quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O genocídio dissimulado


Apesar de serem as maiores vítimas da violência, negros e pardos evitam fazer queixa à polícia em caso de agressão, porque não acreditam na instituição ou por medo de represália. Foto: Marcelo Camargo - ABr
Apesar de serem as maiores vítimas da violência, negros e pardos evitam fazer queixa à polícia em caso de agressão, porque não acreditam na instituição ou por medo de represália. Foto: Marcelo Camargo – ABr
As evidências de que o Brasil é dividido por uma espécie de racismo institucional, no qual o próprio Estado, por seus agentes, atua de forma discricionária com base na cor da pele, aparecem em quase todos os indicadores
Por Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa, em Forum
Pequena nota escondida no meio de uma coluna do Estado de S.Paulo e uma reportagem mais extensa no  Globo  mostraram, na sexta-feira (18/10), como a imprensa brasileira, tão homogênea ao lidar com a política e a economia, pode divergir e até ser negligente ao tratar de assuntos mais complexos.
Os dois textos se referem a um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre racismo no Brasil. Basta citar uma das conclusões do trabalho para ilustrar como esse tema deveria merecer muito mais destaque nos jornais: por causa da violência seletiva, a expectativa de vida de um homem jovem brasileiro, negro ou pardo, é menos que a metade da de um homem branco da mesma idade.
Os dados do estudo podem ser lidos no 4º Boletim de Análise Político-Institucional do Ipea (ver aqui), no capítulo intitulado “Segurança Pública e Racismo Institucional”, mas o texto do Globo parece ter sido baseado na apresentação feita pelo diretor do instituto, Daniel Cerqueira (ver aqui).
O resumo do Estado, que tem apenas dezoito linhas em uma coluna, pode ter sido feito com base apenas no primeiro e no último quadros da mesma apresentação, que informam o seguinte: mais de 60 mil pessoas são assassinadas a cada ano no Brasil; há um forte viés de cor/raça nessas mortes; o negro é discriminado duas vezes – pela condição social e pela cor da pele.
Os indicadores que fundamentam essas conclusões são o retrato de um dos aspectos mais cruéis da desigualdade social no Brasil e um argumento sólido e contundente em defesa das políticas sociais de compensação por questões étnicas. Além da discriminação pela cor da pele, demonstram que o ambiente público é extremamente perigoso para a juventude.
Em primeiro lugar, observa-se que o risco de morte violenta se apresenta muito mais elevado para adolescentes e jovens do sexo masculino, independentemente da cor da pele ou da classe de renda e educação, do que para pessoas adultas. Ou seja: no período da vida em que mais se expõem à interação social é quando os jovens brasileiros estão sob maior risco de morte.
No recorte por raça, um primeiro destaque estarrecedor: os brasileiros negros e pardos, sejam ricos ou pobres, seja homem ou mulher, têm quase oito vezes mais possibilidade de se tornar vítima de homicídio do que as pessoas não-negras. Para cada três vítimas de assassinato no Brasil, duas têm a pele escura.
Racismo institucional
As evidências de que o Brasil é dividido por uma espécie de racismo institucional, no qual o próprio Estado, por seus agentes, atua de forma discricionária com base na cor da pele, aparecem em quase todos os indicadores.
Para evitar desvios de interpretação motivados por alegações a respeito das bases proporcionais de cada grupo étnico observado, o estudo expõe o relativo equilíbrio entre os dois universos comparados – 96 milhões de negros e pardos e 94 milhões de não-negros.
O resultado é chocante: apesar de serem as maiores vítimas da violência, negros e pardos evitam fazer queixa à polícia em caso de agressão, porque não acreditam na instituição ou por medo de represália.
Genocídio é uma expressão criada pelo jurista polonês Raphael Lemkin, em 1944, e significa a exterminação sistemática de pessoas, motivada por critérios étnicos, de nacionalidade, religião, quase sempre com objetivo de eliminar minorias. Os números contextualizados pelo Ipea revelam a persistência de uma política de extermínio causada ou permitida por instituições públicas no Brasil, seja pelo desinteresse em atender ocorrências que têm negros e pardos como vítimas, seja pela ação letal da polícia quando esses cidadãos estão envolvidos ou são suspeitos de participar de ações delinquenciais.
Trata-se de uma sequela que resiste ao fim da escravidão oficial, ao processo de aperfeiçoamento do sistema republicano e à modernização do país.
No Brasil, nascer com a pele escura significa já sair com uma expectativa de vida 114% menor do que a dos não negros, com relação aos homicídios. Nas demais causas de mortes violentas, como acidentes, a distribuição das fatalidades é mais democrática.
Apenas no caso de suicídios os índices de mortes entre não-negros é superior, ou seja, mesmo com chances muito menores de segurança e bem-estar, negros e pardos dão mais valor às suas vidas.
Esse quadro deveria ser colocado como pano de fundo das manifestações que ocupam as ruas de algumas das grandes cidades brasileiras por esses dias. O estudo do Ipea sugere que temos uma democracia incompleta, e a apresentação termina com uma possibilidade que deveria instigar os jornalistas: os negros e pardos brasileiros são vítimas de racismo institucional?
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Achille Mbembe: “Pela abolição das fronteiras herdadas da colonização”


