segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Gestão municipal reproduz em declaração o racismo que pratica diariamente e que seus ancestrais praticaram ao longo da história


Neste momento,quando declaramos publicamente nosso repúdio veemente à declaração racista dada em entrevista a uma rádio local pelo secretário da Fazenda de Salvador, Mauro Ricardo Costa, não fazemos um alerta somente sobre as formas de manifestação do racismo institucional que se intensifica em nível alarmante no Brasil e vitimiza quilombos país adentro, mas, especialmente, nos certificamos de como a atual gestão da cidade da Bahia reproduz diariamente o higienísmo e o preconceito racial expostos pela frase do ex-secretário de Finanças de São Paulo na gestão José Serra.

Higienísmo e preconceito racial típicos de coronéis, latifundiários, senhores feudais, ruralistas, senhores de engenhos e demais classes autoritárias e segregacionistas. Classes essas amplamente representadas pelo chefe do secretário, o prefeito ACM Neto, e contempladas com as ações de limpeza étnica e sócio-econômica promovidas pela atual gestão executiva municipal desde a sua posse. Classes das quais descendem Ricardo e Neto.
“Antigamente se botava as pessoas no pelourinho para poder pagar as suas dívidas. Infelizmente, hoje não é mais assim. Hoje, a justiça é quem define o prazo [...] e essas dívidas estão sendo cobradas judicialmente”, disse o secretário, no cargo desde janeiro de 2013.
Além de asquerosa, a declaração de Mauro Ricardo demonstra total desconhecimento da realidade do povo negro, pobre e favelado, que continua sofrendo com açoitamentos da mesma forma desumana do período escravocrata.

Sofrendo com açoitamentos quando trabalhadores vêem seus imóveis usados como micro-comércios derrubados por agentes de órgãos da prefeitura que elegeram. Ou quando quilombolas são cruelmente espancados, estuprados, humilhados e têm seus direitos violados pela Marinha do Brasil no Quilombo Rio dos Macacos.

Açoitamentos que continuam acontecendo, se repetindo como tragédia e farsa, quando uma mãe de família é impedida de enviar seus filhos à escola por não ter dinheiro para pagar extorsivas passagens de ônibus e, por isso, passa pela mesma dor sentida pelos seus ancestrais, surrados por ancestrais do secretário e do prefeito.

Açoitamentos ocorridos cotidianamente nos becos das favelas brasileiras, quando e onde jovens negros são exterminados pelas polícias militarizadas a serviço do estado e sentem na pele o doloroso toque das balas de chumbo compradas com o dinheiro do contribuinte para matar quem a burguesia acha que deve morrer. O mesmo doloroso toque de chicote sentido pelos negros escravizados, exaustivamente espancados por capitães do mato, aqui representados por militares negros treinados para matar seus pares.

Trabalhadores humilhados, quilombolas violentados, famílias segregadas, jovens assassinados, baianas de acarajé desrespeitadas, artistas regionais impedidos de levar arte às praças públicas, moradores arrancados de suas raízes para dar lugar à construção de avenidas elitistas.É evidente: os açoites permanecem acontecendo em pelourinhos espalhados de norte a sul, mesmo que quem os promova-se recuse a assumir suas atitudes e declarações fascistas.  

Todos esses povos violados choram as mesmas lágrimas choradas por suas avós, bisavós e trisavós, escravizadas e violentadas por quem alimentou a mesma idealização de justiça que tem o secretário. 

Idealização que não é exclusiva do pensamento dele, tendo em vista que “jornalistas” incentivam, no horário nobre da TV aberta, agressões praticadas pelos “justiceiros do Leblon” (burgueses como o secretário) a jovens negros, levados à criminalidade pelo abandono e descaso para os quais a odiosa elite brasileira fecha seus seletivos olhos azuis.

Enquanto “Mauros Ricardos”se chateiam por não poder aderir o espancamento dos nossos pares e “Racheis Sheherazades” fomentam o racismo da burguesia carioca,lutamos – e continuaremos lutando até as últimas conseqüências – para que nosso povo seja verdadeiramente libertado dos açoitamentos que são praticados todos os dias com a mesma crueldade vista entre os séculos XVI e XIX, até onde durou oficialmente a escravidão. Oficialmente, pois, na prática, ela continua, visto que filhos e netos de escravocratas ainda circulam por aí achando que podem falar o que querem.

Juventude do Coletivo de Entidades Negras na Bahia (CEN-BA)

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