sexta-feira, 26 de julho de 2013

Impressões sobre a luta do MPL em Salvador ou um chamado para o dia de hoje.



("Se a gente fala, fala, fala e não resolve nada não a gente reivindica e nada é nada não. Eles nem se sensibilizam, não nos estabilizam e dizem que não podem fazer nada não" Trecho da música Evangelização/Olodum)



Estamos em uma página com quase 5.000 pessoas. Nesta página durante algum tempo tivemos posicionamentos diversos. Aqui, neste campo das ideias e a depender das conjunturas que se desenhavam, aconteceram debates acalorados e tensões das mais diversas, entretanto hoje, vivemos um momento de unidade. Isto parece ser bom, mas só é bom, se for unidade na luta e pela luta. 

Por esta luta, não podemos nos permitir deixar as pessoas que ocuparam a Câmara Municipal de Salvador e concretizaram uma ação que tanto reclamamos como necessária, agora fiquem isolados. A verdade é revolucionária, ela deve nos unir sempre, e, ainda mais, quando temos um ideal. No momento o ideal do conjunto das forças aqui estabelecidas são os 7 pontos de pauta pela desocupação da Câmara. 

Nesta página, ouvi muita gente com posições firmes. Agora temos que ter firmeza de propósito. Hoje às 17h todos nós devemos ir às ruas. Este ir as ruas é o ir com motivos absolutamente concretos: os nossos 7 pontos de pauta e a solidariedade com o conjunto das nossas lutas e companheiros, pois eles só estão lá, por acreditar em nós que estamos aqui do lado de fora, e nós, temos que ter certeza da nossa confiança política neles.

A pauta colocada atinge um pai ou uma mãe, que faz investimentos altíssimos para que o filho estude, atinge o estudante e às péssimas condições a que estão expostos ao pegar ônibus velhos, sujos e caros em uma cidade cheia de engarrafamentos, atinge às pessoas com deficiência em ônibus que dificulta a acessibilidade, aos idosos e a dificuldade de subir em degraus altos, atinge aos motoristas que em um trânsito caótico se estressam, além se terem uma jornada de trabalho pesada e falta de sanitários nos finais de linha, atinge a toda a classe trabalhadora que acorda de madrugada e retorna para casa a noite e após um dia de batente pesado ainda pega ônibus lotado, atinge os que não pegam ônibus, mas que ficam expostos a compromissos com os que pegam e daí os horários são complexos de serem marcados, além do trânsito desumano e gasto de tempo de maneira absurda, atinge a aqueles que desejam uma cidade com mais bicicletas e menos poluição, mas que percebem a impossibilidade de fazê lo em um ambiente caótico. Atinge os negros expostos a situação vexatória das revistas nos ônibus de roteiros periféricos onde ainda se "analisam o perfil do marginal lombrosiano". Sem esquecer que estão mais expostos a caminhadas imensas, devido à impossibilidade de pagar o alto valor da tarifa do transporte urbano. Atinge violentamente as mulheres que sofrem o "sarro" em ônibus caros e lotados.

Apesar de parecer contraditório, atinge também os que têm carro e vivem entre engarrafamentos, buracos e a mercê das paradas dos ônibus em filas imensas, por não se ter um único corredor digno na cidade. Parece-me inconteste, de que o sistema todo foi construído para beneficiar empresários em detrimento da cidade e os debates sérios sobre mobilidade urbana existem, mas na prática os poderes constituídos não se debruçam com a responsabilidade necessária para debater tal tema, gerando uma sensação de abandono e impotência.

Ouso ainda dizer que quem enriquece com o sangue, suor, lágrimas, exploração e vidas desta cidade nem sequer mora nela, apenas desfruta das riquezas que ela produz e mantém uma imagem de bom moço por empregar pessoas por salários míseros e em situações deploráveis.

O momento é de entendimento e unidade. Quem leu este artigo até aqui pode estar pensando o quanto este texto é longo, enfadonho, pouco didático e remete a mais do mesmo, mas gostaria de registrar uma mensagem a mais: se estamos nos cansando de ler, imagine às pessoas que estão dentro da Câmara e que abdicaram das suas próprias vidas nestes últimos 4 dias em prol de toda uma sociedade? Agora imagine os que estão dormindo do lado de fora e que também abdicaram das suas famílias e conforto do lar. Imagine então que construímos esta posição política juntos, pois esta ação ousada e revolucionária é fruto dos debates que foram construídos nesta lista, como também nas assembleias públicas e nas manifestações das ruas do MPL.

Este artigo é um chamado a reflexão, sobre quem somos e de que lado estamos. É um texto de unidade de ação e luta, um texto desprovido de prepotência, ele não disputa opinião e não tem características de debate ideológico.

Este artigo só existe para dizer a mim e a cada um de nós que precisamos estar juntos, que devemos fortalecer os elos desta corrente e, mesmo com toda a nossa diversidade, seguir caminhando, porque somos os expropriados do sistema, somos os "anormais" e, "apesar de tanto não de tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade". Sabemos que apesar de tudo que já houve e do que possa vir a acontecer, já construímos um processo vitorioso.

Mesmo que o prefeito da cidade não tenha assumido as nossas vitórias, devido a arrogância e falta de diálogo com o movimento, é fato que já atingimos 2 dos 7 objetivos expostos na Carta de Reivindicação, mas sabemos também, que garantir direitos, não significa apenas atingir objetivos em processos reivindicatórios, mas acumular força, ideias, proposições e demarcar posição política para o bem de toda a cidade.

Por fim, não estamos marcando esta posição por birra e/ou intrigas palacianas ou partidárias como alguns políticos deram a entender, mas tão só e exclusivamente por amor, a esta tão sofrida e amada cidade do Salvador, pelos seus filhos que por aqui passaram e pelos nossos que ainda estão por vir.

Marcos Rezende, historiador, Coordenador do Coletivo de Entidades Negras (CEN) e mais um cidadão do MPL Salvador.

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