terça-feira, 29 de abril de 2014

Protagonismos (ou: Cada macaco no seu galho)

Domingo, 27 de abril de 2014. Na TV um programa de boa audiência fazia uma homenagem a um de seus dançarinos, assassinado pela PMRJ. Não quero aqui entrar na questão do que foi ou não dito pelas pessoas que lá estavam, se foi bom ou não. Isso é um outro assunto. Eu quero falar aqui sobre protagonismo.
Douglas, o dançarino assassinado, era preto e favelado. E morreu por causa disso. Os pretos favelados desse país morrem por serem pretos e favelados. Não interessa muito como eles levam as suas vidas, ser preto e favelado aqui é motivo suficiente pra alguém ter o direito (ou o dever quase cívico, segundo muitos) de meter-lhe uma azeitona na testa. Somos um país racista e classista, e acho que sobre isso não há muito o que se discutir. As estatísticas dão conta de encerrar qualquer argumento contra esta afirmação.
Depois da morte do Douglas, que morreu como tantos iguais a ele morrem todos os dias, um outro preto e favelado, Rene Silva, do Voz da Comunidade, ativista atuante na rede, postou uma foto segurando um cartaz escrito “eu não mereço morrer assassinado”, seguindo o mote da campanha feminista em que dizíamos: “eu não mereço ser estuprada”.
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Até aí tá tudo certo, tudo no seu devido lugar. Rene é negro, mora no Complexo do Alemão, e ainda é ativista. Quais são as chances que ele tem de ter o mesmo fim do Douglas? Muitas! Ele, e todos como ele, têm total direito de segurar esse cartaz, porque esse cartaz diz o seguinte, nas entrelinhas: as chances reais de eu ser assassinado são enormes, e eu não mereço isso.
Vamos ao segundo ponto: no programa de TV de hoje, tinha gente pra dedéu. Foi bonito ver um programa inteirinho homenageando um pretinho funkeiro favelado. Em quase 37 anos de vida eu nunca vi isso. Eles, os invisíveis, estavam lá, sendo protagonistas na TV, em rede nacional. Coisa linda! A única coisa que ralmente me incomodou muito foi quando todos os presentes, incluindo brancos ricos, ergueram um cartaz igual ao do Rene. Não, gente! Tá errado. A Carolina Dieckmann corre risco quase nulo de ser assassinada nos mesmos termos. Na verdade, eu me arrisco a dizer que não há possibilidade disso acontecer. Como eu também não corro esse risco. Porque diabos eu levantaria um cartaz dizendo que “eu não mereço morrer assassinada” se, em comparação aos douglas todos, as minhas chances são pífias? O protagonismo não é meu. Eu posso tomar essa causa para mim também, mas eu nunca vou poder ser protagonista dela. Nunca! E eu não tenho sequer o direito de tentar. Eu posso fazer o meu protesto junto com eles, mas sem o EU. Não é sobre mim, embora me doa; mas por mais que me doa, nunca vai doer igual como dói neles. Não é e nunca será sobre mim!
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Neste mesmo domingo, Daniel Alves, jogador brasileiro que atua na Espanha, protagonizou mais um episódio escrotíssimo de racismo. Estava pronto para bater um escanteio quando jogaram bananas nele. Daniel foi fodástico. Pegou a banana, comeu, e bateu o escanteio em seguida. Foi do caralho! Foi tipo um: “eu vi, eu entendi e fodam-se vocês racistas de merda!”. Eu achei a coisa mais sensacional do mundo o que ele fez! Do caralho!
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Os episódios de racismo no futebol têm se multiplicado ultimamente, a coisa saiu completamente do controle e precisa mesmo ser combatida, com toda e qualquer ação possível.
Não sei como começou o que veio depois, mas a primeira foto que eu vi foi do Neymar. Ele e seu filho numa foto, com bananas, seguida da hashtag #somostodosmacacos. Houve quem criticasse o Neymar por isso ou por aquilo, houve quem dissesse que ele só estava fazendo marketing (como se ele precisasse), que no passado ele tirou o corpo fora quando sofreu racismo também (daí a galera esquece que o moleque é uma criança ainda, que só tem vinte e poucos anos e fica cobrando dele uma maturidade que não cabe). Mas o que interessa é que o Neymar pode pegar o protagonismo dessa causa pra si. Eu não tenho nenhum direito de criticá-lo por isso. Não vou eu aqui, branca, querer dizer a um não branco como ele deve lutar, ou se deve, pelo racismo que ele sofre, provocado por gente branca como eu. Eu posso até não concordar (muito embora nem em pensamento eu me dê esse direito), mas quieta, no meu canto, sem atrapalhar, sem querer ditar regras de como ele, que sofre racismo, deveria lutar contra isso, ou – pior! – se ele deveria ou não fazer isso. Eu nunca fui chamada de macaca. Eu nunca vou ser chamada de macaca. Eu não tenho como avaliar como é ser chamada de macaca. Então me cabe apenas me solidarizar e lutar contra o racismo, que eu – mesmo sendo branca – repudio. Mas de outra maneira que não dizer ao coleguinha como ele deve lutar contra mim! (Sim, contra mim! Eu, pessoalmente ou conscientemente, posso não oprimir, mas eu sou parte da parte opressora!)
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Eis que surge, então, a grande pérola do dia. Um casal rico, famoso, branco pra dedéu, fazendo o quê, meuzamigos? Querendo ser protagonistas dessa luta! Valhamedeus, socorro! Naonde que Angélica e Luciano podem usar uma a tal hashtag supracitada? Me digam, em que planeta alguém chamaria essas duas criaturas de macacos?
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Tá muito errado isso aí! Muitos de nós, brancos, queremos ajudar na luta contra o racismo? Sim, queremos! Façamos isso, sempre, incessantemente, só sem querer ocupar o lugar dos negros nessa luta. Os protagonistas são eles. São eles que sofrem, são neles que jogam bananas. Não tenhamos a pachorra de levantar cartazes dizendo que não merecemos morrer assassinados, quando são eles que morrem. Não gritemos que somos todos macacos, porque são eles que são chamados assim. Por favor, vamos tirar os nossos umbigos do caminho e deixar quem sofre com isso passar com a sua dor e a sua cor.
A gente pode gritar sim, a gente pode fazer muito, mas a gente precisa entender que há momentos em que nós devemos ser coadjuvantes. Na luta contra as desigualdades, contra a opressão, todos são bem vindos, tem função pra todo mundo, mas é preciso que se saiba o seu devido lugar.

Os bananas e o coxinha

Reprodução


Foi Luciano Huck, após ser assaltado em outubro de 2007, que escreveu a respeito de seu próprio assassinato essa fantasia bizarra: "Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio".

