quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Homens brancos podem protagonizar a luta feminista e antirracista?

Viola Davis
O discurso de Viola Davis ao ser a primeira mulher negra a ganhar o Emmy mostra como é importante o protagonismo. Sua vitória é nossa



Quando falamos da questão do protagonismo, sempre vem alguém dizer: "Qualquer um pode falar sobre opressões, não preciso ser negro para apoiar a luta". Não precisa mesmo e é dever dos não negros se conscientizar e lutar contra as opressões. Mas, o que muitos não entendem é que são eles quem têm falado sobre nós ao longo do tempo.
Os trabalhos acadêmicos iniciais sobre essa questão, por exemplo, foram feitos por não negros justamente porque o racismo impede o acesso da população negra aos espaços acadêmicos. Muitos desses trabalhos são bons, sem dúvida, muitos não, mas a questão não é essa.
O cerne aqui é: se pessoas brancas continuarem falando sobre pessoas negras a gente não muda a estrutura de opressão que já confere esses privilégios aos brancos. Nós, negras e negros, seguiremos apartados dos espaços de poder. E nossa luta existe justamente por causa desse aparte. Daí, no movimento formado para combater isso, nós ainda seguiremos apartados?
Não perceber a importância disso me faz questionar até que ponto se é aliado. Como negra, não quero mais ser objeto de estudo, mas sim o sujeito que pesquisa. Se eu, como mulher negra, já estou fora de diversos espaços, um aliado veria a importância de eu falar sobre problemas que me afligem em vez de querer falar por mim. É necessário usar do seu espaço de privilégio para dar espaço para grupos que não o tenham, até porque esse privilégio foi construído em cima das costas de quem foi e é historicamente discriminado.
Recentemente a filósofa estadunidense Judith Butler esteve no Brasil e eu tive a oportunidade de conhecê-la. Eu estudo sua obra na minha pesquisa de mestrado e meu orientador foi convidado para um encontro com ela e pediu uma vaga para mim.
Ele acabou não indo porque precisava dar aula, mas disse para eu ir. Isso é empatia, perceber seu papel como aliado. Eu não conseguiria estar naquele espaço se não fosse por essa atitude consciente. Como feminista que estuda Judith Butler, era importante eu estar ali. Isso é ser sujeito político, caso contrário, é só validar nossa exclusão de certos espaços.
Mesma lógica vale para o feminismo. Mulheres brancas ganham até 30% menos do que os homens brancos na mesma função; negras, até 70%, ainda são minorias nos espaços de poder. Como um homem branco privilegiado não percebe que, se ele protagonizar essa luta, mulheres seguirão apartadas?
Se um homem quer se posicionar a favor do feminismo, não precisa necessariamente ganhar dinheiro escrevendo sobre isso. Pode conversar com seus amigos, repreender um amigo que chama uma mulher de gostosa e explicar que isso é assédio. Se for professor, não assediar alunas, trazer o tema para o debate em sala de aula, orientar alunas, se posicionar a favor de temas no departamento.
Se for pai, cumprir com sua obrigação sem achar que merece estrelinhas, limpar sua sujeira, lavar suas cuecas. Jornalistas podem abordar o tema com respeito, entrevistar mulheres, sobretudo mulheres negras que seguem sem muito espaço. Parlamentares podem colocar a questão na agenda política.
Em relação à questão racial, a mesma coisa. A pessoa pode convidar uma pessoa negra para escrever no seu site, se for empregador, contratar pessoas negras, se for professor, falar dos temas em sala de aula, incluir teóricos negros na bibliografia, convidar grupos para ir à escola, colocar em prática a lei 10.639.
Parar de rir de piadas racistas, apoiar ações do movimento negro. Discutir o racismo pelo viés da branquitude, começar a se responsabilizar pelo racismo. Começar a se perguntar: quantas vezes eu contribuí com a baixa autoestima da minha amiga negra por rir do cabelo dela? Quantas vezes naturalizei o lugar construído para a mulher negra?
Quantas vezes fiz um discurso lindo contra o racismo, mas silenciei uma mulher negra que tem mais legitimidade para falar de um tema que a atinge? Quantas vezes denunciei o preconceito, mas romantizei a relação com minha empregada negra? Mas o que me parece é que muitos só querem o título se estiverem sob holofotes.
O discurso de Viola Davis ao ser a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz em série dramática em 67 anos nos mostra como é importante o protagonismo. Já vi gente dizer: "Ah, mas por que ela teve que fazer um discurso político?” Oras, porque a arte não está dissociada dos valores da sociedade, porque não existe arte pela arte. Porque a indústria é racista, basta ver.
E, nós como negras, nos emocionamos porque sabemos o que é ser preterida mesmo sendo boa, o que é não se ver. Então, a vitória de Viola é nossa. Uma pessoa branca não sente esse pertencimento, essa conquista como coletiva, pois a maioria das pessoas brancas já ocupa esse espaço.
O que pode acontecer é ficar feliz porque gosta dessa ou aquela atriz, mas para nós tem um significado de resistência, é como se todas nós pudéssemos ser Viola. Não perceber a importância da representatividade num país como o nosso, que teve 354 anos de escravidão e ainda mantém a população negra na subalternidade, me dá a impressão de que muitas pessoas precisam urgentemente rever seus conceitos. Ou o seu racismo mesmo.
Parem com a síndrome de privilegiado que julga que você pode falar sobre qualquer coisa. Poder, realmente você pode. Mas em determinadas instâncias, a pergunta que você deve fazer é: eu devo?