Mbembe
Em Buala
Saindo da grande escuridão – Ensaio sobre a África descolonizada. É o titulo do último livro de Achille Mbembe, que acaba de sair pela “La Découverte”. Norbert N. Ouendji leu atentamente este livro, rico e bem documentado, escrito em memória de Franz Fanon e Jean-Marc Ela, dois “pensadores do futuro”. Mesmo com a sua agenda cheia, o autor, atualmente lecionando nos Estados Unidos (Duke University), aceitou esclarecer idéias que permitem uma melhor compreensão de sua filosofia e trajetória. Nesta entrevista, vai além do texto centrado em questões ligadas à colonização e aborda assuntos que estão na ordem do dia dos debates africanos atuais.
Achillle Mbembe intima o continente a “sair da escuridão”. O seu estado de sono profundo atual preocupa-o. Ao longo do livro, vai ao encontro de Franz Fanon ao convidar os africanos a olharem para lá da Europa se querem “erguer-se e caminhar”…
É que, simplesmente, um novo mundo se desenha aos nossos olhos. A Europa deixou de ser o centro do mundo, ainda que continue um ator importante internacionalmente. Destruída pelo narcisismo e pela ferida do estatuto perdido, gira em torno de si mesma e os africanos perdem tempo querendo se erguer tendo a Europa como modelo ou se envolvendo em disputas de outros tempos.
A China tera então algo a dizer? Pergunto porque sublinhou que um dos fatos mais importantes dos próximos 50 anos será a presença, em África, do império chinês, onde numerosos investimentos são já  visíveis em muitos países do continente.
Para que o projeto sino-africano se torne um evento positivo de suas histórias, os africanos terão que lhe dar corpo e alma. No momento, este projeto segue uma lógica puramente extrativista e desta forma será preciso reforçar as bases materiais dos reinos locais e das classes sociais que as sustentam.
Esta lógica está bem desenvovida no seu livro. Compreendemos que os potentados locais, dos quais falou, são inertes face ao grande sono africano que descreve e denuncia. Mas o que chama a atenção do leitor é a relação que estabelece entre esta situação e a colonização.
Ela não ajudou. De todos os pontos de vista, a herança deixada pela colonização foi mediocre. As políticas pós-coloniais não fizeram muito melhor: a pobreza de espírito lembra bastante a respeito dos líderes coloniais.
A este propósito, não tem muita estima quanto à França. Acha que esta antiga força colonial “descolonizou sem se auto-descolonizar” ?
A colonização francesa terminou e, com muito custo, houve uma transferência de poderes. Isto não significa o mesmo que a “descolonização”, se entendermos por “descolonização” um projeto radical, de recomeço. Por outro lado, se a colonização foi uma forma primitiva de dominação de raças, não podemos pretender ter-nos descolonizado se, afinal, não desmantelámos as armas físicas e as estruturas materiais e institucionais que alimentaram o racismo.
A França de hoje – como também grande parte da Europa – se encontra na tormenta de uma fomidável lógica racial, que nem tem já vergonha de se proclamar como tal. O velho país de “direitos do Homem” está possuído por um desejo confuso de provincianizar e, devo dizer mesmo se a palavra soa forte, pelo espírito de um demônio, que todos nós conhecemos: o demónio do apartheid. Como compreender este sonho maluco de uma comunidade pura, composta por “pessoas de descendência”, fechadas em suas “tradições” e livres de  “estrangeiros”?
A instrumentalização descarada do Islão, espécie de guerra social armada contra os jovens franceses não brancos da periferia, um tipo de culturalismo grosseiro que se utiliza para dar conta dos problemas de discriminação, a raiva cultivada contra os imigrantes, as deportações dos mais fracos e dos mais vuneráveis, os projetos de perda da nacionalidade – tudo isso, literalmente, fede.
As elites africanas seguem atentos estes infelizes desenvolvimentos e não conheço ninguém que gostaria, em pleno século XXI, de viver sob o regime de lutas permanentes e de humilhação cotidiana que é o apartheid.
Segundo Achille Mbembe, a descolonização é então um processo inalcançado, ao mesmo nível que a democratização. O senhor fala de uma descolonização “fictícia”, dando assim a impressão que os africanos têm ainda um longo caminho à percorrer para contribuir positivamente para aquilo que chama de “declosão do mundo”.
Entendo por “descolonização fictícia” uma descolonização sem democratização ou, ainda, no caso da África austral, sem “desracialização”. É assim, um tipo de descolonização onde o chefe te manda para casa, mas guarda na cintura a bolsa com as chaves.
Posto isto, hoje não é mais o caso de lutar contra um ocupante estrangeiro, mas contra nós mesmos. E claro que as estruturas de exploração e de desigualdades a nivel mundial ainda estão presentes. Mas as suas consequências são tanto mais desastrosas como, num plano interno, África é mole e gelatinosa. Suas forças estão dispersas e sua energia dissipada pela crueldade, pelas depredações e pelas desordens internas. O continente precisa constituir o seu próprio centro para atingir a descolonização. É preciso conquistar este trabalho num contexto particular e arriscado: o contexto da globalização e o começo de uma balkanização do nosso mundo.
Se, como disse, a descolonização foi somente “fictícia”, como podemos justificar a celebração, neste ano de 2010, do cinquentenário das independências?
Do meu ponto de vista, não há efetivamente nada a celebrar. Em 1960, certos países africanos estavam avançando com a Coréia do Sul. Onde é que estamos cinquenta anos depois? Não confundiremos ninguém vestindo farrapos, o que manifestamente, é igual a estar nú.
O seu livro aparece precisamente no momento desta celebração. Foi uma contribuição para o debate ou uma simples coincidência?  
Nós precisamos de uma reflexão crítica se queremos desbloquear os caminhos do futuro. Este trabalho crítico, ninguém o fará em nosso lugar. Meu livro é uma contribuição à este esforço. Minha voz não é a voz de nenhum mestre. É a minha própria voz. Ao mesmo tempo ela se implica numa tradição da qual eu reivindico a herança.
Isto explica também a sua cólera em relação ao fato de que, em muitos países, os nomes de certas figuras importantes que combateram pela “independência” continuem a ser censurados nos discursos oficiais. Por que não conseguimos destinar um “lugar aos vencidos” com foi feito na África do Sul?  
Nós somos governados por uma classe de predadores indígenas com comportamentos e ações  que seguem uma linha de tradição, de poder, que prevalece em África desde o tráfico de escravos. Os que nos governam, comportam-se quanto aos seus países como os ocupantes estrangeiros, tratam os seus países como prisioneiros de guerra.
Eles têm uma maneira de conduzir a vida no dia-a-dia, uma maneira de falar, uma maneira de se vestir, de beber, de comer, de se mostrar em público, de provar sensações, de apreciar a vida, de acabar com as nossas poucas riquezas, de esbravejar, de tratar seus inimigos, que demosntra em todos os âmbitos qualidades de uma fera selvagem. A colonização encorajou de todas as formas esta selvajaria.
É esta tradição de selvajaria que, historicamente, explica a relação dos estados negros com a morte em geral e sobretudo com a morte dos que, através da luta, representaram outras possibilidades de vida: a possibilidade de uma emancipação radical.
