sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Espaço sagrado destruído em 2008 voltou a funcionar


Em março de 2008, uma situação parecida virou polêmica em Salvador. O terreiro Oyá Onipó Neto, liderado pela  ialorixá Rosalice do Amor Divino, conhecida como mãe Rosa, foi parcialmente destruído pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município  (Sucom). A justificativa foi que o terreiro era uma ocupação irregular. Em 2010, o terreiro começou a ser reconstruído e funciona normalmente.
Para a coordenadora do Fórum Estadual de Religiões de Matrizes Africanas, Lindinalva de Paula, a disputa territorial no terreno onde funciona o terreiro Ilê Axé Ayrá Izô é mais um caso de intolerância religiosa. "Os proprietários não estão levando em conta que ali é um local sagrado, de culto religioso", disse. Para a coordenadora, o problema reflete a situação de vários outros terreiros de candomblé da Bahia que sofrem com a falta de regularização fundiária.
"É comum observarmos terreiros que foram construídos por meio de doações ou em terrenos comprados sem documentação. Em alguns casos, são apenas com recibos que, hoje, não são válidos".
Patrimônio - Em nota, o deputado federal Valmir Assunção (PT-BA) afirmou que é necessário encontrar uma solução para que o problema não se repita. "Quem conhece a cultura afrorreligiosa sabe que existe  um processo de natureza espiritual na formação de um terreiro de candomblé, onde se misturam práticas religiosas, ancestralidades e trabalhos sociais", afirmou. Trata-se, como as próprias manifestações de religiões de matrizes africanas, de patrimônios imateriais", completou o deputado.
Fonte: 
http://atarde.uol.com.br/bahia/materias/1470439-espaco-sagrado-destruido-em-2008-voltou-a-funcionar

Justiça manda desocupar área onde está terreiro de candomblé


  • Despejo do templo religioso está programado para acontecer na próxima segunda
O  terreiro de candomblé Ilê Axé Ayrá Izô, localizado no bairro de Campinas de Brotas, poderá ser desativado na próxima segunda-feira, dia 3 . Isso por conta de uma ação judicial que envolve a disputa pelo terreno de 878 metros quadrados  que abriga o templo religioso. O terreno pertencia ao já falecido Ângelo Gagliano e, segundo relato da comunidade, foi doado verbalmente. A doação teria sido em retribuição a graças alcançadas por Gagliano através do caboclo Mina de Ouro, cultuado no espaço.  Os herdeiros de Gagliano foram à Justiça para recuperar a posse.
A ação, que não especifica que o terreno abriga um terreiro, tramita há dez anos. Os herdeiros de Ângelo Gagliano alegam, na ação, que a  doação não tem caráter legal, pois não há documentos oficiais que deixem  comprovada a concessão do espaço. A reportagem de A TARDE tentou, na noite desta sexta-feira, contato com os herdeiros mas não obteve retorno. Foram feitas seguidas ligações telefônicas, sem sucesso.
Despejo - A ordem de despejo foi recebida pelo advogado do terreiro,  Paulo Asper, na última segunda-feira e não cabe mais recurso.  De acordo com o babalorixá do  Ilê Axé Ayrá Izo, Franklin Santos, representantes da comunidade religiosa já tentaram firmar um acordo com os herdeiros de Gagliano desde o início da disputa judicial, mas não tiveram sucesso. "Judicialmente, já não há mais o que fazer, mas o que esse terreno abriga não são apenas  blocos de concreto. É a cultura religiosa de uma comunidade", afirmou.
Mobilização - Por conta da ação judicial, integrantes  do Coletivo de Entidades Negras (CEN), realizaram, na manhã de ontem, uma manifestação  para tentar chamar a atenção sobre o problema. Ainda ontem, a ação foi encaminhada ao Ministério Público Estadual da Bahia (MP-BA). De acordo com informações da assessoria de comunicação do órgão, o promotor de Justiça e coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate à Discriminação, Cícero Ornellas, está analisando os documentos e só terá um parecer a partir da próxima semana. O caso também está sendo acompanhado pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi).
De acordo com o secretário Elias Sampaio, o órgão está articulando, com outras instituições, a melhor forma de oferecer  apoio ao terreiro. "Trata-se de um espaço religioso e cultural tradicional. Nenhuma ordem judicial justifica o despejo. Nosso papel é tentar intervir da melhor maneira possível", disse.
Por meio de nota, o  presidente da Comissão de Promoção da Igualdade da Assembleia Legislativa da Bahia, deputado estadual Bira Corôa (PT-BA),  informou que vai oficializar, em caráter de urgência, o pedido de  tombamento provisório do terreiro. "Queremos envolver os órgãos responsáveis e discutir a situação", diz trecho da nota.
Fonte: http://atarde.uol.com.br/materias/1470438

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Negro no Brasil: Brilho e Invisibilidade!

Para ministra da Igualdade Racial, posse de Barbosa é simbolo de novo Brasil


Mariana Jungmann - Agência Brasil*
Brasília – A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, considerou a posse do ministro Joaquim Barbosa como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) um momento simbólico.
Para Luiza Bairros, o fato de um negro assumir o posto de comando da mais alta Corte do país não deve ser considerado o mais importante, mas é símbolo de um novo Brasil. “Não é o que deve ser ressaltado em primeiro lugar, mas, sem dúvida, o simbolismo deste momento, para um país que se reconheceu como racista há tão pouco tempo, não pode ser negado”, afirmou a ministra.
Ainda na opinião dela, a posse de Joaquim Barbosa mostra que o Brasil vem se abrindo para a diversidade. “Para a possibilidade de realização de talentos em qualquer classe social, qualquer grupo racial, foi nesse sentido que trabalhamos ao longo das últimas décadas no Brasil”, afirmou.
Assim como a ministra, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, disse que está otimista quanto aos próximos anos com Barbosa à frente do Supremo. “A minha expectativa é igual à da sociedade brasileira, de otimismo”, disse ao chegar para a cerimônia, na qual falará em nome dos advogados do país.
Um grupo de artistas, a maioria deles negros, também compareceu à posse. O sambista Martinho da Vila celebrou a chegada de Barbosa à presidência do STF e, cantando, disse que trata-se de um sonho realizado.
Joaquim Barbosa comandará a Corte pelos próximos dois anos. Também tomou posse, como vice-presidente do STF, o ministro Ricardo Lewandowski. A cerimônia foi presidida pelo decano do Supremo, ministro Celso de Mello.
*Edição: Denise Griesinger
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http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-11-22/para-ministra-da-igualdade-racial-posse-de-barbosa-e-simbolo-de-novo-brasil

