quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Nota sobre a Campanha “Racismo faz mal à saúde”

Nós, do Coletivo de Entidades Negras, somos conscientes das crises de infraestrutura e da escassez de recursos relacionados à área da sáude pública no Brasil, assim como a falta de materiais, vagas, profissionais e dificuldades na formação inicial destes. Tudo isso contribui para a precarização do serviço público de saúde.
Sabemos, também, que esta precariedade não é experimentada por toda a população usuária do SUS da mesma maneira. As pessoas negras sofrem, em função destas ausências, de maneira muito mais intensa, sobretudo em função do racismo que é imperante em nosso país.
A necessidade de estratégias de enfrentamento ao racismo nas instituições públicas de saúde é fundamental para que possamos fazer frente aos indicadores que mostram que, em qualquer situação, a população negra é pior atendida em qualquer serviço público brasileiro.
Diante deste contexto, percebemos a importância da Campanha “Racismo faz mal à saúde” lançada pelo Ministério da Saúde na terça feira, dia 25 de novembro e a apoiamos. É fundamental que o SUS tenha mecanismos de denúncia de casos de racismo e que se incentive a população a fazer chegar aos órgãos competentes os casos de racismo, que muitas vezes são ocultados, silenciados.
Trazer a público os casos de racismo presentes nas unidades de saúde pode ser uma ferramenta útil na apuração de tais casos e, também, na criação de estratégias de enfrentamento do racismo individual ou institucional.
Ao mesmo tempo, repudiamos a nota publicada pelo Conselho Federal de Medicina, no dia 27 de novembro, que acusa a campanha por seu suposto “tom racista” e que “desconsidera os problemas estruturais de atendimento que afetam toda a população”. Embora a nota afirme que os médicos “são contra qualquer tipo de preconceito” e que o código de ética médica determine que “as pessoas não sejam discriminadas por nenhuma razão vinculada à herança genética, protegendo-as em sua dignidade, identidade e integridade”, o referido Conselho parece ignorar que os tais “problemas estruturais” afetam a população negra de modo muito mais contundente exatamente em função do racismo que nossa sociedade insiste em camuflar.
Todo e qualquer mecanismo de denúncia do racismo é bem vindo. O que não se pode admitir é que em um contexto em que o racismo – sobretudo o institucional – opera de modo a ser um elemento do processo de adoecimento, que uma campanha seja rechaçada em função de outros argumentos que, apesar de verdadeiros, não são precisos ao não notar que a população negra é, ainda, a maior vítima desta precariedade e, também, de práticas discriminatórias que ocorrem no interior as unidades de atendimento de saúde.
Não podemos mais tolerar o silêncio em torno do racismo!

Coletivo de Entidades Negras
CEN

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