O caso de Ruben Um Nyobè, e de outros, assombra-o. Disse também que se você está espiritualmente afastado de Camarões, isso deve-se em grande medida à recusa do país em reconhecer a existência do crânio de um parente morto ou, mais especificamente, “a recusa de sepulturas e o desaparecimento dos homens mortos durante as lutas pela independência e auto-determinação”.
Não é somente por conta de Um, mas também por todos os que se depararam com a morte no decorrer das lutas – Pierre Yém Mback, Félix Moumié, AbelKigué, Osende Afana, Ernest Ouandié e a longa lista de pessoas sem nomes e, por vezes, sem sepultura. É necessário acrescentar também aqueles que viveram em regime de exílio e de condenações e que o nosso país não reconheceu e que, num certo momento, perseguiu – Nded Ntumaza, Abel Eyinga, Mongo Beti, Jean Marc Ela e muitos outros.
Não podemos esquecer, no meio disso isso tudo, aqueles que, contra ventos e marés, resistiram firmes, mestres de si mesmos, sempre à margem, aqueles cujo modo de vida, em pleno clima tempestuoso, continua a revelar o que poderíamos conquistar. Eu acredito, por exemplo, em Fabien Eboussi Boulaga, figura singular, o qual as idéias terão, por muito tempo, grande peso na vida e no espírito africano.
Partiu para a França, seguiu-se a descoberta dos EUA antes de pousar as suas bagagens na África do Sul, no final do século XX. O seu olhar para cada um destes três países é ao mesmo tempo apaixonado e comovente. Qual a herança que estes lugares te deixaram? Que tipo de relação tem hoje com Camarões? 
Eu continuo a viver entre a África do Sul, os Estados Unidos e, de tempos em tempos, a França. Teria passado minha vida cruzando o mundo. Passei por cada um destes lugares que morei com uma certa reserva de distância e de admiração. Foi isto que me permitiu assumir esta instabilidade, este movimento na vida. Viajando encontrei novas pessoas, outras línguas, outros sons, outros mundos. Nascido em qualquer lugar, não pertenço a lugar algum. Teria passado o essencial dos meus anos agarrado a este aspecto disperso da minha existência, traçando caminhos e me aproximando por vezes do improvável, trabalhando nos intervalos com o objetivo de dar uma expressão comum às coisas que muitas vezes nos dissociam. Os Camarões, vejo este país numa relação filial com as figuras que acabámos de evocar, persuadido que um dia, no futuro, a justiça será feita em seus nomes e aos textos que eles escreveram.
A partir dos relatos que dão ao seu livro um tom autobiográfico, podemos dizer que o senhor é o símbolo do cidadão “afropolitano”, o qual é elogiado na maioria dos seus discursos?  
Apenas me aconteceu ter experiências em alguns lugares. Cada um destes lugares teceu parte da minha vida. Cada lugar deixou em mim traços que sou incapaz de apagar. Cada lugar poderia ter sido, cada qual, o norte e o crepúsculo da minha existência. Mas na realidade, só pude me aproximar de cada um deles graças a uma certa distância, construindo brechas que, em seguida, me faziam tentar transpô-las. E foi ao caminhar que me tornei não “Negro”, mas simplesmente um homem no mundo.
Fala de uma África que é hoje “povoada em sua maioria de passantes potenciais”. Que os africanos são tentados pela aventura, normalmente difícil, na qual sonham em se “reinventar e em se enraizar”. Como alcançar esta fuga forçada sendo que vocês participam de um processo de globalização que já não é, para milhões de pessoas, “o tempo livre da circulação”?
Um dos símbolos mais dramáticos da farsa das independências é o fato de que, se tivessem escolha, milhares de africanos viveriam fora do continente e não em seus países de origem. Este desejo generalizado de abandono é uma verdadeira catástrofe. Mas eu faço igualmente referência às tendências pesadas de evolução social do continente – brevemente mais de um bilião de habitantes, o progresso de uma civilização urbana sem precedentes na história da região, um novo ciclo de migrações internas, a consolidação de novas diásporas, especialmente para os EUA, a vinda maciça de chineses para as grandes metrópoles continentais. A questão é saber como acompanhar estas mutações estruturais. Precisamos de re-imaginar as instituições com esta África em movimento, esta África em circulação, esta cultura fluída e aberta para o mundo e para o novo, esta constelação crioula, que denomino de “afropolitana”.
Voltamos às causas deste abandono do continente por seus filhos e filhas. O senhor aponta particularmente para a gestão calamitosa dos recursos disponíveis, pelos ganaciosos de poder. Eles partem, de certa maneira, porque não querem mais viver sob “chefias mascaradas”.
As pessoas também fazem escolhas pessoais e não são todas ligadas à situação política desastrosa de nossos Estados. Eu falo da nova fase de migrações em massa, aquelas que estão ligadas à sobrevivência económica ou aquelas que são efetivamente fruto de situações de guerras e conflitos. Elas afetam milhões de pessoas que se mudam de campo em campo. Mas existe também um processo de mudança de fronteiras, sejam físicas, culturais ou religiosas. Deste ponto de vista, temos que observar o tipo de ajuste mental que fazem as igrejas pentecostais, que se desenvolvem por todo lado no continente, de uma maneira quase-capilar.
Esta oscilação da geografia, do imaginário e das formas de mobilidade é um fator chave das recomposições em curso. Acompanhar de maneira criativa estas recomposições exige que sejam abolidas fronteiras herdadas da colonização, que sejam abertos grandes espaços de circulação sem os quais não haverá nenhum pólo regional de força económica e de criatividade intelectual, cultural e artística. Nós temos que abrir em África vastos espaços de livre-circulação. Este esforço deve andar a par da reforma das leis sobre a nacionalidade. Acordemos, por exemplo, a cidadania aos africanos que a desejam, velhas e novas diásporas misturadas. Instituemos, a nivel continental, um “direito de retorno” para aqueles que desejam pertencer ao continente.
Este discurso lembra o projeto dos Estados Unidos sonhado por Marcus Garvey e mais tarde Kwame Nkrumah. Hoje, líderes como Kadhafi tentam fazer prosperar esta idéia no seio na União Africana, que é oficialmente consciente da necessidade de concretizá-la. Para além dos discursos, podemos ser otimistas em relação a esta causa com a actual geração de chefes de estado?
É um vasto horizonte e um novo imaginário do futuro que começa a surgir. Este imaginário deve estar à altura dos desafios colocados pelo tumulto do presente. Os discursos sobre a globalização escondem mal o fato de que uma grande “divisão” do mundo esta em curso. O processo de balkanização do mundo se traduz pelo crescente medo, o regresso de muros, pelas tentativas de redução do político às pulsões mais primárias, desenvolver razões para a inação, o retorno valente e descarado de lógicas racistas, que acreditávamos ultrapassadas.
África não tem nada a fazer perante um mundo mais feroz do que nunca, com micro-Estados sem nomes, sem voz nem peso próprios. Precisa absolutamente de decidir se quer constituir-se como força autónoma, ser capaz de abraçar o mundo e de agir à sua altura. Esta idéia de uma “nacionalidade africana”, de uma “cidade africana” vem de longe. Ela é inseparavel da emergência da África na modernidade. Comporta dimensões políticas, filosóficas, estéticas e económicas. Para reativá-la positivamente nas condições contemporâneas, é preciso remetê-la para as mãos de sociedades civis africanas e fazer dela um grande movimento cultural.