Religiosos de Matriz Africana marcham contra intolerância neste domingo (25)

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Religiosos de Matriz Africana marcham
contra intolerância neste domingo (25)

A partir das 9h deste domingo (25), adeptos do Candomblé e da Umbanda de Salvador, municípios da Região Metropolitana e Recôncavo sairão do final de linha do Engenho Velho da Federação (Busto Mãe Runhó) em direção ao Dique do Tororó na 8ª Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa, pedindo o fim da intolerância e do desrespeito a ambas religiões e de agressões a seus adeptos.

A Caminhada, que é realizada há oito anos pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN) e que esse ano contará com o apoio do Fórum de Religiosos de Matriz Africana (FERMA), integra as comemorações pelo Dia Nacional da Consciência Negra e, de acordo com organizadores, deve reunir em torno de dois mil participantes.

Intolerância - De acordo com o Censo Demográfico divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Candomblé e a Umbanda – religiões de matriz africana – estão na quarta posição entre as mais populares. Na Bahia, 47.069 pessoas são praticantes destas crenças. “Os dados nos contentam, mas estamos assistindo a um recrudescimento da agenda social brasileira a partir da forte reação da direita religiosa representada pelos setores evangélico-pentecostais que, ao disporem de recursos financeiros e espaços nos meios de comunicação, vêm a cada dia, ocupando mais e mais espaços, espalhando o discurso de demonização das religiões de matriz africana, transformando o Brasil num país intolerante à diversidade religiosa, cultural e racial. Vamos às ruas todos os anos para lembrar que sabemos do nosso direito ao culto dos nossos ancestrais e que vamos lutar, marchar e gritar por ele”, afirma Marcos Rezende, coordenador do Coletivo de Entidades Negras.

SERVIÇO:
O quê: 8ª Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa e ato lúdico no Dique do Tororó
Quem: Coletivo de Entidades Negras (CEN) e Fórum de Religiosos de Matriz Africana (FERMA)
Onde: Final de linha do Engenho Velho da Federação (Busto Mãe Runhó) ao Dique do Tororó
Quando: 25 de novembro (domingo), a partir das 9h
Contato/entrevistas:
Marcos Rezende, coordenador do Coletivo de Entidades Negras: (71) 8813-9905/9225-9992/96599093

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Você é noss@ convidad@"

Dia 25 de Novembro temos um encontro marcado!

Ações de combate ao racismo e promoção da igualdade racial têm baixa execução orçamentária, diz Inesc


Luciano Nascimento, Repórter da Agência Brasil
Brasília – O Instituto de Estudo Socioeconômicos (Inesc) constatou que as ações voltadas para o combate ao racismo e a promoção da igualdade racial previstas no Orçamento de 2012 e alocadas em diferentes ministérios têm baixa execução.
Estudo do instituto revelou que, do total de R$ 1,9 bilhão previsto apenas R$ 182 milhões foram executados até 31 de outubro, ou seja, apenas 9,44% do total autorizado. De acordo com o estudo, um dos principais fatores para a baixa execução orçamentária foi o contingenciamento de recursos orçamentários feito pelo pelo Ministério da Fazenda.
O documento intitulado Orçamento das Políticas Federais de Promoção da Igualdade Racial e Combate aoRacismo: Baixa Prioridade e Execução diz que “o racismo se expressa no microcosmo das relações interpessoais diárias, fazendo com que a população negra tenha maiores dificuldades de acessar bens e serviços públicos, o mercado de trabalho e de gozar plenamente dos direitos civis, sociais e econômicos”.
O estudo destaca que algumas dessas ações não receberam qualquer recurso. É o caso de duas ações sob a responsabilidade dos ministérios da Saúde, do Desenvolvimento Agrário, da Educação e da Secretaria de Promoção de Políticas para Mulheres.
As comunidade quilombolas deveriam ser beneficiadas uma ação voltada para a promoção da saúde, no valor de R$ 1,2 milhão, sob responsabilidade do Ministério da Saúde e outra, a cargo do Ministério do Desenvolvimento Agrário, com foco na assistência técnica e extensão rural, no valor de R$ 4,2 milhões. Até o início de novembro, nenhum real havia sido desembolsado para a execução dos projetos.
O documento do Inesc mostra também que o Ministério da Educação deveria ter desembolsado R$ 22 milhões para ações de integração da comunidade no espaço escolar, promoção da saúde na escola e combate à violência, à discriminação e à vulnerabilidade social. Mas até agora nada foi executado.
Na mesma situação se encontram as ações alocadas na Secretaria de Políticas para Mulheres. Nada foi executado dos R$ 2,9 milhões destinados à capacitação de profissionais para o enfrentamento da violência contra as mulheres, que apresenta um recorte racial, diz o documento do Inesc.
No caso das ações previstas no Ministério da Cultura, na Secretaria de Direitos Humanos e no Ministério das Relações Exteriores receberam menos de 5% do previsto no Orçamento.
O estudo diz que “do total de R$ 20 milhões destinados a diversas ações de promoção da cultura afrobrasileira (sob responsabilidade do Ministério da Cultura), apenas 8,2% foram executados até o momento”.
Na Secretaria dos Direitos Humanos, “do total de R$ 4,9 milhões autorizados para o apoio a serviços de atendimento e proteção jurídico?social de crianças e adolescentes com direitos violados, ameaçados ou restritos, que tem como um dos enfoques a discriminação racial, apenas 2,2% foram executados”, revela o documento.
A única ação afirmativa empreendida no Itamaraty de concessão de bolsas de estudo a candidatos afrodescendentes à carreira diplomática, teve apenas 3% do valor total executado.
A Secretaria de Promoção de Políticas para a Igualdade Racial desembolsou apenas 4,6%, do total dos R$ 14 milhões autorizados para o apoio de iniciativas de promoção da igualdade racial.
Edição: Tereza Barbosa
http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-11-20/acoes-de-combate-ao-racismo-e-promocao-da-igualdade-racial-tem-baixa-execucao-orcamentaria-diz-inesc

