terça-feira, 5 de junho de 2012

Racismo, este des-conhecido


Por Márcia Moraes de Oliveira
Há anos comecei a militar pela questão racial simplesmente por ter sofrido racismo. Talvez, naquele dia, eu entendi o que era o racismo declarado e demonstrado em direção a um grupo. Em outras ocasiões, talvez, eu tivesse achado que tinha atacado somente a mim quanto indivíduo.
Quando um professor me constrangeu em sala de aula há quase oito anos, dentro de uma universidade pública, foi o primeiro passo para entender que a luta racial é coletiva. Primeiro, trata-se de uma luta. Segundo, trata-se de uma luta pela promoção da igualdade racial. Sim, estamos cansados de saber que raça biologicamente não existe. Porém, socialmente, raça existe.
Muitas vezes já escutei o conselho: «finja que não existe preconceito». Digamos que quem é negro sabe que é assim que se deve pensar para não surtar. Sim, muitos surtam. Sim, muitos surtavam na época da escravidão quando se viam com (tinham) o direito a vida roubado. Sim, muitas mulheres negras surtavam quando se viam afastadas de seus filhos, de seus maridos.
Por falar em escravidão, fala-se muito dela como um crime contra a humanidade, porém, são poucos os estudos que tratam as heranças do escravismo brasileiro neste Brasil atual [é bom lembrar que somente agora o Estado brasileiro começou a "reparar" os crimes causados durante a ditadura militar, pedindo desculpas formais e "indenizando economicamente"...]. Fácil é falar de racismo. Difícil é assumir, tanto como negro ou não-negro, as heranças desta (maldita) escravidão.
Como entender a ascensão de negros que não possuem a competência técnica ou política em cargos de confiança? Como entender a necessidade de acadêmicos não-negros tentarem tutelar os estudos acadêmicos negr@s? Como entender a invisibilidade das mulheres negras em postos de decisão? Como entender que a juventude negra continua sendo uma carne barata e descartável?
Se pensarmos em cada ponto encontramos herança do nosso período escravocrata. Os jagunços que não eram brancos, mas também não se consideravam negros, sempre se juntaram com a forma superior de poder desprezando o que seria subalterno. As nossas relações baseadas onde «cada um sabe o seu lugar», dos apadrinhamentos. Será que ninguém nunca pensou no termo «amadrinhamento», por exemplo? Quem quer ser tutelado por uma mulher branca se há possibilidade de um padrinho branco? Hoje, jovens negros vindos de lares “desestruturados materialmente” (dá-se a impressão que as mulheres negras dão luz aos filhos sozinhas como na época das senzalas…), ou estruturados emocionalmente por mães guerreiras (quantos relatos escutamos de jovens que agradecem o apoio e todo o esforço maternal? Do jogador de futebol ao recém-formado cotista ou pelo pro-uni, as mães possuem papeis estratégicos).
São as mesmas mulheres que na época da escravidão corriam risco pelos filhos. As mulheres que trançavam os cabelos para esconder o ouro e as sementes para levar para os quilombos. Estas mesmas mulheres que são invisibilizadas hoje.
Por que a mulher negra incomoda tanto? Ela não possui, como aliados, o homem e a mulher brancos e, em grande parte das vezes, nem o homem negro se alia. De onde vem esta herança? Pouco se fala da história de Anastácia, onde as mulheres da casa grande, com inveja da beleza dela, se calaram e incentivaram as punições até a sua morte. Quantas jovens negras se veem isoladas em situação de conflito?
Por outro lado, como isolar esta (maldita) herança das instituições que formam o Estado-Nação brasileiro? Se ficarmos atentos ao discurso formal e politicamente correto sobre os negros, os indígenas, as mulheres e outras (ditas) minorias como dignos do título de cidadãos. Porém, quantos/as de nós ficamos pouco convencidos/as quando depois do discurso aquele/a representante do Governo, da instituição qualquer, não nos oferece nem um cartão de visitas, ou nem sequer se apresenta, ignorando sua presença no espaço…