Conforme sua dialética, a maior parte de nossos dirigentes estão prontos para “ficar no poder toda a vida”. O senhor estabelece até uma relação entre práticas sexuais de alguns e a gestão do poder pós-colonial, onde está em curso uma “máquina de prazer”. Como funciona extamente este mecanismo? Por fim, quais são os países onde isto é mais evidente?
Não é apenas um assunto de dirigentes. É toda uma relação entre Estado e sociedade que é preciso colocar em questão. Cada sociedade tem o dirigente que merece.
Posto isto, a cultura pós-colonial, autoritária – a qual eu dizia que obteve certa competência no ethosdo tráfico de escravos – é uma cultura falocrática. A falocracia, o machismo, é o governo do pai ou do ancião. Ela funciona baseada na crença onde tudo acontece onde existe o falo. É no e pelo falo que acontece um evento. Na realidade, o falo é o evento! É o poder, é o esforço que coloca o falo como figura e estrutura. Não uma estrutura de produção, mas um conglomerado de sujeitos devotos do consumo não consciente, dos gastos frenéticos, sem reservas, enfim, da corrupção.
É isto que eu chamo de “máquina de prazer”. Esta “máquinas de prazer” estão em curso em países como Camarões, os dois Congos, a Nigéria, Angola, Gabão, as duas Guinés, o Chade e o Quénia. A falta de lucidez está presente em quase todos os países africanos.
Achille Mbembe mostra que o desafio da democracia é um denominador comum dos países em questão. A seguir, sustenta que, para a democracia “se enraizar em África, é preciso que ela seja trazida por forças sociais e culturais organizadas, por instituições e canais talentosos, com criatividade e sobretudo por lutas quotidianas de pessoas, de tradições e solidariedade”. Isto significa recolocar em causa as tentativas de lutas que aconteceram nos anos 1990.
Na maior parte dos casos, as lutas dos anos 1990 não conquistaram uma democratização radical da vida política africana. Nos estados francófonos em particular, continuamos a ludibriar as eleições como no tempo da colonização. Os cidadãos não conseguem escolher livremente os seus dirigentes. A única forma de alternância é pela morte. As sucessões, desde então, dão-se de pai para filho.
As experiências mais avançadas continuam frágeis pela falta de enraizamento nas instituições e estruturas. Existe um grande desencontro entre a maneira de conduzir as lutas e as formas de criatividade social e cultural em geral, que são a linguagem, as instituições, as maneiras de se organizar ou os modos de legitimação. Precisamos de uma segunda geração de lutas pela democracia em África. Para terminar, esta segunda geração de lutas deverá, necessariamente, assegurar uma ponte entre as formas de um lado e a cultura de outro.
O que é que isso quer dizer concretamente?   
Nós precisamos estudar muito atentamente as múltiplas formas sob as quais operam as lógicas sociais e culturais. Como, na prática, no dia-a-dia, as pessoas constroem a comunidade? Como se organizam para praticar a solidariedade? De que tipos de instituições eles se dotam para realizar objetivos transcendentais? Em que língua eles falam sobre assuntos quotidianos ou ainda sobre finalidades últimas? Como eles cantam ou rezam? Através de que formas expressivas eles procuram se comunicar na alegria, na tristeza ou nas lamentações? Como articular com o próximo e com o que está distante? Como eles se apropriam do que é novo? Tudo isso constitue capital cultural sem o qual não é possível uma ação eficaz. Se queremos enraizar a democracia em África, é preciso apropriar-se deste capital cultural e de seus símbolos como recursos principais da luta. E preciso traduzir a idéia da democracia na língua do povo. Este trabalho intelectual, tático e organizacional, infelizmente não está feito.
Os partidos de oposição têm hoje legitimidade e credibilidade para acompanhar um projeto como este? 
Os partidos de oposição estão longe de tererm efetuado um trabalho intelectual do qual eu falava. É preciso propor um imaginário que fale às pessoas das condições concretas de suas vidas quotidianas. Este retorno às situações quotidianas deve caminhar junto com a articulação de um horizonte de esperança, uma certa proposta para o futuro. Mas ainda é preciso acordar a consciência de classe se queremos fugir dos resquícios do etnocentrismo. Isto exige uma enorme capacidade de criatividade e tradução. É significativo, por exemplo, que as igrejas pentecostais definam os contornos da comunidade e do indivíduo a partir de idiomas que poderiam se inspirar os partidos políticos da oposição. De fato, é possivel propor novas visões da comunidade que não sejam necessariamente somente biológicas, inventar novas formas de parentesco que transcendam a linhagem ou a tribo. É este tipo de imaginário que é preciso saber trabalhar.
No caso de Camarões particularmente, como o senhor poderia, com algum recuo, resumir a situação que domina o país, um ano antes das eleições presidenciais em princípio previstas para outubro de 2011?
É um encistamento. O país está sob o domínio de aproximadamente meio milhão de anciãos que se apoiam em todos os níveis da vida pública e que não querem morrer sós. Eles estão decididos a levar com eles tudo que vive e respira. O primeiro entre eles, senhor Paul Biya, completará 80 anos num futuro próximo. Abatido de senilidade, ele fica lúcido algumas horas por dia, como pessoas da sua idade. Pouco importa que e esteja no poder há 28 anos. Ele pode se igualar ou ultrapassar Fidel Castro. Ele quer morrer no poder.
Como evitar um naufrágio como este? Você passa a sensação que uma alternância não é possível nas condições atuais.    
As relações entre sociedade e Estado são tais que nas condições atuais não é possível uma alternância pacífica. Os atores suscetíveis de conduzir uma revolução social radical não atenderam ao chamado. A sociedade está enferrujada. Assim, a necessidade de uma revolução social radical nunca foi tão necessária como nos dias de hoje.
Neste sentido, qual o seu olhar sobre as ações de certos membros da diáspora nos últimos tempos? 
Tudo o que contribui para desbloquear este impasse deve ser testado. Mas é necessário reconhecer que estamos longe do objetivo. O espectro do Haiti plana sob a África.
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(Traduzido do texto publicado no AFRICULTURES. Tradução:  Juliana Moraes)
Achille Mbembe. Camarões. Professor de história e ciência política na Universidade de Witvatersrand (Joanesburgo) e diretor de pesquisas de Pesquisa Social e Econômica do Instituto Witwatersrand, em Joanesburgo. O seu livro On the Postcolony emergiu como um dos pensadores mais prolífico em campos dentro da história, sociologia e filosofia política. Este trabalho tem sido principalmente o tema de um debate nas universidades. Ali desenvolve uma dupla crítica cuja actualidade evidencia: o universalismo abstrato, mas também a utilidade dos estudos pós-coloniais, que põem demasiada ênfase na diferença, afastando-se da pesquisa do semelhante. Cita também os recursos que são a força das “democracias ocidentais”, o compromisso sobre o qual se funda o Estado-providência, a capacidade de legitimar os antagonismos sociais através de luta política mais ou menos pacífica e a constituição através desses antagonismos até de um mundo comum. Se esses ativos estão hoje em ruínas, a sua reflexão sobre a ética do próximo é da ordem da renovação do pensamento político de hoje.