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Brasil: ‘Minorias pedem que promessas de igualdade sejam cumpridas’, diz especialista de direitos humanos da ONU

Ciganos da comunidade calon, em Porto Seguro (BA). Foto: EBC“O diálogo contínuo e de construção de confiança entre os diferentes atores da sociedade deve ser assegurado e os mais vulneráveis ouvidos e assistidos. Caso contrário, o Brasil pode deixar de aproveitar os avanços feitos até agora, e danificar o seu tecido social, já delicado”, afirmou Izsák.
Ciganos da comunidade calon, em Porto Seguro (BA). 
Foto: EBC
A relatora especial das Nações Unidas sobre Questões das Minorias, Rita Izsák, alertou, nesta quinta-feira (24), que “os grupos minoritários no Brasil ainda não viram as promessas de igualdade cumpridas apesar das inúmeras leis, políticas e programas de ação afirmativa projetados para superar os desafios das comunidades mais vulneráveis.”
“Acredito que o Brasil está no caminho certo em termos de desenvolvimento de leis e políticas para combater a discriminação, o racismo e a injustiça”, disse Izsák (*) no final da sua primeira visita oficial ao país para identificar e avaliar as principais questões que minorias étnicas, religiosas e linguísticas enfrentam.
“No entanto”, enfatizou, “muitos desses desenvolvimentos legais, embora tenham impacto em longo prazo, não atendem as demandas urgentes que as minorias prejudicadas frequentemente querem e precisam.”
Ela instou as autoridades brasileiras a introduzir medidas imediatas para superar desafios estruturais graves. “A impunidade não pode prevalecer em qualquer sociedade democrática”, disse. “Uma governança inclusiva deve ser estabelecida, e a concentração de poder econômico, político e de mídia em poucas mãos deve ser desafiada.”
“O diálogo contínuo e de construção de confiança entre os diferentes atores da sociedade deve ser assegurado e os mais vulneráveis ouvidos e assistidos. Caso contrário, o Brasil pode deixar de aproveitar os avanços feitos até agora, e danificar o seu tecido social, já delicado”, afirmou Izsák.
A especialista em direitos humanos observou que a pobreza, a injustiça, a discriminação e a violência são experiências da vida cotidiana das comunidades negras, que constituem uma maioria numérica, embora se identifiquem como uma minoria política.
“As altas taxas de homicídio, a uma taxa impressionante de 56 mil vítimas por ano, têm que acabar. Isto afeta particularmente os afro-brasileiros, já que constituem 75% de todas as vítimas. Há uma necessidade de abolir a polícia militar, remover o mecanismo de autos de resistência e tratar todas as mortes como casos de homicídio, processar os perpetradores e prestar apoio psicossocial para as famílias das vítimas, especialmente as mães que perderam seus filhos”, disse.
“Eu também estou particularmente preocupada com os jovens e as famílias que vivem em favelas que parecem ter poucos sonhos ou perspectivas de vida. Espaços e serviços comunitários precisam ser fornecidos para evitar que os jovens se envolvam no crime e na violência e é preciso motivá-los a terminar sua educação”, insistiu a especialista.
Izsák pediu ao governo brasileiro para acelerar o processo de demarcação de terras e titulação das comunidades quilombolas, garantindo que ele seja mantido livre de influência política, em especial à luz de um procedimento atual junto ao Supremo Tribunal contestando a constitucionalidade do relevante decreto para demarcação de terras.
“As escolas em áreas de Quilombo também devem ser acessíveis e fornecer educação de qualidade”, afirmou a especialista. “Todos os projetos de desenvolvimento que ocorrem em terras quilombolas devem obter um consentimento prévio, livre e informado das comunidades afetadas.”