Como se vê, Huck atribuiu a si mesmo uma importância social extraordinária – provavelmente já contando com o sensacionalismo turbinado da mídia nos casos que envolvem, err, celebridades. Mas também nos obriga a lembrar um detalhe. Não era “um relógio” qualquer, era um rolex. De ouro. E um rolex de ouro pode custar até centenas de milhares de reais. Com sua peculiar sensibilidade social, Huck não entendeu que um maluco com muitos milhares de reais pendurados no pulso pode, sim, ser assaltado, e talvez morto. O rolex de Huck, naquele ano, consta, custava R$ 39 mil. No Brasil mata-se por muito (mas muito) menos.

Entre outras respostas contundentes, vieram a do escritor Ferréz (que imaginou o drama do outro lado, o do ladrão) e a de Zeca Baleiro. É uma ponderação de Zeca que me interessa agora: "Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal. Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como 'sou cidadão, pago meus impostos'".

Ontem, Luciano Huck fez pior. A história começou no domingo, num jogo na Espanha. Como todo mundo já deve saber, o jogador brasileiro do Barcelona, Daniel Alves, foi alvo de uma banana arremessada. Antes de cobrar um escanteio, em uma inspiração momentânea (pelo menos aparentemente, como veremos), Alves comeu a banana, como se nada estivesse acontecendo. O vídeo correu mundo – mas a coisa não parou nisso.






Continuou, e aumentou, com uma manifestação um tanto esquisita de Neymar, que postou foto também comendo banana, ao lado de seu filho. Esquisita porque Neymar, seu colega de time, já tinha nos explicado no final de 2013 que “nunca foi vítima de racismo – até porque não é preto, né”, reforçando a declaração em mais de uma entrevista.

Talvez Neymar tenha superado a amnésia traumática e lembrado que já foi sim alvo de agressões racistas. Por exemplo na Bolívia, em 2012, quando, ainda no Santos, foi alvo de bananas. Então a tag que lançou junto com a foto, #somostodosmacacos, seria um pouco menos impessoal. Além dele, ao longo da segunda-feira, gente como Alexandre Pires, Michel Teló, Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Fátima Bernardes, Ana Maria Braga, Dinho Ouro Preto e Reinaldo Azevedo (!), além do Inri Cristo, postaram suas respectivas (ops) bananas.

Pareceria um caso, sempre meio bobo, de viral-celebridade, se dois desdobramentos não viessem a público: a) a tag #somostodosmacacos foi criada por uma agência de publicidade, a Loducca. Como no caso da cueca, Neymar gosta de fazer publicidade disfarçada. Questionado, um executivo da agência respondeu que “tentar desmerecer o movimento pelo fato de ter uma agência por trás é tão preoconceituoso quanto o torcedor que joga a banana. Por que não pode haver ajuda profissional? Não é uma campanha para vender nada”; b) a loja de Luciano Huck, o primeiro depois de Neymar a postar foto sua (com a esposa Angélica), já tinha pronta para vender uma camiseta com a tag e  banana, a R$ 69 reais. Ou seja, se a Loducca só queria “vender boas intenções”, para Luciano Huck isso não era um impedimento. E nem roubar a banana do Andy Warhol na capa do disco Velvet Underground.

Reprodução/Instagram


A Loducca diz que o próprio Neymar, que não estava nesse jogo, iria comer a fruta em alguma ocasião, e que Daniel o fez por uma incrível coincidência. O que levou Neymar a disparar a campanha. Nem é necessario embarcar na teoria da conspiração de que o próprio arremessador da banana em Villareal já fazia parte da trama – só a mera iniciativa relâmpago de Huck em capitalizar em cima da campanha já gerou um enorme desconforto. Luciano, que não é Hulk e não fica verde, também não fica amarelo em ganhar com a desgraça alheia.

Em 2011, Luciano e a empresa de descontos à qual tinha se associado, a Peixe Urbano, (supostamente) faziam doações paras as vítimas das enchentes naquele ano – mas você tinha que se cadastrar no site, antes de “comprar os cupons de doação”. No mínimo, mesmo que as doações chegassem integralmente (o que é improvável), era um modo de Luciano colocar sua base de fãs e seguidores no cadastro de vendas, usando a tragédia como desculpa.

A casa de Huck na ilha das Palmeiras, em Angra dos Reis, é construída numa área de proteção ambiental. Para se livrar da acusação, Huck contratou o escritório de advocacia da então primeira dama do Rio – e o governador Sérgio Cabral, em 2010, editou um decreto (que logo ficou conhecido como “Lei Luciano Huck”) para resolver o probleminha do apresentador. Não satisfeito, no ano seguinte Huck foi acusado de impedir o acesso à sua “praia particular” com bóias ilegais.

Uma jovem viúva. Uma coxinha destroçada. É difícil imaginar o poderoso “macaco” Huck sendo xingado ou perseguido como um negro, ameaçado de um pipoco grátis (exceto talvez se insistir em andar por aí com seu rolex). Como aconteceu com Oswaldo Zaratini, que na semana passada teve o azar de, sendo negro, ser sequestrado – quando desceu do carro foi morto pela polícia (o sequestrador, branco, sobreviveu).

Alguns comentaristas acharam a tag #somostodosmacacos racista e negativa. Eu tenderia a achá-la boba, além de oportunista – se ficasse no universo dos jogadores e de seus fãs-celebridade. Parece coisa de, err, publicitário. Mas o “roubo” da doença social do racismo no futebol por um playboy amoral e oportunista transforma a coisa toda não só em um escândalo, como em um foco de vergonha alheia lancinante.

Talvez #somostodosbananas fosse mais preciso. Ou #somostodosrecheadosdefrangodesfiado. Eu simpatizo com a idéia de descender do macaco, até porque um homem que cruzasse com uma costela provavelmente geraria um tipo de exoesqueleto, como o Alien.

Talvez descendamos do cruzamento do macaco com o porco, como defendeu há uns meses o geneticista norteamericano Eugene McCarthy. O que daria um bicho menos peludo, inconsequente e agitado, e mais estável e rosado, como um executivo. Ou um apresentador. Faz sentido. #somostodoscinicosoportunistas (não, não somos).

Sobre leite, achocolatado, bananas e vitamina.

Antes de eu saber que era meramente comercial, eu até achei interessante e topei a Campanha #somostodosmacacos, #somostodosiguais, #racismonão. Pensei também que teria repercussão instantânea e fim rápido, tipo aquelas típicas campanhas de agência de propaganda e marqueteiro, do tipo que pega no ar e se dissolve rapidamente, como achocolatado e leite.