Bahia tem quatro decretos de interesse social de quilombolas assinados em Semana da Consciência Negra


A Bahia avança na regularização fundiária de territórios quilombolas e tem decretos de interesse social assinados pela presidenta da república, Dilma Rousseff, nesta quarta-feira (21). A iniciativa beneficia 244 famílias que aguardam com ansiedade a assinatura dos documentos. Elas vivem em quatro territórios que somam 17,6 mil hectares.
Trata-se dos territórios quilombolas de Olhos D´água do Basílio, onde residem 73 famílias, e Agreste, com 67 famílias de remanescentes de quilombos, ambos situados no município de Seabra (na Chapada Diamantina). Também serão beneficiados os territórios quilombolas de Sambaíba, onde vivem 67 famílias, e Mata do Sapé, moradia de 36 famílias remanescentes de quilombos, ambos localizados no município de Macaúbas (na Bacia do Paramirim). Os quatro territórios são formados por propriedades particulares e terras devolutas do estado baiano.
Com a assinatura dos quatro decretos, o estado completa dez territórios quilombolas decretados de interesse social pela presidência da república, nos últimos quatro anos. Em 2009, foram os quilombolas de Jatobá, Lagoa do Peixe e Nova Batalhinha. Já os territórios de Parateca Pau´Darco, Salamina Putumuju e Dandá tiveram decretos de interesse social publicados em 2010.
Titulação
O superintendente regional do Incra/BA, Marcos Nery, explica que só com os decretos de interesse social podem ser iniciada a fase de arrecadação das terras públicas e avaliação das propriedades particulares inseridas nesses territórios. Nery conta que já estão ajuizadas ações de desapropriação de imóveis rurais inseridos nos territórios quilombola de Jatobá e Nova Batalhinha.“Aguardamos apenas a imissão na posse para dar início a fase de titulação dessas comunidades”, conta.
Já os quilombolas de Dandá, Salamina Putumuju, Lagoa do Peixe e Parateca Pau D´Arco estão em fase final de avaliação dos imóveis rurais inseridos dentro desses territórios.
Parateca Pau D´Arco é um dos maiores territórios quilombola do país. O Incra/BA detectou uma área com 36,8 mil hectares onde vivem 630 famílias de remanescentes de quilombos. Além de terras públicas, o território engloba mais de 20 propriedades rurais e 60 posseiros, informa o analista de reforma agrária do Incra/BA, Itamar Vieira Junior.
Relatórios
A superintendência regional da Bahia soma 20 Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTIDs) publicados e mais dez outros relatórios em andamento, iniciados em 2012, nas regiões do Baixo Sul, Litoral Sul e Recôncavo. De acordo com o chefe do Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas, Flávio Assiz, há a expectativa de mais cinco relatórios antropológicos serem iniciados ainda esse ano, no Oeste e no Velho Chico.
O RTID é a fase mais complexa para a titulação de um território quilombola. O conjunto de documentos engloba o relatório antropológico das comunidades, documentação que aborda a história da comunidade, considera a ancestralidade, a tradição e a organização socioeconômica dos remanescentes de quilombos. Ele ainda identifica e delimita o território.
Em números
Somam-se 135 processos abertos para a regularização fundiária de territórios quilombolas na Bahia. Dessa fatia, 29 processos foram abertos em 2012. Além de que as novas áreas estão situadas em outras regiões do estado que o Incra/BA ainda não havia atuado em regularização fundiária de territórios quilombolas, como é o caso dos municípios de João Dourado, Monte Santo e Ibititá.
http://www.incra.gov.br/index.php/noticias-sala-de-imprensa/noticias/12455-bahia-tem-quatro-decretos-de-interesse-social-de-quilombolas-assinados-em-semana-da-consciencia-negra

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Adeptos do Candomblé fazem Alvorada dos Ojás e assinam Convênio para o Livro Mulheres de Axé no Dia Consciência negra



Na manhã desta terça-feira, dia da Consciência Negra, militantes em favor da liberdade religiosa e adeptos dos cultos de matriz africana usaram a cor de Oxalá não apenas nos trajes. Vestiram todo o Dique, com os tecidos brancos utilizados nos rituais de candomblé, os ojás.
O objetivo é exigir respeito e combater a intolerância religiosa, além de pedir paz e vida para todas as pessoas da cidade do Salvador. As 4h da madrugada as árvores começarão a ser amarradas com os Ojás, e as 08 da manhã será assinado o Convênio com a SMP para a confecção do livro Mulheres de Axé, no próprio Dique, próximo ao estacionamento e aos restaurantes locais.
O livro contará a história de 150 importantes mulheres de Axé de Salvador, da região metropolitana e do recôncavo Baiano.
O grupo realizará um ato litúrgico no local.  "Vamos fazer um pedido aos nossos ancestrais, de força para resistir e lutar pela liberdade de religião, deixando nossas energias neste local sagrado", explicou o coordenador estadual do CEN, e filho de santo do Ilê Axé Oxumarê, o Ogan Marcos Rezende.
O ato contará com a presença da Secretária de Política para Mulheres, Dra. Verá Lucia Barbosa, com representante da Secretária de Promoção da Igualdade Racial, com o Deputado Federal Valmir Assunção, o Deputado Bira Coroa, além da presença de inúmeras autoridades religiosas.
A Alvorada dos Ojás também marca o lançamento da oitava Caminhada Pela Vida e Liberdade Religiosa, que será realizada dia 25 de novembro, saindo do busto de Mãe Runhô, no Engenho Velho da Federação, até o Dique do Tororó.