A relatora especial chamou a atenção e conversou com as comunidades de ciganos, afirmando que elas parecem ser altamente invisíveis no Brasil, apesar de seu número estimado ser de 800 mil. “Eles ainda são em grande parte estereotipados e caracterizados erroneamente como ladrões, mendigos e cartomantes”, observou.
“Parabenizo várias iniciativas do novo governo projetadas para saber mais sobre a situação e responder à sua posição vulnerável na sociedade, incluindo o mapeamento dessas comunidades, a sensibilização e a disponibilização de benefícios sociais, como o atual projeto de lei pendente no Senado de criação de uma política dedicada a eles”, disse.
A especialista de direitos humanos felicitou o Brasil pelas relações harmoniosas inter-religiosas, que predominam amplamente em todo o país, mas advertiu que muitos templos tradicionais afro-brasileiros têm sofrido sérios ataques, ameaças ou violência, inclusive o assassinato de seus líderes.
“Deve ser entendido que o Candomblé e a Umbanda não são apenas manifestações culturais. Não são folclore ou teatro. Estas são religiões que devem usufruir da mesma proteção que todas as outras”, enfatizou. “A identidade de religiões de matrizes africanas, como os títulos religiosos, a vestimenta tradicional e a comemoração de feriados religiosos deve ser protegida. Autores de violência devem ser responsabilizados.”
Durante sua missão de 11 dias, Izsák visitou Brasília e várias cidades nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, onde se encontrou com autoridades do governo e representantes da ONU, vários grupos minoritários, e uma ampla gama de atores da sociedade civil e organizações de direitos humanos e atores não estatais, incluindo aqueles que trabalham no campo com questões de minorias, inclusão social e na promoção de igualdade e não discriminação.
A relatora especial apresentará um relatório contendo suas conclusões e recomendações ao governo brasileiro e ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em março de 2016.
Sobre a relatora especial 
Rita Izsák (Hungria) foi nomeada Especialista Independente sobre as Questões das Minorias pelo Conselho de Direitos Humanos em junho de 2011 e, posteriormente, seu mandato foi renovado como Relatora Especial sobre as Questões das Minorias, em março de 2014. Ela é encarregada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU de promover a implementação da Declaração sobre os Direitos das Pessoas Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas, entre outras responsabilidades. Para mais informações, consulte:http://www.ohchr.org/EN/Issues/IPeoples/SRIndigenousPeoples/Pages/SRIPeoplesIndex.aspx
Os relatores especiais fazem parte do que se conhece como procedimentos especiais do Conselho de Direitos Humanos. Procedimentos Especiais, o maior corpo de especialistas independentes no sistema de direitos humanos das Nações Unidas, é o nome atribuído aos mecanismos de inquérito e monitoramento independentes do Conselho, que trabalha sobre situações específicas de cada país ou questões temáticas em todas as partes do mundo. Os especialistas dos Procedimentos Especiais trabalham a título voluntário; eles não são funcionários da ONU e não recebem um salário pelo seu trabalho. São independentes de qualquer governo ou organização e prestam serviços em caráter individual.
Consulte a Declaração da ONU sobre os Direitos das Pessoas Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas:http://www.ohchr.org/EN/ProfessionalInterest/Pages/Minorities.aspx

domingo, 6 de setembro de 2015

Vem ai!



