domingo, 30 de dezembro de 2012

Monteiro Lobato era racista?

O caso das acusações de racismo contra a obra de Monteiro Lobato, iniciado em 2010, voltou à tona em setembro de 2012. O debate começou com a denúncia, feita pelo pesquisador Antonio Gomes da Costa Neto (técnico em gestão educacional pela Universidade de Brasília), pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA) e pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da existência de racismo no livro Caçadas de Pedrinho.


A denúncia resultou num pedido de sua exclusão do livro do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e de outros programas do governo para a compra de livros e distribuição a estudantes e bibliotecas escolares. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal por meio de um mandado de segurança apresentado pelo IARA e por Antônio Gomes da Costa Neto, onde acusam a obra de Monteiro Lobato de conter “elementos racistas”.

Em 11 de setembro de 2012 o ministro Luiz Fux, do STF, convocou os envolvidos - os denunciantes e representantes do Ministério da Educação. da Advocacia-Geral da União e da Seppir - para uma audiência de conciliação em torno da proposta apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo IARA e pelo pesquisador Antonio Gomes da Costa Neto.

O debate provocou grande alarde na mídia conservadora, que acusava o Ministério da Educação, o CNE, o IARA e o pesquisador Costa Neto de tentar censurar uma obra literária. Mas a questão é outra: trata-se do racismo e da luta contra ele.

A legislação pela implantação do ensino antirracista está prestes a completar uma década. Foi em 9 de janeiro de 2003 que o presidente Lula alterou a lei 10.639, de 1996 (que regula as diretrizes e bases da educação nacional), instituindo a obrigatoriedade do ensino da “história e cultura afro-brasileira”.

As diretrizes a respeito foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em março de 2004 e reguladas por uma resolução do CNE em junho do mesmo ano. A lei reforça o combate com a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e das relações étnico-raciais, envolvendo medidas para sua concretização nas escolas públicas e privadas, e em todos os níveis – desde a educação fundamental até aos cursos de pós-graduação. A queixa do IARA e de Costa Neto trata justamente disto.

Seu objetivo era obter concordância na inclusão em obras semelhantes de uma nota explicativa sobre o vigor do preconceito racial na época em que foram escritas (Caçadas de Pedrinho é de 1933). Isso já ocorre por exemplo em relação aos atentados contra o meio ambiente, e os livros incluem notas sobre a legislação ambiental que protege a fauna e a flora.

Mais importante que isso, o esforço do IARA e de Costa Neto era chamar a atenção sobre a necessidade da implementação concreta da lei que instituiu o ensino antirracista, com medidas efetivas para a formação e capacitação de educadores e a garantia pelo MEC da aplicação da lei em todos os níveis de ensino no país.

A audiência não foi conclusiva, sendo retomada dia 25 de setembro, ocasião em que também não houve avanços significativos. A questão ficou adiada para ser submetida ao plenário do STF, sem data marcada para ocorrer.

O caso é significativo. É um debate correlato à questão das cotas, da presença de negros e mestiços nas universidades através do ProUni e outras medidas semelhantes. A mídia conservadora escamoteia a questão fundamental da existência do racismo no Brasil e da urgente implementação dos instrumentos de luta contra esta excrescência histórica herdada do período escravista.
 
http://www.vermelho.org.br/se/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=202258

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

ONU investe no combate ao racismo no mundo virtual

Dos 7 bilhões de habitantes do planeta, 2,4 bilhões usam a internet

Edgard Júnior
As Nações Unidas querem combater o racismo no mundo virtual. De acordo com um relatório da União Internacional das Telecomunicações, UIT, dos 7 bilhões de habitantes do planeta, 2,4 bilhões usam a internet.
Relatório do Escritório para os Direitos Humanos mostra que apesar de a internet ser uma ferramenta positiva, ela também pode ser usada por grupos radicais para espalhar mensagens de ódio e discriminação racial.
Segundo estudo preparado pelo relator especial do Escritório para os Direitos Humanos da ONU, Matuma Ruteere, a internet pode ser usada por grupos radicais para divulgar mensagens de racismo e ódio.
Tecnologia
Ruteere disse que com o avanço tecnológico, os websites extremistas continuam aumentando, não só em tamanho, mas também na capacidade tecnológica. Segundo o relator, esses grupos usam a internet para provocar violência racial, abusar de minorias e para recrutar novos membros.
Intimidação
Ruteere afirmou que a ONU está preocupada com a intimidação aberta feita por grupos radicais neonazistas pregando violência contra ativistas que combatem o racismo.
O relator reconheceu que é difícil aplicar leis e regulações contra conteúdos ilegais ou inapropriados, porque os países têm legislações diferentes para lidar com esse tipo de problema.
Recomendações
O relatório inclui várias recomendações para reduzir a influência de grupos extremistas na internet.
Ruteere alerta, porém, que os estados não devem adotar medidas que possam restringir o direito de liberdade de expressão de qualquer cidadão.

Fonte: http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2012/12/24/onu-investe-no-combate-ao-racismo-no-mundo-virtual/

domingo, 23 de dezembro de 2012

Kwanzaa


O Kwanzaa é uma celebração afro–americana que tem início no dia 26 de Dezembro e fim em 1 de Janeiro de cada ano. Palavra africana derivada da frase kiswahili “matunda ya kwanza”. Na África tradicional Kwanzaa representa as primeiras colheitas; na América do Norte e Caribe os participantes dessa festa são afrodescendentes.
O Kwanzaa envolve a reflexão sobre sete princípios básicos: a valorização da comunidade, das crianças e da Vida. Esta celebração está a espalhar–se lentamente pelos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Caribe e já se podem enviar postais a desejar “Feliz Kwanzaa”. Esta palavra significa “o primeiro, no início” ou, ainda, “os primeiros frutos”, e pertence a tradições muito antigas das celebrações das colheitas na África. E foi ela a escolhida para representar esta celebração inventada por um homem, há 34 anos. Maulana Karenga é um professor e ativista negro, atual diretor do Departamento de Estudos Negros da Universidade da Califórnia.
Toda a celebração e os rituais da Kwanzaa foram concebidos após as famosas e terríveis revoltas de Watts, em 1966. Ele buscou em remotas tradições africanas valores que fossem cultivados pelos negros americanos naqueles terríveis dias de lutas pelos direitos civis, de assassinatos de seus principais líderes e que, não sendo religiosos, pudessem atrair – como atraíram – todas as igrejas de todas as comunidades negras em todo o país e, no futuro, pelo mundo fora. Karenga organizou a Kwanzaa em torno de 5 atividades fundamentais, comuns às celebrações africanas da colheita das primeiras frutas:
  • a reunião da família, de amigos, e da comunidade
  • a reverência ao criador e à criação, destacadamente a acção de graças e a reafirmação dos compromissos de respeitar o ambiente e “curar” o mundo
  • a comemoração do passado honrando os antepassados, pelo aprendizado de suas lições e seguindo os exemplos das realizações da história
  • a renovação dos compromissos com os ideais culturais mais altos da comunidade como a verdade, justiça, respeito às pessoas e à natureza, o cuidado com os vulneráveis e respeito aos anciões
  • a celebração do “Bem da Vida” que é um conjunto de luta, realização, família, comunidade e cultura.
Karenga, diz que, “a Kwanzaa é celebrada através de rituais, diálogos, narrativas, poesia, dança, canto, batucada e outras festividades”. Estas actividades devem demonstrar os sete princípios, Nguzo Saba em suaíli:
  • umoja (unidade)
  • kujichagulia (autodeterminação)
  • ujima (trabalho coletivo e responsabilidade)
  • ujamaa (economia cooperativa)
  • nia (propósito)
  • kuumba (criatividade)
  • imani ()
A cada dia uma vela de cor diferente deve ser acesa num altar onde são colocadas frutas frescas, uma espiga de milho por cada criança que houver na casa. Depois de acesa a vela, todos bebem de uma taça comum em reverência aos antepassados, e saúdam com a exclamação “Harambee”, que tanto significa “reúnam todas as coisas” como “vamos fazer juntos”. A grande festa é a de 1 de janeiro, quando há muita comida, muita alegria e onde cada criança deve ganhar três presentes que devem ser modestos: um livro, um objecto simbólico e um brinquedo.
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http://www.negroelindo.com/news/kwanzaa/#.UNPI3M0crHA.facebook

