quarta-feira, 19 de junho de 2013

Mobilização pública e o local de cada um!


Por Marcos Rezende*

As mobilizações que acontecem em todo o Brasil deixam, dentre outros fatores, diversas mensagens que não só de facebook ou tuitadas, através dos seus breves 144 caracteres. Primeiro é importante salientar a justeza de que as mobilizações sociais se transversalizam nas gerações, pelas mais variadas formas e motivadas pelos mais diversos fatores catalizadores. Mudam-se os tempos e permanece a vontade de mudança positiva, a busca por um lugar plural, onde caiba todos nós.

Interessante é o não lugar deste debate, porque a mudança de direção da mídia tradicional demonstra o quanto é necessário urgentemente avançar na construção de um país democrático e garantir o direito da comunicação para todos e todas; quem poderia imaginar a Rede Globo sendo expulsa durante as filmagens da manifestação de ontem na cidade de Salvador? Ou mesmo a mudança de rumos da Folha de São Paulo que trocou a denominação do movimento de “vândalos” para a de “lutadores por um país melhor”?

A maioria das manifestações que tem ocorrido nas capitais e outras cidades do país diz respeito a nós, às nossas vidas. Elas não são meramente reproduções de manifestantes ingênuos que resolveram ser utilizados pela esquerda ou pela direita contra o PT, ou um governo qualquer. A manifestação é o grito, inclusive de muitos militantes do PT, que há tempos da parte debaixo do partido e em sintonia com as bases dizia: a tecnocracia por sí só não resolve; o desenvolvimentismo sozinho não será a solução, mas sim, o enfrentamento mais cotidiano ao capital e as suas formas de expropriação. 

Os gritos atingem a todos! Faz-se necessária uma autoanalise, o olhar-se no espelho com a compreensão de que mais do que estádio, a população prefere aos índios, mas do que hidroelétrica de Belo Monte as comunidades ribeirinhas, mais do que redução de IPI, investimento em transporte público de qualidade e aumento de ciclovias, mais do que agro-negócio, reforma agrária e ampliação de serviços para as pessoas do campo. Não se encaixam mais banqueiros, empresários, políticos e gestores corruptos fazendo o que bem entendem de um lado e a prisão para pretos e pobres, ou um debate sobre a redução da maioridade penal sem análise de causa e efeito de outro. As manifestações criticam o conservadorismo das igrejas espalhadas por aí, e gritam por respeito às diferenças de um estado plural, laico e diverso. Questiona-se onde estão os pastores evangélicos retrógrados, os Malafaias e Felicianos da vida?

São várias as bandeiras e as manifestações vêm acontecendo forma difusa. Aqui em Salvador, na quinta-feira, eu quero poder olhar na face de cada policial e perguntar: vai fazer o que agora? Quando das manifestações por aumento de salário, a polícia pede suporte e o apoio da população. E agora, como fará? Em estados onde os governos são mais reacionários a tendência tem sido o sarrafo e o chicote. Em locais onde a tradição é mais a esquerda, tende-se ao diálogo frente a confrontação. Aqui na Bahia veremos o próximo episódio com a ampliação dos processos estabelecidos.
Quero poder dizer aos policiais que isto é a democracia, e espero não ser preso ou agredido por tal. Mais do que isto, importante salientar que as pessoas não deveriam se assustar tanto com uma manifestação como esta, e sim se alegrar. O governador Geraldo Alckmin, ao não conversar ou rever a sua postura, fez um grande favor ao Brasil, pois muitas manifestações surgiram em apoio a São Paulo, e espero, inclusive, que isto sirva para que os paulistas sejam mais solidários aos nordestinos e para que mudem posturas históricas e preconceituosas contra nós.

A lição também deve servir para aqueles que sentiram a dor do tiro de borracha, do gás lacrimogênio, a violência da polícia montada, pois a história deve servir de esteio para relembrar os horrores da ditadura, do Brasil Outros 500, em Porto Seguro, ou do maio de 2001, em Salvador, quando da violação do painel eletrônico do congresso Nacional e do absurdo da PM de ACM, ao entrar em uma área federal da UFBA e agredir os manifestantes. É importante salientar estes elementos, pois tem gente que diz sentir saudades da ditadura e de determinados tipos de políticos, sem ter vivenciado os absurdos que foram aqueles anos.