CEN Brasil Comunicação 





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Casa de Santo (Maragogipe)

‘Mia Couto: Impedir periferia de ter pensamento próprio é racismo’


O escritor moçambicano Mia Couto disse, em São Paulo, que impedir a população mais pobre de pensar por si mesma é uma prática racista. “Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, dançarino. Mas, poeta? No sentido que o poeta não produz só uma arte, mas pensamento. Isso acho que é o grande racismo, a grande maneira de excluir o outro. É dizer: o outro pode produzir o que quiser, até o bonito. Mas, pensamento próprio, isso não”.
O escritor, que já recebeu diversos prêmios, como o da União Latina de Literaturas Românicas, visitou em 7 de setembro o sarau da Cooperifa. O evento é realizado toda quarta-feira no Bar do Zé Batidão, na região do Jardim Ângela, zona sul paulistana. Nessas reuniões, que ocorrem há 11 anos, crianças, adolescentes e adultos se revezam ao microfone para recitar poesia.
“É uma coisa nova que me acontece no Brasil, estar em um lugar como este”, disse ao começar o bate-papo com a plateia que lotou a laje do bar para ouvi-lo. Couto já esteve no país em várias ocasiões, mas só na noite de ontem satisfez a vontade de conhecer a periferia de uma grande cidade.
“Faltava-me essa experiência”, ressaltou. “Eu queria visitar a periferia de uma cidade brasileira pela mão de amigos, pela mão de gente da periferia”, acrescentou o autor que também se sente procedente de um lugar periférico.“Sou filho de portugueses que migraram nos anos 1950 para uma pequena cidade. Moçambique já é uma periferia. Eu sou da periferia da periferia, porque é uma cidade pequena”.
Resistência
A identificação com a periferia da zona sul de São Paulo também está, segundo Couto, na resistência à condição de invisibilidade. Para ele, os moçambicanos têm buscado força para dizer: “queremos permanecer, queremos ser parte do mundo, queremos ser parte de um universo que não é sempre periferia”.
Na visão do autor, o processo é semelhante ao que ocorre com o projeto da Cooperifa que, além de fomentar a criação literária, busca formar público para a cultura produzida na região. “Eu vi aqui um pensamento que está muito vivo e que está contaminando, fazendo acontecer coisas”, destacou o escritor que admite ser fortemente influenciado pela cultura brasileira.
“Vocês não podem imaginar a importância de pessoas como Jorge Amado, por exemplo, nessa vontade de dizer: afinal, podemos falar dos nossos próprios assuntos. Afinal, o negro e o mulato podem ser personagens. Afinal, as nossas coisas têm valor”, disse, ao comentar como a literatura brasileira ajudou na formação das gerações das décadas de 1950 e 1960 em seu país.
Música 
Não só os autores brasileiros ajudaram na formação de Mia Couto, mas músicos como Chico Buarque e Caetano Veloso. “Sempre se pensa que um autor literário é influenciado por outros. E, às vezes, não é só. Eu fui muito tocado pela música brasileira”. Ele lembrou que tem um leque muito amplo de influências musicais, incluindo o sambista paulista Adoniran Barbosa.
Como morava em uma antiga casa colonial, contou que na juventude havia pressão para a demolição desse tipo de imóvel e a construção de edifícios mais modernos. “Lá em casa havia esse medo, que não era pronunciado, de que viesse qualquer coisa que nos levasse a isso. E essa canção do Adoniran Barbosa [Saudosa Maloca] era uma espécie de hino. Porque aquela demolição não era só de um edifício, era a demolição de um passado, de um lugar onde fomos felizes”.
África e Brasil
Couto destacou que também encontra a África fortemente enraizada na alma dos brasileiros. “O brasileiro tem uma alma mestiça e conseguiu essa mestiçagem naquilo que era mais difícil, no componente religioso. As religiões africanas conseguiram se infiltrar nesse meio mais íntimo, naquilo que é mais fundo da nossa alma.
Mia Couto estudou medicina, formou-se em biologia, mas adotou o jornalismo depois da queda da ditadura em Portugal, em 1975, e engajou-se na guerra de libertação de Moçambique. É um dos autores do Hino Nacional moçambicano, adotado em 2002. Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, de 1992, foi considerado um dos 12 melhores livros africanos do século 20 por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbábue.
Fonte: EBC e TV Cultura
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http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=29&id_noticia=198806.