sábado, 22 de dezembro de 2012

"Adelaide" e o racismo camuflado em riso



Por Marcio André dos Santos



O personagem de “Adelaide” não é uma novidade na dramaturgia brasileira. A construção de um personagem negro, do sexo feminino e que tem como pretensão fazer as pessoas rirem sem parar data de pelo menos 40 anos. O livro que inspirou o documentário A Negação do Brasil de Joel Zito narra e analisa a presença dos negros na televisão brasileira. Presença marcada pela subalternidade e preconceito racial. 

Para quem nunca viu este personagem do programa Zorra Total da TV Globo, “Adelaide” é uma mulher negra, idosa e que entra no metrô pedindo esmolas e, consequentemente “importunando as pessoas”. Além do reforço racista e sexista que o programa faz em torno das mulheres negras e de todos os negros por extensão, em alguns episódios “Adelaide” exala um cheiro ruim, ou pelo menos é isso que as cenas querem nos comunicar. Imagine você na sala de estar, com sua família, crianças e de repente aparece uma mulher negra, mal vestida e fedendo. Além do fedor, ela não tem os dentes da frente e parece absolutamente ridícula... Todos riem às alturas. É essa a intenção. O riso, magicamente, nos tira por uns instantes a capacidade de perceber o horror por trás de tais cenas.
Eu poderia gastar muitas linhas aqui descrevendo as dezenas de cenas pejorativas dessa personagem, mas quero me concentrar em outro ponto: qual a ideia básica que fundamenta esse personagem? O que lhe dá sentido? Qual a intenção de um núcleo de profissionais de mídia e comunicação ao construir, detalhe por detalhe, uma caricatura totalmente negativa de uma mulher negra, idosa e pobre?
Dizer que é o racismo talvez não seja suficiente. Sim, é racismo. Entretanto, é um tipo de racismo singularmente brasileiro especificamente produzido pelas mídias televisivas. Os especialistas que criaram tal personagem – as elites editoriais, como diria Muniz Sodré – reeditam um imaginário surgido a pelo menos duzentos anos atrás por literatos, jornalistas e políticos brancos e ancoram nas plásticas vias do humor o pior do sentimento antinegro.
Existem muitas formas de definir e abordar o racismo. Pode ser visto como um instrumento de manutenção de privilégios econômicos; pode ser visto como sentimento de superioridade ou então como mecanismo de preservação de lugares simbólicos, culturais e psicológicos de um grupo em relação a outro. Pode também ser a mistura de tudo isso e até mesmo um tipo antigo de desumanização. Por exemplo, o tráfico transatlântico de escravos tinha como pressuposto a transformação de negros em coisas, objetos, seres sem alma e transcendência. Bichos, em suma. Opera-se assim um processo completo de animalização que justiça toda e qualquer atrocidade.

“Adelaide” é uma representação contemporânea da desumanização negra que, no limite, assegura o privilégio da brancura, este artefato onipresente e multifacetado de poder. Privilégio  que se manifesta imagética e ideologicamente e forja a realidade tal como querem que a vejamos: ora manifestando-se sutil aos nossos olhos, ora completamente brutal.
“Adelaine” é prova concreta de que o “mito da democracia racial” continua operando (secretamente?) no cerne dos aparelhos produtores de imagens e imaginário social. Faz-nos rir dos crimes mais chocantes de nossa história, em feixes coloridos de um sábado a noite.


Fonte: http://afrolatinidade.blogspot.com.br/search?updated-max=2012-12-16T22:06:00-02:00&max-results=7

Inscrições para o Prêmio “Mulheres Negras contam sua História” podem ser feitas até 25 de janeiro


Adital – Segue aberto até 25 de janeiro de 2013 o período de inscrição para o prêmio “Mulheres Negras contam sua História”, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). “Nossa pretensão é que as mulheres negras escrevam e possam trazer subsídios para a elaboração de políticas públicas”, afirmou a ministra Eleonora Menicucci, da SPM, no ato de anúncio da chamada pública, ocorrido durante os atos alusivos ao Dia Nacional da Consciência Negra.
O público-alvo do concurso é formado por mulheres autodeclaradas negras. Elas poderão participar com redações e ensaios, contar a história e a vida das afro-brasileiras na construção do país. O prêmio possui duas categorias: “Redação”, com texto de no mínimo 1.500 até o máximo de 3.000 caracteres, e “Ensaio”, com textos de 6.000 a 10.000 caracteres. Serão premiadas as cinco melhores redações com R$ 5 mil, e as cinco candidatas selecionadas na categoria “Ensaio” receberão R$ 10 mil.
O prêmio é uma iniciativa da SPM no resgate do anonimato das mulheres negras como sujeitos na construção da história do Brasil. O objetivo é estimular a inclusão social das mulheres negras por meio do fortalecimento da reflexão acerca das desigualdades vividas pelas mulheres negras no seu cotidiano, no mundo do trabalho, nas relações familiares e de violência e na superação do racismo.
Inscrições – As inscrições estão abertas desde 21 de novembro de 2012 e se encerrarão em 25 de janeiro de 2013. Somente mulheres autodeclaradas negras podem participar do concurso. As inscrições somente serão aceitas mediante o envio dos textos, em formato de texto, nas categorias “Redação” e “Ensaio”. Deverão ser efetuadas pelo endereço: premiomulheresnegras@spmulheres.gov.br ou postadas pelo correio para o endereço: Prêmio Mulheres Negras contam sua História – Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República – Praça dos Três Poderes Via N1 Leste, s/nº, Pavilhão das Metas, CEP 70150-908, Brasília – DF.
A notícia é da Secretaria de Políticas para as Mulheres.
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http://www.adital.com.br/jovem/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=72995

Na base do racismo, temor à semelhança?