Todo este debate aconteceu apenas algumas horas depois da atitude irreverente e bem resolvida de Daniel Alves, e a posteriori do post de Neymar. Tive o cuidado de perceber toda a polêmica que se estabeleceu dentro e fora de todos os espaços da sociedade, fazendo com que, até mesmo a presidenta Dilma, através do seu facebook oficial se manifestasse sobre o racismo.

No movimento negro tensões diversas e posicionamentos antagônicos ecoaram, boa parte deles de aversão a postura de Neymar, afinal de contas quem é negro sabe o histórico de veiculação da banana ao racismo, contextualizando assim, para toda a raça uma equivocada, mas ideologicamente propositada, descendência de macacos.

O craque e o seu posicionamento foram colocados na ordem do dia em uma posição de cheque no tabuleiro de xadrez da sociedade brasileira. Sociedade esta que, quando temas espinhosos vem a tona, busca métodos, alternativas, subterfúgios para resolvê-los e raramente o encara de frente e com a seriedade necessária. Com todo tipo de questão prefere agir assim.  Foi assim com a Anistia, com o Direito a Memória e a Verdade, com a Questão Indígena, com as Comunidades Tradicionais Quilombolas e principalmente com a escravidão que ceifou milhões de vidas neste país e o construiu nas costas de toda a ancestralidade negra que insiste em relegar, mas não sem antes aceitar, explorar e difunde o seu caráter e contribuições festivas, tal qual o samba, carnaval, o colorido das roupas e tradições, em sua maioria mimetizados em invólucros brancos, mas quando com agentes negros envolvidos, comumente tratada como cultura de segunda categoria ou folclórica.

Este é o Brasil de sempre, não tem nada de novo nisto. Não podemos esquecer que fomos o último país a abolir a escravidão da face da terra, e a expressão “lei para inglês ver” não é a toa, mas reflete a nossa realidade e estes símbolos perduram e são fatores constitutivos da nossa sociedade até os dias atuais.

O racismo é tabu. É tema espinhoso. Não é tarefa fácil para ser discutido aqui na terrinha. Muito melhor tratar de maneira que evite tensões e distensões. Este é um dos maiores temas que envolvem negros e brancos nesta complexidade social cotidiana em que vivemos, nesta sociedade mal resolvida, neste dilema de tamanho continental, chamado Brasil, país composto por uma sociedade que vive de crise em crise entre Gilberto Freyre, Monteiro Lobato, Machado de Assis, Castro Alves, Sílvio Romero, Rui Barbosa, Carolina de Jesus, Zumbi dos Palmares, João Cândido, Lélia Gonzalez, Carlos Marighella, Zeferina, Abdias do Nascimento, Solano Trindade, Luiza Mahin, Daiane dos Santos, Ronaldinho Fenômeno, Nina Rodrigues, Graciliano Ramos e tantas outros.

Uma sociedade que não quer se olhar no espelho e ver as divergências entre os tantos nomes acima citados, as suas contribuições e equívocos diversos, uma sociedade que não quer se retratar, e quando se olha insiste em querer se ver mestiça no sentido mais abrangente possível. Uma sociedade que mente para intitular-se feliz para si e para os outros. Somos um país dividido tanto nos números do IBGE onde a população negra representa pouco mais de 50%, como nos dados estatísticos do IPEA, onde os negros sempre são mais precarizados do que os não negros independente do que seja.

No geral, entre uma foto e outra, com banana e contra a banana, além dos debates sobre os orifícios onde as mesmas devem ser colocadas, é possível observar o quanto o tema é espinhoso e como ainda não sabemos nos posicionar sobre ele, porque na verdade ainda não conseguimos ter sinceridade para discutir a escravidão e suas dimensões. Este é um grande tabu nacional e internacional, é o resultado de milhões de homens e mulheres que nunca conseguiram se reconciliar, que omitem a verdade, sedimentam discursos e não conseguem dialogar entre si, pois não tem coragem de reconhecer erros e acertos, pelo simples fato de terem construído históricos debates a partir das suas próprias opiniões e desinformações, sem um verdadeiro suporte educacional que remonta a história da África, e historicamente reféns da Europa e de sua formação curricular eurocêntrica e fálica, mantenedora do escravismo baseado na superioridade da raça e de sujeitos que se esforçam diariamente para se transformar a-históricos, acreditando que, se assim o fizerem, desconectam-se com o passado e evitam o envolvimento em polêmicas no presente. Típicos sujeitos que vivem as suas vidinhas e compreendem estes debates como um porre, porque se política, religião e futebol não se discutem, imagine racismo no século XXI?

Melhor simplificar dizendo: racismo aqui não.

Aqui no Brasil os não negros ainda dominam as estruturas, mas é inegável que negros no Brasil tem ascendido às esferas de poder nas últimas décadas, com discursos e posicionamentos políticos que outrora dificilmente teríamos acesso, mas que hoje são veiculados na internet em fração de segundos, por vezes de maneira tão rápida que sequer refletimos acerca deles e nos posicionamos de forma agudizada.

Para mim, as fotos com banana, não representam tamanha consternação, pois sinceramente já passamos desta fase. Não enxergo uma luta do bem contra o mal, do tipo ou estamos de um lado ou de outro, observo, inclusive a partir da égide e preceitos da minha religião o candomblé, que o equilíbrio é tudo. Senão o Caminho,  um caminho de reflexão a ser trilhado no mundo.

No debate em voga, fato notório e pouco difundido é o poder de mobilização que estes jovens negros tem na sociedade. Jovens que estão vivos graças ao futebol. Pois pela quantidade de tatuagens que Daniel Alves tem no seu corpo, estivesse ele em um dos tantos bairros periféricos do Estado da Bahia onde nasceu, facilmente correria o risco de ser preso, alvejado, morto, confundido e tratado como vagabundo e coisas do gênero. Não só ele, mas também Neymar, o goleiro Felipe, o atacante Adriano Imperador, Ronaldinho Gaúcho, Tinga e tantos outros jogadores brasileiros espalhados pelo mundo.

Concretude factível é que com esta atitude Daniel Alves pode se olhar no espelho, compreender e ressignificar a sua dimensão para além das 4 linhas do campo. Neymar e diversos outros jogadores podem  fazer o mesmo, e redimensionar até onde vão seus desabafos, angústias, sonhos, aspirações e decepções. Podem sentir que mesmo com contas bancárias volumosas eles não estão livres ou isentos deste monstro que atinge milhões de pessoas em âmbito mundial diariamente. Daí quais as contribuições que serão dadas para os seus iguais? O que podemos esperar destas personalidades após esta ampla divulgação do racismo?
Podemos esperar que eles façam uma frente e se juntem às entidades do Movimento Negro lutando coletivamente para manter vivo os negros e negras e uma juventude que sofre um verdadeiro Genocídio neste país?

