terça-feira, 22 de abril de 2014

Você trabalha aqui?


Claudia Lima, 44 anos, jornalista. Trabalhou como diretora de redação na Trip Editora e hoje é editora do canal Comidas e Bebidas do portal UOL
Sempre fui a típica menina de classe média. Meu pai, contador, teve condições de nos dar uma boa casa, tinha bons carros, e eu e meus irmãos sempre tivemos boa educação. Até os 14 anos, estudamos em um colégio de freiras onde éramos os únicos negros. Lembro de uma tia que sempre me perguntava: “Você não tem amigas negras?”. No colégio, não. E quase sempre foi assim – na faculdade (bem menos), na maioria das redações em que trabalhei, nos prédios em que morei. E continua assim até hoje.
Mas quando me mudei para meu atual endereço, um prédio de classe média na zona oeste de São Paulo, senti na pele como o racismo é latente aqui no Brasil.
Para alugar o apartamento, tive de provar por A mais B que eu realmente “merecia” morar ali. Nada parecia suficiente. Nem ter um casal de fiadores impediu o mês inteiro (um mês!) de dor de cabeça, infindáveis idas a cartórios e até ter de pedir a uma advogada conhecida para me ajudar a provar que uma homônima – e não eu – é que tinha problemas com a Justiça, em outra cidade. Chegou uma hora em que não aguentei: questionei se o problema todo era o fato de eu ser negra. Negaram, claro. Várias pessoas me perguntavam se aquele era o único apê do mundo. Não seria melhor desistir dele? Mas àquela altura, ah, eu ia morar ali. Só de raiva!
Adoro minha casa, os funcionários do prédio, a síndica. Mas durante muito tempo eu fui a única negra ali. Também perdi a conta de quantas vezes ouvi de moradores (e faxineiras): “Você trabalha aqui?”. Diante da negativa, é batata: me olham com os olhos arregalados, me medem da cabeça aos pés para depois emendar: “Como assim? Mas eu nunca te vi!”.
coisa fica ainda pior quando meu namorado (branco e estrangeiro) vem me visitar: apenas ele recebe bom-dia (eu pareço invisível). Até a hora em que, de propósito, solto alguma frase em inglês. Aí, vocês já sabem: olhares de espanto, seguidos de um “ah, tudo bem?”. Humpf... Até quando as pessoas vão achar que negro não pode morar bem, ter carro bom e viver decentemente, como qualquer branco? Para todos os racistas, meu recado: aceita que é melhor. Isso não vai parar!
A coisa fica ainda pior quando meu namorado (branco e estrangeiro) vem me visitar: apenas ele recebe bom-dia (eu pareço invisível)”


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