Dia Nacional da Consciência Negra pede mais reflexão sobre o racismo


A afrodescendente Aparecida, 47 anos, integrante da primeira geração da família amazonense Ribeiro Costa, cresceu aprendendo a viver com o preconceito e lutando contra o racismo
Manaus - Matriarca da família, Florência Ribeiro da Costa, 88, nasceu em Manaus e passou toda sua infância no bairro São Raimundo. Era filha de cearense, casou-se com um amazonense, também negro, mas filho de pais do Maranhão. “Tive 24 filhos, oito estão vivos, 12 netos e cinco bisnetos. Nasci e me criei no bairro São Raimundo. O meu marido era da Avenida Boulevard. Sou daqui mesmo”, contou.
A família Ribeiro Costa foi escolhida pelo Portal D24AM para homenagear os negros do Amazonas no Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado na próxima terça-feira (20).
Moradora há mais de 30 anos do bairro São Geraldo, zona centro-sul de Manaus, a primeira geração da família Ribeiro Costa conta que já sofreu preconceito e discriminação pela raça, como as filhas Rai, de 55 anos, e Aparecida, de 47.
“Ainda existe muito preconceito. O negro entra em uma faculdade, em um restaurante ou até mesmo nos ônibus, as pessoas o olham. Tem vizinhos que não falam com a gente”, contou Rai, acrescentando que sofreu discriminação várias vezes ao longo da vida, principalmente quando era jovem. “Tive um namorado que a mãe dele não deixou ele se casar comigo, por causa da minha cor”, disse. A irmã concordou: “Ainda tem branco que não quer sangue de negro na família”, afirmou Aparecida.
Entre os netos de dona Florência, está Francisco, 27, que disse ter sofrido discriminação racial quando era criança. “Quando tinha 10 anos de idade, sofria muito, recebia vários apelidos. Tive até vontade de mudar a minha cor. Mas agora, depois de jovem, não tive mais esse problema. Hoje tenho orgulho de ser negro”, disse. Para o Dia Nacional da Consciência Negra, Raquel, de 25 anos, filha de Aparecida, só quer uma coisa: “A gente espera que o racismo acabe, porque ainda existe”, disse.
Como todo brasileiro e amazonense, a família Ribeiro gosta de samba, forró e boi-bumbá e se reúne sempre em datas comemorativas. Em relação à religião, todos os membros da família são cristãos, divididos entre católicos e evangélicos. Eles afirmam que conservam e respeitam a cultura de um povo e lutam pela igualdade social.
IBGE
A família Ribeiro Costa faz parte dos 143.748 de negros residentes no Amazonas, dos quais quase 76 mil só em Manaus, de acordo com o Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O disseminador da informação do IBGE, Adjalma Nogueira, disse que a incidência da cor negra no Amazonas ainda é pequena, comparada com o resto do Brasil. “Das 27 Unidades Federativas do País, o Amazonas ocupa a 25ª posição em percentual de negros na composição de sua população. E entre as 27 capitais brasileiras, Manaus ocupa a 26ª posição”, disse.
Isso porque, segundo Adjalma, a maioria dos nossos imigrantes sempre foi do Norte e Nordeste do Brasil. “Os três principais imigrantes foram dos Estados do Pará, Ceará e Maranhão”, afirmou.
Dia Nacional da Consciência Negra pede reflexão
O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro no Brasil e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A semana na qual está esse dia recebe o nome de Semana da Consciência Negra.
A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O Dia da Consciência Negra procura ser uma data para se lembrar a resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte de africanos para o solo brasileiro (1594).
O dia é celebrado desde a década de 1960, embora só tenha ampliado seus eventos nos últimos anos.
Haitianos: os novos negros de Manaus
A partir de 2010, a população negra de Manaus cresceu com a chegada do haitianos. Segundo o padre da Pastoral do Imigrante, Gelmino Costa, dos 4,5 mil haitianos que passaram pela capital nos últimos dois anos, pelo menos 1,2 mil ficaram. “Essas pessoas decidiram ficar aqui, gostam da cidade. Criaram raízes, arranjaram emprego e pensam até em trazer a família”, disse.
Esse é o caso de Jean Mercidien Nappoléon, 32, que chegou ao Brasil em setembro do ano passado, arranjou emprego e já pensa em trazer a mulher e filhos que ficaram no Haiti. “Até janeiro do ano que vem trago a minha mulher e, depois, meus filhos”, disse. Nappoléon afirmou que gosta de Manaus e não pretende ir para outra cidade. “Aqui é tranquilo, as pessoas gostam do haitiano e nunca me senti discriminado. Não sei no futuro”, disse, ressaltando que pretende estudar e tirar a carteira de habilitação.
O padre Gelmino afirmou que os haitianos são comunicativos, sabem se relacionar com os vizinhos, mas não podem ficar sem trabalho. “Para eles, é inútil trabalhar numa empresa que só pode pagar o salário mínimo. Por isso, eles pensam em se esforçar mais para conseguir algo melhor”, disse.
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http://www.d24am.com/amazonia/povos/dia-nacional-da-consciencia-negra-pede-mais-reflexao-sobre-o-racismo/73654

Joaquim Barbosa assume presidência do STF na próxima quinta-feira, 22


Brasília – Perto de completar dez anos no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Joaquim Barbosa assume a presidência da Corte na próxima quinta-feira (22). Em cerimônia para cerca de 2 mil convidados, Barbosa passará a ser o chefe do Judiciário nacional pelos próximos dois anos.
Já estão confirmadas as presenças da presidenta da República, Dilma Rousseff, e dos presidentes do Senado, José Sarney, e da Câmara dos Deputados, Marco Maia. Entre centenas de autoridades, a lista de Barbosa também inclui convidados que não pertencem ao ambiente de poder de Brasília, como os atores Lázaro Ramos e Taís Araújo.
A cerimônia começará uma hora mais cedo que o usual – às 15h – e terá o mesmo esquema de segurança que vem sendo usado nas sessões de julgamento da Ação Penal 470. Após a execução do Hino Nacional, Barbosa deixa o posto de presidente em exercício, assumido a partir de amanhã, segunda-feira, 19, para ser empossado pelo decano da Corte, ministro Celso de Mello.
Já na função de presidente, Barbosa empossará Ricardo Lewandowski como vice. Ambos vêm trocando farpas durante o julgamento da Ação Penal 470 como relator e revisor, mas garantem que as divergências estão restritas ao processo e não chegam ao nível pessoal ou institucional.
Na etapa dos pronunciamentos oficiais, Barbosa surpreendeu ao escolher o ministro Luiz Fux para falar em nome da Corte. Os últimos quatro presidentes do STF – Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto – foram saudados pelo ministro Celso de Mello, mais antigo integrante do Tribunal desde a aposentadoria de Sepúlveda Pertence em 2007. Também foi Mello quem falou na despedida de Carlos Ayres Britto, na última quarta-feira (14).
Ainda estão previstos os pronunciamentos do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante. Barbosa será o último a falar. O gabinete não divulgou o conteúdo do pronunciamento, mas garante que o ministro será breve.
O futuro presidente também inovou ao restringir a tradicional fase de cumprimentos no Salão Branco do STF apenas para os ministros do STF, parentes e algumas autoridades. Em geral, essa etapa é a mais longa da programação, com horas de duração e exaustão dos empossados, que permanecem de pé em uma área reservada do salão aguardando a saudação de todos os visitantes em fila.
O cerimonial do STF prevê que os cumprimentos gerais ocorram apenas durante festa que será oferecida no início da noite pelas três entidades de classe nacionais de juízes – Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra).
As entidades não divulgam o valor gasto com o evento, mas informam que a festa ocorrerá em um clube luxuoso de Brasília, com coquetel e som ambiente para recepção dos convidados.
Edição: José Romildo
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http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-11-18/joaquim-barbosa-assume-presidencia-do-stf-na-proxima-quinta-feira

domingo, 18 de novembro de 2012

“Academia vê pós-Mensalão com cautela”