Pactuaremos lembrar das remoções, das políticas de exclusão e “pacificação” de Territórios Negros como atos de guetização, de racismo ambiental, como também o foi a perseguição aos Rolezinhos? Em pleno século XXI, é possível e constitucional demarcar os territórios onde negros podem ou não adentrar? Em verdade, quantos Amarildos, Claudias, garotos Joel, DG’s  e demais Silvas do nosso cotidiano precisaremos perder para nos atentar a estas tragédias cotidianas?

No mais, o que a sociedade brasileira fará com isto? Postará fotos para a posteridade, ou transformará a realidade? Os apresentadores serão mais sinceros? Os programas nos incluirão? O governo irá mudar sua política e será mais enfático nestas questões em suas mais diversas esferas? Os marqueteiros ampliarão campanhas inserindo negras e negros? O Judiciário terá coragem de mudar o seu comportamento higienista e racista? O legislativo terá coragem de debater as tantas pautas colocadas, a exemplo dos autos de resistência a que tanto denunciamos?

Quanto a sermos macacos ou não, o que sei é da nossa capacidade enquanto movimento negro de ressignificarmos tantas coisas, nomes, descrições, terminologias, inclusive de ser negro, preto, pixaim, macumbeiro, brown, e todos os preconceitos contidos e incutidos nestes termos e tantos outros que reelaboramos, que é claro que me preocupa, mas não me assusta, pois assim nos construímos e reconstruímos a todo tempo.

Ficam alguns questionamentos e quem sabe da união de bananas, leite e achocolatado, possamos vitaminar este país e consumi-lo de maneira mais justa, plural, includente e diversa.

Será que encontrarei algum branco pra bater essa vitamina e dividir a conta da merenda quando não se tem lucro? Enfim, se somos todos macacos eu não sei, mas que somos todos racistas, eu não tenho dúvidas!

Marcos Rezende 
Coordenador Geral do CEN

Mais uma plaquinha levanta

Toda semana se criam bandeiras de causas alheias. "Eu não mereço ser estuprada", "Eu não mereço ser assassinado", "Somos todos macacos", "Eu também sou Cláudia".
Muita gente se manifesta, está na moda ser bacana, e seus Facebooks, Twitters e Instagrams ficam lotados de fotos apoiando alguma vítima.
Só que não é bem assim.
Não somos Cláudia, mulher pobre e negra, que foi morta por policiais na favela em que morava, mal atendida e arrastada pela rua no percurso ao hospital.
Não somos o Daniel Alves ou o Tinga, jogadores negros que receberam grandes ofensas racistas durante partidas de futebol.
Não somos o DG, negro, que foi assassinado em uma favela ocupada pelas UPPs.
Não somos a mulher estuprada que ficou com medo de denunciar seu estuprador por que talvez duvidassem dela.
Não somos o menino gay que foi espancado e morto porque estava andando na rua.
Nós somos diferentes. E temos que enxergar essa diferença. Ela existe por causa de privilégios que temos por sermos homens, brancos, escolarizados, ricos, livres, heterossexuais, magros, bonitos, sem deficiências físicas, empregados legalmente ou donos de um negócio, praticantes de uma religião permitida no país, de etnia que é a maioria do país em que vivemos.
Temos muitos privilégios e querer "ser" a vítima está bastante aquém do que se pode fazer para minimizar esses crimes. A plaquinha feita no conforto dos seus lares é um jeito tímido de assumir que não se faz nada pelo outro. E parece ser suficiente para a maioria.
Enquanto isso, você continua ganhando mais que seu colega de trabalho negro ou mulher. A polícia continua vitimando negros, simplesmente porque são negros. Homossexuais não têm os mesmos direitos você tem. E mulheres também não. Você anda no ônibus com medo de te roubarem o celular, mas não passa pela sua cabeça que você pode ser estuprado e morto no caminho para casa. Você entrou em uma boa faculdade, fez intercâmbio e pode trabalhar no que gosta, porque seus pais tiveram dinheiro para garantir sua educação. Aliás, você vive em um país livre e não teve que pedir asilo e se sujeitar a trabalho escravo. Você vive na cidade e tem acesso a médicos e hospitais particulares, sem depender da ajuda do exército, de médicos que não querem trabalhar no interior ou da saúde humanitária de ONGs. Você anda na rua de mãos dadas com quem você ama, e não é questionado sobre porque o nome do RG é de homem, se você é uma mulher.
Você não merece meu like. Porque você acha que não é preconceituoso só porque tem amigos negros ou gays. Também acredita que não é machista porque, né, você tem mãe, esposa, irmã, filha. E porque você acha que está livre de acusação de preconceito só porque você pertence a uma minoria ou não tem todos os privilégios que eu citei acima.
Superioridade é algo que ensinaram a você. É o que o sistema teima em afirmar através das leis existentes, dos privilégios que o judiciário confere, das bancadas de políticas excludentes patrocinadas por grandes corporações e fazendeiros. E aquele seu tal privilégio do qual falei antes pode agir aqui. Pode tornar ambientes corporativos mais justos e igualitários, educar crianças de maneira igual e sem distinções de gênero, denunciar um amigo que abusa de mulheres, andar com amigos gays e não se sentir especial por causa disso.
Aliás, não se deve fazer isso para ser especial. A vida do outro lado da tela não é medida em likes.
Abaixe sua plaquinha e levante um radar das suas atitudes. Já é um começo.

Desculpe o português... Ser negro no Brasil é foda


Trip do último mês trazia na capa, e em boa parte de suas páginas, uma pergunta direta: “Brasil – vai ficar ou tá pensando em ir embora?”. Essa foi certamente uma das edições que geraram maior repercussão nos mais diversos fóruns de debates ao longo dos últimos anos da revista. Muito especialmente nas chamadas redes sociais. Tudo indica que conseguimos capturar e trazer para o andar térreo uma sensação incômoda e recorrente que andava pairando pesada sobre a cabeça de muita gente por aí. A desagradável e frustrante ideia de que a roleta que determina o andamento do jogo no Brasil, com frequência irritante, gira, gira e acaba parando no ponto onde se lê “volte cinco casas” toda vez que conseguimos avançar uma ou duas. Uma sensação de andar pra trás eternamente que acabou por ventilar novamente as conversas e reflexões sobre as possibilidades de partir para outros cenários em que ao menos as questões muito básicas já tenham sido minimamente equacionadas.
E o que seriam, afinal, essas tais questões básicas? Queremos falar sobre elas, estressá-las no limite, usar nossa energia para tirá-las do escuro.