Achille Mbembe*: “A Europa já não é o centro de gravidade do mundo”. Imperdível

achille mbembe“… os riscos sistémicos aos quais apenas os escravos negros foram expostos na altura do primeiro capitalismo constituem doravante se não a norma, pelo menos a situação de todas as humanidades subalternas. Há, pois, uma universalização tendencial da condição negra. Esta vai a par com o aparecimento de práticas imperialistas inéditas, uma re-balcanização do mundo e a intensificação das práticas de delimitação de zonas. Estas práticas constituem, no fundo, uma forma de produção de novas subespécies humanas votadas ao abandono, à indiferença, quando não à destruição”. [destaque de Combate Racismo Ambiental]
Por Arlette Fargeauno Le Messager/Buala
Para todos os que se interessam pela renovação do pensamento crítico fora do Ocidente, o maior acontecimento intelectual da rentrée é incontestavelmente a publicação, nas Edições La Découverte, em Paris, de Critique de la raison nègre do Camaronês Achille Mbembe. Anunciado há já alguns anos e na continuação do sucesso que foi Sortir de la grande nuit, este novo ensaio representa o livro mais complexo e ousado de um autor que se afirmou como o pensador africano mais completo da sua geração e com maior projeção internacional a avaliar pelo número de traduções dos seus textos em línguas estrangeiras e pelo impacto das suas tomadas de posição, académicas e públicas.
Esta nova obra abre com uma declaração poderosa que se assemelha a um Manifesto. «A Europa já não é o centro de gravidade do mundo», escreve ele; e «esta desclassificação abre novas possibilidades — mas também arrasta perigos — para o pensamento crítico». São estas possibilidades e perigos que Mbembe explora. A outra tese forte do livro tem a ver com aquilo a que o autor chama «o devir-negro do mundo». Do seu ponto de vista, o «nome Negro já não remete apenas para a condição atribuída às pessoas de origem africana na época do primeiro capitalismo». Hoje em dia, o negro designa toda uma humanidade subalterna de que o capital já não necessita no momento em que se define, mais do que nunca, pelo modelo de uma religião animista, o neoliberalismo. A temática da diferença racial é explorada até às suas últimas consequências.
Neste novo livro, Mbembe permanece fiel ao seu estilo, isto é, um pensador atípico e um escritor de língua francesa de primeiro plano. Força da escrita, fulgor das ideias, profundidade histórica, uma afirmada estética da provocação, originalidade dos argumentos e erudição colossal — Tudo se equilibra para fazer deste ensaio um verdadeiro fogo de artifício das ideias.
De la postcolonie em 2000. Sortir de la grande nuit  dez anos mais tarde. E agora, Critique de la raison nègre. Estamos perante os contornos de uma verdadeira obra. Pode, no momento em que se publica este novo ensaio, desenhar em poucas palavras as grandes linhas do seu projeto intelectual?
A minha preocupação é contribuir, a partir de África onde vivo e trabalho, para uma crítica política, cultural e estética do tempo que é o nosso, o tempo do mundo. É um tempo marcado, entre outras coisas, por uma crise das relações entre a democracia, a memória e a ideia de um futuro que a humanidade no seu conjunto poderia partilhar. Esta crise é agravada pela confluência do capitalismo com o animismo e a recodificação em curso do conjunto dos campos das nossas existências na e pela linguagem da economia e das neurociências. Esta recodificação volta a pôr em questão a ideia que construímos do sujeito humano e das condições da sua emancipação a partir pelo menos do século XVIII.
Uma das teses fortes do seu novo ensaio é a de que um dos efeitos do neoliberalismo é o de «universalizar» a condição negra». Que entende por «neoliberalismo»?
O pensamento contemporâneo esqueceu que, para o seu funcionamento, o capitalismo teve sempre, desde a sua origem, necessidade de suportes raciais. Melhor dizendo, a sua função sempre foi não apenas a de produzir mercadorias, mas também raças e espécies. Por neoliberalismo, entendo a idade no decorrer da qual o capital quer ditar todas as relações de filiação. Ele procura multiplicar-se numa série infinita de dívidas estruturalmente insolventes. Deixa de haver distância entre o facto e a ficção. Capitalismo e animismo não são senão uma e a mesma coisa.
Sendo assim, os riscos sistémicos aos quais apenas os escravos negros foram expostos na altura do primeiro capitalismo constituem doravante se não a norma, pelo menos a situação de todas as humanidades subalternas. Há, pois, uma universalização tendencial da condição negra. Esta vai a par com o aparecimento de práticas imperialistas inéditas, uma re-balcanização do mundo e a intensificação das práticas de delimitação de zonas. Estas práticas constituem, no fundo, uma forma de produção de novas subespécies humanas votadas ao abandono, à indiferença, quando não à destruição.
O seu ensaio abre com uma declaração retumbante que é quase um Manifesto. Afirma que a Europa já não é o centro de gravidade do mundo. No entanto, não deixa de recorrer aos seus arquivos. Porquê?
Somos obrigados a confrontar este arquivo. Ele contém uma parte de nós próprios e, por isso, também é nosso. Quando se trata dos mundos euro-americanos, não podemos dar-nos ao luxo da indiferença ou permitir-nos o da ignorância. A ignorância e a indiferença são privilégios dos poderosos.
Porquê esta inflexão pelo Ocidente quando, na sua opinião, a sua hegemonia está totalmente destruída?
Não se trata de um desvio. Trata-se de habitar esta tradição uma vez que, de qualquer forma, ela não nos é estranha e, nela, nós não somos estrangeiros. Somos parte essencial no processo da sua constituição. Seria, por isso, uma perda se nos separássemos daquilo que ajudamos a fazer existir. Penso nos Afro-americanos, por exemplo, ou no Afro-Europeus. Eles são, de pleno direito, Ocidentais.
No que respeita aos Africanos, o desafio consiste em habitar vários mundos e formas de inteligibilidade ao mesmo tempo, não num gesto de distanciamento gratuito, mas de vaivém, que autoriza a articulação de um pensamento da travessia, da circulação. Esta espécie de pensamento comporta riscos enormes. Mas estes riscos seriam ainda mais graves se nos enclasurássemos no culto da diferença.
O que reprova no pensamento europeu?
Há quem lhe reprove o seu solipsismo, o seu apego à ficção segundo a qual o Outro é o nosso reverso. Ou ainda a sua incapacidade para reconhecer que há cronologias plurais do mundo que nós habitamos e que a tarefa do pensamento é a de atravessar todos esses enlaçamentos. Neste gesto que implica circulação, tradução, conflito e também malentendidos, há questões que se dissolvem por si próprias e esta dissolução permite que surjam, com uma relativa clareza, exigências comuns; exigências de uma possível universalidade. E esta possibilidade de circulação e de encontro de inteligibilidades diferentes que o pensamento-mundo requer.
Existe um pensamento europeu?
Não há «um» pensamento europeu. Existem, em contrapartida, relações de força no seio de uma tradição que, aliás, não tem deixado de se transformar. E no esforço em curso, nomeadamente ao Sul, para desenvolver uma reflexão verdadeiramente à dimensão do mundo, o nosso trabalho consiste em jogar com estas relações de força e em refletir sobre estas fricções internas, não para cavar o fosso entre a África e a Europa ou para «provincializar» esta última, mas para alargar vias que permitam resistir às forças do racismo que são, no fundo, forças de violência, de fechamento e de exclusão.
Devemos apresentá-lo como um teórico do pós-colonialismo?
É preciso não me ter lido para me apresentar como um teórico do pós-colonialismo.
E, no entanto, em França, incluem-no nesta corrente. Aliás, é o que acontece também em África.
Aqueles que o fazem raramente sabem do que falam. Muitos esgrimistas dos estudos pós-coloniais em África utilizam argumentos ideológicos no lugar de uma análise crítica rigorosa e disciplinada das obras a que pretendem opor-se. Efetivamente, não há melhor crítico da corrente pós -colonial que a própria corrente pós-colonial. Em França, são muitos os que gostavam que fôssemos mudos, pessoas que não falassem e sobretudo entre elas. Podiam, assim, construir o nosso discurso em vez de continuar a qualificar-nos. O pensamento pós-colonial veio interromper este poder exclusivo de qualificação. E é por isso que ele incomoda.
Até agora, tinha trabalhado com sequências históricas relativamente curtas. Com Critique de la raison nègre, torna-se um pouco historiador. Como explica esta inflexão?
A própria natureza do assunto exigia um regresso a um tempo longo. O Negro é uma invenção daquilo a que, no livro, eu chamo «o primeiro capitalismo». O tempo do primeiro capitalismo — pelo menos tal como eu o concebo é dominado pelo Atlântico. A época moderna propriamente dita começa com a expansão europeia, a dispersão dos povos e a formação de grandes diásporas, um movimento acelerado de mercadorias, de religiões e de culturas. O trabalho do escravo negro desempenha, neste processo, um papel relevante. Era, assim, necessário determo-nos neste tempo longo sem o qual não se percebe nada da realidade contemporânea.
O «Negro» não passa de uma invenção do capitalismo atlântico? Que lugar atribui aos mundos do oceano índico e árabes transaarianos na sua construção?
A escravatura atlântica é o único complexo servil multi-hemisférico que transforma pessoas de origem africana em mercadorias. É, por esse facto, a única a ter inventado o Negro, isto é, uma espécie de homem coisa, de homem metal, de homem moeda, de homem plástico. É nas Américas e nas Caraíbas que os seres humanos são transformados, pela primeira vez na história universal, em criptas vivas do capital. O Negro é o protótipo deste processo.
Atribui um lugar bastante central à história diaspórica e, nomeadamente, afro-americana. Insiste em particular na ambiguidade das relações entre os afro-americanos e a África.
A história das pessoas de origem africana, nos Estados Unidos em particular, é uma história que sempre me fascinou. O africano americano é, em larga medida, o fantasma da modernidade. A história dos Negros nos Estados Unidos devia ser ensinada em todas as escolas, em particular, em África .
Consagra longos desenvolvimentos ao conceito de «raça» e de «racismo». Na sua opinião, em que é que se reconhece o racismo?
Além de consagrar uma estruturação desigual das relações sociais, o racismo é uma figura da nevrose fóbica, obsessiva e até histérica. O racista é aquele que se tranquiliza, odiando, constituindo o Outro não como seu semelhante, mas como um objeto ameçador do qual era necessário proteger-se, desfazer-se ou que, pura e simplesmente, seria necessário destruir, no caso de não se conseguir dominá-lo totalmente. Em larga medida, o racista é um homem doente, carente de si próprio, e que desfalece.
O capítulo mais poético, mas também o mais desconcertante do livro intitula-se « Requiem pour l’esclave ». 
Este capítulo constitui o subsolo do livro. Aqui, procura-se dizer o modo como, em África e nas coisas negras, muitos viram duas forças ofuscantes: ou uma argila ligeiramente tocada pela estatuária ou um animal assombroso, e sempre uma figura hierática, metamórfica, capaz de explodir em cascata. Procura-se igualmente mostrar como o escravo negro foi, no fundo, um sujeito plástico, ou seja, um sujeito que sofreu um processo de transformação por destruição.
A sua escrita é uma das mais belas por parte de um pensador africano contemporâneo. A que atribui este dom?
Para dizer a África de uma forma que não seja repetição pura e simples, eu sou obrigado a recorrer a uma escrita figural, uma escrita que oscila entre o vertiginoso, a dissolução e a dispersão. E uma escrita feita de aneis entrecruzados e cujas arestas e linhas se juntam no ponto de fuga.
Nesta altura, qual é o objeto das suas investigações e qual será o tema do seu próximo livro?
As minhas investigações focalizam-se no que designei por «o afropolitanismo».
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Entrevista traduzida por Maria José Cartaxo.
*Achille Mbembe. Camarões. Professor de história e ciência política na Universidade de Witvatersrand (Joanesburgo) e diretor de pesquisas de Pesquisa Social e Econômica do Instituto Witwatersrand, em Joanesburgo. O seu livro On the Postcolony emergiu como um dos pensadores mais prolífico em campos dentro da história, sociologia e filosofia política. Este trabalho tem sido principalmente o tema de um debate nas universidades. Ali desenvolve uma dupla crítica cuja actualidade evidencia: o universalismo abstrato, mas também a utilidade dos estudos pós-coloniais, que põem demasiada ênfase na diferença, afastando-se da pesquisa do semelhante. Cita também os recursos que são a força das “democracias ocidentais”, o compromisso sobre o qual se funda o Estado-providência, a capacidade de legitimar os antagonismos sociais através de luta política mais ou menos pacífica e a constituição através desses antagonismos até de um mundo comum. Se esses ativos estão hoje em ruínas, a sua reflexão sobre a ética do próximo é da ordem da renovação do pensamento político de hoje.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Exposição africana está em cartaz na Bahia

