sexta-feira, 2 de maio de 2014

Nei Lopes: Racismo e bananas - Agora falando sério


Nei Lopes é um dos mais importantes compositores da MPB. Grande nome das escolas de samba Acadêmicos do Salgueiro e Vila Isabel, é autor de livros consagrados, como a "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana" e "O racismo explicado aos meus filhos", entre outros.
A pedido de Conexão Jornalismo, Nei Lopes analisou o polêmico episódio ocorrido na Espanha envolvendo o jogador brasileiro Daniel Alves: 


RACISMO E BANANAS - Agora falando sério.

"O racismo contra pretos e mestiços foi muito bem plantado na mente brasileira, sendo hoje uma árvore maldita, mas frondosa. Que só será derrubado no dia em que suas vitimas forem detentoras de capital econômico, de coesão e de resistência pelo menos semelhante ao de outros povos e segmentos historicamente discriminados. E isto se dará no campo e nas avenidas, na terra e no mar"
(Nei Lopes)


Na República Velha, fazendo eco a formulações racistas surgidas no ambiente do colonialismo europeu na África, implantavam-se políticas objetivando veladamente o embranquecimento físico e cultural da nação brasileira. A ideologia que sustentava essas ações partia do pressuposto da inferioridade do povo negro; e prosperou de forma quase imperceptível até a década de 1970.
Essa suposta inferioridade era sutilmente apregoada quase sempre como "brincadeira", em textos humorísticos do teatro, do rádio, da tevê; em cenas cinematográficas das chanchadas etc. Mesmo nos livros, e até nos didáticos, os clichês de ignorância, feiúra, ingenuidade, sensualidade ou força física animalescas, além de habilidade musical, coreográfica e desportiva (apesar das alegadas má aparência e imaturidade emocional) entre outros, preparavam o inconsciente coletivo nacional para o advento final da feliz "mestiçagem brasileira". E esta era a expressão eufemística com que se disfarçava o projeto de eliminação da mancha que se acreditava ter sido deixada pelo escravismo na sociedade nacional.
As reações a esse genocídio anunciado datavam pelo menos da época abolicionista, mas foram seguidamente silenciadas ou cooptadas. Até que, nos anos 70, em plena ditadura militar, ventos soprados do Norte fizeram com que, ironicamente, mas com causa facilmente explicável (os Estados Unidos estavam aqui), o movimento pelos direitos civis do povo afrobrasileiro retomasse seu curso.
Nesse importante decênio, a saga do herói Zumbi era recuperada em sua essência histórica e ensejava a criação do Dia Nacional da Consciência Negra. Na seguinte, já na vigência de um esboço de ordem democrática, no centenário do Treze de Maio, a marcha "por uma nova Abolição" por pouco não motiva uma forte repressão do Exército. No correr do tempo, governos municipais, estaduais e também o federal, atendendo à articulação das entidades negras de militância, iam criando organismos institucionais de combate ao racismo e à exclusão. Até que chegamos aos tempos de hoje.

 - O racismo contra pretos e mestiços foi muito bem plantado na mente brasileira -
- O racismo contra pretos e mestiços foi muito bem plantado na mente brasileira -  
Na presente década, a questão afrobrasileira está posta em todas as mesas de discussão. Inacreditavelmente, entretanto, ela não conseguiu sensibilizar o foco de onde emanam todas as contradições da sociedade nacional neste momento: a mídia televisiva (e certa subcultura virtual, a seu reboque), tida como o grande oráculo do que muitos hoje referem como "videocapitalismo". Embora as diretrizes emanadas dessa fonte ensinem que "todos são iguais perante as leis do consumo", a tevê brasileira insiste em ser loura de olhos azuis - orientação que sua matriz hollywoodiana já redirecionou há muito tempo - não se preocupando em mostrar os "outros" dentro de sua normalidade, insistindo em mostrá-los em situações de subalternidade ou no máximo pitorescas.
Essas questões, cujas raízes e conseqüências foram abordadas em nosso livro "O racismo explicado aos meus filhos", lançado pela Editora Agir em 2007 e felizmente ainda em catalogo, são também, há dez anos ininterruptos, reiteradamente discutidos no blogue "Meu Lote" (www.neilopes.com.br). Só que, neste exato momento, nenhuma grande questão nacional é apenas posta na mesa. Todas elas, ou quase todas, estão, para o mal ou para o bem, indo para as ruas e até para os estádios de futebol, só não chegando, ainda, aos sambódromos, esses admiráveis espaços da ilusão e do distanciamento.
Digo mais: o racismo e a exclusão não estão chegando agora ao futebol, onde permanecem instalados desde sempre, como prova a rarefação da presença negra entre árbitros, técnicos e dirigentes. O que se vê hoje são as questões cruciais da Nação fazendo "quebrar o pau" nas ruas e nos salões, inclusive naqueles das altas instâncias do poder, como também o são os campos da bola. As torcidas "organizadas", tomadas pelo conhecido sentimento coletivo de intolerância e revolta contra o "outro", o inimigo, pouco diferem dos manifestantes baderneiros das cidades. Assim, a banana jogada no gramado pode ser simbolicamente comparada ao rojão e ao coquetel molotov atirados nas manifestações. E, como sempre, há aquelas figuras ou organizações que aproveitam para "faturar em cima". Então, tome de campanhas, videoclipes, mobilização de "artistas" etc.
O gesto do jogador Daniel Alves que motivou a solicitação deste artigo, pode ser lido como uma espécie de paráfrase do velho rifão, que agora assim se traduz: "Dê-me um cacho de bananas que eu farei uma bananada".
Entretanto, o racismo contra pretos e mestiços foi muito bem plantado na mente brasileira, sendo hoje uma árvore maldita, mas frondosa. Que só será derrubado no dia em que suas vitimas forem detentoras de capital econômico, de coesão e de resistência pelo menos semelhante ao de outros povos e segmentos historicamente discriminados. E isto se dará no campo e nas avenidas, na terra e no mar.

Nei Lopes é compositor popular e escritor.

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