Washington Novaes* – O Estado de S.Paulo
Páginas de jornais e revistas andam repletas de notícias, interpretações e opiniões a respeito da legislação que reserva cotas em universidades e institutos técnicos de nível médio federais para candidatos que se declararem pretos, pardos ou indígenas, assim como a alunos que tenham feito integralmente o ensino médio em escolas públicas e a candidatos oriundos de famílias com renda familiar mensal per capita de até um salário mínimo e meio. Não faltam controvérsias. Mas não é só por aí que vai a discussão. Ela inclui, também, a discriminação contra a mulher no mercado de trabalho e na renda.
Segundo informações deste jornal (28/10), o primeiro Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pós-lei de cotas mostrou que 54% dos inscritos eram negros ou indígenas, enquanto a participação dessas etnias na população nacional é de 51%. E, dos 5,7 milhões de estudantes que se inscreveram para vestibulares, 1,5 milhão havia terminado em 2012 o ensino médio, 80% dos quais (1,2 milhão) em escolas públicas.
Mesmo sem a legislação nova, o número de pretos e pardos na universidade multiplicou-se por quatro entre 1997 e 2011, segundo o Censo da Educação Superior, enquanto o de brancos pouco mais que duplicou (Estado, 17/10). E a porcentagem de pretos, pardos e indígenas na população total do Estado de São Paulo é de 34,73%.
Adversários das cotas na educação também têm seus argumentos, entre eles o de que a nova legislação não promove a inclusão educacional e social dos favorecidos, apenas oculta a falta de qualidade da educação no País. E que entrar pelo caminho das cotas seria arriscado, introduziria por lei uma divisão perigosa na sociedade. Também aí não faltam números para corroborar posições. Por exemplo: segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica, só 12% dos alunos do 9.º período de ensino têm aprendizado adequado em Matemática; 88% não entendem frações, não sabem operar com porcentagens nem fazer cálculos com dinheiro; e só 22% têm um bom aprendizado da língua portuguesa. Não é só: ainda temos 10,9 milhões de analfabetos, 77 milhões de pessoas não têm o hábito de ler e o piso salarial médio dos professores com 40 horas semanais de trabalho é de apenas R$ 1.451,00.
Há estatísticas em profusão. O número de assassinatos de negros no País foi 132% maior que o de brancos, entre 2002 e 2010, enquanto caiu o número de mortes violentas de brancos (Estado, 30/11). Mas a renda da população negra cresceu em ritmo cinco vezes maior que a não negra em dez anos. Oito em dez pessoas que chegam à classe média são negras (FP, 18/11). A participação das mulheres na força de trabalho aumentou de 40% para 44,5%, entre 1992 e 2009, segundo o IBGE. Mas elas trabalham mais que os homens, porque adicionam 22 horas semanais de trabalho doméstico às 36 horas fora de casa, enquanto os homens somam apenas 9,5 horas a suas 43 horas semanais fora de casa. Só que a remuneração média das mulheres é cerca de 1/3 menor que a dos homens: R$ 1.020,31, ante R$ 1.505,08. Tudo isso num quadro em que o Brasil é um dos países de maior desigualdade no mundo (Estado, 29/11), com 20% da população de maior renda detendo 57% da riqueza total do País (eram 63,7% em 2001), enquanto os 40% mais pobres ficam com 11% do total.
Todas essas coisas trazem de volta à memória do autor destas linhas uma discussão de que participou há 20 anos, em Salvador, na Sociedade de Cultura Negra no Brasil, promovida pela cientista social Juana Elbein dos Santos. Ali, o historiador Joel Rufino dos Santos começou por perguntar: Os direitos humanos são um valor universal? Todos os povos os percebem, compartilham e aceitam da mesma forma? Ou tudo depende da cultura, da geografia, do segmento social do observador? Mesmo entre nós não é assim? “Grande parte do povão” – afirmou ele – não admite que se invoquem esses direitos para proteger supostos ou reais infratores, principalmente assaltantes, sequestradores, etc. Parece favorável até a que se torturem esses acusados, mesmo antes de qualquer definição judicial nos casos em que estejam expostos. “Para a parcela mais pobre da população” – disse ele -, “os únicos laços com o Estado estão no cobrador de impostos e na polícia” (revista Visão, 8/4/1992). Opinião semelhante à do escritor Márcio de Souza, que mais de uma década depois, em outra discussão, em Manaus, disse que “cultura popular só entra no noticiário quando chega a polícia”.
Quem pesquisar mais verá que o quadro também é dramático quando se trata de etnias indígenas. Só em 1988, depois de séculos de violências, aconteceu a primeira condenação judicial no Brasil de um branco por assassinato de um índio. E, como sempre, disputando as terras do outro. Nada novo, se se lembrarem os assassinatos e suicídios de mais de 500 índios guarani kaiowá nos últimos tempos, como tem sido relatado pela comunicação.
Vale a pena, por tudo isso, retornar ao debate de Salvador, para destacar o pensamento exposto na ocasião pelo professor Kabengele Mutanga, professor da Universidade de São Paulo (USP) mas natural do Zaire (hoje República do Congo, país-sede de uma guerra civil em que já morreram milhões de pessoas, de etnias que disputam entre elas suas terras tradicionais, de onde foram expulsas por empresas colonizadoras).
Exilado em São Paulo, o professor Kabengele Mutanga foi contundente: “Temos de parar de falar só nos direitos dos negros, dos índios e outras minorias à base de diferenças, apenas. A base do racismo não está exatamente na negação da diferença. Está no temor da semelhança. É pelo fato de saber que eu posso fazer as mesmas coisas que ele, posso ocupar o lugar dele, que o branco racista me discrimina, persegue e mata”.
As divergências são respeitáveis. Mas quem olha o panorama brasileiro, com as diferenças econômicas, a situação do mercado de trabalho e a possibilidade de acesso a oportunidades educacionais, certamente presta atenção às palavras do professor Mutanga.
* Jornalista, e-mail: wlrnovaes@uol.com.br
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http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,na-base-do-racismo–temor-a-semelhanca-,976404,0.htm