Com o tema, as várias formas de mudar a política pública de segurança da Bahia, organizações sociais negras de Lauro de Freitas se articulam para realizar a Conferencia Livre de Juventude, que apontará, a partir dos debates e relatos de experiências vividas pelos participantes, ações, programas e políticas que contenham o avanço da violência letal contra a juventude negra no estado.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Crack - Tudo o que sabíamos sobre ele estava errado

"Por que eu estou aqui de jaleco branco, enquanto esse sujeito está fumando crack?"

Foi essa a pergunta que surgiu na cabeça do neurocientista Carl Hart, em 1998, enquanto ele tomava notas de suas observações para a pesquisa sobre efeitos do crack que estava realizando no Hospital da Universidade Columbia, em Nova York.

Hart era um cientista respeitável de Columbia, com três pós-doutorados, o primeiro negro a ser contratado como professor titular na área de ciências desta que é uma das melhores e mais tradicionais universidades americanas. O homem à sua frente era negro também, também na quarta década de vida, embora sua expressão indicasse muito mais idade. Era um vendedor ambulante, que tinha o hábito frequente de fumar crack nas ruas de Nova York, e que tinha concordado em participar da pesquisa em troca de droga grátis e algum dinheiro.

Os dois não poderiam estar em situação mais diferente. Mas Hart sabia bem que, por pouco, ele próprio tinha escapado do destino do outro. É essa a história que ele conta no livro Um Preço Muito Alto, que demole vários mitos sobre o crack.

Como ele escapou

Nos anos 80, quando estava no ensino médio, num bairro pobre de Miami, o pai alcoólatra, a mãe desequilibrada, cada um numa casa, a vida sem perspectivas, Hart traficava maconha. Ele circulava com um fuzil no porta-malas, ameaçava brancos que se aventurassem pelo bairro, roubava baterias de lojas de autopeças e televisores da casa dos vizinhos.

Por sorte (e por ser jogador de basquete e futebol americano e, portanto, correr bem), nunca foi pego. Se fosse, a ficha suja acabaria com suas chances de sucesso. A maioria das pessoas à sua volta - amigos e família - saiu-se pior. Uns se afundaram no crack, outros mofaram na cadeia. Um morreu com um buraco de bala numa execução na rua.

Hart usou drogas e tomou todas as decisões erradas possíveis. Mas encontrou um caminho para uma vida produtiva, de pagador de impostos e educador da juventude. "Foi sorte", admite. Mas não só sorte. Hart se salvou agarrando-se a oportunidades que apareceram. Primeiro: ele tinha jeito com matemática - e descobriu ainda adolescente o prazer de ser bom em algo.

Segundo: teve na família algumas referências sólidas de valores. Uma avó ensinou-lhe a ética do trabalho duro, outra transmitiu-lhe a importância de obter uma educação. Graças a isso, quando terminou o ensino médio e se deu conta de que o sonho de ser atleta profissional não passava de ilusão, ele teve forças para entrar na Força Aérea. No quartel, pôde começar uma faculdade, viajar o mundo e conhecer algumas referências de negros de sucesso, algo que não existia em seu bairro.

Terceiro: ele teve chances. Havia vagas em universidades de primeiro time para gente talentosa que viesse de uma vida miserável. Hart foi estudar na prestigiosa (e caríssima) Yale, com bolsa. Encontrou mentores que o guiaram e descobriu que, além do talento matemático, ele tinha capacidade de observação e habilidade para fazer cirurgia cerebral em ratos de laboratório. E aí uma carreira acadêmica se abriu para ele.

