quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Achille Mbembe: “Pela abolição das fronteiras herdadas da colonização”


Mbembe
Em Buala
Saindo da grande escuridão – Ensaio sobre a África descolonizada. É o titulo do último livro de Achille Mbembe, que acaba de sair pela “La Découverte”. Norbert N. Ouendji leu atentamente este livro, rico e bem documentado, escrito em memória de Franz Fanon e Jean-Marc Ela, dois “pensadores do futuro”. Mesmo com a sua agenda cheia, o autor, atualmente lecionando nos Estados Unidos (Duke University), aceitou esclarecer idéias que permitem uma melhor compreensão de sua filosofia e trajetória. Nesta entrevista, vai além do texto centrado em questões ligadas à colonização e aborda assuntos que estão na ordem do dia dos debates africanos atuais.
Achillle Mbembe intima o continente a “sair da escuridão”. O seu estado de sono profundo atual preocupa-o. Ao longo do livro, vai ao encontro de Franz Fanon ao convidar os africanos a olharem para lá da Europa se querem “erguer-se e caminhar”…
É que, simplesmente, um novo mundo se desenha aos nossos olhos. A Europa deixou de ser o centro do mundo, ainda que continue um ator importante internacionalmente. Destruída pelo narcisismo e pela ferida do estatuto perdido, gira em torno de si mesma e os africanos perdem tempo querendo se erguer tendo a Europa como modelo ou se envolvendo em disputas de outros tempos.
A China tera então algo a dizer? Pergunto porque sublinhou que um dos fatos mais importantes dos próximos 50 anos será a presença, em África, do império chinês, onde numerosos investimentos são já  visíveis em muitos países do continente.
Para que o projeto sino-africano se torne um evento positivo de suas histórias, os africanos terão que lhe dar corpo e alma. No momento, este projeto segue uma lógica puramente extrativista e desta forma será preciso reforçar as bases materiais dos reinos locais e das classes sociais que as sustentam.
Esta lógica está bem desenvovida no seu livro. Compreendemos que os potentados locais, dos quais falou, são inertes face ao grande sono africano que descreve e denuncia. Mas o que chama a atenção do leitor é a relação que estabelece entre esta situação e a colonização.
Ela não ajudou. De todos os pontos de vista, a herança deixada pela colonização foi mediocre. As políticas pós-coloniais não fizeram muito melhor: a pobreza de espírito lembra bastante a respeito dos líderes coloniais.
A este propósito, não tem muita estima quanto à França. Acha que esta antiga força colonial “descolonizou sem se auto-descolonizar” ?
A colonização francesa terminou e, com muito custo, houve uma transferência de poderes. Isto não significa o mesmo que a “descolonização”, se entendermos por “descolonização” um projeto radical, de recomeço. Por outro lado, se a colonização foi uma forma primitiva de dominação de raças, não podemos pretender ter-nos descolonizado se, afinal, não desmantelámos as armas físicas e as estruturas materiais e institucionais que alimentaram o racismo.
A França de hoje – como também grande parte da Europa – se encontra na tormenta de uma fomidável lógica racial, que nem tem já vergonha de se proclamar como tal. O velho país de “direitos do Homem” está possuído por um desejo confuso de provincianizar e, devo dizer mesmo se a palavra soa forte, pelo espírito de um demônio, que todos nós conhecemos: o demónio do apartheid. Como compreender este sonho maluco de uma comunidade pura, composta por “pessoas de descendência”, fechadas em suas “tradições” e livres de  “estrangeiros”?
A instrumentalização descarada do Islão, espécie de guerra social armada contra os jovens franceses não brancos da periferia, um tipo de culturalismo grosseiro que se utiliza para dar conta dos problemas de discriminação, a raiva cultivada contra os imigrantes, as deportações dos mais fracos e dos mais vuneráveis, os projetos de perda da nacionalidade – tudo isso, literalmente, fede.
As elites africanas seguem atentos estes infelizes desenvolvimentos e não conheço ninguém que gostaria, em pleno século XXI, de viver sob o regime de lutas permanentes e de humilhação cotidiana que é o apartheid.
Segundo Achille Mbembe, a descolonização é então um processo inalcançado, ao mesmo nível que a democratização. O senhor fala de uma descolonização “fictícia”, dando assim a impressão que os africanos têm ainda um longo caminho à percorrer para contribuir positivamente para aquilo que chama de “declosão do mundo”.