"É foda ter que combater um racismo cordial, que não se assume. É uma luta ferrenha, não se sabe quem é o inimigo, pois ele nunca se declara racista. E tem o racismo institucional, que nega o emprego, distancia da escola, diminui a autoestima e mata pelas mãos da polícia. E essas são apenas alguns dos pontos. É foda" Emicida, rapper

"É, sim, muito foda. Vivemos num país em que até pouco tempo atrás o racismo era política de governo. Mas se, por um lado, ser negro no Brasil é foda, por outro, os negros do Brasil estão pondo pra foder" MV Bill, rapper

Que tal começarmos por não querer mais ver o corpo de uma mulher inocente e negra sendo arrastado até a morte, preso pelas roupas na rabeira de um carro de polícia? E se não quisermos mais admitir viver num lugar onde um jogador de futebol negro é chamado de macaco por milhares de imbecis num local público? E se não aceitarmos mais que pessoas negras, sejam desempregados ou atores globais, continuem sendo abordadas nas ruas e vitimizadas com violência e abusos pela força coercitiva do Estado a cada segundo em qualquer ponto do país sem que isso gere qualqer tipo de reação? Que tal não nos conformarmos mais com gente de qualquer cor, orientação sexual ou credo sendo tratada como se pertencesse a uma casta inferior por instituições, governos, corporações e, pior, por seus semelhantes?
É evidente que esse tipo específico de preconceito não goza do “privilégio” da exclusividade em nossas terras. Mas o racismo é algo muito nojento. A expressão bem-acabada do tipo mais raso e grotesco de ignorância. A face tosca do humano aflorando incontrolável por todo lado. Com o perdão do meu português, (ou dos nossos portugueses como talvez me corrigisse o sociólogo), racismo é foda. Muito foda.

"Ser negro e pobre é foda. Existem outras pessoas que têm tantos problemas como os negros por causa da questão social. É mais foda para o negro pobre do que para aquele que teve condições de estudar" Tinga, jogador de futebol

Tão foda que a expressão dessa verdade encontra eco em graus e tons infinitos nas mais de 70 cabeças que acionamos para opinar, escrever, refletir, ilustrar e debater, num trabalho que envolveu toda a nossa equipe ao longo de muitas semanas de trabalho pesado. Enquanto suávamos as camisas apurando e editando as mais de cem páginas desta revista, acionamos nossa rede para tomar de quem sente mais forte, e na pele, a temperatura sobre o emblema que escolhemos para expressar nosso sentimento a respeito do que é afinal ser negro no Brasil. E você, o que acha? Ser negro no Brasil é foda?
Compartilho aqui algumas das respostas que expressam aquilo que só a dor mais funda permite formular. 
Paulo Lima, editor

"É verdade: ser preto, ser pobre, ser excluído é foda. Há muitos Brasis no Brasil" Simoninha, cantor
"É foda sobreviver sendo perseguida, mas é mais foda ver os perseguidores alcançando o topo do mundo... Sou perseguida onde quer que eu vá, mas no topo vou chegar sem nunca desistir dos meus sonhos. Meu pai e minha família me ensinaram assim e é assim que eu me sinto e sei que vou conseguir" Kamila Simões, estudante e Trip girl 

SER NEGRO NO BRASIL É FODA

A jornalista Claudia Lima
brincando de ser pele-vermelha
Entre o mito da democracia racial e a discriminação do dia-a-dia, o Brasil encara a vergonha do racismo
No Carnaval de 1948, e em todos os carnavais seguintes, os foliões engoliam confete enquanto cantavam mais um sucesso do Braguinha: “Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal!”. A palavra “mulata” ainda não era politicamente incorreta, e a marchinha fazia um requebrante elogio à mestiçagem.
A música celebrava uma ideia nova, a de que o Brasil era a única democracia racial do mundo. Um exemplo a ser seguido pelos países onde a mulata não era a tal – ao contrário, era branco para um lado e preto para o outro, sem meios-tons. Lugares como os Estados Unidos, onde Rosa Parks ainda se sentava nos assentos para negros no fundo do ônibus, ou a África do Sul, que naquele mesmíssimo 1948 tornava o apartheid uma política oficial de estado.
O mito do melting pot brasileiro ainda estava se consolidando. Havia apenas 15 anos que o so­ciólogo pernambucano Gilberto Freyre publicara Casa-Grande & Senzala – o principal marco de uma mudança radical no modo como o país encarava a si mesmo, com sua mistura de raças, mistura de cor.
Quase que de repente, lá estava a última nação do planeta a abolir a escravidão, aquela que até os anos 1920 insistia na supremacia ariana e convocava imigrantes europeus para embranquecer o povaréu, lá estava essa mesma nação sambando com dedinhos para o alto, em homenagem à miscigenação, resumida na figura da mulata.
Claro que essa virada não poderia ser tão simples assim – e continua não sendo. Com a palavra, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz.
“De um lado, não há como negar a evidência de uma convivência, de fato, singular, e a existência de um projeto oficial de identidade pautado em modelos culturais mestiçados”, escreve ela no afiado ensaio Racismo no Brasil: Quando a inclusão combina com a exclusão. “De outro, essa mesma sociabilidade ímpar referenda uma divisão outrora naturalizada (e hoje culturalizada) que se refere a ‘aptidões’ e costumes. (...) Fica explícito, pela convenção, que a inclusão social se dá na música, no esporte e nas artes de maneira geral. Já em outros locais – no exercício da política, da ciência, no convívio social –, o suposto é que ‘cada um conhece o seu lugar’.”
Ou seja, o imaginário nacional adora ser mestiço, louvar a Mama África, repetir que negro é lindo e dar vivas ao gari Sorriso. Mas basta o Carnaval passar para se rasgar a fantasia da inclusão, e a exclusão botar as manguinhas de fora. Para o lixeiro voltar a ficar invisível e Claudia Silva Ferreira ser arrastada pelo carro de polícia. Para Amarildo desaparecer e o ator de pele escura ser preso por ter pele escura. Para se tentar empurrar 51% da população brasileira de volta ao que seria seu “devido lugar”.
Ser negro no Brasil é foda.

