quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Nós somos a essência do carnaval. Nós somos povo negro, unidos pela mudança.


O carnaval enquanto espaço de disputa política é algo que deixa caricaturado o debate racial no estado da Bahia. Existem muitas cordas que, para além do que se faz visível, tentam enforcar a cultura negra no carnaval da Bahia. A prevalência do poder econômico no carnaval tem tornado esse debate cada vez mais acintoso, permitindo a continuidade da lógica da “casa grande”  x  “senzala”, reproduzida pelos luxuosos camarotes e cordas recheadas de brancos em contraponto aos reduzidos espaços e apoios da essência negra da folia africana.

A luta dos blocos Afros pela afirmação da cultura negra no carnaval remonta a história de enfrentamento pela libertação de 1888. A história se repete! Os senhores das casas grandes, detentores do capital as custas da exploração da força de trabalho negra, imprimem a lógica de um carnaval que tenta, a todo tempo, invisibilizar a dimensão e importância da cultura negra da/para Bahia. Em que pese os avanços obtidos por meio do Carnaval Ouro Negro, o Poder Público precisa ter maior inserção no carnaval negro da Bahia, o que significa, inclusive, colocar mais ouro para os blocos negros.

Noutro giro, artistas surgem no cenário do carnaval com uma nova linguagem e que, tomando por base a dimensão quantitativa dos foliões que os seguem, representam uma parcela da sociedade que está sob disputa política franca e aberta.  Igor Kannario é exemplo emblemático destes novos artistas. Intitulado “Príncipe do Gueto”, Kannario canta numa linguagem que, apesar de contestada por muitos segmentos, foi repetida em coro por significativa parcela da sociedade. Parece que a sociedade e o Poder Público têm o dever de mergulhar neste “gueto”, diferente, inclusive, de outros guetos, para que possa debatê-lo com muito mais propriedade do que a fala simplória e reducionista de que as letras cantadas por Kannario incentivam a criminalidade. Ou será que toda a legião de seguidores da pipoca do “Príncipe do Gueto” são incentivadores da criminalidade? Temos uma sociedade em disputa e não podemos ignorar que parte dela aplaude o Kannario.

O debate sobre a criminalidade ganha a sua forma consumada (o racismo) nos elitizados camarotes. O advogado Leandro Oliveira acusa o Camarote Planeta Band de discriminação racial, porém os crimes cometidos pelos senhores de engenho, ou ainda, ao seu mando, por capitães do mato, não ganham relevância, uma vez que, no “nosso carnaval”, o que prospera é invisibilidade ou negativação daquilo que vem do Gueto e das periferias negras. Fica evidente que alguns setores – não por acaso entusiastas do carnaval branqueado – preferem pautar as letras do Kannario ao invés dos crimes de racismo cometidos por aqueles que detêm o capital.

Enquanto isso, outros símbolos do carnaval, a exemplo do cantor Carlinhos Brown, se distanciam um pouco mais da realidade baiana da folia momesca. Algo do carnaval carioca parece ter atraído mais o “Cacique Brown” do que aquilo que a folia baiana pode proporcionar. Terá sido o samba? Mas logo o samba? Mesmo com a aplaudida iniciativa dos movimentos de samba baianos, o Palco do Samba da Cruz Caída, que teve o importante papel de reafirmar a negritude do ritmo e resgatar o espírito do carnaval enquanto uma festa de reunião de amigos e de famílias que vivem em torno das manifestações culturais? Cremos que aqueles que saíram de Salvador atrás de samba, logo o nosso samba, perderam apresentações culturais muito valiosas desse ritmo negro.

O carnaval da Bahia sinaliza a necessidade de mudanças! Mudanças que o valorize enquanto uma festa popular de referências negras, que permitam que blocos afros alcancem apoios dignos da representatividade cultural que possuem. Mudanças que repudiem o racismo cometido pela “casa grande” e que permitam que os “kannarios” tenham seus cantos identificados dentro do contexto de onde eles vêm. Mudanças que signifiquem uma presença maior do Poder Público nestes lugares, com mais políticas de cultura, educação e menos truculência policial. Mudanças que façam com que os representantes do Poder Público, a exemplo do prefeito de Salvador e do governador da Bahia, ouçam a voz da sociedade, começando pela participação de ambos na tradicional “Mudança do Garcia”, marcada pela concentração de manifestações sociais mais questionadoras e menos passivas.

Enfim, não estamos aqui para ver o carnaval passar.

Nós somos a essência do carnaval. Nós somos povo negro, unidos pela mudança.

Coletivo de Entidades Negras

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