Entendo por “descolonização fictícia” uma descolonização sem democratização ou, ainda, no caso da África austral, sem “desracialização”. É assim, um tipo de descolonização onde o chefe te manda para casa, mas guarda na cintura a bolsa com as chaves.
Posto isto, hoje não é mais o caso de lutar contra um ocupante estrangeiro, mas contra nós mesmos. E claro que as estruturas de exploração e de desigualdades a nivel mundial ainda estão presentes. Mas as suas consequências são tanto mais desastrosas como, num plano interno, África é mole e gelatinosa. Suas forças estão dispersas e sua energia dissipada pela crueldade, pelas depredações e pelas desordens internas. O continente precisa constituir o seu próprio centro para atingir a descolonização. É preciso conquistar este trabalho num contexto particular e arriscado: o contexto da globalização e o começo de uma balkanização do nosso mundo.
Se, como disse, a descolonização foi somente “fictícia”, como podemos justificar a celebração, neste ano de 2010, do cinquentenário das independências?
Do meu ponto de vista, não há efetivamente nada a celebrar. Em 1960, certos países africanos estavam avançando com a Coréia do Sul. Onde é que estamos cinquenta anos depois? Não confundiremos ninguém vestindo farrapos, o que manifestamente, é igual a estar nú.
O seu livro aparece precisamente no momento desta celebração. Foi uma contribuição para o debate ou uma simples coincidência?  
Nós precisamos de uma reflexão crítica se queremos desbloquear os caminhos do futuro. Este trabalho crítico, ninguém o fará em nosso lugar. Meu livro é uma contribuição à este esforço. Minha voz não é a voz de nenhum mestre. É a minha própria voz. Ao mesmo tempo ela se implica numa tradição da qual eu reivindico a herança.
Isto explica também a sua cólera em relação ao fato de que, em muitos países, os nomes de certas figuras importantes que combateram pela “independência” continuem a ser censurados nos discursos oficiais. Por que não conseguimos destinar um “lugar aos vencidos” com foi feito na África do Sul?  
Nós somos governados por uma classe de predadores indígenas com comportamentos e ações  que seguem uma linha de tradição, de poder, que prevalece em África desde o tráfico de escravos. Os que nos governam, comportam-se quanto aos seus países como os ocupantes estrangeiros, tratam os seus países como prisioneiros de guerra.
Eles têm uma maneira de conduzir a vida no dia-a-dia, uma maneira de falar, uma maneira de se vestir, de beber, de comer, de se mostrar em público, de provar sensações, de apreciar a vida, de acabar com as nossas poucas riquezas, de esbravejar, de tratar seus inimigos, que demosntra em todos os âmbitos qualidades de uma fera selvagem. A colonização encorajou de todas as formas esta selvajaria.
É esta tradição de selvajaria que, historicamente, explica a relação dos estados negros com a morte em geral e sobretudo com a morte dos que, através da luta, representaram outras possibilidades de vida: a possibilidade de uma emancipação radical.
O caso de Ruben Um Nyobè, e de outros, assombra-o. Disse também que se você está espiritualmente afastado de Camarões, isso deve-se em grande medida à recusa do país em reconhecer a existência do crânio de um parente morto ou, mais especificamente, “a recusa de sepulturas e o desaparecimento dos homens mortos durante as lutas pela independência e auto-determinação”.
Não é somente por conta de Um, mas também por todos os que se depararam com a morte no decorrer das lutas – Pierre Yém Mback, Félix Moumié, AbelKigué, Osende Afana, Ernest Ouandié e a longa lista de pessoas sem nomes e, por vezes, sem sepultura. É necessário acrescentar também aqueles que viveram em regime de exílio e de condenações e que o nosso país não reconheceu e que, num certo momento, perseguiu – Nded Ntumaza, Abel Eyinga, Mongo Beti, Jean Marc Ela e muitos outros.
Não podemos esquecer, no meio disso isso tudo, aqueles que, contra ventos e marés, resistiram firmes, mestres de si mesmos, sempre à margem, aqueles cujo modo de vida, em pleno clima tempestuoso, continua a revelar o que poderíamos conquistar. Eu acredito, por exemplo, em Fabien Eboussi Boulaga, figura singular, o qual as idéias terão, por muito tempo, grande peso na vida e no espírito africano.