Não podemos esquecer também de fazer uma análise aos tiros de borracha que resultaram em uma série de feridos, como a repórter da Folha, sem trazer a baila a forma como, nas favelas e periferias deste país, os negros e pobres são tratados pela brutalidade policial, mas sem direito a imagem e sem direito a contar as suas versões, ficando expostos a tendenciosa notícia dos tradicionais veículos de comunicação, pois, nestas comunidades, as balas são de verdade e os corpos ficam jogados no chão sujeitos à imagem de bandido, mesmo que a polícia não elucide 2% dos crimes nestes bairros e mais de 90% nos bairros nobres.

Como não reparar nas abordagens abusivas dos policiais, sob a égide de revista, para incriminar as pessoas por carregarem vinagre. Sim vinagre, que em caso de bombas de gás lacrimogênio ajuda a abrir as vias respiratórias e amenizar a falta de ar. Agora, imagine o cotidiano de dentro dos ônibus, e pior, o aviltamento nas comunidades periféricas, onde quem questiona qualquer coisa ou abordagem policial pode ir preso por desacato, ou mesmo ser morto ou desaparecer. Lá as balas são de verdade e as notícias dos corpos pretos espalhados pelo chão ou presos não geram comoção, mas sim acusação. Foi o que vimos quando a repórter da Band montou um tribunal de excessão e sentenciou um jovem negro de estuprador no meio de uma entrevista ao vivo. É o que vemos cotidianamente nos programas sensacionalistas exibidos por todo o Brasil.

Ao que li hoje, a presidenta Dilma elogiou o movimento e disse que eles são próprios da juventude e das inquietações necessárias da sociedade. Não poderia ser diferente, pois quem esteve nos porões da ditadura por lutar contra o regime de outrora, no mínimo jogaria a sua história pela janela se pensasse em negar a importância de tais atos. 

Os protestos que vêm ocorrendo em todo o Brasil são legítimos e representam o legado de um estado democrático de direito; quem se posicionar de forma diferente a isto, está violentando a própria democracia.

Estas ações que estão acontecendo entram para a história, mas como já disse para alguns amigos que gostam de RAP, não pensem que antes de vocês não já existia os blocos afros, assim como disse aos blocos afros e afoxés que antes já tinha o samba, e antes o lundu. Ou seja, este gigante negro nunca dormiu! Mesmo porque acorda cedo todos os dias para pegar no batente e dorme tarde para deixar a comida das crianças pronta para o dia seguinte. Este Brasil de negros, de mulheres, de sindicatos, de quilombolas, de sem terra, de estudantes, de homossexuais, etc. sempre se mexeu, e este momento é a soma, o desaguar de manifestações históricas.
A rua está dizendo queremos mais, chega de retrocesso. 

Precisamos de mais. Bolsa-família é legal, minha casa minha vida é legal, luz para todos é legal, água para todos é legal, cotas é legal, mas precisamos de mais. De mais saúde, de segurança da vida ao invés do patrimônio, de educação, de cultura, de diminuição de todo o tipo de violência contra o cidadão. Precisamos de pautas que nos façam avançar e alcançar a liberdade plena, dos negros, das mulheres, dos estudantes, dos sem terra, dos trabalhadores, dos indígenas, dos quilombolas.

O importante é apontar para os nossos governantes que o povo tem lado e temos sempre que estar do lado do povo. Para a juventude que neste momento grita que o mundo se muda na rua, parabéns! Até o final de semana nos encontramos de novo, mais fortes e mais coesos, com panfletos, bandeiras, calçados ou descalços, pois como diria Gonzaquinha: “A gente quer viver pleno direito, a gente quer viver todo respeito, a gente quer viver uma nação ,a gente quer é ser um cidadão.”

* Marcos Rezende é Coordenador Geral do Coletivo de Entidades Negras

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