Escolas de Direito discutem se as decisões do STF no julgamento representam exceção ou levarão a um real endurecimento contra a corrupção
Isadora Peron, de O Estado de S.Paulo
As consequências do julgamento do mensalão no ambiente jurídico brasileiro ainda são uma interrogação para as principais faculdades de Direito do País. As sessões do Supremo Tribunal Federal e as decisões dos ministros da Corte viraram tema de discussão na academia, mas, entre professores e coordenadores de cursos de renomadas instituições, somente o tempo dirá se as condenações impostas pelo Supremo aos réus vão representar uma exceção ou um real endurecimento na hora de julgar crimes ligados à corrupção.
Entre os docentes de Direito ouvidos pelo Estado, é consensual a opinião de que ainda é cedo para fazer uma análise mais aprofundada sobre o legado da ação penal do mensalão e os seus verdadeiros impactos na jurisprudência brasileira.
Segundo o professor Renato de Mello Jorge Silveira, diretor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), é preciso deixar o julgamento terminar para debater temas que causaram divergências até mesmo entre os próprios ministros da Corte. Dos assuntos que merecerão um olhar mais atento no futuro, o professor destaca a aplicação da chamada teoria do domínio de fato e os novos entendimentos em relação aos crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
A interpretação dada pelo Supremo da teoria do domínio de fato foi, até aqui, a que mais gerou discussões acaloradas dentro e fora do tribunal. No entendimento da maioria dos ministros da Corte, é possível condenar uma pessoa que não tenha executado diretamente um crime se houver indícios de que ela tinha conhecimento do ocorrido.
O professor de direito público da Universidade de Brasília (UnB) Mamede Said é um dos que discordam dessa interpretação. Para ele, não basta que haja evidências de que a pessoa sabia do ilícito que estava sendo praticado. É necessário que o envolvimento no caso seja provado.
“A questão agora é se o Supremo vai ter a mesma consistência para julgar casos semelhantes no futuro. Essa será a prova dos nove. Só com o tempo nós vamos ver se esse foi um julgamento muito duro por uma razão circunstancial ou se a Corte está indicando que a tolerância com os crimes de corrupção vai ser muito baixa daqui para a frente”, diz Oscar Vilhena, professor de Direito Constitucional e diretor da Direito GV.
Na semana que passou, o PT divulgou uma nota na qual acusou o STF de ter feito um julgamento “político” e de ter desrespeitado garantias constitucionais e imputado “penas desproporcionais” a José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares.
Os critérios adotados para a fixação das penas no processo têm gerado reações entre os membros da Corte. Na sessão da última quarta-feira, o ministro do Supremo José Antonio Dias Toffoli comparou as penas impostas aos réus às punições aplicadas no período da Inquisição.
Na sessão do dia 7, Marco Aurélio Mello, durante um bate-boca com o relator Joaquim Barbosa, afirmou que o mundo acadêmico estava estarrecido com os mais de 40 anos de prisão dados ao empresário Marcos Valério.
A dosimetria das penas é um outro ponto que os professores destacam que precisará ser revisitado no futuro. Para Said, a postura do STF de dar aos réus penas mais próximas ao limite máximo para que não haja prescrição do crime é uma atitude questionável. “Tem que aplicar a pena com base no grau de culpabilidade da pessoa, e não ficar fazendo simulações para tomar uma decisão.”
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,academia-ve-pos-mensalao-com-cautela,961557,0.htm

“Racismo e manipulação da mídia: Muniz Sodré”


O Prêmio de Jornalismo Abdias Nascimento – organizado pela Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio), ligada ao Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio – homenageou dia 12 de novembro o professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ Muniz Sodré, inclusive por sua militância contra a discriminação racial e pela diversidade cultural. O site do Sindicato dos Jornalistas foi até sua casa, no bairro carioca do Cosme Velho, para uma entrevista sobre imprensa, jornalismo de hoje, de ontem, racismo e preconceito. Confira a seguir:
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Ao longo de 2012 o senhor recebeu várias homenagens pelos seus 70 anos. Como o senhor encara isso? A idade começou a chegar de fato?
Muniz Sodré: Ela chega. Com 70 anos você começa a perceber que o corpo não está mais o mesmo. Eu faço esporte violento (capoeira, caratê, jiu-jítsu), mas o corpo não reage da mesma maneira. Você sente que o esqueleto não aguenta mais. No caratê, que é um esporte de impacto, com o passar do tempo as pancadas vão ficando muito fortes. E o corpo não é mais o mesmo. Faço ioga também. Outro dia, pela manhã, estava com o corpo todo doído.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Sua ligação com jornalismo vem de onde?
MS: Eu sempre gostei de ler e escrever. Sempre fui meio CDF. Falo várias línguas. Fui tradutor, falo inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, russo, árabe, iorubá (de origem africana, língua dos terreiros de candomblé), fui professor de latim. Era muito conhecido na Bahia por isso. Fui tradutor oficial da Prefeitura de Salvador. Quando você vai envelhecendo, o gosto por falar vai desaparecendo. Não falo bem como eu falava antes. Mas ainda dou conferência nestas línguas. O jornalismo vem desta coisa de escrever. Sempre fui profissional de jornalismo. Mas deixei a profissão em 1974, não estava mais interessado. Tinha um cargo na Bloch. Fui chefe de reportagem e redator da Manchete. Comandei a TVE em 1979 e 80. Meu último cargo público foi na Biblioteca Nacional, de 2005 a 2010. Nunca mais na vida quero cargo público.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Causa muito problema?
MS: É muito arriscado. Você dirigir orçamento público hoje é tão perigoso quanto entrar à noite da favela do Rato Molhado (Zona Norte do Rio), você não sai vivo. Pode entrar armado, vai sair sem arma e sem cabeça. Dirigir orçamento público é a mesma coisa. Existem duas instituições de controle contábil no País que acho que são as melhores do mundo: a Controladoria Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU). Todo mudo acha que no Brasil tem muito roubo. Tem roubo mas se sabe. É impossível roubar no serviço público sem que (os órgãos) saibam. Cada conta, cada despesa é controlada integralmente pela CGU, e no final do ano, pelo TCU.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Uma vírgula fora do lugar e…
MS: Está frito. Mas falam que é tanto roubo… Mas se sabe, só escapa quem tem força política. É um tipo de trabalho que é muito bom para ladrão. Se você é honesto, você pode se acusado por uma besteira e vai para o Diário Oficial da mesma forma que o ladrão. Enquanto que o ladrão está acostumado a isso e não vai para a cadeia. A primeira vez que estou vendo ir para a cadeia alguém deste tipo é nessa história do mensalão. Quem costuma ir para cadeia mesmo é preto e pobre, pp.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: E qual a sua avaliação sobre a cobertura dos jornais atualmente, a exemplo da forma como foi noticiado o julgamento do mensalão?
MS: Hoje em dia o leitor se interessa muito pouco por assuntos sérios. O entretenimento e a diversão são o grande módulo do jornalismo. Isso é uma lástima. Um exemplo: o Segundo Caderno de O Globo. Os assuntos são música popular, TV, teatro, shows. Aí você tem colunistas que, se você prestar a atenção, todos estão ligados ao show business de um modo ou de outro – até quando são muito bons. Francisco Bosco, filho do João Bosco, é muito bom articulista. Mas o pai é músico, ele faz letra, é poeta… José Miguel Wisnik (também colunista em O Globo) é músico, professor. Caetano Veloso é Caetano. Hermano Vianna, irmão de Herbert Vianna. O show business, o entretenimento atravessam por inteiro o jornalismo. Tudo é diversão. E acho que isso contaminou o assunto mensalão. Para atrair leitores para este assunto, que é técnico, precisaram fazer uma novela do Supremo Tribunal Federal, o bem e o mal. O Lewandowski (Ricardo, ministro do STF, votou pela absolvição de réus do mensalão) foi votar (nas últimas eleições) e recebeu vaia porque ficou como vilão da novela. Já o Joaquim Barbosa (relator do caso) ficou de herói. Acompanhei o mensalão pelo Globo, pelos jornais, como uma novelização do julgamento.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: A imprensa pode ter sido mais rigorosa por se tratar de um julgamento que envolve políticos do PT?
MS: Tem uma atração a mais. Se fosse o PSDB, e não tivesse no poder o PSDB, não teria a mesma atração. Sabe-se que houve mensalão do PSDB, o caso do FHC nas Ilhas Cayman, mas nunca tocaram nisso. É o mesmo tipo de escândalo se alguém vê e denuncia. O problema é que alguém sempre apita, quando apita é preciso saber se a imprensa está disposta a pegar isso.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Pelo que o senhor observa nos alunos de Jornalismo, qual é a expectativa deles com o futuro profissional, com o que vão encontrar?
MS: O jornalismo mudou. Ninguém que sai de lá (ECO) está desempregado. Estão nas redações? Não. O maior mercado é a assessoria de comunicação, depois a Internet. A comunicação hoje é um território onde a sociedade se desenvolve. As pessoas no fundo criam seus próprios empregos hoje. Claro, tem muitos que vão para jornal, para rádio, TV. As redações estão cheias de ex-alunos da ECO, da Fluminense, da PUC. Mas é um emprego de uma rotatividade muito grande, você passa pouco tempo nele. A profissão de deslocou da questão da entidade do jornalista.