SUSPRETO: Um episódio de racismo vivido por Helio de La Peña



“Eu não podia me sentir um cidadão como outro qualquer na zona sul do Rio. Precisava do aval de uma senhora, esta sim, acima de qualquer suspeita”

Helio de La Peña, 54 anos, humorista e integrante do Casseta & Planeta

Ei, negão! Você mesmo!” Faz tempo, mas não deu pra esquecer. E olha que minha memória não é lá essas coisas! O ano é 1989. O grupo Casseta & Planeta apresentava no Teatro Ipanema o show Eu vou tirar você desse lugar, com músicas e esquetes de nossa autoria. Naquele sábado a casa estava cheia.
No fim do espetáculo, me dirijo ao meu carro na praça Nossa Senhora da Paz, quando encontro a mãe do meu amigo e colega de palco Beto Silva. Ela tinha ido nos assistir. Paramos e conversamos rapidamente. Nos despedimos, cada um foi pro seu lado. Eu, porém, não cheguei a dar dez passos. Logo fui grosseiramente interpelado por um policial militar.
Ei, negão! É, você mesmo!”
Parei. O policial me olhou de cima a baixo e foi direto ao assunto.
Agora pode devolver o que você pegou da madame.”
Eu?? Não peguei nada, só tava conversando com uma amiga.”
Que conversa é essa de amiga, rapá! Tá me achando com cara de otário? Passa logo a parada, anda. Foi o quê? Relógio, carteira?”
Ela é mãe de um amigo meu, só isso!”
Me dá essa mochila!”
Puxou a mochila das minhas mãos e a abriu ostensivamente, revistando o conteúdo. Eu insistia que não era ladrão, que ele estava cometendo um engano grave. O sujeito não me dava ouvidos. A distância, dona Ida percebeu que algo estava acontecendo. Voltou. “O que está havendo, Helio?”
Expliquei e ela confirmou que me conhecia e que evidentemente nada de anormal tinha ocorrido, apenas a breve conversa. O policial ainda me olhou desconfiado, tipo “dessa vez tu escapou”, devolveu meus pertences e se afastou. Fiquei ali envergonhado pela situação constrangedora. Não reagi, não me revoltei, só queria ser abduzido instantaneamente. Queria deixar de ser o assunto. Mas o tema me acompanharia, a história seria repetida, comentada, repudiada, e não poderia ser apagada.
Era uma realidade: eu não podia me sentir um cidadão como outro qualquer na zona sul do Rio. Precisava do aval de uma senhora, esta sim, acima de qualquer suspeita, para me defender de uma acusação absurda. Depois que minha cara ficou conhecida por conta do programa do Casseta & planeta, urgente!, casos como esses desapareceram. Mas, naquele momento, eu ainda não passava de mais um “suspreto”.

IPHAN distribuirá R$ 1 milhão em prêmios para ações de preservação, valorização e documentação do Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana

Inscrições devem ser feitas até 5 de julho. Categorias são voltadas a ações de preservação realizadas pelo Instituto ou desenvolvidas por associações representativas
SEPPIR – As inscrições para a primeira edição do Prêmio Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, lançado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), estão abertas até o dia 5 de julho. A previsão é de que o resultado final seja divulgado no dia 18 de setembro. O edital foi publicado nesta segunda-feira, 28, no Diário Oficial da União.
A iniciativa vai distribuir R$ 1 milhão, sendo dez prêmios no valor de R$ 40 mil e 25, no valor de R$ 24 mil e tem como objeto o reconhecimento às ações de preservação, valorização e documentação do Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana.
As inscrições devem ser feitas na ficha disponível no site do Instituto (www.iphan.gov.br) e nas superintendências estaduais e enviadas pelos Correios para o endereço: SEPS 713/913, Bloco D, Edifício IPHAN Sede, 4º andar, Asa Sul, Brasília-DF, CEP 70.390-135.
Podem concorrer pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos que sejam representantes dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana e que tenham desenvolvido ou estejam desenvolvendo ações voltadas para a preservação do patrimônio cultural do público-alvo em qualquer parte do território nacional.
Os concorrentes devem escolher entre: Categoria 1, que premiará ações realizadas de preservação do Patrimônio Cultural Tombado ou em Processo de Tombamento pelo IPHAN, que tenham sido desenvolvidas pelas associações representativas dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana ou; Categoria 2, para ações de preservação do Patrimônio Cultural que tenham sido desenvolvidas pelas associações representativas dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana sediados em qualquer parte do território nacional.
O processo de seleção será conduzido na fase de habilitação por uma Comissão Técnica formada por técnicos do IPHAN. Na segunda, de avaliação, além dos técnicos do órgão, a comissão terá representantes da SEPPIR e da sociedade civil.
Lançamento
O prêmio foi lançado durante a oficina de trabalho “Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana”, realizado pela Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SECOMT/SEPPIR), em Brasília, entre os dias 23 e 26 de abril. Participaram cerca de cem representantes de comunidades tradicionais de matriz africana de todo o Brasil.
O edital tem, inclusive, como referência os grupos beneficiados e as ações previstas no Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, coordenado pela SEPPIR e cujos resultados iniciais foram avaliados no evento.
O edital completo pode ser acessado aqui

SEPPIR e PNUD selecionam consultor(a) para projeto de apoio ao desenvolvimento dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana

Os requisitos para a vaga são mestrado na área de Ciências Humanas ou Ciências Sociais Aplicadas e experiência de três anos na implementação de projetos com povos e comunidades tradicionais de matriz africana. As inscrições vão até 7 de maio
SEPPIR – Estão abertas as inscrições para consultores(as) interessados(as) em atuar nos mapeamentos socioeconômicos e culturais de povos e comunidades tradicionais de matriz africana. Os requisitos para a vaga são mestrado na área de Ciências Humanas ou Ciências Sociais Aplicadas e experiência de três anos na implementação de projetos voltados ao público contemplado. Os(as) candidatos(as) podem enviar currículo para secomt.seppir@seppir.gov.br até 7 de maio.Realizada no âmbito de um acordo de cooperação entre a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), a contratação visa à elaboração de um Guia Orientador  contendo metodologia, além de informações socioeconômicas e culturais.Acesse aqui o Termo de Referência
Por meio da parceria entre os órgãos, serão investidos R$ 5,5 milhões até dezembro de 2016. As ações resultantes vão contribuir para a ampliação dos dados oficiais referentes ao segmento historicamente invisibilizado, facilitando a implementação de políticas públicas que o beneficiem.
No caso das comunidades tradicionais de matriz africana, por exemplo, são conhecidos apenas sete levantamentos realizados por instituições públicas, privadas e universidades. O resultado aponta para a existência de 7.582 casas, porém os números são parciais, visto que não abrangem todo o país.
No que se refere aos quilombos, a secretária de Políticas para Comunidades Tradicionais da SEPPIR, Silvany Euclênio, afirma que os índices de cadastros oficiais e mapeamentos “estão longe do ideal”. Por exemplo, apenas 439 comunidades, em 257 territórios, possuem Relatório Técnico de Identificação e Delimitação – RTID, portaria, decreto ou estão tituladas. Enquanto isso, o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal – CadÚnico aponta que existem mais de 4 mil comunidades remanescentes de quilombos no Brasil.
Linha da pobreza
Os dados disponibilizados pelo CadÚnico mostram, ainda, que os indicadores socioeconômicos dos quilombos estão abaixo do restante da população negra e brasileira em geral. No ano de 2013, três quartos do total de famílias quilombolas cadastradas estavam abaixo da linha da pobreza.
 