Segue em cartaz a I Exposição Internacional do Kiebé-Kiebé no Museu Afro-Brasileiro (MAFRO) da Universidade Federal da Bahia (Terreiro de Jesus). O acervo pertence ao Museu da Bacia do Congo e a iniciativa vem reforçar o estreitamento de laços e cooperação cultural com o Brasil. O público pode visitar a mostra até o dia 29 de novembro, de segunda a sexta, das 9h às 17h.
Está exposto um conjunto de cerca de cem peças entre “figurinas”, estruturas com vestimenta de ráfia, instrumentos musicais e outros objetos provenientes de Brazzaville, capital do Congo (país africano de tradição bantu). O acervo permite ao povo brasileiro (re) conhecer possíveis raízes ancestrais. O Kiebé-Kiebé é uma dança iniciática que concentra todas as esferas da condição humana dos universos rurais: alegrias e dores, poderes e magias, mistérios e conhecimentos tradicionais, tudo isso dentro da circunferência teatral e dramática do próprio ritual.
O Kiebé-Kiebé é fogo, luz, sol, energia, para ajudar o homem a decifrar os enigmas do universo. Na explicação do professor congolês Théophile Obenga, a dança simboliza uma ambição humana de domar o mundo e de dar sempre a vida humana um sentido de transcendência. A exposição oferece uma programação educativa orientada essencialmente para o público estudantil e dispõe de documentação de apoio em francês, inglês e espanhol.
Esta exposição em Salvador, informa a coordenadora do MAFRO Graça Teixeira, resulta dos esforços conjuntos de várias entidades com particular destaque para o Museu da Bacia do Congo, o Departamento de Cultura e Artes da presidência da República do Congo Brazzaville, a Embaixada do Brasil no Congo, e o escritório regional do Itamaraty em Salvador, a Secretaria de Assuntos Internacionais do Estado da Bahia e naturalmente a reitoria e a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, o Departamento de Museologia e o Setor de Assessoria Internacional da Ufba.
A exposição visa desenvolver um trabalho de preservação, valorização e divulgação das culturas africanas e afro-brasileiras, dentro dos objetivos do MAFRO, enquanto museu universitário. É a primeira vez que o acervo sai do território africano. Para a curadora da exposição Lydie Pongault, o Museu da Bacia do Congo vai além das fronteiras com seu patrimônio. “O Kiebé-Kiebé é nosso embaixador, porque o Museu Afro-Brasileiro, em Salvador, acolhe essa exposição. Nós temos a vantagem desse museu estar na Universidade Federal da Bahia. É apenas um começo para fazer mais intercâmbios”, garante.
Com semelhança a algumas manifestações culturais afro-brasileiras, o Kiebé-Kiebé tem indicações de tombamento como patrimônio imaterial da UNESCO. Na Bahia, é oportunidade única de visitar e somar conhecimento. De Salvador, o acervo segue para ser exposto em Cuba.