Sindicato dos Jornalistas do Rio:
 O Prêmio Abdias Nascimento destaca trabalhos jornalísticos que estimulem a diversidade, que combatam a discriminação. No tipo de jornalismo feito hoje no Brasil há muito racismo?
MS: A esquerda não gosta de ouvir isso, mas o Brasil é um país muito racista. O racismo é um mal estar civilizatório. Conheço poucos lugares no Brasil onde não há racismo, as grandes casas de candomblé por exemplo. As instituições são racistas. Onde dou aula (Escola de Comunicação da UFRJ) você vai ver um único professor negro, eu. E mesmo assim, há quem ache que eu não sou negro, que sou negro pálido. Tinha um outro (professor negro) que foi transferido. Procure entre os alunos para ver se encontra algum que seja negro. É difícil. Se encontrar aluno negro, é de convênio, angolano, cabo-verdiano. Departamento de Física, de Matemática… vê se encontra negro! O mecanismo é excludente. Quando começaram as ações afirmativas, que foram as melhores coisas do governo Lula, aconteceu um novo tipo de inclusão social. Acho que isso foi uma das coisas mais importantes que ocorreram no Brasil neste século.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Por quê?
MS: Bem, este negro que está na universidade pode não melhorar de vida economicamente. Mas vai melhorar em autoestima e na posição dele na cidadania. Isso você já nota, sente a repercussão disso até na televisão. Antes tinha em novela um ou outro negro, e agora tem novelas inteiramente de negros.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: É um reflexo das ações afirmativas?
MS: É um reflexo já. O problema do racismo é deixar se aproximar. Se uma filha entrar em casa de braço dado com um negão, o pai não vai gostar. Não é uma questão de ser racista, mas é o lugar que o negro ocupa na sociedade brasileira. “Minha filha vai casar com este cara, ele não vai ter emprego.” Você não pode satanizar o comportamento discriminatório sem mais nem menos. Tem que lutar contra ele, criar os mecanismos de aproximação. Portanto, sou a favor das cotas porque elas colorizam a paisagem colonizada. Recebo visita aqui de caras de 35 anos, negros, que trabalham com educação na periferia de São Paulo. Você olha para ele e pensa que ele trabalha com música. Nada! Tem mestrado nisso, doutorado naquilo…
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Mas então a imprensa acaba refletindo este país racista?
MS: Reflete por inteiro. Os jornais, para usar expressão de Gramsci (Antonio, cientista político italiano), são intelectuais coletivos das classes dirigentes. Refletem este desejo de que as coisas fiquem como estão, cada macaco no seu galho. Quais foram os lugares de resistência às ações afirmativas? A imprensa. Aqui no Rio, O Globo. E com dirigentes, Ali Kamel. Nas universidades você encontra em alguns cursos resistência (às cotas). Mas no próprio O Globo tem gente que defende as ações afirmativas, o Elio Gaspari, por exemplo, Miriam Leitão, Ancelmo Gois. Mas as notícias, as pautas, tudo isso aí tem viés. O negro não está representado na pauta.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Como era sua relação com o jornalista Abdias Nascimento?
MS: Ele foi meu amigo. Meses antes de morrer (em maio de 2011) me chamou para almoçar na casa dele. Almoçamos ele, Elisa (esposa de Abdias) e eu. Foi uma tarde ótima. O Abdias Nascimento, em plena época dura do racismo, criou o Teatro Experimental do Negro (na década de 1940). Ninguém fala muito disso, falam de Nelson Rodrigues… Como professor, como homem público, senador, ele atuou dentro da paisagem racista brasileira.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Qual a sua opinião com relação à exigência do diploma de Jornalismo para exercer a profissão?
MS: Quando o Supremo acabou com a exigência do diploma (em 2009), o argumento era imbecil, de uma ignorância, desconhecedor do que é jornalismo. Estes juízes são menos doutos do que você pode pensar. Eles não sabem o que é imprensa. O argumento de Gilmar Mendes, dizendo que jornalista é como um chefe de cozinha… não sei como ele fez esta ligação. Aliás, um chefe de cozinha ganha muito melhor que um jornalista. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. E, na França, para ser chefe de cozinha, tem que ter diploma. Já fui inteiramente a favor (da exigência do diploma), hoje eu hesito. Mas sou a favor ainda porque você não precisa de diploma para ser administrador de empresas, economista, advogado. Para quê? Só por uma garantia corporativa. Sou formado em Direito, a maior parte dos advogados é de analfabetos completos. Você precisa de diploma em profissões onde há risco de vida envolvido na profissão, como engenharia, medicina… No entanto, se é mantida a exigência do diploma para estes, porque não para o jornalista, dada a importância que a informação tem hoje na vida social? Ninguém aprende na faculdade aquilo o que está destinado na profissão. Ninguém se torna médico na faculdade de Medicina. Você se torna médico na residência, no hospital. Na faculdade, você aprende a aprender. Acho que o diploma dá uma garantia à profissão de jornalismo e permite uma luta mais equânime com os patrões por salários.