UnB forma seus primeiros mestres indígenas


Programa prepara profissionais para atuar em atividades técnicas e inovadoras nas áreas de interesse dos povos indígenas. Sustentabilidade é o grande eixo do curso
Luciana Barreto, da Secretaria de Comunicação da UnB
Fotos: Emilia Silberstein/UnB Agência
A água dos rios e igarapés, os ventos, florestas e estrelas, os animais pequenos e os grandes, tudo à volta dos homens assume força, significado e magia para girar e manter o grande ciclo da vida. A ancestral sabedoria que orienta e guarda os povos indígenas está assentada em um princípio basilar: a reverência à mãe natureza. Pois o esperado e necessário diálogo entre os saberes indígenas e acadêmicos passa a assumir mais vulto e relevo com uma iniciativa inédita no Brasil: o Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a povos e terras indígenas, com o primeiro ciclo de defesas de estudantes indígenas, encerrado nesta sexta-feira, 21.
Criado em 2010, pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB), o programa forma os primeiros profissionais indígenas e não indígenas, qualificando-os para atuar em atividades técnico-científicas e de inovação no campo indigenista. Pastoreio, empreendorismo, mineração, vivências de sustentabilidade, educação escolar indígena foram alguns dos temas que constituíram os trabalhos apresentados por índios e caciques que representavam os povos Wapixana (Roraima), Kinikinau (Mato Grosso do Sul), Apurinã (Amazonas), Umutina e Kurã-Bakairi. A primeira turma envolveu 14 estudantes indígenas e 12 não indígenas.
Mônica Nogueira, professora do CDS, é coordenadora pedagógica do Mestrado
ENGAJAMENTO – “Esse mestrado é uma experiência pioneira no país, uma iniciativa interdisciplinar que inova na metodologia, garante a troca real de conhecimentos, além da participação de indígenas como professores no programa”, expõe a antropóloga Mônica Nogueira, coordenadora pedagógica do curso, professora do CDS e da Faculdade UnB Planaltina.
“O programa cumpre com o papel de instrumentalizar quem já atua em defesa dos mais diversificados interesses indígenas”, afirma Mônica, explicando que os estudantes selecionados trabalham em consultorias, órgãos do governo, como a Fundação Nacional do Índio (Funai),  além de escolas nas aldeias. “Por isso, as dissertações podem ser apresentadas em forma de material didático, audiovisual, cartilhas, projetos técnicos – justamente para serem aproveitados nas comunidades em que atuam”, conta. “Todos têm um perfil engajado, são ativistas que assumiram o compromisso de reverter esse aprendizado para melhorar as suas realidades, alcançando, assim, pautas políticas importantes”.
Com a duração de 22 meses e carga horária de 420 horas, o mestrado resultou de um esforço coletivo e conta com o apoio dos Ministérios da Cultura e da Defesa, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e da United States Agency for International Development (Usaid). “A metodologia linear adotada pela academia, com tantos códigos e protocolos, é bem distinta da lógica circular associada à visão de mundo dos indígenas”, diz Mônica, mostrando a importância de a Universidade se aproximar dessa outra forma de apreender o mundo e de os indígenas dominarem alguns códigos para constituirem um debate mais simétrico e equilibrado.“Para darmos conta do amplo conceito de sustentabilidade é preciso compreendê-lo a partir de uma abordagem sistêmica, incluindo, além da dimensão ambiental, também os aspectos sociais, culturais, econômicos”, complementa a professora.
PRECONCEITOS - “Todo esse processo é importante também para quebrar preconceitos e tabus associados ao índio, em geral infantilizado ou vilanizado por uma ótica reducionista e equivocada da sociedade, que o vê como preguiçoso, indolente e oportunista”, complementa Mônica. “Cabe à universidade se abrir para um diálogo mais equibrado e simétrico”.
Estruturado em três grandes módulos – Epistemologia e Fundamentos do Indigenismo e da Sustentabilidade; Tópicos Especiais em Indigenismo e Sustentabilidade e Diálogo de Saberes –, o curso contou com importantes pajés e lideranças indígenas à frente de algumas disciplinas com abordagens diversificadas, como Davi Kopensawa, Aliton Krenak, Álvaro Tukano, além de Gersem Baniwa, doutor na UnB em Antropologia.
Criado em 2010, pelo CDS, o Mestrado forma profissionais indígenas e não-indígenas, qualificando-os para atuarem em atividades técnico-científicas e de inovação no campo indigenista. O curso é baseado nos princípios da educação intercultural, que se realiza no diálogo entre saberes acadêmicos e indígenas e na interdisciplinaridade, como abordagem necessária para a construção da sustentabilidade cultural e ambiental dos povos e a inovação. “Sem dúvida, é uma iniciativa que faz jus à memória de Darcy Ribeiro e todo seu legado de respeito e valorização dos povos”.
Alfredo Wapixana defende o manejo sustentável do gado
PASTOREIO - Alfredo Bernardo Pereira da Silva, cacique Wapixana, abriu o ciclo de defesas com a dissertação “Pastoreio do Futuro: projeto de sustentabilidade para a Terra Indígena São Marcos, Roraima“. Em seu trabalho, apresentou um projeto de desenvolvimento sustentável para os povos indígenas Macuxi, Wapixana e Taurepang da terra indígena de São Marcos, em Roraima. Sob a lógica do empreendedorismo, Alfredo mostrou a experiência dos povos indígenas com o manejo de gado, criado em sistema de pastoreio, envolvendo mais de quarenta comunidades, especialmente a partir de 2003, período que marcou a saída de mais de cem posseiros que há décadas ocupavam ilegalmente a terra indígena. Em seu projeto, o cacique expôs como é possível conjugar a atividade pastoril com o manejo sustentável de todos os recursos naturais e com o desenvolvimento de novas tecnologias e o  fortalecimento da participação comunitária.
Rosaldo Albuquerque resgata identidade do povo Kinikinau
IDENTIDADE - Em outra defesa, foram considerados a sustentabilidade e os processos de reconstrução identitária do povo indígena Kinikinau, na região de Mato Grosso do Sul – etnia considerada extinta por diversos pesquisadores. Formado em Biologia e professor em uma escola indígena no município de Dourados, Rosaldo Albuquerque Souza contribuiu, com o seu trabalho de mestrado, para divulgar a existência do povo indígena Kinikinau, indicando meios de sustentabilidade, tanto comercialização do mel extraído pelos homens quanto pelo comércio da cerâmica produzida pelas mulheres. “Na busca de minha origem e identidade, mostro que uma  comunidade Kinikinau resiste com mais de 50 famílias”, afirma. “Apesar de viverem por longos anos de forma oculta, sem declarar ao público sua identidade étnica, preservaram grande parte de raízes identitárias, como a arte, as manifestações culturais e a alimentação tradicional”, diz.Para Francisco de Moura Cândido, da comunidade Apurinã, autor da dissertação BR 364: análise da sustentabilidade das medidas mitigatórias e compensatórias na Terra Indígena Colônia 27 no estado do Acre, a lição é simples e ancestralmente praticada: “sustentabilidade é poder viver harmonicamente com outros seres do ecossistema, ou seja, quando um homem encontra um pé de fruta, não colhe rodas, pois se lembra do papagaio, da paca, da cotia que dela se alimentam, deixando ainda os caroços para que nasçam outros pés”.
Marcos Terena atuou como observador externo nas bancas de mestrado
OBSERVADOR - Um dos maiores líderes indígenas brasileiros, o ativista Marcos Terena, exerceu a função de “observador externo” e de “convidado de honra” em algumas das bancas de mestrado nesse primeiro ciclo de defesas. Além dos tradicionais examinadores, a figura do observador externo foi incorporada ao rito devido à importância de se imprimir um olhar credenciado na compreensão da lógica e visão do mundo indígena. Para ele, “a iniciativa da UnB a coloca na frente por criar um cenário conturbador para a academia, agregando outros saberes e olhares étnicos e interculturais”. Segundo sua avaliação, “mesmo os índios, vindo de uma tradição oral, respeitam os códigos e metodologias da academia, incorporando essa estratégia como forma de empoderamento. Quando fazem isso, assumem a condição de recontar não só a  história do seu povo, mas a própria história do país, em geral invizibilizada pelo sistema”.Othon Leonardos, professor aposentado do CDS e um dos responsáveis pela criação do curso, afirma que o “índio é o mais legitimado a atuar como indigenista na defesa de suas terras e valorização identitária de seus povos”. De acordo com sua avaliação, a experiência desse mestrado profissional é a confirmação de que a Universidade não está fechada para o mundo, com um curso que permite dialogar saberes, inclusive os dito não científicos. “Se a ciência é a busca da verdade e a metodologia científica costuma apriosionar, os outros saberes e conhecimentos merecem ser reconhecidos como verdade”.Para o professor, “nosso país, nosso imenso e maravilhoso Brasil não percebeu ainda que sua alma é indígena. Afinal, como não reconhecer nossa ligação com a voz dos ventos, a riqueza dos rios, montanhas, a sabedoria emanada da própria terra?”.
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http://www.unbciencia.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&id=560%3Aunb-forma-seus-primeiros-mestres-indigenas&catid=91%3Adesenvolvimento-sustentavel. Enviada por Tsitsina para Cedefes.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Debate inacabado