Ele decidiu tornar-se especialista nos efeitos do crack, para entender como a droga tinha destruído sua comunidade. E virou um neurocientista improvável, com seus dreadlocks e os três dentes de ouro, lembranças dos tempos de pobreza.

Enquanto Hart avançava na carreira, um incômodo crescia. Ao mesmo tempo em que se aprofundava nos dados científicos, ele acompanhava o debate público sobre a droga. Todo mundo dizia que o crack transformava pessoas em zumbis. Que era uma epidemia se alastrando. Que viciava logo na primeira vez que alguém experimentasse. Que matava em poucos anos e que transformava gente comum em criminosos.

O problema é que nenhuma dessas certezas tão repetidas estava de acordo com o que ele observava no laboratório.

"Procuram-se crackeiros"

"Procuram-se usuários de crack que não estejam dispostos a parar de fumar." Era esse o texto do anúncio que Hart publicou num jornal gratuito de Nova York, em setembro de 1998.

Sua ideia era ousada: dar crack a pessoas que já eram usuárias e pretendiam continuar (não seria ético fornecer droga a um não-usuário ou a alguém que estivesse tentando parar). Dessa forma, ele poderia observar os efeitos de maneira científica, controlada, objetiva. Não foi fácil aprovar o estudo, dadas as complicações éticas e a dificuldade de financiamento para um projeto tão polêmico. Mas Hart conseguiu porque já tinha uma reputação na área e o apoio de uma universidade respeitada.

Foi assim que começou seu projeto de registrar cientificamente os efeitos do crack, em vez de acreditar no que se dizia na TV. Por meses, ele deu doses de crack ou placebo (para comparação) a vários sujeitos. Eles então eram convidados a escolher entre mais crack ou outra coisa (dinheiro, por exemplo). Hart percebeu que os usuários são sim capazes de tomar decisões. Se a alternativa era boa, eles abriam mão do crack.

"Como qualquer um de nós, dependentes não são sensíveis a só um tipo de prazer", escreveu. O vício realmente "estreita o foco" - um "crackeiro" tem mais dificuldade de achar graça em outras coisas, assim como um faminto prioriza comida. "Mas o vício grave não transforma a pessoa num ser incapaz de reagir a outro tipo de incentivo", diz. Mesmo na fissura, um dependente é capaz de tomar decisões racionais, quando a alternativa compensa. Ele não se transforma num zumbi criminoso.

Essa descoberta está de acordo com pesquisas feitas com ratos pelo canadense Bruce Alexander. Ratos mantidos sozinhos em gaiolas apertadas, quando recebem crack, drogam-se tanto que às vezes se esquecem de comer e morrem. Mas, se a gaiola tiver diversão, interação social e um cantinho para ficar a sós com as ratinhas, eles acabam escolhendo os prazeres alternativos e deixam a droga de lado.

O problema é que, em muitos lugares, como no bairro onde Hart cresceu, não há muitas alternativas que compensem. Dependentes de crack não são irracionais: são pessoas que não enxergam saída na vida e que optam por fugir do estado consciente, ainda que isso lhes faça muito mal e possa matá-los. O próprio Hart escapou das drogas não porque ficou longe delas, mas porque encontrou outros interesses, que o motivaram a trabalhar duro.

"Crack não vicia muito"

Em maio último, Hart veio ao Brasil para lançar o livro. Uma noite ele participou de um debate com o médico Drauzio Varella, numa livraria de São Paulo. Drauzio, que passou décadas trabalhando em cadeias, deu um depoimento que chocou o público: "uma coisa que eu percebi olhando os presos é que o crack na realidade não vicia muito".

Mas como? Não se diz que o crack vicia automaticamente, logo na primeira vez? Pois, segundo os dados, isso é outro mito: simplesmente não é verdade. "Oitenta por cento dos que experimentam não se viciam", diz Hart. "Largar o cigarro é mais difícil que largar o crack", concordou Drauzio.

