domingo, 8 de setembro de 2013

Rappers Argentinas defendem Emicida: censurar as canções é desviar o foco

(Actitud Maria Marta no show em Brasília. Fotos: divulgação/Cena Contemporânea)
Ouvi a canção Quimeras no rádio e fiquei curiosa para assistir ao vivo as garotas do grupo de rap argentino Actitud Maria Marta. Elas se apresentariam sexta-feira passada em Brasília durante o festival Cena Contemporânea, grátis e ao ar livre. Ou seja, meu tipo de show. Impossível não ir lá conferir. E, para minha e geral alegria, Virginia, Karen, Malena e Ivonne fazem um som vibrante, bem dançante, uma mistura de hip hop com reggae. Malena deve bater qualquer recorde de cantar mais rápido no mundo. Impressionante.
Fiquei mais curiosa ainda de saber a opinião de nossas vizinhas raperas sobre a polêmica envolvendo o brasileiro Emicida e sua música Trepadeira, cuja letra foi acusada, por algumas feministas, de ser machista e pregar a violência contra a mulher. No sábado à tarde, no hotel onde ficaram hospedadas na capital federal, as duas líderes do grupo, Malena Dalessio e Karen Pastrana, falaram com exclusividade ao Socialista Morena não só sobre machismo e feminismo, mas sobre política, música e sobre a nova cara que o hip hop ganhou na América Latina. Superarticuladas, informadas, duas chicas muito bacanas, e quase não podíamos mais parar de falar, imaginem.
Elas se disseram impressionadas com as políticas públicas para o hip hop no Brasil, “um fenômeno único no mundo”, ficaram chocadas quando contei que a imprensa brasileira só malha Cristina Kirchner, afirmaram não ver mais machismo no rap do que na sociedade como um todo e defenderam a liberdade do criador. “Quando você é um artista, tem que estar livre, não vai poder estar pensando: ‘posso escrever isso?’ Não, tem que escrever o que lhe der na telha”, diz Malena. “Um grupo feminista que acha que está lutando contra a violência doméstica criticando um rapper está desvirtuando tudo. Isso é muito mais sério e mais triste que uma letra de canção”, aponta Karen.
No show, vocês fizeram questão de fazer um discurso anti-neoliberalismo. Por que o rap se transformou na música de esquerda por excelência?
Malena d’Alessio – É relativo. Há o hip hop comercial que difundem os EUA, país originário do hip hop e que foi muito bom no início –continua sendo, mas o que predomina é musicalmente simples, antes havia uma elaboração muito maior. Hoje se converteu num gênero pop que representa o que antes combatia. Mas houve uma época que o hip hop americano conseguiu preocupar os poderes, com letras muito inteligentes. Levantaram as bandeiras dos grandes líderes negros, como Malcolm X, que estava dormido, esquecido.
Karen Pastrana – É muito louco, porque o hip hop foi mudando como gênero musical depois que saiu dos EUA e se expandiu no mundo. Nem mesmo os ianques pensaram que ia dar tanto dinheiro, e, depois que escapou de suas mãos, voltou a renascer com a nova identidade que está ganhando, pelo menos aqui na América Latina. Estamos dando ao hip hop uma cor distinta, nossos rasgos, nossa identidade. Acho que nos EUA pensaram: “Isso é um negócio, cara”. Nunca imaginaram que daí iam sair líderes sociais, movimentos de organização comunitária que são verdadeiros transformadores sociais da realidade de muitos jovens.
Malena – O rap não está alheio à realidade política e social dos países. Como toda arte, não deixa de refletir o que acontece socialmente. Um dos grandes meios que os EUA têm para poder fazer o que faz no mundo é manter sua população ignorante, desinformada, idiotizada. O nível de ignorância que há nas pessoas por lá neste momento é vergonhoso e isso passou para o rap, que praticamente foi assassinado nos EUA. Mas o que está em decadência lá ressurgiu na América Latina com uma nova identidade, do estético ao conteúdo, também em sintonia com o que acontece política e socialmente em nossos países. No caso brasileiro é um fenômeno único a força do hip hop nas favelas e como conseguiu se articular com o Estado. Não conheço outro país onde o rap recebe subsídios do Estado. Estivemos em favelas onde existem pontos de hip hop, onde dão aulas financiadas pelo Estado. Nós achamos isso uma maravilha e não há precedentes no mundo.
