quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Racismo no PPGA: Resposta do Professor Hilton Pereira da Silva

Resposta ao documento apresentado pela Profa. Cristina Arêda Oshai à comunidade acadêmica da UFPA e aos movimentos sociais.
A profa. Cristina Arêda Oshai, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPA, em documento enviado a diversos setores desta Universidade e dos movimentos sociais (corresp. s/no, datada de 24 de setembro de 2013) faz acusações que considero graves a minha pessoa e minha atuação profissional. Por isso, venho a público manifestar meu repúdio a tais alegações e reiterar que em nenhum momento de minha história de vida fui conivente, leniente ou participante de qualquer ato de racismo ou discriminação.
Tenho mais de 20 anos de trajetória profissional e em todo este tempo sempre realizei atividades voltadas à promoção da cidadania e à defesa dos direitos humanos. As pessoas que trabalharam ou trabalham comigo jamais foram “objeto”, sempre foram parceiros na produção de conhecimentos para a melhoria da qualidade de vida de todos, através da proposição de políticas públicas mais justas e solidárias. Considero inaceitável qualquer insinuação ou acusação de que eu tenha cometido má-conduta acadêmica ou que tenha desrespeitado direitos enquanto no cargo de professor da UFPA.
Considero que a solução para situações conflituosas, discordâncias e mesmo preconceitos é o conhecimento. Não há conhecimento sem que ideias e opiniões possam ser livremente argumentadas. Não há locus mais adequado para expressar ideias e opiniões do que a sala de aula – o cerceamento da livre opinião, seja por força de lei, por pressão de pares, por imposição ideológica ou de qualquer outra forma, limita a própria função da sala de aula e, por isso, deve ser extremamente cauteloso.
Isso é verdadeiro inclusive em situações extremas. Um exemplo recorrente é o caso do Neonazismo na Europa. Neonazistas, embora com variadas matizes, usualmente acreditam que judeus deveriam ser completamente eliminados. No contexto acadêmico, respeitados os parâmetros democráticos socialmente estabelecidos, é importante ouvir suas opiniões, para refutar todos os seus argumentos e demonstrar que o Neonazismo está simplesmente errado. Outras hipóteses são corriqueiras e igualmente ilustrativas: se um aluno ainda admitir que somente a “mulher honesta” pode ser vítima de alguns tipos penais, é preciso ouvi-lo, problematizar com ele o conceito de “honestidade”, discutir dignidade humana e superar essa ideia, anacrônica e equivocada; se uma aluna sustenta que velhos são fracos e demenciados e, por isso, devem ser retirados do mercado de trabalho compulsoriamente, valerá refletir sobre os estereótipos, valerá trazer exemplos de atrizes, professores, presidentes idosos, ativos e bem sucedidos.
Minha convicção é de que, em uma sala de aula de adultos, deve-se permitir que os pontos de vista, mesmo que preconceituosos, cruéis e ignorantes, sejam expostos para então discutir com eles, informa-los, buscar conhecer suas razões e refutá-las cientificamente. Devemos tomar as oportunidades que se apresentam em sala não para punir o ignorante, mas para educa-lo. Não importa o quanto a palavra mal pronunciada nos doa, o diálogo aberto é sempre a melhor resposta.
Nosso papel enquanto professores é abrir e incentivar o diálogo, permitindo a todos os discentes sua livre manifestação, mesmo das ideias que possamos discordar ou até odiar, pois só assim poderemos refuta-las à luz da ciência, abertamente, e mudar perspectivas e opiniões em formação, através do convencimento e não do cerceamento. Isto é especialmente relevante no espaço da universidade e particularmente em uma sala de aula de pós-graduação, onde adultos altamente educados, todos professores neste caso, deveriam ter como prática o processo contínuo de reflexão, de aprendizado, de respeito às opiniões, mesmo considerando potenciais divergências ideológicas, de histórias de vida e de estranhamentos sobre os outros. A sala de aula, por sua própria natureza de lidar com conhecimento em construção, deve ser um espaço de total abertura para o esclarecimento, a correção, a retificação ou ratificação de opiniões, ao reconhecimento do erro, assim como ao respeito interpessoal e ao afeto, à concordância ou à discordância sinceras, e não impostas pelo que possa ser considerado politicamente correto ou antagônico a um determinado posicionamento político ou ideológico (por mais justo que este seja). Foi este ponto de vista que expressei à Profa. Cristina, pois essa é minha convicção.