Partiu para a França, seguiu-se a descoberta dos EUA antes de pousar as suas bagagens na África do Sul, no final do século XX. O seu olhar para cada um destes três países é ao mesmo tempo apaixonado e comovente. Qual a herança que estes lugares te deixaram? Que tipo de relação tem hoje com Camarões? 
Eu continuo a viver entre a África do Sul, os Estados Unidos e, de tempos em tempos, a França. Teria passado minha vida cruzando o mundo. Passei por cada um destes lugares que morei com uma certa reserva de distância e de admiração. Foi isto que me permitiu assumir esta instabilidade, este movimento na vida. Viajando encontrei novas pessoas, outras línguas, outros sons, outros mundos. Nascido em qualquer lugar, não pertenço a lugar algum. Teria passado o essencial dos meus anos agarrado a este aspecto disperso da minha existência, traçando caminhos e me aproximando por vezes do improvável, trabalhando nos intervalos com o objetivo de dar uma expressão comum às coisas que muitas vezes nos dissociam. Os Camarões, vejo este país numa relação filial com as figuras que acabámos de evocar, persuadido que um dia, no futuro, a justiça será feita em seus nomes e aos textos que eles escreveram.
A partir dos relatos que dão ao seu livro um tom autobiográfico, podemos dizer que o senhor é o símbolo do cidadão “afropolitano”, o qual é elogiado na maioria dos seus discursos?  
Apenas me aconteceu ter experiências em alguns lugares. Cada um destes lugares teceu parte da minha vida. Cada lugar deixou em mim traços que sou incapaz de apagar. Cada lugar poderia ter sido, cada qual, o norte e o crepúsculo da minha existência. Mas na realidade, só pude me aproximar de cada um deles graças a uma certa distância, construindo brechas que, em seguida, me faziam tentar transpô-las. E foi ao caminhar que me tornei não “Negro”, mas simplesmente um homem no mundo.
Fala de uma África que é hoje “povoada em sua maioria de passantes potenciais”. Que os africanos são tentados pela aventura, normalmente difícil, na qual sonham em se “reinventar e em se enraizar”. Como alcançar esta fuga forçada sendo que vocês participam de um processo de globalização que já não é, para milhões de pessoas, “o tempo livre da circulação”?
Um dos símbolos mais dramáticos da farsa das independências é o fato de que, se tivessem escolha, milhares de africanos viveriam fora do continente e não em seus países de origem. Este desejo generalizado de abandono é uma verdadeira catástrofe. Mas eu faço igualmente referência às tendências pesadas de evolução social do continente – brevemente mais de um bilião de habitantes, o progresso de uma civilização urbana sem precedentes na história da região, um novo ciclo de migrações internas, a consolidação de novas diásporas, especialmente para os EUA, a vinda maciça de chineses para as grandes metrópoles continentais. A questão é saber como acompanhar estas mutações estruturais. Precisamos de re-imaginar as instituições com esta África em movimento, esta África em circulação, esta cultura fluída e aberta para o mundo e para o novo, esta constelação crioula, que denomino de “afropolitana”.
Voltamos às causas deste abandono do continente por seus filhos e filhas. O senhor aponta particularmente para a gestão calamitosa dos recursos disponíveis, pelos ganaciosos de poder. Eles partem, de certa maneira, porque não querem mais viver sob “chefias mascaradas”.
As pessoas também fazem escolhas pessoais e não são todas ligadas à situação política desastrosa de nossos Estados. Eu falo da nova fase de migrações em massa, aquelas que estão ligadas à sobrevivência económica ou aquelas que são efetivamente fruto de situações de guerras e conflitos. Elas afetam milhões de pessoas que se mudam de campo em campo. Mas existe também um processo de mudança de fronteiras, sejam físicas, culturais ou religiosas. Deste ponto de vista, temos que observar o tipo de ajuste mental que fazem as igrejas pentecostais, que se desenvolvem por todo lado no continente, de uma maneira quase-capilar.
Esta oscilação da geografia, do imaginário e das formas de mobilidade é um fator chave das recomposições em curso. Acompanhar de maneira criativa estas recomposições exige que sejam abolidas fronteiras herdadas da colonização, que sejam abertos grandes espaços de circulação sem os quais não haverá nenhum pólo regional de força económica e de criatividade intelectual, cultural e artística. Nós temos que abrir em África vastos espaços de livre-circulação. Este esforço deve andar a par da reforma das leis sobre a nacionalidade. Acordemos, por exemplo, a cidadania aos africanos que a desejam, velhas e novas diásporas misturadas. Instituemos, a nivel continental, um “direito de retorno” para aqueles que desejam pertencer ao continente.