Por CENPAH
Documentário Raça, de Joel Zito Araújo e Megan Mylan, cumpre bem o papel de captar a questão racial no Brasil. O desafio é conquistar o público e fazê-lo refletir
Joel Zito Araújo é um dos maiores cineastas brasileiros, principalmente ao abordar questões de gênero e, mais ainda, a racial, nitidamente intencional em suas obras. Foi assim em ‘O efêmero estado, União de Jeová’ (1999), história de Udelino de Matos, homem que tentou formar um estado camponês no norte do Espírito Santo na década de 1950 com a população majoritariamente negra. Em 2001, ‘A Negação do Brasil’ jogou luz sobre a invisibilidade do negro na dramaturgia brasileira (o filme, com pesquisa primorosa do cineasta, virou um livro referência no assunto). Em 2004, ‘Filhas do Vento’ fez história, ganhou vários prêmios, entre eles, oito Kikitos em Gramado. No elenco, atores experientes como Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Léa Garcia e Zózimo Bulbul dividem com outros jovens e promissores talentos (entre eles, Taís Araújo, Thalma de Freitas e Rocco Pitanga), personagens cheios de nuances, ricos em suas construções e bem diferentes daqueles estereotipados e ‘reservados’ a atores negros. A abordagem gira em torno do amor e de conflitos familiares, retratando dramas femininos comuns a qualquer mulher, mas acentuados pela sombra do racismo e da escravidão.
Em 2009, com ‘Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado’, Joel Zito botou o dedo na ferida em um assunto até muito explorado pela mídia: o turismo sexual nas regiões Norte e Nordeste do Brasil e, como consequência, a pedofilia e o racismo -, mas que ganhou uma conotação mais humana do diretor.
Com currículo enxuto, mas extremamente respeitado e premiado, ninguém melhor que Joel Zito para explorar, de forma mais direta, a questão racial no Brasil nos últimos anos. O documentário ‘Raça’ (produzido em parceria com a premiada documentarista norte-americana Megan Mylan) apresenta temas que se completam, especialmente em relação à política: a “batalha” de dez anos até aprovação do Estatuto da Igualdade Racial no Congresso Nacional; a legitimidade quilombola e o respeito às tradições e culturas negras, e a invisibilidade do negro nos meios de comunicação pela ótica da criação da TV da Gente, canal de televisão cuja maioria dos profissionais era negro.
Cada um dos assuntos abordados tem seu personagem principal, acompanhados pela produção do filme entre 2005 e 2011. No conjunto da obra, os três pilares atestam com clareza as muitas conquistas da população negra brasileira nas áreas da educação, da cultura, da política e da religião. Mas, se analisados isoladamente, deixam no ar alguns questionamentos pela forma como cada personagem é colocado e, principalmente, entendido pelo público.
A Luta Pelo Estatuto, Pelo Direito e Pela Visibilidade
Os esforços do senador Paulo Paim – autor do projeto original do Estatuto da Igualdade Racial – para que o mesmo fosse aprovado é um dos pontos altos do filme. Na mídia em geral, o assunto sempre foi tratado em notas de rodapé, portanto, vale muito acompanhar os meandros dessa negociação política, algo que Joel Zito e sua equipe tiveram o privilégio de registrar. “Eu não quero nada.
Só deem oportunidade para um povo que foi sempre excluído. Só quem é negro sabe o quanto que é difícil essa caminhada”, diz Paim, com ênfase, em uma de suas falas marcantes reproduzidas no documentário. Destaque também para as cenas de bastidores, das conversas ao pé do ouvido entre os envolvidos e dos calorosos discursos que deram o tom para a aprovação do Estatuto. Chama a atenção algumas aparições do então senador Demóstenes Torres (contrário à discussão) e, mais ainda, a fala sem noção – prontamente rebatida por Paim – em que Demóstenes afirma “que a miscigenação brasileira não ocorreu pelo estupro das mulheres negras na época da escravidão, pois tudo era feito de forma consensual.”
O recorte é, sem dúvida, uma ótima oportunidade de vermos um político sério e combativo em pleno exercício de sua profissão. Coisa rara nessa esfera…
Do outro lado da luta por igualdade e respeito, está Miúda dos Santos, neta de africanos escravizados, moradora do Quilombo de Linharinho, no Espírito Santo, outra personagem do filme Raça. A briga por lá, diretamente falando, é contra a poderosa Aracruz, do ramo de celulose.
A empresa, desde a década de 1970, vem invadindo as terras do Linharinho, limitando o espaço para a cultura, a prática religiosa de matriz africana e costumes tradicionais.
“Ficamos confinados”, relembra Miúda em trecho que mostra a preparação e a execução de um protesto quilombola em uma rodovia. Com a estrada fechada, fica fácil perceber pela lente da câmera o quanto surpresos ficam os motoristas ao saberem o real motivo do protesto. Algo desconhecido e até legítimo para muitos, desde que possam logo acelerar seus carros e seguir em frente. Mas a questão quilombola é mostrada no documentário com a importância que merece ter. Cenas da terra, da simplicidade do povo, da dança e da religiosidade afro-brasileira dão o tom da legitimidade (insisto na palavra) do tema que, diga-se de passagem, avançou em termos de direito, preservação e demarcação de terra nos últimos anos.
A invisibilidade do negro na mídia vem pela figura de Netinho de Paula e os bastidores da criação de seu canal, a TV da Gente, mas que teve vida curta. No entanto, é possível perceber, principalmente nas imagens da inauguração do canal, a emoção da comunidade negra pelo pioneirismo da iniciativa. As lágrimas da veterana Zezé Motta chamam a atenção. Muitos parecem nem acreditar naquilo. Mas a importância do assunto se perde um pouco ao amarrar tal conquista no visível deslumbramento de Netinho diante de seu feito. As cenas do hoje titular da Secretaria de Igualdade Racial de São Paulo, em visita aos Estados Unidos, e também em um de seus shows culpando os “brancos” pelas dificuldades que a TV da Gente já apresentava, são, no mínimo, desnecessárias e provocativas, porém, do ponto de vista de Joel Zito, podem ter sido intencionais.
Fomento Necessário
Esses três assuntos que permeiam o documentário ‘Raça’, mostrados e misturados sem roteiros em cortes e definições de cenas feitas por quem realmente sabe de cinema, são o trunfo da obra que, creio, não se propõe a ganhar prêmios e menções honrosas. Em suas produções, Joel Zito tem como marca principal mexer com a cabeça de quem as vê, provocar questionamentos, colocar a sociedade em movimento pensante e contínuo diante de assuntos históricos e polêmicos.
Com ‘Raça’ não será diferente! Vou torcer muito para que o filme ganhe a visibilidade que merece, que conquiste muitas salas de projeção, que seja exibido nos quase 300 festivais de cinema que temos por ano no país, que ganhe destaque e que faça o mesmo ‘barulho’ dos blockbusters enlatados e das comédias pastelões que hoje dominam o mercado cinematográfico e que repercutem nas ruas.
Na primeira exibição do documentário ‘Raça’, realizada no Cine Odeon, na Mostra Prémiere Brasil do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, a casa estava cheia. Foi bacana ver olhos atentos na telona em busca da visibilidade de sua gente, de sua história, de suas raízes…
Bem, no final da sessão, merecidos aplausos ecoaram pela sala, mas um ponto me deixou inquieto. Netinho declarou que o filme “era o primeiro reality show negro do Brasil”, afirmação que veio acompanhada de mais e mais aplausos. A simples definição desses programas, já popularizados por aqui como algo de gosto duvidoso, já soa em minha cabeça como um grande oba-oba.
A obra de Joel Zito passa longe desse conceito. Não é reality, é debate! Não é diversão, é informação! E quero crer que esse rico material mostrado por meio da magia do cinema possa sim fomentar, de forma mais efetiva, a discussão racial e social no Brasil (principalmente entre os jovens) e, de quebra, limpar algumas poeiras políticas e empresariais que foram escondidas debaixo do tapete.