Sem esquecer que, como no período da escravidão, quem trai é recompensado. Vejamos o caso da ascensão dentro de partidos políticos, do Governo, ou de negros/as que não estão realmente defendo a causa negra. Quantos bons/boas ativistas foram isolados/as e enfraquecidos/as? A máxima do indivíduo negro que trai outro negro, que fugia antes do cativeiro, era promovido e ganhava a liberdade é sempre valida? Ainda presente neste nosso contexto? Digamos que não se trata de mera semelhança com o exercito legionário de certas «potencias mundiais»…
Ao longo deste texto, fui escrevendo negros/as, escravidão, expressando o que há de naturalizado no discurso sobre os/as negros/as brasileiros/as: a naturalização da escravidão. A escravidão aparece como se fosse um mero período histórico. Mero período onde se matou mais do que a Ditadura no Brasil e no Holocausto. Não quero aqui diminuir dores, mas falo de proporção. Os herdeiros da escravidão não se formaram no exterior, não puderam viver em círculos de elites políticas e, hoje, não podem dar visibilidade tão merecida a este período da história.
Comissão da verdade e de Justiça? Nós, negros/as (ou afrodescendentes por conveniência histórica), também queremos. Porém, essa justiça pra ser de verdade precisa suprir/reparar os danos causados, ao invés de continuar injustiçando. Queremos entender quando o racismo institucional bate a nossa porta, no nosso espelho, no nosso cotidiano, nos bloqueando de ascender socialmente como qualquer outro/a.
O outro, o malvado da história, pode encontrar-se dentro do seu próprio país quando o status de cidadão é negado, mesmo simbolicamente.
Digamos que: fica aqui uma confissão de alguém que, apesar dos diplomas, tem que explicar aos brancos brasileiros o quanto este pais é racista. Digamos que eu não me sinta mais na obrigação «pedagógica» de explicar a certos amigos/as o quanto eles são privilegiados/as na hierarquia social por possuírem uma melanina e um fenótipo diferenciado do meu.
Digamos que fica a confissão de alguém que não quer mais ver negros/as disputando migalhas em cargos governamentais enquanto o Brasil está investindo pesado na Africa (com a chegada de empresários brancos brasileiros), enquanto se deveria lutar para ocupar cargos estratégicos (como Ministérios: da Saúde, da Justiça, de Minas e Energia etc).
Eu me pergunto que se realmente o Diabo (aquele que divide) não fez bem o seu trabalho, pois ele soube separar povos pela sua melanina, pelo seu fenótipo. Ele soube também dividir pessoas do mesmo fenótipo e melanina. Hoje, não é mais a cruz e a espada. Hoje, é ignorância e a ganância. A ignorância dos que não conhecem a história do Brasil. A ganância daqueles que esquecem desta causa coletiva, e que quando se chega a um certo cargo é para o benefício de todos/as aqueles/as que se representam.
Então, faço a fala de um amigo: por que quando se é com brancos não se exige tanto? A pergunta pode ser provocativa, porém, a resposta pode ser muito mais: a nossa maldita herança diz que quando se é «superior» não precisa provar nada. Ja se é «naturalmente». Naturalmente, ocupando cargos de chefia. Naturalmente, ganhando e vivendo melhor que a maioria, como na época da escravidão.
Ignorar o racismo e a herança escravocrata no Brasil, é manter des-conhecimento da história deste dito Estado-Nação chamado Brasil.
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*Bimestranda em Ciência Política ( pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina – Universidade Paris 3 Sorbonne-Nouvelle) e Geopolítica (pelo Institudo Francês de Geopolítica – Universidade Paris 8, Saint-Denis-Vincennes) e presidente da Associação Afros Mundos
http://www.geledes.org.br/em-debate/colunistas/14458-racismo-este-des-conhecido

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