Este discurso lembra o projeto dos Estados Unidos sonhado por Marcus Garvey e mais tarde Kwame Nkrumah. Hoje, líderes como Kadhafi tentam fazer prosperar esta idéia no seio na União Africana, que é oficialmente consciente da necessidade de concretizá-la. Para além dos discursos, podemos ser otimistas em relação a esta causa com a actual geração de chefes de estado?
É um vasto horizonte e um novo imaginário do futuro que começa a surgir. Este imaginário deve estar à altura dos desafios colocados pelo tumulto do presente. Os discursos sobre a globalização escondem mal o fato de que uma grande “divisão” do mundo esta em curso. O processo de balkanização do mundo se traduz pelo crescente medo, o regresso de muros, pelas tentativas de redução do político às pulsões mais primárias, desenvolver razões para a inação, o retorno valente e descarado de lógicas racistas, que acreditávamos ultrapassadas.
África não tem nada a fazer perante um mundo mais feroz do que nunca, com micro-Estados sem nomes, sem voz nem peso próprios. Precisa absolutamente de decidir se quer constituir-se como força autónoma, ser capaz de abraçar o mundo e de agir à sua altura. Esta idéia de uma “nacionalidade africana”, de uma “cidade africana” vem de longe. Ela é inseparavel da emergência da África na modernidade. Comporta dimensões políticas, filosóficas, estéticas e económicas. Para reativá-la positivamente nas condições contemporâneas, é preciso remetê-la para as mãos de sociedades civis africanas e fazer dela um grande movimento cultural.
Conforme sua dialética, a maior parte de nossos dirigentes estão prontos para “ficar no poder toda a vida”. O senhor estabelece até uma relação entre práticas sexuais de alguns e a gestão do poder pós-colonial, onde está em curso uma “máquina de prazer”. Como funciona extamente este mecanismo? Por fim, quais são os países onde isto é mais evidente?
Não é apenas um assunto de dirigentes. É toda uma relação entre Estado e sociedade que é preciso colocar em questão. Cada sociedade tem o dirigente que merece.
Posto isto, a cultura pós-colonial, autoritária – a qual eu dizia que obteve certa competência no ethosdo tráfico de escravos – é uma cultura falocrática. A falocracia, o machismo, é o governo do pai ou do ancião. Ela funciona baseada na crença onde tudo acontece onde existe o falo. É no e pelo falo que acontece um evento. Na realidade, o falo é o evento! É o poder, é o esforço que coloca o falo como figura e estrutura. Não uma estrutura de produção, mas um conglomerado de sujeitos devotos do consumo não consciente, dos gastos frenéticos, sem reservas, enfim, da corrupção.
É isto que eu chamo de “máquina de prazer”. Esta “máquinas de prazer” estão em curso em países como Camarões, os dois Congos, a Nigéria, Angola, Gabão, as duas Guinés, o Chade e o Quénia. A falta de lucidez está presente em quase todos os países africanos.
Achille Mbembe mostra que o desafio da democracia é um denominador comum dos países em questão. A seguir, sustenta que, para a democracia “se enraizar em África, é preciso que ela seja trazida por forças sociais e culturais organizadas, por instituições e canais talentosos, com criatividade e sobretudo por lutas quotidianas de pessoas, de tradições e solidariedade”. Isto significa recolocar em causa as tentativas de lutas que aconteceram nos anos 1990.
Na maior parte dos casos, as lutas dos anos 1990 não conquistaram uma democratização radical da vida política africana. Nos estados francófonos em particular, continuamos a ludibriar as eleições como no tempo da colonização. Os cidadãos não conseguem escolher livremente os seus dirigentes. A única forma de alternância é pela morte. As sucessões, desde então, dão-se de pai para filho.
As experiências mais avançadas continuam frágeis pela falta de enraizamento nas instituições e estruturas. Existe um grande desencontro entre a maneira de conduzir as lutas e as formas de criatividade social e cultural em geral, que são a linguagem, as instituições, as maneiras de se organizar ou os modos de legitimação. Precisamos de uma segunda geração de lutas pela democracia em África. Para terminar, esta segunda geração de lutas deverá, necessariamente, assegurar uma ponte entre as formas de um lado e a cultura de outro.
O que é que isso quer dizer concretamente?   
