terça-feira, 29 de abril de 2014

A violência simbólica das narrativas sobre a mulher, por Cley Medeiros

Conhecida nacionalmente como a revista de maior circulação, Veja corrobora uma linha editorial vista por muitos especialistas como conservadora. Alvo de críticas do público feminista, por aceitar entre jornalistas e colunistas pessoas que divergem quando o assunto é o papel da mulher na sociedade, as narrativas apresentadas no semanário não só revelam a dificuldade do jornalismo tradicional em absorver demandas das pautas que levam, em algum grau, a uma compreensão abrangente do feminino, como também suas publicações reforçam papéis sociais e estereótipos atribuídos cultural e historicamente ao gênero feminino – que se inscrevem no processo de legitimação e deslegitimação da mulher no papel de protagonista da construção identitária do ser humano.
As revistas semanais não desfrutam de um público tão variado e abrangente comparativamente aos telejornais, mas possuem impacto, principalmente por desenvolver um papel importante na formação da opinião pública e no agendamento de outros veículos de comunicação. Na corrida presidencial, Veja e IstoÉ, por exemplo, apresentaram posicionamentos políticos distintos durante a cobertura da campanha. Enquanto Veja se mostrou favorável ao candidato José Serra, IstoÉ apoiou a candidata Dilma Rousseff. Os editoriais de Veja ressaltavam a importância de ter um homem no comando do país. Exemplo é a frase do editorial de 4 de abril de 2006: “[...] O projeto político de ascensão da quebra do modelo de agentes responsáveis pela manutenção do poder país não tende a ser uma boa ideia do partido [dos Trabalhadores]”, fazendo referência a então tentativa do PT em eleger uma mulher como candidata à presidência.
Marina Silva também não ficou de fora das críticas ferozes do semanário. Segundo a revista, a candidata não seria capaz de lidar com a pauta econômica caso eleita. Pode-se dizer, em grande medida, que as narrativas da revista apresentaram as mulheres como “penetras” em um espaço estruturado, historicamente ocupado e ditado sob a ótica masculina.
Apesar das forças e vozes muitas vezes dissonantes que operam neste campo, a mídia e, em particular, o jornalismo, atuam como instrumentos de disseminação da ideologia dominante e podem contribuir para estabelecer relações assimétricas de poder. Considerar a versão Veja da história quando o assunto é a análise da quebra de narrativas jornalísticas sobre a objetificação da mulher, na redação que conta com 9% de mulheres como autoras de reportagens envolvendo pautas de emancipação feminina, é trazer às claras a real linha editorial da revista que conserva a tradicional imagem da mulher na construção político-social.
Conquista da igualdade
A matéria que traz a capa da edição especial “Mulher” da revista Veja, de junho de 2006, apresenta uma imagem caricata que choca pelo reducionismo da pauta. Nela, uma mulher vestida com um visual que se associa à figura do executivo com terno e uma maleta preta, estrategicamente posicionada ao lado, apresenta-se amamentando um bebê. A manchete “O que sobrou do feminismo” interpela leitores e leitoras para uma determinada interpretação da imagem que induz ao seguinte raciocínio: o que restou do feminismo é a conquista da mulher branca de classe média, ao conciliar profissão com os prazeres da maternidade, ponto.
Com o ato performático da publicação de trazer a matéria, na mesma edição, intitulada “O feminismo na crise dos 40”, com citações descontextualizadas, inclusive de feministas brasileiras, Veja naturaliza um sentido restritivo e irônico para anunciar “o fim do feminismo”, fazendo, portanto, uma rasa proposta narrativa sobre o pensamento de emancipação da mulher nas articulações políticas, movimentos sociais e nas construções teóricas e ideológicas dentro das universidades. A revista também não leva em conta a formulação de políticas públicas, como, por exemplo, a lei Maria da Penha, que desde 7 de agosto de 2006 representa um avanço dos mais significativos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
O jornalismo cumpre seu papel na reprodução ou superação de desigualdades sociais, bem como para alertar práticas sociais capazes de inibir ou mesmo de promover transformações relevantes para a conquista da igualdade entre homens e mulheres na sociedade. Papel não considerado de importância em Veja.

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