segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A cor da relação

Quatro mulheres lindas e bem-sucedidas confirmam a tese que alguns estudos já abordaram: as negras têm mais dificuldade em engatar romances sérios
Por Flávia Duarte - Revista do jornal Correio Braziliense

O assunto é tão delicado que poucas têm coragem de tocar nele. Falar de desprezo, de se sentir preterida e de solidão abre feridas, joga na cara o preconceito que acompanha as mulheres negras ao longo de sua história. Ademais toda a discriminação que as tornam uma das personagens mais vulneráveis da sociedade — são elas que ganham menos, têm a menor escolaridade e ocupam os postos menos nobres do mercado de trabalho —, a cor da pele as obrigam a traçar um caminho mais longo e dolorido em busca do amor. Mais tortuoso ainda quando o destino almejado é o altar. “As mulheres pretas se casam mais tarde, apresentam maior índice de celibato e demoram mais para terem um relacionamento”, afirma a socióloga Bruna Pereira, pesquisadora colaboradora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (Nepem), da Universidade de Brasília.


As estatísticas no Brasil que confirmam a tese do abandono como consequência da raça são raras, mas a discussão é antiga. Professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina e doutoranda na PUC/SP, Maria Nilza da Silva diz que, na década de 1950, alguns teóricos tentavam entender o fenômeno de desvalorização da mulher negra, pouco vista como uma opção para ser esposa e parceira. “Já naquela época, para ser escolhida nesse contexto da conjugabilidade, a mulher negra acaba se relacionando com um homem de classe social mais baixa. Para ser escolhida, ela deveria ter alguma vantagem.” 

Motivada pelo tema, Maria Nilza também pesquisou a menor oferta de parceiros disponível. Isso foi nos anos 1990, mas a professora defende que pouca coisa mudou de lá para cá. “A mulher negra continua discriminada em vários segmentos, inclusive no matrimônio. A possibilidade de encontrar um companheiro ou um parceiro é menor para ela”, afirma.

Intrigada pelo fato de as mulheres negras serem mais solitárias do que as brancas, a pedagoga e mestre em ciências sociais Claudete Alves resolveu, durante um ano e meio, mapear 1.127 casais em São Paulo. Desses, apenas 418 eram formados por homem e mulher negros. Uma das explicações para o número tão reduzido de casais de mesma raça estaria no fato de que os negros que ascendem socialmente querem se relacionar com as brancas. Eles buscam na união com outra raça uma forma de reforçar sua situação de suposto status. “O negro quer ter o que o branco tem e isso inclui a mulher branca. Muitos querem filhos com a pele mais clara do que a deles para não sofrerem o preconceito que eles também sofreram”, resume Claudete. 

A rejeição também parte dos homens brancos. No Brasil, a negra é a minoria nos espaços culturalmente reservados para quem tem pele clara. Isso automaticamente as deixaria em desvantagem em relação às brancas. 

Dos 18 casamentos civis que Claudete presenciou ao longo da pesquisa, apenas três uniram pares de negros. Uma dificuldade de encontrar um companheiro de mesma cor foi confirmada por todas as 11 mulheres negras que a pesquisadora ouviu na época. Entre os relatos, muitas contavam que, quando mais jovens, eram procuradas pelos negros apenas para iniciação sexual. Quando engravidavam, eles dificilmente assumiam o filho. Era uma relação de fim anunciado. Confirmação do estereótipo da negra sexual, que carrega até hoje, em muitos casos, uma pesada herança da escravidão, quando elas eram escolhidas para saciar o desejo dos brancos. Para o romance dar certo, eles exigiam moeda de troca. “Elas ainda diziam que, quando conseguiam ficar com negros, tinham que sustentá-los. Em geral, eles eram de escolaridade inferior e mantinham práticas sociais diferenciadas das delas.”

Um preterimento que é observado em todas as classes sociais. Quem confirma são mulheres lindas, bem-sucedidas, da classe média, que cresceram no Plano Piloto. Daniela Luciana, Jaqueline, Denise e Marília são negras. Também sentem o peso histórico que carregam com a cor. Confirmam o preconceito, a dificuldade de encontrarem um par em pé de igualdade com as mulheres brancas. Um problema que não é delas. Vem do outro. “Essas mulheres precisam entender que essa dificuldade é fruto de um problema social e não pessoal. Elas se inferiorizam como se não fossem bonitas ou interessantes”, lamenta Paula Pereira, pesquisadora-colaboradora do Nepem. Daniela Luciana, Jaqueline, Denise e Marília reconhecem que a dificuldade de romper as amarras do racismo não são delas, mas nem por isso enfrentaram sempre com tranquilidade os olhares de preconceitos. 

"Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.”
Bell Hooks é ativista negra e feminista norte-americana

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