Karen – Lhes dão este espaço e tratam com a mesma importância, com o mesmo respeito que recebem outros gêneros musicais brasileiros, como a bossa nova.
Malena – O hip hop é um dos poucos gêneros musicais que consegue recuperar jovens da marginalidade. Acho que porque é quase intrínseco ao gênero a escritura, a dança, toda uma cultura que engloba muitos ramos da arte, não só um gênero musical.
Karen – Isso gera muita responsabilidade. Cuidar da tua saúde, tua mente. Estar informado. Também acontece que, ao ter a palavra, o protagonismo que tem, é muito difícil falar bobagens. Para o público, fica evidente quando um rapero está mentindo. Quando fala verdades, transcende, as pessoas percebem. É um momento mágico.
Malena – Mas o hip hop também não prima pela correção política. Há muito hip hop que reflete a marginalidade, com letras violentas, sexistas. Há distintas posturas. Eu particularmente reivindico isso. O primeiro patamar de libertação do ser humano é fazer uma catarse de sua realidade. Isso é o que é, isso é o que se vive. Mostrar é um primeiro passo. Falo isso para dizer que nem todo rap é consciente, com fins políticos. Tem mil matizes e para mim são todos válidos. Eu reivindico o funk carioca, todas as expressões que refletem o que as pessoas vivem.
Ontem no show você disse que acha que a esquerda está passando por um período difícil e que a direita está afiando os caninos… Tem a ver com a morte de Chávez?
(Malena)
Karen – Ay, Dios, vou chorar…
Malena – Mais grave do que a morte de Chávez é não termos uma renovação de líderes, o que eu, pessoalmente, acho que tem a ver com as décadas de neoliberalismo. Éramos jovens nesta época e somos a geração que teria de substituir estes líderes. Mas o que fez o neoliberalismo foi um esvaziamento político da juventude, não houve uma geração com formação política. Se nota este vazio. A política não tinha que depender da presença de um líder. Mas o mais positivo que aconteceu na Venezuela foi a politização da sociedade. O que as pessoas veem com espanto, que é a polarização, eu festejo. Aí a presença do líder foi importante, Chávez foi um grande instrutor de jovens. Há um nível de debate alto nos bairros, um nível de argumentação impressionante.
Karen – Creio que também tem a ver com nos sentirmos um pouco órfãos de Chávez, sim. Acho que se misturaram essas duas coisas. Estamos passando por um momento de luto. O povo segue no comando, mas estamos um pouco golpeados.
O que estão achando das mulheres no poder, Cristina e Dilma?
Karen – Tremendas, divinas.
Cristina está bem? Porque aqui no Brasil só chegam coisas ruins dela.
Malena – Ah, sim? (espantada)
Karen – Falam mal dela?
O tempo inteiro.
Malena – Os jornais? Mas são os mesmos que falam de Dilma e Lula?
Sim, os jornais colocam Cristina como uma inimiga da liberdade de expressão.
Karen – Isso me deixa indignada, não posso acreditar.
Malena – Os meios de comunicação têm terror dela porque Cristina está pondo em realidade uma das leis mais avançadas que existem, a lei de meios.
Karen – Uhu!
Malena – Ela está tentando desmonopolizar a mídia, uma democratização real. Deve ser por isso que dão espaço a jornalistas que falam de Cristina como uma ditadora.
Mas as pessoas mais necessitadas estão contentes com o governo dela?
Malena – Sim, ela fez muita coisa e por isso ganhou as eleições. O que não significa que não se pode ter críticas. Eu pessoalmente apoio o governo. Além do mais, há uma equação infalível: se todos os meios de comunicação estão contra é porque interesses estão sendo contrariados.