Sindicato dos Jornalistas do Rio:
 Liberdade de expressão e liberdade de imprensa são expressões muito utilizadas pelos empresários de comunicação, que têm seu expoente maior na Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Estes dois termos estão desvirtuados hoje?
MS: A liberdade de imprensa foi abarcada pela mídia corporativa. É a liberdade dos donos de imprensa, de não permitir ingerência do governo no negócio da imprensa. Enquanto que liberdade de expressão é uma coisa a ser conquistada ainda. O jornalista que é empregado desta mídia corporativa não tem liberdade de expressão lá dentro, quem tem é o dono do jornal. Liberdade de expressão é você poder dizer o que quiser em qualquer que seja o meio de comunicação – mas você não pode fazer isso em televisão, em jornal, em rádio. Onde você pode dizer? Na internet, mas aí ninguém vai te escutar. Você pode fazer um blog, por exemplo. Aí você tem liberdade de expressão em termos – porque podem processá-lo. Mas a Internet é suficientemente caótica e anárquica para dar ao indivíduo a liberdade de expressão. Porém, o problema da liberdade de expressão não é apenas dizer o que você quer. Em Londres, no Hyde Park, tem um caixote onde o sujeito sobe para dizer o que quiser. Sobe e discursa. Sempre tem um para escutar. Então o sujeito esculhamba a rainha, o rei… dez, vinte pessoas escutam, acham aquilo engraçado, é tradição, e saem. Liberdade de expressão, as pessoas podem ir ali falar.
Sindicato dos Jornalistas do Rio: Isso é liberdade de expressão?
MS: Liberdade de expressão hoje é mais que isso. É a possibilidade também de ser escutado, é dizer o que quer num espaço público. E o espaço público é o espaço determinado, formado por mídia, mas formado também por academias, associações, clubes, escolas… Só quem tem liberdade de expressão é quem tem hoje liberdade de imprensa. Portanto, não basta o meio técnico para você falar, tem que constituir sua audiência, o público. Este é o grande problema da Internet hoje. A escuta atualmente é mais difícil do que a fala. As pessoas fazem tanta análise hoje, vão ao psicanalista, em busca de atenção. Pagam para que alguém as escute porque ninguém lhe escuta desta forma. A atenção é a grande mercadoria de hoje. Portanto, o problema não é a livre expressão, é a escuta obrigatória. Existem bilhões de blogs na internet, alguns têm leitores. Você pode escrever a coisa mais importante do mundo, mas ninguém lê.

Sindicato dos Jornalistas do Rio:
 Para finalizar, como é mesmo aquela história de que o senhor agrediu Adolpho Bloch?
MS: Eu morava em Paris e era freelancer da Manchete. Tinha feito uma matéria com Georges Simenon (escritor belga) e fui entregar o texto. Ele (Adolpho Bloch) estava lá no dia. E, neste mesmo dia, corria a notícia de que os árabes haviam destruído aviões israelenses (durante a Guerra dos Seis Dias em 1967). Mas aconteceu o contrário, os israelenses que destruíram a aviação egípcia em terra. Bloch estava muito nervoso, era judeu. Quando entrei, ele quis colocar o nervoso em cima de alguém, era típico dele – no dia que chegava nervoso demitia um contínuo, um funcionário, era assim na empresa. Ele veio, eu disse que estava trazendo uma matéria, e ele falou: “No Brasil nós já mudamos de estilo.” E foi chegando perto de mim. Eu com o texto na mão. E então ele avançou sobre a matéria. Aí, já viu! Quando eu percebi ele estava no ar, eu segurando ele. E olha que Adolpho era pesado. Mas ele tinha uma grandeza nesta sua maluquice. A briga se desfez, um ano depois eu passava por ele no corredor da Bloch (no Rio) e ele me chamava de mestre em russo. Colocava a mão no meu ombro e perguntava se estavam me tratando bem na empresa. Eu dizia que sim, mas que poderia estar ganhando um pouco melhor. Aí ele já tirava a mão do meu ombro (risos). Esta briga, se fosse com qualquer outra pessoa, eu estaria demitido. Se eu estivesse no lugar dele, mandava me demitir. Se fosse com o Roberto Marinho, seria mandado preso.
Fonte: Advivo
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http://cenpah.wordpress.com/2012/11/19/racismo-e-manipulacao-da-midia-muniz-sodre/

sábado, 17 de novembro de 2012

Atlântico Negro - Na Rota dos Orixás

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