Ademar Oliveira Cirne Filho[1]
1. A construção do Mito
O Texto Bíblico
do Livro de Ezequiel, no capítulo 28 v 12 a 19 mostra que Satanás era um anjo
que se rebelou, posto que queria estar acima de Deus. Em razão disso, o mesmo
foi expulso do Éden.
Esta passagem
bíblica demonstra o quanto o cristianismo explora a existência do bem e do mal,
numa visão maniqueísta, atribuindo todo bem a Deus e todo mal ao demônio, lúcifer,
diabo, satanás, ou qualquer outra nomenclatura criada para caracterizar tal
entidade.
A referida
divisão do mundo entre o bem e o mal, tão difundida há tempos, encontra-se
presente também nas mais singelas concepções defendidas pela Igreja Católica.
Como exemplo, podemos citar a visão maniqueísta presente na própria concepção
da relação sexual. Expliquemos: para os católicos tal prática possui uma única
finalidade, a procriação. Desta forma, toda manifestação sexual que não tem
este objetivo é interpretada como um dos sete pecados capitais, a luxúria (apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à
sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia) passível
de condenação ao inferno, espaço eterno de sofrimento, comandado pelo mal,
tendo o demônio como o seu comandante e sedutor de almas.
No caso específico
do Brasil, tal concepção maniqueísta surgiu no momento da chegada dos
colonizadores europeus, de tradição eminentemente cristã, que enxergavam os
povos africanos como seres animalescos, e desprovidos de alma. Deste modo, sua
cultura, costumes e religiosidade não recebiam nenhum tipo de respeito, atenção
ou reconhecimento dos brancos. Ao contrário, as resistentes manifestações
religiosas eram vistas como inferiores, negativas, desprovidas de razão,
atitude típica da visão eurocêntrica e etnocêntrica dos conquistadores.
O processo de
escravização dos negros em nosso país, resultado da grande diáspora africana, e
a maior aproximação dos brancos com as manifestações religiosas afrobrasleiras,
fez com que os colonizadores identificassem nestas práticas ancestrais a
dualidade cristã do bem e do mal, sem jamais perceber que na cosmologia das
religiões dos orixás, em verdade, esta relação inexiste, visto que estes seres
representam os elementos da natureza (fogo, chuva, vento, água, etc.) e trazem
em seus comportamentos um equilíbrio entre as forças do bem e do mal.
Como não podia
deixar de ser, a visão dualista do bem e do mal defendida pela teologia cristã
tenta encontrar uma representação na religião de matriz africana. O ser
representante do mal absoluto, equivalente, desta forma, ao satanás, é nesta
visão o Exu, uma entidade do panteon afrobrasileiro que é apresentado com um
grande falo ereto, em tamanho desproporcional, como marca do poder e da
fertilidade. Em verdade, este ser, é sensual, astucioso, provocador, esperto,
ousado, matreiro, ou seja, apresenta como os demais orixás emoções e
sentimentos tais como os seres humanos, sem, contudo, ser um representante da
oposição absoluta do bem.
Ignorando a real
representatividade da figura e da personalidade de Exu para o Candomblé, os
cristãos, desrespeitosamente, elegeram Exu como o demônio das religiões de
matrizes africanas, para inclusive reforçar o discurso de que o Candomblé era um
ritual demoníaco, uma vez que Exu era reverenciado antes de qualquer outro
orixá, em todos os rituais.
Para o
Candomblé, entretanto, o bem e o mal fazem parte de um único sistema, onde
todas as forças, mesmo antagônicas são equivalentes, complementares e
interagem, sendo, portanto dado ao ser humano o livre arbítrio e a responsabilidade
de optar pelo caminho a seguir.
2. Exu no
Candomblé
Na visão do
Candomblé, o Exu é o fiscalizador do axé, do comportamento humano, das coisas
que são feitas no candomblé, recebe as oferendas em primeiro lugar, a fim de
exercer suas função de mensageiro e assegurar que tudo ocorrera bem, e quando, raramente,
se manifesta os outros orixás são retirados do barracão, ficando apenas seu
irmão Ogum. Neste diapasão, salutar são as palavras de Liana Trindade. Senão vejamos.
“O Orixá exu é a expressão de um
simbolismo, cuja o sentido encontra-se tanto na estrutura imaginária dos fieis,
quanto na estrutura da vida real. É apresentado simbolicamente como o
transgressor, no qual expressa as incertezas humanas frente ao debate com os
limites do tempo, com as condições sociais estabelecidas, afirmando sua
liberdade frente às imposições. Logo o orixá exu permite a possibilidade de
autodeterminação, de quebra das interdições sociais que limitam a sua liberdade
ao lhe dar o acesso ao mágico de melhorar sua sorte” [2]
Cada modalidade
de religião afro brasileira busca ao seu modo oferecer um tratamento específico
ao orixá exu devido a sua importância na construção de uma nova realidade na
vida dos fieis.
Exu é caminho, é
comunicação, é vida, é luz e o guardião da nossa casa, é quem abre os caminhos,
o primeiro a receber as oferendas para livrar os homens do mal.
Assim sendo
nenhuma relação pode ser feita entre exu e o diabo porque, inclusive, o
candomblé não cultua diabo e sim orixás (forças da natureza) presente
cotidianamente na nossa vida, dando paz, luz, prosperidade, alegria, fartura,
justiça, igualdade educação e axé.
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[1] Ogan do
Terreiro Ilê Axé Oxumaré licenciado em História pela Universidade Federal da
Bahia; Pós Graduado em História do Brasil pela Pontífice Universidade Católica
de Minas Gerais; Educador do CEN (Coletivo de Entidades Negras).
[2] TRINDADE,
Liana. Exu, poder e perigo. São Paulo: Icone, 1985. Apud: LIMA, Fábio. As
quartas-feiras de Xangô: ritual e cotidiano. João Pessoa: Grafset, 2010. p. 138
23:45
Y.Valentim
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