sábado, 3 de agosto de 2013

“O Brasil é um país estruturalmente racista”

Douglas em manifestação. Ao fundo, bandeira da UneAfro, entidade da qual faz parte
Douglas em manifestação. Ao fundo, bandeira da UneAfro, entidade da qual faz parte
 
Douglas Belchior, expoente do movimento negro brasileiro, é o novo blogueiro de CartaCapital. “Todo ano morrem 600 pessoas assassinadas pela polícia, a maioria negros”, dispara.
 
por Kelly Cristina Spinelli, CartaCapital
 
“Você não pode enfiar uma faca 9 polegadas nas costas de um homem e depois tirar 6 polegadas e dizer que você está fazendo progresso”.  A frase de Malcolm X, que foi um dos grandes defensores dos direitos dos negros nos Estados Unidos, é repetida por Douglas Belchior, 34, expoente do movimento negro brasileiro e novo blogueiro da Carta Capital, para ilustrar a situação racial no Brasil. “Menos de ¼ da história do Brasil aconteceu livre da escravidão. Até agora nós tivemos avanços pontuais, mas nenhuma grande mudança, especialmente de mentalidade.”
A primeira mudança de mentalidade que Belchior tenta promover é o combate à noção de que não existe racismo no Brasil. “O Brasil é um país estruturalmente racista, construído sobre a escravidão, e que nos anos 30 desenvolveu um discurso sui generis para substituir o discurso da supremacia racial, a grande criação política e ideológica de Gilberto Freyre, o Casa-Grande & Senzala, a ideia de uma miscigenação tranquila, que na verdade, serviu para que a população aceitasse contratar a mão de obra negra com o fim da imigração”, diz ele, professor de história formado pela PUC e membro do conselho da UneAfro Brasil.
No Brasil, não aconteceu a segregação violenta que tomou conta dos Estados Unidos, país de Malcom X, mas isso não significa que a vida dos negros tenha se desenvolvido de maneira muito melhor. “Pelo menos com a política de lá, o conflito racial apareceu mais marcado”, diz.
Por aqui, ele ressalta, o racismo está inserido no modo geral de ver o mundo e até em programas de televisão que aparentemente parecem grandes progressos como o Esquenta! de Regina Casé, na Globo. “Você vê e pensa que ele é ótimo, não é? Pensa que é um avanço, tá cheio de preto dando entrevista”, diz. “Mas depois você vê que é o mesmo estereótipo de sempre, a mesma representação do negro, do lugar do negro, as mesmas ideias”.
O racismo também aparece quando um policial “acha que todo preto que encontra é suspeito”, está estampado no número de mortes de negros anualmente. “Acho incrível que a Comissão da Verdade, o movimento pelos direitos humanos no Brasil esteja preocupado apenas com a ditadura. Por que a ditadura e não o conflito racial?”, questiona Belchior. “Todo ano morrem 600 pessoas assassinadas pela polícia, a maioria negros. Todo ano, morre um número superior ao de mortes na ditadura. Eu não desmereço o que aconteceu na ditadura, mas vamos olhar para a realidade?”
 
O caminho da educação
“Talvez se o policial que hoje tem 22 anos tivesse tido uma educação melhor, se tivesse aprendido mais sobre a história da cultura afro-brasileira, como determina a lei de 2003 que está sendo muito pouco cumprida, talvez ele não olhasse para os negros sempre como suspeitos”, diz Belchior, chegando ao ponto alto do que ele crê que é necessário para essa mudança de mentalidades: educação.
Belchior é defensor da política racial de cotas em universidades e atuante na UneAfro Brasil, uma das redes de cursinho que dá chance aos estudantes de baixa renda se prepararem para o vestibular. Ele mesmo só conseguiu entrar na PUC, na segunda tentativa, por causa de um desses cursinhos, e pôde se manter lá até se formar por causa de uma bolsa oferecida pela faculdade.
Nos cursinhos, os alunos aprendem para passar nas provas, mas também são convidados a repensar seu engajamento político, a “combater a descrença, a despolitização e o uso da política em benefício próprio que hoje está em vigor”. “Nunca a sociedade foi tão tomada pelos sentimentos conservadores da elite”, diz. “Os negros recebem educação racista, assim como as mulheres recebem educação machista. Tenho três filhos e uma filha, e sinto que a se gente não disputar cada palmo da educação deles, a sociedade vai educá-los para você,  porque já o papel da família não é o mesmo, o papel da escola não é o mesmo. Vai ser pelos meios de comunicação, que estão na mãos de reacionários, pelo Facebook, pela televisão.”
Belchior mantém um blog, o Negro Belchior, desde 2009. Nele, discute temas do cotidiano, analisa coberturas da imprensa sobre questões raciais, divulga eventos e incita discussões. E é ele que migra nesta sexta-feira, 2 de agosto, para o site de CaraCapital. “O movimento negro tem um olhar sobre o mundo, uma maneira de interpretar a cidade, é sobre isso que eu escrevo”, diz. O blog tem seus seguidores, mais seu alcance, até hoje, é local. “Agora, na Carta Capital, imagino atingir mais gente, e já estou até preparado para apanhar mais, já que o que eu digo não agrada todo mundo”, ri.

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