Nós precisamos estudar muito atentamente as múltiplas formas sob as quais operam as lógicas sociais e culturais. Como, na prática, no dia-a-dia, as pessoas constroem a comunidade? Como se organizam para praticar a solidariedade? De que tipos de instituições eles se dotam para realizar objetivos transcendentais? Em que língua eles falam sobre assuntos quotidianos ou ainda sobre finalidades últimas? Como eles cantam ou rezam? Através de que formas expressivas eles procuram se comunicar na alegria, na tristeza ou nas lamentações? Como articular com o próximo e com o que está distante? Como eles se apropriam do que é novo? Tudo isso constitue capital cultural sem o qual não é possível uma ação eficaz. Se queremos enraizar a democracia em África, é preciso apropriar-se deste capital cultural e de seus símbolos como recursos principais da luta. E preciso traduzir a idéia da democracia na língua do povo. Este trabalho intelectual, tático e organizacional, infelizmente não está feito.
Os partidos de oposição têm hoje legitimidade e credibilidade para acompanhar um projeto como este? 
Os partidos de oposição estão longe de tererm efetuado um trabalho intelectual do qual eu falava. É preciso propor um imaginário que fale às pessoas das condições concretas de suas vidas quotidianas. Este retorno às situações quotidianas deve caminhar junto com a articulação de um horizonte de esperança, uma certa proposta para o futuro. Mas ainda é preciso acordar a consciência de classe se queremos fugir dos resquícios do etnocentrismo. Isto exige uma enorme capacidade de criatividade e tradução. É significativo, por exemplo, que as igrejas pentecostais definam os contornos da comunidade e do indivíduo a partir de idiomas que poderiam se inspirar os partidos políticos da oposição. De fato, é possivel propor novas visões da comunidade que não sejam necessariamente somente biológicas, inventar novas formas de parentesco que transcendam a linhagem ou a tribo. É este tipo de imaginário que é preciso saber trabalhar.
No caso de Camarões particularmente, como o senhor poderia, com algum recuo, resumir a situação que domina o país, um ano antes das eleições presidenciais em princípio previstas para outubro de 2011?
É um encistamento. O país está sob o domínio de aproximadamente meio milhão de anciãos que se apoiam em todos os níveis da vida pública e que não querem morrer sós. Eles estão decididos a levar com eles tudo que vive e respira. O primeiro entre eles, senhor Paul Biya, completará 80 anos num futuro próximo. Abatido de senilidade, ele fica lúcido algumas horas por dia, como pessoas da sua idade. Pouco importa que e esteja no poder há 28 anos. Ele pode se igualar ou ultrapassar Fidel Castro. Ele quer morrer no poder.
Como evitar um naufrágio como este? Você passa a sensação que uma alternância não é possível nas condições atuais.    
As relações entre sociedade e Estado são tais que nas condições atuais não é possível uma alternância pacífica. Os atores suscetíveis de conduzir uma revolução social radical não atenderam ao chamado. A sociedade está enferrujada. Assim, a necessidade de uma revolução social radical nunca foi tão necessária como nos dias de hoje.
Neste sentido, qual o seu olhar sobre as ações de certos membros da diáspora nos últimos tempos? 
Tudo o que contribui para desbloquear este impasse deve ser testado. Mas é necessário reconhecer que estamos longe do objetivo. O espectro do Haiti plana sob a África.
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(Traduzido do texto publicado no AFRICULTURES. Tradução:  Juliana Moraes)
Achille Mbembe. Camarões. Professor de história e ciência política na Universidade de Witvatersrand (Joanesburgo) e diretor de pesquisas de Pesquisa Social e Econômica do Instituto Witwatersrand, em Joanesburgo. O seu livro On the Postcolony emergiu como um dos pensadores mais prolífico em campos dentro da história, sociologia e filosofia política. Este trabalho tem sido principalmente o tema de um debate nas universidades. Ali desenvolve uma dupla crítica cuja actualidade evidencia: o universalismo abstrato, mas também a utilidade dos estudos pós-coloniais, que põem demasiada ênfase na diferença, afastando-se da pesquisa do semelhante. Cita também os recursos que são a força das “democracias ocidentais”, o compromisso sobre o qual se funda o Estado-providência, a capacidade de legitimar os antagonismos sociais através de luta política mais ou menos pacífica e a constituição através desses antagonismos até de um mundo comum. Se esses ativos estão hoje em ruínas, a sua reflexão sobre a ética do próximo é da ordem da renovação do pensamento político de hoje.

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