http://cenpah.wordpress.com/2012/12/20/debate-inacabado/

Nota do GT Combate ao Racismo Ambiental em apoio ao Quilombo do Rio dos Macacos, Bahia


José Rosalvo de Souza, 48 anos, mostra as inúmeras cápsulas encontradas diariamente pelos quilombolas, residentes na comunidade Rio dos Macacos, ao lado da base naval de Aratu (BA). Segundo eles, os disparos são realizados constantemente, como forma de intimidação
Manifestamos nossa solidariedade e apoio absolutos às mulheres, homens, adultos, crianças, jovens e idosos de  Rio dos Macacos, por entendermos que esta Comunidade Quilombola tem o direito de existir em sua cultura, trabalho, sonhos e afetos. E nada mais óbvio e justo que o façam na sua terra ancestral, por ela cuidada e vivida, apesar de toda a pressão e violências que vem sofrendo pela Marinha do Brasil desde a década de 1960, através de fatos já amplamente publicizados. Frente a essas violências, é dever impreterível do Estado garantir essa existência em dignas condições materiais e imateriais, de participação política e exercício do direito de decidir sobre o território onde constroem suas histórias individuais e coletivas.
No Brasil, o Estado sempre foi um dos principais agentes do genocídio dos povos, o elaborador e executor de políticas de exclusão, de submissão, opressão e extermínio de indígenas e negros. Sabe-se que os aparelhos repressores do Estado sempre estiveram majoritariamente a serviço dos interesses dos poderes dominantes – política, cultural e economicamente. Também não é novidade para ninguém o quanto as populações negras e indígenas foram excluídas e subtratadas na democracia instituída em bases elitistas e racistas que constituem a história deste País.  Porém em diferentes conjunturas políticas a sociedade civil e os movimentos sociais lograram construir pressões e importantes modificações nos caminhos do Estado e no fazer político, tendo o reconhecimento dos direitos humanos como um importante mecanismo de construção de justiça e igualdade. É nesse contexto que emergem os direitos dos quilombolas e indígenas, assim como outras conquistas institucionais antirracistas.
É dentro desse esforço de construção de uma nação efetivamente democrática que os quilombolas de Rio dos Macacos, com todas as dificuldades e em meio a tantas  desigualdades, vêm fazendo sua parte, denunciando as violações que enfrentam e conquistando amplo apoio popular e das instituições. Além disso, estabelecem diálogos com representantes dos diferentes poderes públicos. Nessa luta, lideranças são ameaçadas de morte, mulheres, idosos e crianças são vulnerabilizados, e todos sofrem constantes torturas psicológicas, ante o poder de fogo da Marinha, que quer tomar o território da comunidade em nome de uma suposta segurança nacional, embora aparentemente incapaz de assegurar os direitos de seus concidadãos quilombolas. Será por que são pessoas negras, herdeiras de uma história de violências racistas que o Brasil tanto nega?
É altamente repudiável, que após tantas conquistas, as autoridades brasileiras se mantenham incapazes de resolver questões tão básicas, como  é o caso do direito dos quilombolas de Rio dos Macacos ao seu território ancestral.  Num tempo em que os direitos humanos são peças de políticas públicas, em que as campanhas políticas se baseiam no discurso do bem estar geral, é inadmissível que um Estado que tanto se arvora em construtor do desenvolvimento e responsável pela melhora do País seja incapaz de garantir os direitos de 67 famílias a 301 hectares de terras, que minimamente garantiriam a vida e a reprodução material do Quilombo Rio dos Macacos.
Brasil, 21 de dezembro de 2012.
Integrantes do GT Combate:
Entidades:
  1. AATR – Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – Salvador – BA
  2. Amigos da Terra Brasil – Porto Alegre – RS
  3. ANAÍ – Salvador – BA
  4. Associação Aritaguá – Ilhéus – BA
  5. Associação de Moradores de Porto das Caixas – Itaboraí – RJ
  6. Associação Socioambiental Verdemar  – Cachoeira – BA
  7. CEDEFES (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva) – Belo Horizonte – MG
  8. Central Única das Favelas (CUFA-CEARÁ) – Fortaleza – CE
  9. Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA) – Belém – PA
  10. Centro de Cultura Negra do Maranhão – São Luís – MA
  11. Coordenação Nacional de Juventude Negra – Recife – PE
  12. CEPEDES (Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia) – Eunápolis – BA
  13. CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) -  São Paulo – SP
  14. CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores) Nacional
  15. CPP BA – Salvador – BA
  16. CPP CE – Fortaleza – CE
  17. CPP Nordeste – Recife (PE, AL, SE, PB, RN)
  18. CPP Norte (Paz e Bem) – Belém – PA
  19. CPP Juazeiro – BA
  20. CPT – Comissão Pastoral da Terra Nacional
  21. CRIOLA – Rio de Janeiro – RJ
  22. EKOS – Instituto para a Justiça e a Equidade –  São Luís – MA
  23. FAOR – Fórum da Amazônia Oriental – Belém – PA
  24. Fase Amazônia – Belém – PA
  25. Fase Nacional (Núcleo Brasil Sustentável) – Rio de Janeiro – RJ
  26. FDA (Frente em Defesa da Amazônia)  – Santarém – PA
  27. FIOCRUZ – RJ
  28. Fórum Carajás – São Luís – MA
