segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Nota de desagravo



Nós, do Coletivo de Entidades Negras do Distrito Federal (CEN-DF), vimos a público para nos manifestar sobre a matéria assinada por Simone Kafruni no Jornal Correio Braziliense de 29/01/2014, intitulada "Seguidores da Umbanda e Candomblé pagam R$ 15 mil por trabalhos de santos" e que tem como título alternativo "R$ 60 milhões aos orixás".


O CEN-DF está absolutamente consciente de que o chamado "comércio da fé" é um fenômeno persistente e que atravessa diversos credos em nosso país. Entretanto, pensa que o modo como o fenômeno foi abordado na matéria acima nomeada não apenas é inapropriado, como generaliza de modo perigoso uma prática que não é vista em todos os terreiros de umbanda ou candomblé e que pode ser vista, também, em outros credos religiosos, de modo que esta matéria contribui significativamente para a estigmatização das religiões de matrizes africanas no Brasil, fenômeno em parte responsável pela chamada "intolerância religiosa" que atinge essas religiões de modo contundente. 

Não sabemos ao certo qual o objetivo da matéria, mas se for informar, ela presta um desserviço à população do Distrito Federal, pois não apenas traz dados equivocados, como os generaliza e naturaliza de modo grosseiro. A começar pelo título da matéria que afirma que os seguidores da umbanda e do candomblé pagam quinze mil reais por trabalhos de santos. A matéria parece simplesmente ignorar as afirmações que todos os umbandistas trouxeram no próprio texto falando do modo como a umbanda lida com a gratuidade dos "trabalhos". Por outro lado, generaliza uma realidade pouco conhecida sobre as iniciações no candomblé. 

O fato de que haja terreiros de candomblé que cobram, em média, cinco mil reais por uma iniciação não pode ser generalizado e não pode ser apresentado como se fosse um produto em uma prateleira à venda. É importante lembrar que, para o candomblé, a iniciação é um dos ritos mais fechados e as informações que circulam são muitas vezes truncadas em função do segredo. 

Mas nós, candomblecistas e membros do CEN-DF, sabemos bem que, embora haja um comércio religioso em algumas casas, esse dado não pode ser apresentado como “a verdade” sobre o modo de funcionamento das relações que estão envolvidas nos processos de iniciação de um neófito no candomblé. Na maioria das casas, o que forma o "preço" das iniciações é o valor do conjunto dos materiais utilizados durante todo o processo, que envolve elementos rituais, elementos da rotina de manutenção, de alimentação e limpeza dos ambientes e elementos festivos. É estranho que este valor seja apresentado para o público leitor da matéria como uma quantia que é endereçada às casas de candomblé, quando a quase totalidade desse valor é destinada a compra no comércio dos elementos requeridos no processo de iniciação. 

A distorção e generalização na matéria provoca uma imagem equivocada da umbanda e do candomblé, que precisam ser tratadas com mais seriedade em tempos de intolerância religiosa (que aparece no caso dessas religiões, como uma das faces do racismo vigente em nossa sociedade).

Para quem não leu a matéria na semana passada, ela está clippada aqui:

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