Mas, para conseguir largar, é preciso ter o que Hart chama de "reforço alternativo" - uma outra opção, que seja atraente o suficiente. Por exemplo: família, uma carreira interessante, uma paixão, algo que motive a largar a fumaça inebriante.

Para as pessoas que estão na rua, sem perspectiva, não há reforço alternativo. Ficar sem crack, para eles, é pior, porque obriga-os a conviver de cara limpa com a sujeira, a desesperança, a violência. Por isso que, embora crack seja usado por gente de todas as classes e etnias, os brancos e os de classe média geralmente não se viciam, porque têm algo a mais a esperar da vida. Quase sempre quem se dá mal são os mais pobres, os que vêm de famílias desestruturadas e os membros de minorias raciais.

Hart sabe disso não só pelas suas pesquisas, mas por sua história. "É impossível crescer num mundo que despreza pessoas que têm a sua aparência e não sucumbir secretamente à insegurança", escreveu. Ele próprio acreditou que, por ser negro num bairro pobre, jamais poderia aspirar muito. Mas, à medida que portas foram se abrindo e ele foi entrando, Hart recebeu "reforços positivos", que foram condicionando-o a continuar tentando. É psicologia básica.

Os dados ajudam a enxergar a desigualdade racial dos danos ligados ao crack. Nos EUA, 52% dos usuários são brancos, enquanto só 15% são negros. Mas, entre os que acabam sendo presos, 79% são negros e só 10% são brancos. No Brasil também, a imensa maioria de quem chega ao fundo do poço é negra ou mestiça. Segundo uma pesquisa recente da Fiocruz, 80% da população das chamadas cracolândias tem pele escura.

"Acho ofensivo vocês brasileiros chamarem as cenas de uso de cracolândia", disse Hart na livraria. "Passa a ideia de que tudo o que acontece lá é por culpa do crack. E não é. O que está acontecendo lá é desespero, é racismo, é pobreza. O crack não cria a pobreza." Na realidade, o uso excessivo é consequência, não causa, das cenas degradantes.

Outra ideia disseminada é a de que há uma "epidemia" de crack. Segundo Hart, trata-se de outro mito. Os números da Fiocruz mostram que há 370 mil usuários de crack nas capitais do País. Se extrapolarmos esse número para todas as cidades do Brasil, chegaríamos a 700 mil usuários - número provavelmente exagerado porque o crack ataca mais as cidades grandes. É muito, mas longe de ser uma epidemia - não chega a 0,4% da população. E não está crescendo de maneira explosiva.

Há sim um alastramento do vício em crack entre os mais pobres, desestruturados e desesperados. Mas isso não vira epidemia porque o vício não se alastra para fora desses grupos.

Como vencer?

O Brasil tentou vencer o crack com repressão. A polícia prendia os usuários que viviam na rua, queimava seus barracos improvisados, levava-os algemados a um tratamento compulsório. O resultado foi que as cenas de uso, antes concentradas, se espalharam por toda parte. As pessoas que eram forçadas a se tratar podiam até parar por algum tempo, mas, sem "reforço alternativo", acabavam voltando para a rua. Afinal, sempre haverá um beco escuro para se drogar. E sempre haverá uma pedra de crack para comprar, já que é impossível vigiar toda a imensa fronteira entre a Amazônia brasileira e os países produtores de cocaína - Bolívia, Colômbia e Peru.

Como todo mundo diz que crackeiros são "zumbis", eles próprios acabam muitas vezes acreditando nessa visão, e se julgando incapazes de escapar- aí não têm motivação nem para tentar. Assim, as cracolândias vão ficando maiores e mais comuns. Foi o que aconteceu nos últimos 15 anos no Brasil.