  29. Fórum de Defesa da Zona Costeira do Ceará – Fortaleza – CE
  30. FUNAGUAS – Terezina – PI
  31. GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra  – São Paulo – SP
  32. Grupo de Pesquisa da UFPB - Sustentabilidade, Impacto e Gestão Ambiental – PB
  33. GPEA (Grupo Pesquisador em Educação Ambiental da UFMT) – Cuiabá – MT
  34. Grupo de Pesquisa Historicidade do Estado e do Direito: interações sociedade e meio ambiente, da UFBA – Salvador – BA
  35. GT Observatório e GT Água e Meio Ambiente do Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)  - Belém – PA
  36. IARA – Rio de Janeiro – RJ
  37. Ibase – Rio de Janeiro – RJ
  38. INESC – Brasília – DF
  39. Instituto Búzios – Salvador – BA
  40. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense – IF Fluminense – Macaé – RJ
  41. Instituto Terramar – Fortaleza – CE
  42. Justiça Global
  43. Movimento Cultura de Rua (MCR) – Fortaleza – CE
  44. Movimento Inter-Religioso (MIR/Iser) – Rio de Janeiro – RJ
  45. Movimento Popular de Saúde de Santo Amaro da Purificação (MOPS) – Santo Amaro da Purificação – BA
  46. Movimento Wangari Maathai – Salvador – BA
  47. NINJA – Núcleo de Investigações em Justiça Ambiental (Universidade Federal de São João del-Rei) – São João del-Rei – MG
  48. Núcleo TRAMAS (Trabalho Meio Ambiente e Saúde para Sustentabilidade/UFC) – Fortaleza – CE
  49. Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego – Macaé – RJ
  50. Omolaiyè (Sociedade de Estudos Étnicos, Políticos, Sociais e Culturais)  – Aracajú – SE
  51. ONG.GDASI – Grupo de Defesa Ambiental e Social de Itacuruçá – Mangaratiba – RJ
  52. Opção Brasil – São Paulo – SP
  53. Oriashé Sociedade Brasileira de Cultura e Arte Negra  – São Paulo – SP
  54. Projeto Recriar – Ouro Preto – MG
  55. Rede Axé Dudu  – Cuiabá – MT
  56. Rede Matogrossense de Educação Ambiental – Cuiabá – MT
  57. RENAP Ceará – Fortaleza – CE
  58. Sociedade de Melhoramentos do São Manoel – São Manoel – SP
  59. Terra de Direitos
  60. TOXISPHERA – Associação de Saúde Ambiental – PR
Participantes individuais:
  1. Ana Almeida – Salvador – BA
  2. Ana Paula Cavalcanti – Rio de Janeiro – RJ
  3. Angélica Cosenza Rodrigues - Juiz de Fora – Minas
  4. Carmela Morena Zigoni – Brasília – DF
  5. Cíntia Beatriz Müller – Salvador – BA
  6. Cláudio Silva – Rio de Janeiro – RJ
  7. Daniel Fonsêca – Fortaleza – CE
  8. Daniel Silvestre – Brasília – DF
  9. Danilo D’Addio Chammas – São Luiz – MA
  10. Diogo Rocha – Rio de Janeiro – RJ
  11. Florival de José de Souza Filho – Aracajú – SE
  12. Igor Vitorino – Vitória – ES
  13. Janaína Tude Sevá – Rio de Janeiro – RJ
  14. Josie Rabelo – Recife – PE
  15. Juliana Souza – Rio de Janeiro – RJ
  16. Leila Santana – Juazeiro – BA
  17. Luan Gomes dos Santos de Oliveira – Natal – RN
  18. Luís Claúdio Teixeira (FAOR e CIMI) Belém- PA
  19. Maria do Carmo Barcellos – Cacoal – RO
  20. Maurício Paixão – São Luís – MA
  21. Mauricio Sebastian Berger – Córdoba, Argentina
  22. Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio – São Carlos - SP
  23. Pedro Rapozo – Manaus – AM
  24. Raquel Giffoni Pinto – Volta Redonda – RJ
  25. Ricardo Stanziola – São Paulo – SP
  26. Ruben Siqueira – Salvador – BA
  27. Rui Kureda – São Paulo – SP
  28. Samuel Marques – Salvador – BA
  29. Tania Pacheco - Rio de Janeiro – RJ
  30. Telma Monteiro – Juquitiba – SP
  31. Teresa Cristina Vital de Sousa – Recife – PE
  32. Tereza Ribeiro   – Rio de Janeiro – RJ
  33. Vânia Regina de Carvalho – Belém – PA

O CEN-Coletivo de Entidades Negras, MNU-Movimento Negro Unificado e a FNQ-Frente Nacional Quilombola tamém subscreve esse manifesto.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Rede Ewò


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Apesar de melhora, médicos optam por manter Mandela internado


Os médicos do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela não estão com pressa permitir que deixe o hospital onde se encontra internado desde 8 de dezembro, indicou o presidente Jacob Zuma em um comunicado. "Os médicos estão satisfeitos com seus progressos, em relação a sua idade. Dizem que não há crise, mas acrescentam que não estão com presssa em enviá-lo para casa, até que fiquem satisfeitos em ver progressos suficientes", declarou o chefe de Estado.
Nelson Mandela está se recuperando de uma operação por cálculos biliares realizada no sábado passado, oito dias depois do herói da luta contra o apartheid ter sido hospitalizado por uma infecção pulmonar.
Esta é a internação mais prolongada de Nelson Mandela - que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1993 - em um hospital desde janeiro de de 2011, quando o ex-presidente sofreu outra infecção pulmonar, provavelmente ligada às sequelas de uma tuberculose contraída durante os 18 anos que passou na prisão de Robben-Island.
Mandela deixou a presidência sul-africana após um mandato e em 2004 anunciou sua retirada da vida pública. Sua última aparição pública ocorreu em 2010, na Copa.
Fonte: http://noticias.terra.com.br/mundo/africa/apesar-de-melhora-medicos-optam-por-manter-mandela-internado,6a83f4ff6c7ab310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html?ECID=BR_RedeSociais_Facebook_0_Noticia