“As ações do acordo são necessárias para combater a precariedade social e econômica que incide sobre as comunidades quilombolas e de matriz africana. A partir da cooperação com o Pnud, teremos três anos para consolidar e disponibilizar dados que vão permitir que as políticas públicas sejam dirigidas a essas áreas mais vulneráveis”, destaca o Especialista em Políticas Públicas da SEPPIR, Renato Flit.
Cadeias Produtivas
O especialista afirma que outro ponto crucial é o desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas ao agroextrativismo, com a finalidade de agregar valor aos produtos oriundos de comunidades quilombolas. A principal estratégia é a identificação dos itens com o Selo Quilombos do Brasil, criado pela Seppir no âmbito do Programa Brasil Quilombola (PBQ).
Como obter o Selo Quilombos do Brasil
O Selo Quilombos do Brasil identifica produtos oriundos de comunidades quilombolas, como verduras, legumes, polpas de frutas, laticínios e artesanato, a fim de promover maior valorização étnico-cultural e possibilitar novos espaços de comercialização.
A comunidade quilombola interessada na obtenção do Selo deve encaminhar o pedido ao Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, que tem até 60 dias para se manifestar quanto à aprovação do pedido.
A marca pode ser utilizada por agricultores familiares quilombolas (pessoas físicas) que possuam Declaração de Aptidão ao Pronaf – DAP, cooperativas ou associações de agricultores familiares quilombolas que possuam ou não DAP e, empresas cujos produtos tenham participação relevante na agricultura familiar quilombola.
 
Para quem não tem DAP, quando o produto possui uma única matéria-prima, basta comprovar que, pelo menos 50% dos gastos com aquisição tem origem na agricultura familiar quilombola e, quando o produto é composto por mais de uma matéria-prima, o empreendimento deve comprovar que mais de 50% da matéria-prima principal foi adquirida da agricultura familiar quilombola.

A violência simbólica das narrativas sobre a mulher, por Cley Medeiros

Conhecida nacionalmente como a revista de maior circulação, Veja corrobora uma linha editorial vista por muitos especialistas como conservadora. Alvo de críticas do público feminista, por aceitar entre jornalistas e colunistas pessoas que divergem quando o assunto é o papel da mulher na sociedade, as narrativas apresentadas no semanário não só revelam a dificuldade do jornalismo tradicional em absorver demandas das pautas que levam, em algum grau, a uma compreensão abrangente do feminino, como também suas publicações reforçam papéis sociais e estereótipos atribuídos cultural e historicamente ao gênero feminino – que se inscrevem no processo de legitimação e deslegitimação da mulher no papel de protagonista da construção identitária do ser humano.
As revistas semanais não desfrutam de um público tão variado e abrangente comparativamente aos telejornais, mas possuem impacto, principalmente por desenvolver um papel importante na formação da opinião pública e no agendamento de outros veículos de comunicação. Na corrida presidencial, Veja e IstoÉ, por exemplo, apresentaram posicionamentos políticos distintos durante a cobertura da campanha. Enquanto Veja se mostrou favorável ao candidato José Serra, IstoÉ apoiou a candidata Dilma Rousseff. Os editoriais de Veja ressaltavam a importância de ter um homem no comando do país. Exemplo é a frase do editorial de 4 de abril de 2006: “[...] O projeto político de ascensão da quebra do modelo de agentes responsáveis pela manutenção do poder país não tende a ser uma boa ideia do partido [dos Trabalhadores]”, fazendo referência a então tentativa do PT em eleger uma mulher como candidata à presidência.
Marina Silva também não ficou de fora das críticas ferozes do semanário. Segundo a revista, a candidata não seria capaz de lidar com a pauta econômica caso eleita. Pode-se dizer, em grande medida, que as narrativas da revista apresentaram as mulheres como “penetras” em um espaço estruturado, historicamente ocupado e ditado sob a ótica masculina.
Apesar das forças e vozes muitas vezes dissonantes que operam neste campo, a mídia e, em particular, o jornalismo, atuam como instrumentos de disseminação da ideologia dominante e podem contribuir para estabelecer relações assimétricas de poder. Considerar a versão Veja da história quando o assunto é a análise da quebra de narrativas jornalísticas sobre a objetificação da mulher, na redação que conta com 9% de mulheres como autoras de reportagens envolvendo pautas de emancipação feminina, é trazer às claras a real linha editorial da revista que conserva a tradicional imagem da mulher na construção político-social.
Conquista da igualdade
A matéria que traz a capa da edição especial “Mulher” da revista Veja, de junho de 2006, apresenta uma imagem caricata que choca pelo reducionismo da pauta. Nela, uma mulher vestida com um visual que se associa à figura do executivo com terno e uma maleta preta, estrategicamente posicionada ao lado, apresenta-se amamentando um bebê. A manchete “O que sobrou do feminismo” interpela leitores e leitoras para uma determinada interpretação da imagem que induz ao seguinte raciocínio: o que restou do feminismo é a conquista da mulher branca de classe média, ao conciliar profissão com os prazeres da maternidade, ponto.
Com o ato performático da publicação de trazer a matéria, na mesma edição, intitulada “O feminismo na crise dos 40”, com citações descontextualizadas, inclusive de feministas brasileiras, Veja naturaliza um sentido restritivo e irônico para anunciar “o fim do feminismo”, fazendo, portanto, uma rasa proposta narrativa sobre o pensamento de emancipação da mulher nas articulações políticas, movimentos sociais e nas construções teóricas e ideológicas dentro das universidades. A revista também não leva em conta a formulação de políticas públicas, como, por exemplo, a lei Maria da Penha, que desde 7 de agosto de 2006 representa um avanço dos mais significativos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
O jornalismo cumpre seu papel na reprodução ou superação de desigualdades sociais, bem como para alertar práticas sociais capazes de inibir ou mesmo de promover transformações relevantes para a conquista da igualdade entre homens e mulheres na sociedade. Papel não considerado de importância em Veja.

Contra o racismo nada de bananas, nada de macacos, por favor!