Ultimamente, algumas cidades começam a se dar conta disso, inspiradas por experiências de outros países. Em São Paulo, 2014 começou com uma nova estratégia na região da Luz, a primeira cracolândia brasileira. A ideia central do programa Braços Abertos é tratar as pessoas vivendo na rua como gente. A prefeitura disponibilizou chuveiros, passou a oferecer atendimento médico, cedeu quartos em pequenos hotéis da região a 400 dependentes que queriam melhorar de vida, e agora está ajudando-os a regularizar seus documentos.

Vários dos ex-moradores da rua passaram a trabalhar na varrição das vias, com remuneração. O resultado é um ambiente um pouco menos degradante. Cento e vinte dos usuários já têm carteira de trabalho. Quarenta deles estão prestes a conquistar um emprego, fora dali. Reforço positivo.

Numa segunda de manhã, vou passear pela região. Entro em alguns dos hotéis: simples, mas dignos. Ando pelas ruas e vejo, aqui e ali, alguma beleza. Converso com as pessoas. Há muitos problemas ainda - desconfiança mútua entre usuários e governo, rivalidade entre a prefeitura (do PT) e o Estado (do PSDB), dúvidas quanto à qualificação de quem trabalha no programa. Mas o número de usuários na rua diminuiu, a sensação de segurança aumentou. Há alguma esperança no ar.

Mundo real

Quando chegou ao Brasil, Hart avisou que não veio para cá apenas para conversar com médicos. Queria ver o mundo real. Foi visitar uma das cenas de uso de crack mais terríveis do Brasil: a cracolândia da favela de Manguinhos, no Rio, um canto que a própria favela segrega.

No última dia dele em São Paulo, ofereço uma carona até o aeroporto. Foi o único horário que consegui em sua agenda, em meio a reuniões, debates em livrarias e visitas a cracolândias. Pergunto se ele se chocou com o que viu. Ele não parecia surpreso. "É a mesma cena de pobreza no mundo todo", diz.

Pergunto se ele não tem medo de que a exposição de sua vida pessoal prejudique a carreira que ele construiu com tanto esforço. "Eu costumava ter esse medo, sim", ele responde. "Mas já tenho 47 anos e é minha obrigação contar o que eu sei. Se eu não fizesse isso, minha consciência não me deixaria olhar no espelho." Ele acha que boa parte de seus colegas é omissa. "A ciência já compreende há 20 anos a farmacologia do crack, mas as pessoas que sabem permanecem em silêncio." Hart chama a ciência de "clube de elite", sem muito interesse pelos problemas dos negros e dos mais pobres. "Além disso, muitos cientistas se beneficiam dessa perspectiva errada, porque o governo gasta uma fortuna combatendo as drogas e esse dinheiro acaba financiando suas pesquisas."

Assim, gasta-se muito, não resolve-se nada. Afinal, não é o exército, nem o governo, nem a polícia que vão vencer o crack. É cada usuário, cada dependente, tendo como arma apenas a vontade que encontrar dentro de si. Só o que o resto da sociedade pode fazer é oferecer incentivos que sirvam de reforço, e informação confiável que aumente sua capacidade racional de decidir melhor.

Mito número 1 - Há uma epidemia de crack, que transforma uma multidão de pessoas em zumbis sem vontade própria.

A verdade - Não é uma epidemia, já que ela não se alastra. E usuários não são zumbis - se têm oportunidades, são capazes de largar a droga.

Mito número 2 - O crack transforma as pessoas em criminosas, incapazes de refletir sobre a consequência de seus atos.

A verdade - O vício aumenta sim a taxa de roubos, mas metade dos dependentes tem emprego fixo e não comete crimes.

Mito número 3 - Crackeiros tornam-se incapazes de encontrar prazer fora do crack. Escravos da droga, não têm motivação para mais nada.
A verdade - Pesquisas mostram que dependentes de crack são capazes de responder a outros estímulos, se houver uma alternativa atraente.

