumes e religiosidade não recebiam nenhum tipo de respeito, atenção ou reconhecimento dos brancos. Ao contrário, as resistentes manifestações religiosas eram vistas como inferiores, negativas, desprovidas de razão, atitude típica da visão eurocêntrica e etnocêntrica dos conquistadores.

O processo de escravização dos negros em nosso país, resultado da grande diáspora africana, e a maior aproximação dos brancos com as manifestações religiosas afrobrasleiras, fez com que os colonizadores identificassem nestas práticas ancestrais a dualidade cristã do bem e do mal, sem jamais perceber que na cosmologia das religiões dos orixás, em verdade, esta relação inexiste, visto que estes seres representam os elementos da natureza (fogo, chuva, vento, água, etc.) e trazem em seus comportamentos um equilíbrio entre as forças do bem e do mal.

Como não podia deixar de ser, a visão dualista do bem e do mal defendida pela teologia cristã tenta encontrar uma representação na religião de matriz africana. O ser representante do mal absoluto, equivalente, desta forma, ao satanás, é nesta visão o Exu, uma entidade do panteon afrobrasileiro que é apresentado com um grande falo ereto, em tamanho desproporcional, como marca do poder e da fertilidade. Em verdade, este ser, é sensual, astucioso, provocador, esperto, ousado, matreiro, ou seja, apresenta como os demais orixás emoções e sentimentos tais como os seres humanos, sem, contudo, ser um representante da oposição absoluta do bem.

Ignorando a real representatividade da figura e da personalidade de Exu para o Candomblé, os cristãos, desrespeitosamente, elegeram Exu como o demônio das religiões de matrizes africanas, para inclusive reforçar o discurso de que o Candomblé era um ritual demoníaco, uma vez que Exu era reverenciado antes de qualquer outro orixá, em todos os rituais.

Para o Candomblé, entretanto, o bem e o mal fazem parte de um único sistema, onde todas as forças, mesmo antagônicas são equivalentes, complementares e interagem, sendo, portanto dado ao ser humano o livre arbítrio e a responsabilidade de optar pelo caminho a seguir.

2.  Exu no Candomblé

Na visão do Candomblé, o Exu é o fiscalizador do axé, do comportamento humano, das coisas que são feitas no candomblé, recebe as oferendas em primeiro lugar, a fim de exercer suas função de mensageiro e assegurar que tudo ocorrera bem, e quando, raramente, se manifesta os outros orixás são retirados do barracão, ficando apenas seu irmão Ogum. Neste diapasão, salutar são as palavras de Liana Trindade. Senão vejamos.


“O Orixá exu é a expressão de um simbolismo, cuja o sentido encontra-se tanto na estrutura imaginária dos fieis, quanto na estrutura da vida real. É apresentado simbolicamente como o transgressor, no qual expressa as incertezas humanas frente ao debate com os limites do tempo, com as condições sociais estabelecidas, afirmando sua liberdade frente às imposições. Logo o orixá exu permite a possibilidade de autodeterminação, de quebra das interdições sociais que limitam a sua liberdade ao lhe dar o acesso ao mágico de melhorar sua sorte” [2]


Cada modalidade de religião afro brasileira busca ao seu modo oferecer um tratamento específico ao orixá exu devido a sua importância na construção de uma nova realidade na vida dos fieis.

Exu é caminho, é comunicação, é vida, é luz e o guardião da nossa casa, é quem abre os caminhos, o primeiro a receber as oferendas para livrar os homens do mal.

Assim sendo nenhuma relação pode ser feita entre exu e o diabo porque, inclusive, o candomblé não cultua diabo e sim orixás (forças da natureza) presente cotidianamente na nossa vida, dando paz, luz, prosperidade, alegria, fartura, justiça, igualdade educação e axé.

 "Laroiê Exu!"






[1] Ogan do Terreiro Ilê Axé Oxumaré licenciado em História pela Universidade Federal da Bahia; Pós Graduado em História do Brasil pela Pontífice Universidade Católica de Minas Gerais; Educador do CEN (Coletivo de Entidades Negras).
[2] TRINDADE, Liana. Exu, poder e perigo. São Paulo: Icone, 1985. Apud: LIMA, Fábio. As quartas-feiras de Xangô: ritual e cotidiano. João Pessoa: Grafset, 2010. p. 138

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