quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Nós negros, só dependemos de nós mesmos.

Por Marcos Rezende

Alguns de nós negros, não conseguimos entender a nossa dificuldade de trabalhar em coletividade. A desconfiança, o medo do outro a todo instante, a perspectiva de poder ser enganado e sofrer uma decepção a qualquer momento muitas vezes nos imobiliza. Outros ao perceber isto, enclausuram-se em seus próprios mundos, como a dizer que não tem porque fazer a luta coletiva, tipo tenho que cuidar da minha vida, do meu mundo, da individualidade. O que os dois grupos muitas vezes não entendem é que este pensamento é o fruto do racismo histórico difundido entre nós. 

Sim, posso afirmar isto, porque os colonizadores e os digo brancos, pois eles é que nos tornaram etimologicamente negros, e construíram o ideário histórico da escravidão não humanizante, algo novo que nunca tinha acontecido em nenhum outro momento da humanidade. Em verdade, escravidão sempre existiu, mas a coisificação da pessoa, a negação da humanidade, só foi construído pelos europeus brancos em solo africano, sobre vidas negras e este preço é muito caro. Não cabe a justificativa de brancos a nos dizer, mas os próprios negros escravizaram negros, não sob a mesma égide, nunca ocorrera antes com tal perspectiva, e mais ainda, em escala mundial para abastecer mercados diversos. Em verdade, os brancos estimularam a cizânia entre nós, a ruptura de relações, de elementos tradicionais, em cada região de África contaram meias verdades ou verdade alguma, e escreveram uma história de entrelinhas. 

Assim o posso afirmar porque colocaram o centro do mundo na Grécia ou em Roma, negando assim reinos e histórias inteiras, como nos ensinou De Bois, tal qual o Egito dos faraós, ou reinos como Kushe, Benin, Meroe, Gana, assim como muitos outros. Esconderam deliberadamente verdades históricas, sobre arquitetura, sobre matemática, astrologia, economia, e muitos outros saberes, alimentando mentiras e a repetindo em aulas, sermões e discursos de modo a transformá-las em verdades.

Daí as armas em nossas mãos ainda há séculos atrás, armas brancas em mãos negras de mentes já corrompidas e colonizadas, e as histórias de que somos nós os nossos próprios algozes foi sendo difundida, o conceito de que o capitão do mato está ainda dentro de cada um de nós, de que a polícia em sua maioria negra, faz questão de oprimir o negro, e um cotidiano atual que se repete como a inferir verdade a estas afirmações. Como a nós dizer, resolvam os seus problemas, se entendam entre si. Assim os fazem as corporações, os programas de televisão ao expor o que eles dizem ser o tráfico de drogas ou os partidos políticos a nos dizer vocês são muito diversos e não se entendem. Assim sempre fizeram os brancos em suas inverdades a ponto de nós desconfiarmos de nós mesmos e acreditarmos que seria impossível avançar.

Os brancos também quiseram nos dizer que vivíamos em uma democracia racial e dissemos não, isto é mentira, e deste modo derrubamos o mito da democracia racial no país. Também nos disseram que vivíamos em um país mestiço e respondemos, mas como, se os dados demonstram de quem são chamados de mestiços vivem igual aos pretos, tornando-se de acordo com o IBGE em cidadãos de mesma classe oficialmente denominada negra e que sinceramente podemos chamar de uma segunda classe, uma subcategoria que faz parte de todos os projetos sociais do governo, mas que nunca, em nenhum momento, foram inseridos no projeto de poder.

E não seremos, não através de mãos e mentes brancas, mas por nossa própria luta, através do resgate da nossa alma, da nossa ancestralidade, remontando as nossas reminiscências ancestrais e dizendo somos sim os proprietários deste país e queremos os títulos das terras quilombolas, queremos imunidades aos terreiros, queremos divisão de riquezas, queremos cotas nas universidades, no mercado de trabalho, nos concursos públicos, em todos os meios, queremos Ações Afirmativas, queremos igualdade de RAÇA, temos o direito de Reparação Já, pois construímos este país, então devolvam-nos o que é nosso senão nunca seremos uma nação. 