Serviço:
Onde: Museu Afro Brasileiro
Endereço: Faculdade de Medicina da Bahia, Terreiro de Jesus - Centro Histórico de Salvador (BA). Tel: 71 3283-5540
Quando: 9 de setembro a 29 de novembro de 2013, de segunda a sexta, das 9h às 17h.
Quanto: R$ 3 (grátis para estudantes da rede pública)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Índice de assassinatos de negros: “O problema é social e não racial”.

 Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada na última quinta-feira, 17/10, reafirmou números que merecem ao menos, um momento de atenção:
  • A cada três assassinatos no País, dois vitimam negros;
  • A possibilidade de o negro ser vítima de homicídio no Brasil é maior inclusive em grupos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes.
  • A chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos.
  • Assassinatos atingem negros numa proporção 135% maior do que os não-negros;
  • Enquanto a taxa de homicídios de negros é de 36,5 por 100 mil habitantes, no caso de brancos, a relação é de 15,5 por 100 mil habitantes;
  • Há uma perda na expectativa de vida devido à violência letal 114% maior para pessoas negras;
  • Enquanto o homem negro perde 20 meses e meio de expectativa de vida ao nascer, a perda do branco é de oito meses e meio;
  • Pelo menos 36.735 brasileiros de entre 12 e 18 anos serão assassinados até 2016, maior nível desde que o índice começou a ser medido em 2005, quando a taxa era de 2,75 adolescentes assassinados por cada mil;
Em relação à desigualdade e à opressão racial no Brasil, nos habituamos ter acesso a índices que se repetem, se acentuam e cristalizam a barbárie vivida pela população negra em nosso país.
Para além da vivência empírica, as provas científicas de que o elemento racial estrutura as desigualdades e condenam negros a serem maioria entre os mais pobres, entre os analfabetos, entre os que não tem acesso à saúde, e principalmente entre as vítimas da violência, não tem sido suficiente para sensibilizar governos, políticos e mesmo a população.
Coincidentemente, na semana passada em Brasília, por conta das mobilizações pela aprovação do Projeto que dá fim aos “Autos de Resistência” nós, representantes de movimentos e artistas negros passamos um dia inteiro apresentando os números da barbárie racista para deputados, senadores e ministros, a fim de sensibilizá-los. Dias depois, novas provas surgiram e as manchetes gritaram:
“Dois terços das pessoas assassinadas no Brasil são negras”, ou: “A chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos”, ou ainda: “De cada 3 vítimas e assassinatos, 2 são negros”.
Ora, se considerarmos que, segundo o próprio estudo,  36.735 brasileiros de entre 12 e 18 anos serão assassinados até 2016, poderíamos formular outra manchete: “De cada 100 vítimas e assassinatos, 70 são negros”.
Poderíamos fazer contas simples que chegariam aos seguintes dados: 25.714 jovens negros serão assassinados em 3 anos, o que equivale a mais de 8.570 por ano ou a 715 por mês! Analogia perfeita: Três aviões lotados de jovens negros, caindo todos os meses nos próximos três anos, sem nenhum sobrevivente.
Mas não! Seria sensacionalismo. Seria exagero. Seria “coisa da nossa cabeça”, afinal, o problema no Brasil é social e não racial.
E repito aqui perguntas batidas, mas necessárias:
E se as vítimas fossem filhos de empresários, médicos, advogados, engenheiros ou dentistas? E se os territórios de terror fossem na Lagoa ou em Ipanema, no Rio; no Alto de Pinheiros ou em Moema em São Paulo ou na Barra, em Salvador? E se o sangue jorrasse de corpos brancos, a reação social e política a esses números seria a mesma?
Onde está a comoção nacional? E a campanha no Facebook, com milhares de pessoas trocando suas fotos por de pretos ou os sobrenomes para “pretos” ou ainda as hashtag que demonstrem a revolta com essa realidade? Porque a morte negra não comove? Porque o corpo negro pouco ou nada vale?

E para além da frieza dos números, lembro que para cada uma destas vítimas, há uma família, uma mãe que chora e a imagem do velório e da nossa gente em cortejo.
Quantos mais e por quantos anos – e já são pra lá de 500, até que cesse a violência racista no Brasil? 
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Negros são 70% das vítimas de assassinatos no Brasil, reafirma Ipea.

Dados divulgados pelo Ipea dão conta de que assassinatos se relacionam à cor, à condição social e escolaridade.

