quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Recado do Subsecretário de Segurança Pública da Bahia aos Movimentos Sociais de Base Racial Negra - “São Todas e Todos Maloqueiros”

Hamilton Borges dos Santos (Walê)

O subsecretário de segurança pública do Governo do Estado da Bahia nos fez um grande favor. Assim, na lata, sem tergiversações ou discursos sociológicos sobre a lógica e a complexidade da sociedade atual, ou mesmo sobre o caráter democrático de um governo republicano e essas e outras patacoadas que nos falam em sucessivas audiências sobre segurança pública na Bahia.
O subsecretario de Segurança  Pública tirou a pistola do coldre, como bom coronel formado nas bases históricas do “cabeça  branca”, meteu bala na turma do MST, movimento social dos mais combativos que descobriu sem massagens que o que falamos da segurança pública baiana é verdade. Ela é letal e racista!
Baseada no confronto, no belicismo, na militarização do espaço público, no patrimonialismo tacanho e no genocídio de gente pobre e preta, a política de segurança pública revelou seu fracasso já no lançamento natimorto do Programa Pacto Pela Vida (PPV) que  se apresentou com a Lei nº 12.357 de 26 de setembro de 2011. Um  sistema fascista de defesa social que trouxeram, sabe-se lá de  que baú dos horrores da ditadura militar, tendo como eixo central a idéia do inimigo interno que deve ser combatido por uma polícia com requintes de SS em guetos nazistas:  “Mãe faz, Pai Cria e a Caatinga Mata”, pesquisem essa palavra de ordem da policia da caatinga no Google, me poupem dos detalhes.
O subsecretário viu um mar de gente preta do MST fazendo o setembro vermelho na porta da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia(SSP/BA) e não pensou duas vezes: meteu bala!
O MST  transformou o Centro Administrativo da Bahia num simulacro de favela, com gente pobre e preta circulando sem controle, com suas mãos de calo, seus instrumentos de trabalho, suas palavras ofensivas por justiça e reforma agrária. O subsecretário enlouqueceu e mandou o discurso reiterado de Governo republicano de Jaques Wagner para o inferno, que é onde comunista e socialista deve ir.
Não teve tempo para o subsecretário preparar uma base comunitária de combate a violência (UPP) que só alcança territórios negros vulneráveis. Ele agiu no centro do poder administrativo da Bahia da mesma forma como seus prepostos agem nas comunidades sócioracialmente apartadas: com o diálogo bélico, a violência institucional e covarde, a leniência e complacência dos poderes de justiça que se calaram aos pés das verbas da Governadoria.
É a nova piada da política por aqui: para que servem os direitos humanos no Governo, se há tanta tortura, execução e violência do Estado? O subsecretário de segurança pública foi truculento como seus meninos munidos de fuzil e pistolas, coturnos e ódio pelos nossos espaços negros consumidos pelo medo e o abandono estatal.
Vejam: oito policiais da Rondesp, a guarnição mais letal do estado baiano, entraram numa rua do Nordeste de Amaralina no dia 09 de setembro. Achacaram moradores, humilharam uma mulher que nua descrevia aos “homens da Lei” cada peça que vestia despindo sua dignidade na materialização nociva do pacto pela vida na cidade: “Que peça é essa?” Ela chorando dizia: “Calcinha” “E essa?”  “Sutiã”.
Eles agora tem como exemplo a ação do subsecretário que ao se revelar, revela o fracasso retumbante do programa de segurança pública do Governo que tem como política de segurança pública o “Baralho do Crime”, que também é a forma do Secretário de Comunicação apontar seu berro para nosso povo, para nós os negros e negras.
“Robson Almeida retira o baralho do crime, esse baralho  viola o princípio da dignidade humana e viola  uma  política de comunicação baseada no respeito aos direitos.”
Gritam as ruas para o coordenador do Programa Pacto Pela Vida ( PPV) que  ignora a sanha genocida das tropas militares da Bahia e dos métodos de investigação da polícia civil baseada na tortura e na criminalização das famílias, nos inquéritos que não vão adiante  quando o morto é um jovem com um 38 e diante do aparato tecnológico que o Pronasci ($$$)  despejou nas forças de segurança.
Nós não fomos a Conferencia de Segurança com Cidadania, nos respeitamos. Fizemos um Encontro Popular por Outro Modelo de Segurança, o ENPOSP. Quando decidimos participar de uma Conferência de Promoção de Igualdade, para construção coletiva e cumprir nossa tarefa de mudar a lógica racista da segurança pública baiana, vimos estarrecidos um cinegrafista branco, da Agogô Produções, chamar uma militante da Quilombo Xis - Ação Cultural Comunitária/Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, de “MALOQUEIRA”,  sem uma palavra da turma que quer “promover a igualdade”.
Somos sim, Maloqueiros  e  Maloqueiras , a Quilombo Xis/Reaja assume seu lugar e sua identidades com os indesejáveis, não controlados pelo pacto racista, os que geram incômodo e desafinam o coro dos contentes. A Quilombo Xis/Reaja não se submete não se trai pela conveniência de um “lugar de subalternidade” numa conjuntura de guerra em que estamos mergulhados e mergulhadas. A Reaja é Ameba, irmão anarquista preso em Belo Horizonte; é Grito contra o poder na operação 7 de setembro em Salvador; é Leonardo Martins, de Vespaziano/ BH, torturado, com seu cabelo cortado na delegacia. É Black BlocK, é prisioneiro sem saúde nas cadeias do Brasil, exilado, vagabundo.  
São as mulheres submetidas à revista vexatória e criminalizadas; é sem terra, sem teto, sem medo ...só não vai chamar de companheiro o subsecretário, este que revelou para o Governador um dilema que ele precisa resolver: vai manter essa cúpula de segurança pública que aponta a arma para o movimento social e que mata pretos como se fossem baratas?
Hamilton Borges dos Santos (Walê)
No campo de guerra da Bahia
Da Cidade Túmulo Salvador.
11 de Setembro de 2013

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