Este país nos disse não ao poder, mas nos disse sim ao sofrimento, a escravidão, a dor, e regojizou-se muitas vezes ao ver o nosso sangue e suor derramado em nome da liberdade, da democracia e da garantia de direitos. A nós tudo foi negado, inclusive a ideia de que estaríamos aqui hoje em pleno século XXI, pois a teoria da branquitude academicamente profetizou a nossa inexistência, mas resistimos e hoje representamos 51% deste país.

Os negros representam 51% da população deste país, e isto não é pouca coisa, é a maior parte, a parte principal, a parte que me faz acreditar que é possível. Sem dúvida com toda a propositada dispersão implantada pelos brancos e que ainda reina entre nós, difundindo amplamente o conceito de que nós nunca vamos nos entender, de que nunca conseguiremos trabalhar coletivamente, por vezes carregamos este bordão como verdade, pois até o conceito de unidade, de família, de coletividade nos foi tirado, tanto em África como nas senzalas do Brasil e de todo o mundo. O racismo nos fez desconfiar de tudo, ele semeou em nós o medo de acreditar em lutas coletivas, mesmo porque coletivamente nada nos era permitido e tampouco os conceitos acima descritos de família, de povo, de nação, de unidade, de trabalhar em equipe, o racismo nos tirou isto e a cada instante nos mostra, ainda no século XXI de que somos nós que temos que avançar e que somos nós que nos atravancamos por nossa própria conta, e isto tudo é mentira.

Na verdade tudo foi preconcebido desta forma, as armadilhas foram montadas para tal e muitas vezes carentes e cheios de necessidades topamos entrar no jogo e entender débito como concessão. O Brasil não nos faz concessão, as elites não nos fazem concessões, eles nos devem e o débito é muito maior do que parece. Este país e todos os descendentes dos que cometeram o crime da escravidão, crime este que a ONU denomina como o maior crime da história da humanidade tem a obrigação de nos reparar, mas eles não vão fazê-lo. Na verdade vão dizer que isto é loucura, que estamos avançando, que fomos incluídos, e que existe espaço para todos e todas, que o mundo mudou e agora também podemos. Sim podemos, mas por nós mesmos, quando nós mesmos conduzirmos o nosso destino em cada comunidade, em cada seio familiar, em cada templo religioso, em cada conversa na esquina da rua, em cada final de semana, em cada música que conscientiza, em cada diálogo que edifica, em cada ação que diz: nunca imaginaram que estaríamos aqui e que chegaríamos tão longe, mas chegamos. 

Queremos mais, e podemos mais, é chegada a hora de não mais aguardar a graça alheia, ou as migalhas que caem ou são atiradas das mesas fartas aos pretos miseráveis. A tarefa é árdua mas temos que dar seguimento a ela, muito nos ensinaram o caminho e edificaram esta estrada, Zumbi, Dandara, Aqualtune, Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, João de Deus, Luiza Mahin, Zeferina, Maria Felipa, Lucas Dantas, Mãe Aninha, Iyá Nicácia, Mãe Pulcheria, Mãe Runhô, Mãe Simplícia, Marighella, enfim, são muitos os exemplos de homens e mulheres negras que fizeram um longo caminho para nós dizer sim é possível.

O momento é de Reforma Política, o momento é de amplo debate, o momento é de entrarmos em nossas comunidades, de voltarmos para dentro de casa e dizer: vocês idealistas deste sistema, herdeiros dos que causaram a nossa dor, sofrimento, morte e sangue não nos representam. A nossa casa, as nossas vidas, os nossos bairros, ruas, becos e vielas, não te cabem, cabem aos meus, e para estes parafraseio Solano Trindade ao dizer: “tenho um poema grande como o Nilo.”

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | JCpenney Printable Coupons