quarta-feira, 15 de abril de 2015

Olhares aprisionados
Uma Tunísia oculta


A participação no Fórum Social Mundial seria apenas mais um espaço de construção coletiva, caso não produzisse uma inquietação tamanha convocando-me à reflexão sobre as diversas manifestações da crueldade humana, neste momento representada pela tentativa de repressão à sexualidade de boa parte de uma gente extremamente afetuosa.
Ao caminhar pelas ruas de Tunis, a capital tunisiana, percebia a constante troca de afeto permitida entre homens que se autodeclaram heterossexuais, quase sempre trocando beijos em suas faces, caminhando abraçados e até mesmo trocam certos afagos. O que não seria de estranhar, se isto fosse habitual também às mulheres. Sendo que estas pouco se expressam publicamente, ao menos nos espaços abertos por onde transitei.
Durante as tardes percebia que, em um dos cruzamentos das duas principais avenidas centrais daquela capital, a concentração de jovens chamava a atenção de qualquer pessoa que por ali trafegasse, posicionando-se numa constante espera de algo que nos primeiros dias não consegui identificar.
Mas, logo ao terceiro dia, os gentis cumprimentos já me revelavam o real motivo daquelas concentrações de dezenas de jovens, sempre ávidos por um olhar correspondente, talvez sendo a única oportunidade que lhes fosse dada, ainda que de forma velada, para satisfazer seus mais recônditos desejos e fantasias.
Foi então que, ao sentar-me em uma das mesas do Salon de Thé, que se revelara a mim o real significado daquela concentração. Quando um jovem se aproximara e gentilmente exibe seu francês num sotaque quase arábico: ”Bonjour, monsieur!”. Seria algo natural se este fosse um dos gentis garçons que ali serviam os cafés ou chás, mas era um jovem tunisiano que para sua sociedade velava sua homossexualidade, mas, no contato com os turistas, buscava a possibilidade para vivenciá-la.
O sentimento que me tomava naquele momento não me permitia sentir-me lisonjeado pelo flertar de um lindo jovem, com olhos negros e fixos, antes de questionar-me sobre o nível de exposição que este se permitia, sabedor que era de sua legislação. Em meio à comunicação, com meu raso francês e seu italiano parco, foi-nos possível estabelecer um diálogo que me fazia compreender facilmente o nível de sua angústia pelo impedimento de vivenciar livremente seus afetos no campo da orientação sexual, do ponto de vista erótico, mais propriamente dito.
Quando este me disse, em seu francês, “Au Brésil deux hommes peuvent aimer?”, percebi em seus olhos o desejo do “sim” como resposta, mas a minha frustração se produzia ao perceber que os ares da homofobia presente no Brasil não eram maiores que na Tunísia, apagando aquele brilho do olhar no cotidiano de jovens impedidos de amar seus desejados parceiros.
Être autorisé. Liberté Tunisie!

Gabriel Teixeira
Psicólogo Social
Membro do Coletivo de Entidades Negras (CEN)
Conselheiro Estadual dos Direitos da População LGBT da Bahia

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