terça-feira, 29 de abril de 2014

SUSPRETO: Um episódio de racismo vivido por Helio de La Peña



“Eu não podia me sentir um cidadão como outro qualquer na zona sul do Rio. Precisava do aval de uma senhora, esta sim, acima de qualquer suspeita”

Helio de La Peña, 54 anos, humorista e integrante do Casseta & Planeta

Ei, negão! Você mesmo!” Faz tempo, mas não deu pra esquecer. E olha que minha memória não é lá essas coisas! O ano é 1989. O grupo Casseta & Planeta apresentava no Teatro Ipanema o show Eu vou tirar você desse lugar, com músicas e esquetes de nossa autoria. Naquele sábado a casa estava cheia.
No fim do espetáculo, me dirijo ao meu carro na praça Nossa Senhora da Paz, quando encontro a mãe do meu amigo e colega de palco Beto Silva. Ela tinha ido nos assistir. Paramos e conversamos rapidamente. Nos despedimos, cada um foi pro seu lado. Eu, porém, não cheguei a dar dez passos. Logo fui grosseiramente interpelado por um policial militar.
Ei, negão! É, você mesmo!”
Parei. O policial me olhou de cima a baixo e foi direto ao assunto.
Agora pode devolver o que você pegou da madame.”
Eu?? Não peguei nada, só tava conversando com uma amiga.”
Que conversa é essa de amiga, rapá! Tá me achando com cara de otário? Passa logo a parada, anda. Foi o quê? Relógio, carteira?”
Ela é mãe de um amigo meu, só isso!”
Me dá essa mochila!”
Puxou a mochila das minhas mãos e a abriu ostensivamente, revistando o conteúdo. Eu insistia que não era ladrão, que ele estava cometendo um engano grave. O sujeito não me dava ouvidos. A distância, dona Ida percebeu que algo estava acontecendo. Voltou. “O que está havendo, Helio?”
Expliquei e ela confirmou que me conhecia e que evidentemente nada de anormal tinha ocorrido, apenas a breve conversa. O policial ainda me olhou desconfiado, tipo “dessa vez tu escapou”, devolveu meus pertences e se afastou. Fiquei ali envergonhado pela situação constrangedora. Não reagi, não me revoltei, só queria ser abduzido instantaneamente. Queria deixar de ser o assunto. Mas o tema me acompanharia, a história seria repetida, comentada, repudiada, e não poderia ser apagada.
Era uma realidade: eu não podia me sentir um cidadão como outro qualquer na zona sul do Rio. Precisava do aval de uma senhora, esta sim, acima de qualquer suspeita, para me defender de uma acusação absurda. Depois que minha cara ficou conhecida por conta do programa do Casseta & planeta, urgente!, casos como esses desapareceram. Mas, naquele momento, eu ainda não passava de mais um “suspreto”.

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