Incra assume compromisso de criar Biblioteca Virtual Quilombola


Um termo de compromisso firmado pela Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), e a Fundação Cultural Palmares vai permitir a criação da Biblioteca Virtual Quilombola.
O espaço disponibilizado na rede mundial de computadores tem por objetivo dar visibilidade aos estudos e memórias das comunidades quilombolas no Brasil. O compromisso público de construir, disponibilizar e manter a biblioteca foi assumido durante a 8ª edição da Feira Nacional de Agricultura Familiar e Reforma Agrária (Fenafra), em novembro, diante de uma plateia formada majoritariamente por quilombolas.
Para o presidente do Incra, Carlos Guedes de Guedes, esse trabalho se incorpora a um conjunto de ações para dar transparência às atividades da autarquia e prestação de conta ao público beneficiário. “Começamos a dar acesso público ao que já fizemos no sentido de reconhecer a titularidade de territórios quilombolas e a memória desses povos. É com muito orgulho que colocamos à disposição da sociedade essa parte da história brasileira que está sendo contada por meio do trabalho do Incra”, afirmou.
Biblioteca Virtual
Será montado um Atlas das comunidades quilombolas brasileiras com base nas informações consolidadas nos Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTIDs), elaborados pelo Incra no bojo do processo de titulação fundiária dessas comunidades. A intenção é que essa obra seja de informação e formação das próprias comunidades e referência para estudiosos do tema.
Além das informações digitais, o compromisso assumido também garante a produção de fascículos impressos relativos a cada comunidade quilombola, destinada ao uso pedagógico nas próprias comunidades. A ideia é que os volumes sirvam como material didático de apoio à implementação da lei 10.639 e ao desenvolvimento de uma educação específica em cada uma das comunidades.
Atualmente, o Incra dispõe de 152 RTIDs completos já publicados, sendo prevista a disponibilização dos demais, assim que o forem elaborados, tanto na forma dos fascículos destinados às comunidades quanto na forma da biblioteca digital.
Com informações do Incra.
Compartilhada por Sandrah Guarani-Kaiowá.
http://www.seppir.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2012/12/incra-assume-compromisso-de-criar-biblioteca-virtual-quilombola

Tambor de Crioula recebe título de Patrimônio Cultural do Brasil


Na última sexta-feira, dia 14 de dezembro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Maranhão (IPHAN-MA) realizou a cerimônia de titulação do Tambor de Crioula, manifestação da cultura popular registrada em 18 de junho de 2007 no Livro de Registro das Formas de Expressão como Patrimônio Cultural do Brasil. A cerimônia aconteceu no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, na Praia Grande.
Estiveram presentes na solenidade representantes dos grupos de Tambor de Crioula de São Luís, Paço do Lumiar, São José de Ribamar, além das instituições que congregam os grupos – IPHAN-MA, representado pela superintendente Kátia Bogea; a Comissão Maranhense de Folclore, na figura de Sérgio Ferretti e a secretária de Estado de Cultura (Secma), Olga Simão – e outras autoridades.
Antes da cerimônia, o Comitê Gestor da Salvaguarda do Tambor de Crioula promoveu uma reunião com representantes dos 100 grupos do município da Ilha de São Luís. Além disso, o coordenador geral do comitê, Neto de Azile, apresentou as ações desenvolvidas pelo Comitê no ano de 2012 e do plano de trabalho elaborado para o próximo ano. O IPHAN entregou 100 certificados e, em seguida, uma roda de tambor foi realizada na Praça Valentino Cécio para festejar o título do primeiro bem cultural maranhense registrado pelo IPHAN.
O título de Patrimônio Cultural também mobiliza recursos públicos dos governos Federal e Estadual que serão aplicados na proteção do Tambor de Crioula. Com esses recursos, que envolvem um convênio assinado entra IPHAN-MA e Secma de R$ 500 mil na execução do projeto Salvaguarda do Tambor de Crioula. Esses investimentos possibilitarão a realização de encontros, festivais, oficinas e seminários voltados para os praticantes do tambor com objetivo de valorizar e preservar a preservação dessa expressão cultural maranhense. Ainda está prevista a produção de vídeos, gravação de CDs e a compra de equipamentos para o Centro de Referência do Tambor.
http://portal.iphan.gov.br/portal/montarDetalheConteudo.do?id=17093&sigla=Noticia&retorno=detalheNoticia

sábado, 15 de dezembro de 2012

Angela Davis: “Enfrentamos hoje um racismo mais perigoso”


Os gestos sutis e comedidos de Angela Davis, 68, enquanto conversa, quase não lembram a imagem que correu o mundo da jovem revolucionária que integrou os Panteras Negras, nos Estados Unidos. Sua prisão, após envolvimento numa ação para libertar jovens negros acusados de matar um juiz, mobilizou o mundo nos anos 1970. Tema de músicas de John Lennon e Yoko Ono (Angela), além dos Rolling Stones (Sweet Black Angela), a hoje professora da Universidade da Califórnia continua ativista.
Seu espaço de luta é o movimento anticarcerário e a mobilização de mulheres. Em ambos, ela enfatiza que o racismo continua muito presente, mesmo no país que reelegeu como presidente Barack Obama. “Pessoas que estão encarceradas dizem que um homem negro na Casa Branca não é suficiente para anular um milhão de homens negros na casa-grande, ou seja, no sistema carcerário”.
Ela conversou com a Muito na sua quarta passagem pela Bahia, onde teve como principal compromisso participar de um fórum na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira, no dia 20 de novembro.
Como foi a sua  experiência no Fórum 20 de Novembro,  no campus da Universidade Federal do Recôncavo, em Cachoeira?
Fiquei bastante impressionada com o evento, mas também em perceber como a universidade se expandiu. É uma instituição pública federal majoritariamente negra, com ações afirmativas. Deveria ser um exemplo para os EUA. Lá, as ações afirmativas estão sendo questionadas e abolidas.
No Brasil, vivemos um momento em que o entendimento sobre a importância das ações afirmativas consolidou-se na universidade e nos movimentos sociais. Mas parte da sociedade e da mídia tem dúvidas. Qual a situação dessas medidas nos EUA? 
No contexto atual, o Brasil está bem à frente dos Estados Unidos, no que diz respeito à implementação das ações afirmativas. Lá, nos anos 1990, vários programas nesse sentido foram juridicamente eliminados.
Quais as principais consequências desse processo?
Há mais homens negros encarcerados nos EUA do que nas universidades.  Há um milhão de homens negros na cadeia. Temos  que avaliar o que leva um homem negro a chegar a esse ponto. Se não há oportunidade para ingresso no setor da educação formal, se não há assistência à saúde, condições de habitação e de lazer, a prisão se torna a única alternativa viável. Fiquei muito feliz em saber que o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil manteve o programa de ações afirmativas nas universidades brasileiras.
Este é um ponto-chave para o combate às desigualdades?
As políticas de ações afirmativas, quando praticadas repetidamente, têm um poder de transformação bastante significativo. Existe a pressuposição de que as ações afirmativas estão beneficiando indivíduos de tal maneira que prejudicam outros. Mas essa é uma interpretação incorreta sobre as ações afirmativas. Essas ações não dizem respeito à ascensão individual. O objetivo  é a ascensão de comunidades que foram afetadas desproporcionalmente por legislações e pelo racismo que remetem à época da escravidão.

http://www.abpn.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2534%3Aangela-davis-qenfrentamos-hoje-um-racismo-mais-perigosoq-&catid=1%3Anoticias&Itemid=24&lang=pt

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