terça-feira, 1 de maio de 2012

Alice Walker vai muito além de A Cor Púrpura


A escritora e ativista norte-americana Alice Walker, autora de A Cor Púrpura, entrou no Auditório Nelson Rodrigues, do Pavilhão da 1º Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília (DF), sob aplausos de um público que ficou de pé para recebê-la. “Eu não sou escritora porque fiz faculdade. Sou escritora porque tenho coração”, declarou ao público presente. Confira entrevista concedida antes do evento.





Alice Walker durante a Bienal em Brasília / Foto: Junior Aragão/divulgação

A escritora de fala pausada, calma e contundente, foi recebida por um público predominantemente feminino na Bienal de Brasília, onde lançou "Rompendo o Silêncio – Uma Poeta Diante do Horror em Ruanda, no Congo Oriental e na Palestina/Israel (Bertrand Brasil)".

Sua obra mais conhecida, A Cor Púrpura, é referência na luta contra o racismo, o machismo, o patriarcado nos Estados Unidos e no mundo. A obra lhe rendeu prêmios importantes, como o Pulitzer e o National Book Award, e foi adaptada por Steven Spielberg para o cinema – o filme foi indicado a 11 Oscars e ficou sem nenhum, frustração que só ampliou sua ressonância.

Em todo o mundo, ela é conhecida como a autora negra, nascida em 1944, no sul dos Estados Unidos, que venceu a pobreza com bolsas de estudo, livro sobre racismo e superação. Em sua trajetória há mais de três dezenas de livros de ficção, poesia e ensaios publicados, além da criação de uma editora militante, a Wild Trees Press, e uma atuação por vezes ruidosa pelos direitos civis – chegou a ser presa, mas logo solta, por protestar contra a atuação estadunidense na Faixa de Gaza, em 2003.

“Nada, entre prêmios e fama, é mais importante do que o que sinto e quero dizer em defesa das minorias em todo o mundo”, explicou à Revista Cult, por telefone.

No livro que veio lançar, há fatos históricos e depoimentos para contar como sobrevivem habitantes de regiões da África e do Oriente Médio, que visitou entre 2006 e 2009. Durante o evento de lançamento, abordou um dos temas que lhe são mais caros: o narrador e o personagem afro-americanos como parte da consciência histórica.

Durante o evento, o público se surpreendeu com seu testemunho. Como quando testemunhou o discurso de Martin Luther King, imortalizado e profusamente difundido sob o título I have a dream.

“Eu estava lá em 1963, na marcha de Washington, sentada em cima de uma árvore, para ouvir este discurso que foi muito utilizado, mas que foi muito mais complexo do que se divulga”, disse. E declarou que partiu de Luther King o conselho que mudaria sua vida: “Ele nos disse, a todos que éramos do sul, para voltar a nossa casa e mudar o estado das coisas por lá. E foi o que fizemos”.

Também foi possível conhecer seu lado irreverente quando Alice descreveu sua surpresa ao saber da intenção de Steven Spielberg de filmar A Cor Púrpura.

“Talvez eu fosse a única pessoa nos Estados Unidos que não sabia quem era Spielberg. Então, minha filha me levou pra ver ET e eu gostei muito. Por isso, e por saber que o Quincy Jones estava fazendo a trilha, resolvi fazer”, recordou.

Cult: O que mudou desde a década de 1960, quando iniciou sua trajetória como eloquente ativista em defesa dos direitos de negros e mulheres?
Alice Walker: Quando eu era estudante, os negros ainda lutavam para ter direito a voto no sul dos Estados Unidos. Sem dúvida houve avanço no que se refere à igualdade de negros e mulheres, porém é uma condição que só se alcança à medida que se tem dinheiro e educação. Para quem é pobre e não teve como estudar, a situação ainda é muito ruim. Em todo o mundo.

Cult: Nos Estados Unidos também?
AW: Sim, as pessoas já se deram conta do quanto os Estados Unidos conseguem ser tão pouco democráticos. O movimento Occupy Wall Street é uma reação a esse quadro de desigualdade, é uma mobilização por reformas.

Cult: A senhora faz parte dos americanos que se decepcionaram com o governo Obama?
AW: Foi um desastre. Veja como ele reagiu à crise do país e às guerras lá fora! O que fez o governo? Aumentou os impostos. Mas em vez de usar dinheiro para saúde e educação, reabilitou bancos e investiu em guerras. Os banqueiros, que eram responsáveis pela crise, são agora também parte do corpo administrativo do país.

No Afeganistão, a situação continua sem se resolver, o que não é difícil de entender, dada a posição estratégica numa região com tanto petróleo. Isso não só é desmoralizante para os EUA como põe o país em grande risco.

Cult: Rompendo o Silêncio é o resultado de visitas que fez para testemunhar situações de pobreza, dor, opressão e desespero em regiões da África e do Oriente Médio. Acredita no poder de uma obra para provocar mobilização?
AW: Fiz o livro em um formato curto, rápido de ler, para que funcionasse quase como panfleto. A maioria das pessoas não vê o que eu vi. Fui testemunha de situações de vida que costumam estar fora das lentes da grande mídia e, principalmente, dos governos.

Acho importante que se saiba o que está acontecendo, como a violência e o sofrimento se apresentam em todas as partes. Sobretudo é preciso que entendam como as coisas chegaram até onde chegaram.

Cult: A senhora se refere ao processo histórico que levou grandes impérios a colonizar regiões da África e do Oriente Médio e, como diz no livro, tornou inimigos grupos que antes conviviam pacificamente, como é o caso de hutus e tutsis em Ruanda?
AW: A história é a mesma sempre, não? No Brasil também houve a experiência da colonização. Era preciso roubar sua riqueza e fazê-los trabalhar.

O que não se percebe é como isso continua a acontecer. Não é possível libertar-se de situações de opressão se você não sabe qual é sua história, se não entende por que está nisso, se não reconhece como os opressores são mais fortes do que você porque têm não apenas mais armas, mas mais crueldade também.

Cult: Em 2003, a senhora chegou a ser presa por protestar na Casa Branca contra a atuação americana em Gaza. Pode contar sobre essa experiência? Além de sua prisão, o protesto levou a alguma reação do governo?
AW: O que posso dizer da experiência? É a experiência de ser presa. Estávamos eu e um grupo de mulheres. Fiz o que podia fazer, que é protestar. Mas o governo não se importou. Basicamente nos ignoraram. Na semana seguinte, realizaram outra investida bélica.

Cult: A certa altura do livro, a senhora conta que diante de tantas cenas de dor e desespero foi preciso buscar conforto nas religiões orientais. Como funcionou essa conexão com a espiritualidade?
AW: Era crucial ter esse tipo de ajuda. Faz tempo que estudo o taoísmo e o budismo. Não sou praticante, mas acredito que ajudam a nos fortalecer e, principalmente, a nos dar coragem para evitar a imobilização, para agir. As adversidades são tantas e tão pungentes que é quase impossível se manter ativo sem alguma conexão espiritual, sobretudo crianças e mulheres, que são particularmente vulneráveis.

Cult: A senhora mantém um blog bastante ativo. Como usa esse espaço para ter notícias e divulgá-las?
AW: É um blog mais artístico que ativista. Publico ali relatos do que vejo, a maioria sob a forma de poemas.

Cult: Tem notícias das pessoas que encontrou e que cita no livro?
AW: De algumas, ainda tenho, sim. Não é muito fácil para elas ter acesso a meios de comunicação, como a internet, por exemplo.

Fonte: Revista Cult e Bienal do Livro de Brasília

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