Karen – Há setores da classe baixa na argentina que nunca foram contemplados e estão sendo contemplados. Vejo um complô contra ela, me sinto tocada, é uma falta de respeito constante.
Malena – A melhor coisa que Cristina está fazendo é a lei dos meios. Mas é muito preocupante que no Brasil só cheguem essas informações e que não haja meios que rebatam isso.
Não, não há. Infelizmente no Brasil todos os jornais são conservadores. Não temos um Página/12 aqui.
Malena – Mas e a TV pública? Na Argentina conseguimos muito graças à TV pública.
Há, mas as pessoas não veem.
Malena – Hum, porque deve ser chata. Tenho críticas ao progressismo neste sentido. Ficar só na vitimização quando na realidade está no poder! Como é que, com criatividade, qualidade, não faz algo que supere isto também do ponto de vista do que as pessoas querem? Ou seja, se for fazer um canal que só doutrine, ninguém vai ver. Tem que gerar espaços de entretenimento também.
Há duas semanas, houve uma polêmica no Brasil porque o rapper Emicida lançou a música Trepadeira, sobre uma garota que gosta de transar com vários meninos, deixando um cara furioso a ponto de ameaçar lhe dar uma surra de espada-de-são-jorge. E isto serviu para que o rapper fosse criticado como machista por algumas feministas. O hip hop continua sendo um gênero machista?
Malena – Considero que é muito tênue a linha divisória entre a luta contra a violência doméstica/machismo e o moralismo/cultura católica apostólica romana. Não compreendo muito o feminismo, não falo que sou feminista porque não compreendo. Eu olho os grupos feministas e acho muito gueto, não me sinto identificada. A defesa da mulher não é a luta contra o homem. Além disso, o machismo é tanto do homem contra a mulher quanto da mulher contra o homem, temos que ter essa consciência. É um problema cultural, de todos. Quando você é um artista, tem que estar livre, não vai poder estar pensando: ‘posso escrever isso?’ Não, você tem que escrever o que lhe der na telha. Mas compreendo que há muitas mortes por violência doméstica e então é ok ter um nível de responsabilidade. Mas é muito fina a linha que divide o moralismo da correção política.
(Karen)
Karen – Vou ter uma conversinha com esse rapero
Para quê?
Karen – Para ver qual é a dele. (gargalhadas)
Eu pessoalmente acho que o carinha da música está mais com dor de cotovelo do que disposto a bater em alguém de fato.
Malena – A maneira de lutar contra a violência contra a mulher não é proibir canções. É educação, igualdade social. Tem que fazer cumprir a lei, prender os agressores. Se você é explícito numa letra, entendo que não é bom. Mas não concordo com reprimir e censurar.
Karen – Um grupo feminista que acha que está lutando contra a violência doméstica criticando um rapper está desvirtuando tudo. Isso é muito mais sério e mais triste que uma letra de canção. Tem que ser uma política de Estado.
O meio do rapper é machista?
Malena – Depende do país.
Karen – Não vejo assim, me parece bárbaro! (risos)
Malena – Nos EUA, sim, parece que as mulheres sempre estão lá para mostrar a bunda. Mas tampouco sou contra isso. Tem que aparecer mulheres que superem isso, é responsabilidade delas também. Não tem que proibir nada, tem é que ocupar estes espaços com outras coisas, e tem que aparecer mulheres que o façam. O discurso feminista é muito complicado, porque atentam contra outras liberdades… O machismo é algo histórico, requer uma análise mais profunda e uma mudança cultural, não se muda de um dia para o outro. Tem que mudar a educação, as mães têm que criar de outra maneira seus filhos e filhas.
Karen – Me parece que ao acusar, ao tomar este tema como debate ou como exemplo da condição da mulher na sociedade, estão “meando fuera del tarro”(mijando fora do vaso), como se diz na Argentina, focalizando a energia em uma coisa que não vai resolver o problema.
Malena – Para mim, censurar canções não tem nada a ver.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | JCpenney Printable Coupons