segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Segurança pública e a naturalização da morte negra

foto douglas belchior
Por Douglas Belchior, em Negro Belchior
Manifestações em 5 estados denunciam o genocídio da juventude negra – “Já denunciada nas artes, a ideia de que a ‘carne mais barata do mercado é a carne negra’ se reafirma pela poesia da bala, que trocada ou perdida, sempre atinge seu alvo: o corpo negro.”
São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, Belo Horizonte e Recife. Neste dia 22 de Agosto, depois de muitos anos, o movimento negro foi para as ruas em Marcha Nacional para reivindicar o direito à vida. Entre 2002 e 2010, dos 467,7 mil homicídios contabilizados, 65,8% foram de pessoas negras, (Mapa da Violência 2013). Enquanto o índice de brancos assassinados diminuiu 26,4%, o de negros aumentou 30,6%, passando de 26.952 para 34.983. Isso sem contar os números relativos aos cerca de 130 mil homicídios dos últimos 15 anos até então esquecidos, mas agora revelados pelo Ipea.
Em São Paulo, das escadarias do Teatro Municipal, palco do ressurgimento do Movimento Negro, em 1978, partimos em marcha até a Câmara Municipal, atualmente simbólica pela presença da “bancada da bala”  - Coronel Telhada, Coronel Camilo e Conte Lopes -, que tentaram na última semana aprovar uma homenagem à ROTA, famosa corporação policial de assassinos de pretos e pobres. Eles foram impedidos pela postura corajosa do vereador do Psol Toninho Vespoli que, ao pedir votação nominal, melou o acordo entre petistas e tucanos, acordo esse que garantiria a “Salva de Prata” aos milicos.
A herança
A escravidão no Brasil – com certeza um dos maiores crimes de lesa-humanidade já vistos, ocupou ¾ de nossa história. Como herança nos resta não apenas as condições desiguais de desenvolvimento econômico e de condições básicas de vida dos negros, mas, sobretudo, cimentou na mentalidade do povo brasileiro a naturalização do sofrimento, da dor e da morte negra. Já denunciada nas artes, a ideia de que a “carne mais barata do mercado é a carne negra”se reafirma pela poesia da bala, que trocada ou perdida, sempre atinge seu alvo: o corpo negro.
Nesses anos todos, a exposição permanente do corpo de seres humanos negros presos, torturados, mutilados e de onde violentamente se arranca a vida, não foi suficiente para sensibilizar e mobilizar nem a sociedade civil e, menos ainda, os governos de quaisquer instâncias ou partidos.
A solidariedade e a comoção empregada aos jovens brancos em seus momentos de dor, seja em tragédias de boates ou em protestos de asfalto, contrastam com irrelevância do fankeiro assassinado em pleno palco ou da “chacina nossa de cada de cada dia“, na porta do bar ou na esquina de casa. A naturalização da violência contra negros é tanta que o desleixo – próprio daquele que mecaniza a ação, denuncia e formaliza a prática genocida, como no exemplo do episódio de Campinas, a partir da ordem oficial da Segunda Companhia do Serviço Militar, para que jovens negros fossem indiscriminadamente abordados.
Em marcha
É por viver no limite da barbárie que os movimentos negros foram às ruas neste 22 de Agosto, na Marcha Nacional Contra o Genocídio da Juventude Negra. Marchamos para denunciar os governos, todos eles, por reproduzirem uma política de segurança pública que elege o jovem negro, pobre e morador de periferias e favelas como principal alvo de sua repressão.
Exigimos a desmilitarização da polícia e da política; O fim da PM; O reconhecimento e combate às milícias e grupos de extermínio; Reivindicamos uma nova política de segurança pública para o Brasil, construída com participação popular e que considere como pressuposto de sua existência, investimentos em saúde, educação, moradia e trabalho.
Marchamos para exigir a aprovação do PL 4471, que prevê a investigação dos autos de resistência e outros procedimentos para o caso de mortes violentas envolvendo agentes do Estado. Exigimos o fim dos desaparecimentos de homens e mulheres pelas forças da repressão e a resposta imediata para as seguintes perguntas:
Cadê o Amarildo?
Quem matou Ricardo?
E uma última:
Quando Dilma tratará o tema do genocídio negro e da guerra civil em que estamos mergulhados com a devida seriedade e respeito e com a autoridade de Presidenta da República, exigirá ações dos Estados Federados e de seus governantes?

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