NeyAFRICA
À esquerda, foto de Neymar em apoio a Daniel Alves; À direita foto de Ota Benga, Zoológico do Bronx, Nova York, em 1906.
 A foto da esquerda todo mundo viu. É o craque Neymar com seu filho no colo e duas bananas, em apoio a Daniel Alves e em repulsa ao racismo no mundo do futebol.
Já a foto à direita, é do pigmeu Ota Benga, que ficou em exibição junto a macacos no zoológico do Bronx, Nova York, em 1906. Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do que os cientistas da época proclamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A história de Ota serviu para inflamar crenças sobre a supremacia racial ariana defendida por Hitler. Sua história é contada no documentário “The Human Zoo”.
A comparação entre negros e macacos é racista em sua essência. No entanto muitos não compreendem a gravidade da utilização da figura do macaco como uma ofensa, um insulto aos negros.
Encontrei essa forte história num artigo sensacional que li dia desses, e que também trazia reflexões de James Bradley, professor de História da Medicina na Universidade de Melbourne, na Austrália. Ele escreveu um texto com o título “O macaco como insulto: uma curta história de uma ideia racista”. Termina o artigo dizendo que “O sistema educacional não faz o suficiente para nos educar sobre a ciência ou a história do ser humano, porque se o fizesse, nós viveríamos o desaparecimento do uso do macaco como insulto.”
Não, querido Neymar. Não somos todos macacos. Ao menos não para efeito de fazer uso dessa expressão ou ideia como ferramenta de combate ao racismo.
Mas é bom separar: Uma coisa é a reação de Daniel Alves ao comer a banana jogada ao campo, num evidente e corriqueiro ato racista por parte da torcida; outra coisa é a campanha de apoio a Daniel e de denúncia ao racismo, promovida por Neymar.
No Brasil, a maioria dos jogadores de futebol advém de camadas mais pobres. Embora isso esteja mudando – porque o futebol mudou, ainda é assim. Dentre esses, a maioria dos que atingem grande sucesso são negros. Por buscarem o sonho de vencer na carreira desde cedo, pouco estudam. Os “fora de série” são descobertos cada vez mais cedo e depois de alçados à condição de estrelas vivem um mundo à parte, numa bolha. Poucos foram ou são aqueles que conseguem combinar genialidade esportiva e alguma coisa na cabeça. E quando o assunto é racismo, a tendência é piorar.
E Daniel comeu a banana! Ironia? Forma de protesto? Inteligência? Ora, ele mesmo respondeu na entrevista seguida ao jogo:
“Tem que ser assim! Não vamos mudar. Há 11 anos convivo com a mesma coisa na Espanha. Temos que rir desses retardados.”
É uma postura. Não há o que interpretar. Ele elaborou uma reação objetiva ao racismo: Vamos ignorar e rir!
Há um provérbio africano que diz: “Cada um vê o sol do meio dia a partir da janela de sua casa”. Do lugar de onde Daniel fala, do estrelato esportivo, dos ganhos milionários, da vida feita na Europa, da titularidade na seleção brasileira de futebol, para ele, isso é o melhor – e mais confortável, a se fazer: ignorar e rir. Vamos fazer piada! Vamos olhar para esses idiotas racistas e dizer: sou rico, seu babaca! Sou famoso! Tenho 5 Ferraris, idiota! Pode jogar bananas à vontade!
O racismo os incomoda. E os atinge. Mas de que maneira? Afinal, são ricos! E há quem diga que “enriqueceu, tá resolvido” ou que “problema é de classe”! O elemento econômico suaviza o efeito do racismo, mas não o anula. Nesse sentido, os racistas e as bananas prestam um serviço: Lembram a esses meninos que eles são negros e que o dinheiro e a fama não os tornam brancos!
Daniel Alves, Neymar, Dante, Balotelli e outros tantos jogadores de alto nível e salários pouca chance terão de ser confundidos com um assaltante e de ficar presos alguns dias como no caso do ator Vinícius; pouco provavelmente serão desaparecidos, depois de torturados e mortos, como foi Amarildo; nada indica que possam ter seus corpos arrastados por um carro da polícia como foi Cláudia ou ainda, não terão que correr da polícia e acabar sem vida com seus corpos jogados em uma creche qualquer. Apesar das bananas, dificilmente serão tratados como animais, ao buscarem vida digna como refugiados em algum país cordial, de franca democracia racial, assim como as centenas de Haitianos o fazem no Acre e em São Paulo.
O racismo não os atinge dessa maneira. Mas os atinge. E sua reação é proporcional. Cabe a nós dizer que sua reação não nos serve! Não será possível para nós, negras e negros brasileiros e de todo o mundo, que não tivemos o talento (ou sorte?) para o  estrelato, comer a banana de dinamite, ou chupar as balas dos fuzis, ou descascar a bainha das facas. Cabe a nós parafrasear Daniel, na invertida: “Não tem que ser assim! Nós precisamos mudar! Convivemos há 500 anos com a mesma coisa no Brasil. Temos que acabar com esses racistas retardados, especialmente os de farda e gravata”.
Quanto a Neymar, ele é bom de bola. E como quase todo gênio da bola, superacumula inteligência na ponta dos pés. Pousa com seu filho louro, sem saber que por ser louro, mesmo que se pendure num cacho de bananas, jamais será chamado de macaco. A ofensa, nesse caso, não fará sentido. Mas pensemos: sua maneira de rechaçar o racismo foi uma jogada de marketing ou apenas boa vontade? Seja o que for, não nos serve.
Sou negro, nascido em um país onde a violência e a pobreza são pressupostos para a vida da maior parte da população, que é negra. Querido Neymar – mas não: Luciano Hulk, Angélica, Reinaldo Azevedo, Aécio Neves, Dilma Rousseff, artistas e a imprensa que, de maneira geral, exaltou o “devorar da banana” e agora compartilham fotos empunhando a saborosa fruta, neste país, assim como em todo o mundo, a comparação de uma pessoa negra a um macaco é algo culturalmente ofensivo.
Eu como negro, não admito. Banana não é arma e tampouco serve como símbolo de luta contra o racismo. Ao contrário, o reafirma na medida em que relaciona o alvo a um macaco e principalmente na medida em que simplifica, desqualifica e pior, humoriza o debate sobre racismo no Brasil e no mundo.
O racismo é algo muito sério. Vivemos no Brasil uma escalada assombrosa da violência racista. Esse tipo de postura e reação despolitizadas e alienantes de esportistas, artistas, formadores de opinião e governantes tem um objetivo certo: escamotear seu real significado do racismo que gera desde bananas em campo de futebol até o genocídio negro que continua em todo o mundo.
Eu adoro banana. Aqui em casa nunca falta. E acho os macacos bichos incríveis, inteligentes e fortes. Adoro o filme Planeta dos Macacos e sempre que assisto, especialmente o primeiro, imagino o quanto os seres humanos merecem castigo parecido. Viemos deles e a história da evolução da espécie é linda. Mas se é para associar a origens, por que não dizer que #SomosTodosNegros ? Porque não dizer #SomosTodosDeÁfrica ? Porque não lembrar que é de África que viemos, todos e de todas as cores? E que por isso o racismo, em todas as suas formas, é uma estupidez incompatível com a própria evolução humana? E, se somos, por que nos tratamos assim?
Mas não. E seguem vocês, “olhando pra cá, curiosos, é lógico. Não, não é não, não é o zoológico”.
Portanto, nada de bananas, nada de macacos, por favor!

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