quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

“Morra de inveja!”: Como funciona o racismo estrutural, por Flávia Simas

Por Flávia Simas, em Geledés
Deu vontade de contar uma história pra vocês: uns anos atrás eu fui prestar um concurso em Brasília. Nem me lembro mais qual era o concurso, só sei que era na minha área, mas isso não é relevante. Eu fui com uma amiga da faculdade de Letras que, além de ter trabalhado comigo por anos, era uma pessoa que eu tinha em alta estima. Nesse dia, dividimos o mesmo quarto de hotel. Quando eu estava me arrumando, ela pegou um pente, e o que aconteceu naquele momento foi TÃO surreal que eu nunca mais me esqueci: ela começou a pentear o cabelo lisíssimo dela e, enquanto o pente deslizava, ela me perguntava ‘e aí, tá morrendo de inveja?’. Eu fiquei sem ação na hora. Demorei alguns segundos para conseguir ACREDITAR que ela estava me perguntando aquilo. Respondi, então: ‘não, não estou com inveja, pq eu gosto do meu cabelo, não preciso ter inveja do seu’. Ela não falou nada, não pediu desculpas, ficou um climinha tenso por alguns minutos mas acabou ficando nisso. Eu continuei amiga da pessoa em questão. Porque eu pensei que aquilo foi apenas alguns ‘segundos de bobeira’ e que, apesar de tudo, eu estou tão acostumada com as sutilezas do racismo brasileiro, que não ia fazer muita diferença cortar laços com a dita cuja.
A vida continuou e os nossos caminhos seguiram seus rumos felizes, eu fui embora do Brasil, etc, etc, etc. Mas, seguimos amigas em redes sociais. É aí que eu acho engraçada a parada de redes sociais, hahaha. Porque eu, que era uma pessoa que ‘fazia tudo direitinho’ nos meus idos tempos de faculdade, mudei bastante, me politizei bastante. Eu percebi que eu não preciso me calar mais frente às injustiças que acontecem nesse mundo. Das pessoas amigas antigas, tanto de faculdade, como de igreja, como da minha própria família, só restaram aqueles que de certa forma conseguem entender a minha trajetória de vida. E, se não entendem muitos dos meus posicionamentos por considerá-los ‘radicais’ demais, pelo menos se colocam no meu lugar.
Talvez eu não tivesse mudado tanto se não tivesse ido embora do Brasil. Mas eu sou muito feliz por ter mudado. Exerço a gratidão todos os dias, por ser quem eu sou hoje, por estar onde estou e por estar conseguindo ser um modelo para muitas meninas. Outro dia eu li uma das frases mais lindas e libertadoras da minha vida: ‘não quero ser padrão de beleza, quero ser padrão de aceitação’. Hoje a minha amiguinha que abriu meu texto me bloqueou no facebook. Mal sabe ela que sua atitude é apenas uma de tantas e tantos. A roda da vida é assim… alguns poderiam me perguntar porque eu não a bloqueei antes. A resposta é simples: porque eu não tenho nada contra essa pessoa. O que ela fez comigo naquele hotel, nunca será esquecido. Mas, eu não sofro com aquilo. Apenas foi impossível não lembrar do ocorrido, tendo em vista que hoje ela me bloqueou simplesmente por argumentar que o autor do texto que ela compartilhou nada sabe de racismo estrutural. E, nada sabe mesmo. Afinal de contas, se soubesse, não teria escrito um texto ultra-reacionário dizendo que a fifa não é racista.
O racismo estrutural é isso, minha gente: as oportunidades existem, são as mesmas, mas estranhamente a realidade não muda. Não muda o fato de que, entre euzinha e uma menina loirinha provavelmente super bacana e gente boa, tenham ME ESCOLHIDO para revista em um dos muitos aeroportos que eu já visitei em minha vida. Não muda o fato de que, num restaurante em que estamos sentados eu, meu marido (preto) e nosso amigo branco, o garçom tenha entregue a conta ao amigo branquinho, que nem ia pagar a mesma, pois ele era o nosso CONVIDADO e o garçom teve que dar uma voltinha para entregar a conta a ele, pois quem estava mais próximo era meu marido. Não muda o fato de que eu sou extremamente mal-tratada em lojas de grife em Goiânia mesmo tendo grana pra fazer minhas compras. Não muda o fato de que, em plena Bahia, tenham escolhido a Fernandinha Lima, super gente boa, branquinha e linda (e não estou sendo irônica, ela é linda mesmo) para representar o Brasil em um evento da copa. Não muda porque, na sociedade brasileira, os lugares estão demarcados. Gente preta, só no entretenimento. A mulher negra, para ganhar visibilidade, precisa estar atrelada à imagem de sensualidade. Eu já ouvi chorume de que ‘brancas não podem participar do globeleza, e que isso é racismo contra brancos’. Sim, meus caros, eu ouvi. A pessoa que escreveu isso não tem idéia de como o racismo estrutural funciona. Porque ela provavelmente está lá, no lugarzinho dela de privilegiada. Não entende que o próprio concurso já é uma aberração, um ato de extrema objetificação da mulher negra, que só é considerada enquanto corpo, nunca enquanto mente, nunca enquanto alguém que pode ‘apresentar a copa’, por exemplo. Não entende que o concurso não está dando visibilidade às mulheres negras, mas sim mantendo as mesmas em seu lugar: o de apelo visual, pois é ‘pelo corpo que se conhece a verdadeira negra’. E a copa, não está necessariamente dando visibilidade aos brancos, e sim mantendo a ordem ‘natural’ das coisas: o de pessoas que podem se argumentar suficientemente bem para apresentarem um evento dessa envergadura.
Então, pessoas ‘das antigas’ que ainda restam em meu facebook, fica meu apelo: pensem bem antes de dizer que não houve racismo por parte da fifa. Porque o racismo de que estamos falando é o estrutural, e não aquele do ku klux klan, que joga negros na fogueira. É sutil, é quase imperceptível, mas mantém “cada macaco no seu galho”. Atentem-se, porém, para o fato de que toda manifestação de poder encontra resistência. A resistência negra está em franca expansão no Brasil, e de repente nós estamos cada vez mais (cons)cientes de que estruturas que paulatinamente excluem uns e privilegiam outros podem – e devem – ser questionadas em seus detalhes e pormenores. Por fim, para usar uma frase muito bem-quista dos reacionários de facebook: ‘nada contra’ a Fernanda Lima, pra mim faz todo sentido que ela tenha sido escolhida para apresentar o parangolê lá – afinal de contas, a lógica implícita no Brasil é a de que os papéis estão bem divididos e ela, dentro desse sistema, fez mais do que merecer o galho dela. Só não pensem que essa ordem se manterá para sempre.

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