 A pesquisa Participação, Democracia e Racismo?, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada nesta quinta-feira apontou que, a cada três assassinatos no País, dois vitimam negros. Os dados foram apresentados pelo diretor Daniel Cerqueira, no lançamento da 4ª edição do Boletim de Análise Político-Institucional (Bapi).
Segundo a pesquisa, a possibilidade de o negro ser vítima de homicídio no Brasil é maior inclusive em grupos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes. A chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos.
A pesquisa mostra ainda que negros são maiores vítimas de agressão por parte de polícia. A Pesquisa Nacional de Vitimização mostra que em 2009, 6,5% dos negros que sofreram uma agressão tiveram como agressores policiais ou seguranças privados (que muitas vezes são policiais trabalhando nos horários de folga), contra 3,7% dos brancos.
Segundo Daniel Cerqueira, mais de 60 mil pessoas são assassinadas por ano no País e há um forte viés de cor e condição social nessas mortes: “Numa proporção 135% maior do que os não-negros. Enquanto a taxa de homicídios de negros é de 36,5 por 100 mil habitantes, no caso de brancos, a relação é de 15,5 por 100 mil habitantes”
O diretor do Ipea afirma ainda que “Há uma perda na expectativa de vida devido à violência letal 114% maior para pessoas negras.  Enquanto o homem negro perde 20 meses e meio de expectativa de vida ao nascer, a perda do branco é de oito meses e meio”, explica Cerqueira.
De acordo com projeções do estudo, pelo menos 36.735 brasileiros de entre 12 e 18 anos serão assassinados até 2016, em sua maioria por arma de fogo, em caso de se manter o atual ritmo de violência contra os jovens. Trata-se do maior nível desde que o índice começou a ser medido em 2005, quando a taxa era de 2,75 adolescentes assassinados por cada mil.
Para Almir de Oliveira Júnior, pesquisador do Ipea, e Verônica Couto de Araújo Lima, acadêmica da área de Direitos Humanos da UnB, se no Brasil a exposição da população como um todo à possibilidade de morte violenta já é grande, ser negro corresponde a pertencer a um grupo de risco.
O estudo foi realizado pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, pelo Fundo das Nações Unidas Para a Infância, o Unicef, pelo Observatório de Favelas e pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Citações de Franz Fanon

Foi um psiquiatra e ensaísta francês da Martinica, de ascendência francesa e africana. Fortemente envolvido na luta pela independência da Argélia, foi também um influente pensador do século XX sobre os temas da descolonização e da psicopatologia da colonização.

Suas obras foram inspiradas em mais de quatro décadas de movimentos de libertação anti-coloniais. Analisou as consequências psicológicas da colonização, tanto para o colonizador quanto para o colonizado, e o processo de descolonização, considerando seus aspectos sociológicos, filosóficos e psiquiátricos.É um dos fundadores do pensamento terceiro-mundista.



Consciência é a atividade transcendente.


Para falar é existir absolutamente para o outro.


A cultura é , em primeiro lugar , a expressão de uma nação, suas preferências, de seus tabus , seus modelos.


Não tente consertar o homem , como seu destino está para ser lançado.


O novo dia já aponta para encontrar forte , alerta e determinado.


Tudo pode ser explicado para as pessoas na condição de que você quer realmente entender.


Como diria o também famoso Toynbee , o blues é uma resposta ao desafio da opressão escravo.


A ironia protege contra a angústia existencial . ( ... ) A tarefa é mover o problema.


Cada geração , de opacidade relativa, deve descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-lo .


O homem é um "se" que vibra com harmonias cósmicas.


Todas as formas de exploração são idênticos , porque eles são aplicados , todos iguais , o mesmo homem "objeto" .


Enquanto os políticos se inscrever a sua acção na realidade , homens de cultura são colocados no contexto da história.

No Maranhão, professores se dedicam a comunidades quilombolas

Brasília – O acesso à educação foi uma conquista das comunidades quilombolas localizadas próximo a Codó, no interior do Maranhão. Em 2010, o ensino infantil chegou à comunidade Centro do Expedito. No mesmo ano, na comunidade vizinha, Santo Antônio dos Pretos, foi construída a primeira escola de ensino médio da região, o Centro Quilombola de Alternância Ana Moreira. As escolas eram demandas antigas, de mais de 20 anos. Da luta por essas escolas, quem participou foi o professor Mário Sérgio Moreira de Queiroz.
Aos 43 anos e morador da comunidade quilombola de Bom Jesus, uma das 13 da região, Queiroz fundou e dirigiu o centro, onde os jovens fazem o ensino médio. Hoje, dá aulas no ensino fundamental em Bom Jesus. E conta como a instalação das escolas mudou a realidade da comunidade, em que muitas famílias deixavam a terra natal em busca de educação e oportunidades nas cidades vizinhas.
Queiroz nasceu e cresceu na comunidade Santa Maria do Moreira, atual Bom Jesus. Na época, não havia escola, os primeiros ensinamentos vieram da mãe. Para cursar o ensino fundamental, foi para Codó. Com o sexto ano completo, voltou para a comunidade e começou a dar aula do 1º ao 5º ano. Depois, fez o ensino médio e completou o magistério. Estudou matemática no Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão, disciplina que leciona.
“A juventude que está na escola consegue ter uma visão de um mundo melhor do que seus pais e avós. Consegue acessar a tecnologia, compreender a preservação do meio ambiente, absorver conhecimento. Aprende que o homem do campo pode lutar para garantir os seus direitos, que estão inclusive na Constituição”, defende o professor.
Com o Centro de Ensino Ana Moreira, os estudantes têm formação técnica sobre agropecuária. O ensino por alternância significa que os alunos passam 15 dias em sala de aula e 15 dias na comunidade. A ideia é que levem o que aprendem na escola para as comunidades.
Diferentemente de Queiroz, o professor Solon da Nóbrega não nasceu em uma comunidade quilombola, mas desde 1997 se dedica a esse trabalho. Ele é responsável pela formação técnica no Centro de Alternância Ana Moreira. Este ano, desenvolveu o projeto Coisa de Preto, levando a dança, a religiosidade e a cultura afrodescendente para a sala de aula. O projeto será permanente e o objetivo é aumentar a autoestima dos alunos e resgatar a cultura que está se perdendo.
“A gente não trabalha para que como técnico o aluno saia daqui e vá trabalhar na grande fazenda, embora isso aconteça. A intenção é voltar para a comunidade e o que eles [alunos] aprendem aqui, eles possam usar lá para dar uma vida melhor às família deles”, diz o professor de zootecnia rural, biocultura de leite e corte, economia rural e extensão rural e também um dos fundadores da escola.
Os professores dizem não ser fácil a tarefa de lecionar em uma comunidade quilombola, e que os problemas ainda são muitos. Na escola infantil Centro do Expedito, os banheiros estão fechados por falta de água. A comunidade terá que cavar um poço próximo à escola. Para cozinhar na cantina, é preciso levar baldes com água até o monte, onde fica o centro de ensino. Todo trajeto é feito a pé. A escola de Santo Antônio dos Pretos recebeu computadores, mas os equipamentos não saíram da caixa porque falta rede de energia suficiente para ligar os aparelhos. “Não dá para conseguir tudo de uma vez”, comenta Nóbrega.
Para os professores, a satisfação maior é ver os alunos formados e colocando em prática o que aprenderam. “Hoje mesmo eu estive com um ex-aluno, Francisco Ribeiro é o nome dele. Ele fez o curso técnico em agropecuária e está produzindo, está feliz. Ele queria muito viajar, sair da comunidade, chegou a ir para Brasília, mas voltou. É um grande profissional e serve de exemplo para os demais. A gente se sente muito feliz em ver que foi protagonista e em ver o fruto desse trabalho”, diz Queiroz.

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