domingo, 8 de setembro de 2013

Não nasci pra ser bonita: a autoestima da mulher negra

Quando tinha 13 anos de idade, fui ao clínico geral para fazer uma consulta de rotina. Estava  com o uniforme da escola e tranças,-  toda feliz pois tinha aprendido a fazer tranças aquele dia - entrei na sala junto com a minha mãe (que é negra também). O médico era branco e logo quando entrei ele já me mediu da cabeça aos pés. Me examinou e tudo mais. E antes de eu sair da sala, me deu recado:
“Como você sai de casa desse jeito, com esse cabelo, com essas tranças malfeitas, não passa um batom, não usa brincos? As meninas da sua idade não são assim, elas se vestem bem, são melhores. Como quer conseguir um namorado desse jeito?”
Depois de escutar tudo isso eu não consegui falar mais nada, minha mãe concordava com tudo o que o médico dizia, o que me deixou mais triste. Quando cheguei em casa, eu chorei. No dia que estava me sentindo bonita, aquele médico tinha me arrasado com todas aquelas palavras.
BN.autoestima
foto por Dietmar Temps
Além de ele cagar regras na minha aparência, estava me comparando com as meninas da minha idade, da escola, mas essas meninas não usavam tranças, não tinham cabelo crespo, essas meninas não eram NEGRAS. Desde criança minha beleza sempre foi comparada a de uma menina branca. Na listinha das meninas mais bonitas da sala meu nome nem estava lá.  Quando as tias da escolinha penteavam meu cabelo, eu só escutava comentários como “cabelo duro”, “cabelo ruim”. Nas brincadeirinhas sempre alguém me apelidava de MACACA ou chamava meu pai de ORANGOTANGO.
E assim fui crescendo sem autoestima nenhuma. Quantas vezes minha mãe alisava o meu cabelo para ver se as coisas melhoravam? Quantas vezes me achei a menina mais  feia? E quantas vezes chorava por não ser o padrão de menina bonita que os meninos tanto desejavam, que por coincidência era branca e tinha cabelos lisos?
Agora com 16 anos percebo que aquele médico racista após me dizer tudo aquilo não entende nada de autoestima. Diante de todas as dificuldades que nós mulheres negras temos que enfrentar, nos aceitar como somos, gostar de nós mesmas é uma questão importante, isso sim é autoestima.Tenho orgulho de ser negra, ter “cabelo duro” e andar do jeito que eu quiser.
E mulheres negras: não deixem que o racismo e o machismo nos abale, somos lindas, somos negras. E devemos nos orgulhar disso.

Thaís Vieira Costa tem 16 anos, é estudante e militante negra.

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