Isto não é “naturalizar” qualquer comportamento: é buscar compreende-lo para poder agir sobre ele, é ser antropólogo. Não ignorei seu sofrimento e nem fui conivente com racismo, pois não sei se tal ocorreu por não estar presente à referida aula. Disse-lhe, ainda, que defenderia sempre seu direito à livre expressão de opinião e convicções, em quaisquer espaços que ela buscasse manifestá-las, e que cada cidadão deve ser responsável por seus atos e opiniões, bem como as potenciais consequências advindas delas. Insisti que caso ela se sentisse de alguma forma atacada, que tomasse as medidas legais cabíveis, mas que eu não poderia julgar se houve racismo ou não no episódio simplesmente porque não o presenciei. Havia um professor em sala no momento do ocorrido, e eu entendo que caberia a ele interferir caso considerasse que houve má conduta de algum aluno. Disse-lhe, também, que qualquer posição que ela tomasse no caso não afetaria nossa relação de orientação. Ela sempre teve a opção de buscar a orientação que melhor se ajustasse aos seus interesses. Por ser uma excelente aluna, como é de seu desejo expresso no documento, certamente não terá dificuldade em encontrar quem me substitua.
Tampouco eu disse que a universidade não é lugar para militância, pois militei no movimento estudantil durante todos os anos em que estive na UFPA e continuo a fazê-lo como docente. Mas, sim, indiquei à Profa. Cristina que, em minha opinião, há tempo e lugar para a militância e tempo e lugar para a discussão acadêmica. A ciência deve subsidiar os movimentos sociais, mas não deve estar sujeita a estes, sob o risco de perder sua independência, e mesmo sua função. Como professores, temos obrigação de compreender tal distinção, e saber ensinar e praticar sobre isso judiciosamente.
Embora, como em todo evento social, possa haver discordância dos pontos de vista aqui expressos, estou convicto de que eles estão inteiramente em acordo com as perspectivas da antropologia contemporânea, não ferem qualquer princípio da bioantropologia, e em nada limitam minha capacidade para coordenar a Casa Brasil-África ou exercer qualquer outra função institucional. Em sua manifestação, a profa. Cristina tem razão sobre uma coisa: minhas convicções não estão sujeitas a barganha! Minha vida pessoal e profissional repousa sobre elas, e eu durmo tranquilo.
Finalmente, concordo plenamente com as sugestões apresentadas no documento sobre a necessidade das diversas instâncias da UFPA promoverem mais eventos e atividades que busquem esclarecer a todos sobre racismo, sobre a legislação nacional pertinente a este tema e sobre liberdade de expressão, pois considero que todos os espaços possíveis devem ser usados para nos educar. Coloco-me à disposição para tomar parte de tais iniciativas para as quais, aliás, já tenho contribuído como membro do Grupo de Estudos Afro-Amazônico, da Casa Brasil-África e através das atividades de extensão que coordeno.
Tomo a liberdade de acrescentar às propostas da professora uma solicitação à Assessoria de Relações Étnico-Raciais da UFPA para que abra uma sindicância a fim de apurar os fatos relatados pela discente, e também para que a Universidade implemente mais atividades versando sobre resolução de conflitos, liberdades civis, tolerância e integridade acadêmica. E, quiçá, até um programa contínuo sobre humanização das relações interpessoais, para que possamos aprender a lidar melhor com nossos antagonismos e, desta forma, sermos mais eficientes e eficazes em nossas funções institucionais.
Atenciosamente,
Prof. Dr. Hilton Pereira da Silva

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