quarta-feira, 15 de abril de 2015

As razões pelas quais a Casa de Oxumarê e eu, Baba Pecê, apoio Marcos Rezende para ouvidor da Defensoria Pública do Estado da Bahia.


Baba Pecê
Como é publicamente sabido na Bahia e no Brasil, o professor Marcos Rezende é ogã desde 1998, confirmado para Ewa desde 2001, tendo o cargo de Oju Obá (Olhos do Rei) dessa Casa desde 2004. Na condição de babalorixá desse Ilê, eu poderia basear todo o meu discurso de apoio à sua candidatura tão somente a partir desse argumento de filiação. Dentro da hierarquia do candomblé e da irmandade que dela decorre, esse seria um comportamento totalmente legítimo e definitivo, não sendo passível sequer de criticas.

Porém, esse não seria um apoio baseado em critérios republicanos e o candomblé, mesmo com sua estrutura hierárquica e seus dogmas muito bem definidos, está contido em uma nação republicana, algo que nos reivindica argumentos democráticos. Esse, talvez, seja um dos grandes desafios das religiões tradicionais, como é o caso do candomblé: o exercício de respostas republicanas, tanto para o mundo externo – ou seja, como o terreiro se relaciona com o mundo –, como para o cotidiano comunitário, o nosso existir em família e todos os conflitos que essa condição de religião familiar nos coloca.

Se analisarmos o pleito para Ouvidoria da Defensoria Pública da Bahia veremos, sim, dois candidatos muito legítimos. É inegável que tanto a professora Vilma Reis como o nosso filho Marcos Rezende são profissionais gabaritados e sujeitos que se especializaram em um ativismo político em prol dos segmentos mais negligenciados pelo Estado. Nesse sentido, é uma honra para a sociedade baiana um pleito dessa natureza, em tempos de tantas notícias de corrupção e tanto descrédito da política. Temos para essa função pública um pleito com dois notáveis indivíduos da cena política baiana.

A questão que nos mobiliza ao apoio desse filho é justamente o seu histórico de compromisso não só com essa casa, mas com as causas do povo negro desse nosso país, no qual o povo de santo é um dos segmentos desse todo. Entre os anos de 2004 e 2007, Marcos Rezende, indicado por esse Ilê Axé, ocupou o cargo de conselheiro de Direitos Humanos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, momento em que contribuiu enormemente para a ampliação do debate em esfera nacional de temas pelos quais ainda hoje lutamos, como, por exemplo, o fim do genocídio de jovens negros das periferias, o fim dos autos de resistência, o combate à intolerância religiosa que violenta as religiões de matrizes africanas, a inclusão da história da África nos currículos escolares, enfim, pontos de uma agenda da qual essa casa é muito sensível.
É também em 2004 que no barracão de Omulu dessa casa aconteceram as primeiras reuniões do CEN (Coletivo de Entidades Negras), jovem entidade do movimento negro que Marcos Rezende, respondendo a um chamado meu e de tantos outros que cansaram de ver injustiça, criou junto com outros jovens negros. Uma instituição criada para questionar a ausência de ajudas públicas para as pequenas agremiações negras, tanto terreiros de candomblé (e demais religiões de matriz africana), como agremiações carnavalescas, de juventude negra através do Hip-Hop e de bairros periféricos dessa cidade, algo que inclui os afoxés, as creches, as associações de bairro, etc. Nascia ali um grito dissonante em prol da dignidade das pequenas entidades do movimento negro e um clamor público pela democratização dos acessos, algo pelo que uma parte do movimento negro se esqueceu de lutar no andar do processo político.
Essa entidade existe até hoje e não se esqueceu do seu objetivo inicial. Ao contrário, dia após dia, renova suas bandeiras de luta, mesmo hoje sem a presença física desse nosso filho de Xangô.
Não há caso de combate às injustiças sociais nessa cidade que não seja lembrado o nome de Marcos Rezende. Ele pode até não ser uma unanimidade, mas é inegável que as marcas da sua força cidadã, muito própria dos filhos de Xangô, traz dignidade a muitos processos políticos de luta e contestação política do povo negro dessa cidade. Como se esquecer da sua luta pela reconstrução do terreiro Iyá Onipó Neto derrubado pelo racismo institucional perpetrado pela municipalidade dessa nossa cidade, evento inclusive documentado na obra “Até Oxalá vai a Guerra”? Ou o caso da questão fundiária do Ilê Axé Ayrá Izo, no qual a discussão judicial da propriedade do terreno foi mediada pela força política e intelectual dos filhos dessa casa, liderados por Marcos Rezende e André Santos, que conseguiram sensibilizar o poder público quanto à necessidade de desapropriar o terreno para bem da manutenção de uma casa de Orixá. Essas são algumas das tantas histórias que eu poderia citar nesse documento, mas que agora não vem ao caso.
É justamente diante desse contexto que entendo ser o momento de termos uma liderança como Marcos Rezende ocupando o cargo de ouvidor-geral da Defensoria Pública. Esse órgão que é tão importante para o acesso à Justiça e que, ao mesmo tempo, ainda é uma instituição tão marginalizada na estrutura de estado, merece ter esse moço como ouvidor. A sociedade baiana e, sobretudo, o público pobre que é usuário dos serviços dessa instituição merecem a competência desse jovem para ver seus direitos respeitados.

Não sem razão, publico esse apoio em uma quarta feira, dia dedicado ao senhor do fogo e da Justiça. Que Xangô mesmo, Orixá da Justiça, coloque seus olhos a serviço do seu povo! 
Adupé!

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