Imagem: Creativecommons/ Marcos Gomes- na cracolândia

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Filme “Elas Falam” apresenta a experiência de professoras negras


O documentário traz à tona a corporalidade das professoras, ou seja, a forma de pensar, de agir e dá voz às suas memórias
O filme-documentário “Elas Falam” mostra a experiência de professoras negras do Distrito Federal e traz à tona a identidade, a forma de pensar, de agir e dá voz à memória delas.
Entrevista pelo Revista Brasília desta quarta-feira (2), produtora do filme e diretora de Ações Afirmativas e Assuntos Intersetoriais da Secretaria Adjunta de Políticas para Mulheres, Renata Parreira, diz que o filme conta várias histórias reais de professoras renomadas e reconhecidas pela sua trajetória na educação e com trabalhos intensos pela implementação do ensino da história da cultura africana e afro-brasileira nas escolas.
Segundo Renata Parreira, as narrativas são fundamentais, porque forjaram enquanto identidade negra mas vêm reconstruindo e resignificando essa identidade, mas sobretudo inspirando novas professoras. Tem também o aspecto fundamental dos valores civilizatórios africanos, que é questão da ancestralidade, porque os passos da negritude vieram de longe, completa a produtora.
De acordo com a professora, o tecido social do Brasil foi constituído na ação do colonialismo e do racismo e esse é o legado que se tem: o colonialismo e o racismo muito fortes. Embora este problema já venha sendo tratado nas escolas, ainda há muito o que avançar, afirma.
O filme “Elas Falam” foi lançado nesta quarta-feira (2), às 19h, no miniauditório do Museu da República.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Por um feminismo que vá além das mulheres


Ele pode ter como programa desconstruir a categoria “mulher” e ampliar sua mirada para toda forma de subalternidade, invisível e silenciada
Por Carla Rodrigues – Outras Palavras
A obra do filósofo Jacques Derrida interessou à teoria feminista por muitas razões, uma delas foi a ligação que ele fez entre dois termos: falocentrismo, centramento no masculino, e logocentrismo, o centramento no logos, na razão, no sentido, forjando assim o neologismo falo-logocentrismo para indicar que todo discurso de poder é um discurso falogocêntrico do homem, branco, europeu, heterossexual, carnívoro, e senhor de sua própria razão, que tem o poder de dizer o que é o mundo. Ficam de fora mulheres, negros, crianças, animais, orientais, e todos aqueles que são subalternizados na categoria de “outro”. Essa é uma das explicações para que as mulheres, sendo metade da humanidade, ou os negros, sendo mais da metade da população brasileira, sejam tratadas como “minorias”.
Em maio de 1968, na abertura de um colóquio na França, Derrida começou dizendo que “todo e qualquer colóquio filosófico tem necessariamente uma significação política”. A mim parece que no Brasil de 2015, todo e qualquer encontro em torno do tema do feminismo carrega uma significação política que vai além das pautas específicas das reivindicações das mulheres, como direito ao aborto ou salários iguais. A mim parece necessário, e eu diria mesmo urgente, que todo e qualquer seminário como esse, cuja pauta gira em torno do feminismo, tenha necessariamente uma significação e um desdobramento político.
O que me trouxe até aqui foi um diálogo feminista com a filósofa Marcia Tiburi. Nossa conversa começou em torno do verbo partir, que carrega uma impressionante polissemia na língua portuguesa. A partir dele, posso falar em início, ou naquele que partiu, porque foi embora ou porque dividiu algo, e também naquilo que se quebra ou se desfaz em múltiplos pedaços. Aquilo que está partido está também fragmentado. No entanto, o dicionário ensina que o termo partido equivale ainda a: “organização social espontânea que se fundamenta numa concepção política ou em interesses políticos e sociais comuns e que se propõe alcançar o poder, associação de pessoas em torno dos mesmos ideais, interesses, objetivos”.
Escolhemos candidatos de determinados partidos – palavra que está longe de poder designar união, estabilidade, comunidade, por tudo que nela contém de quebra, divisão, ruptura, estilhaçamento – como se os partidos nos garantissem unidade em um programa de governo ou em um projeto de país. Votar com essa expectativa é continuar votando a partir de uma formulação anacrônica de democracia.
Há no Brasil de hoje uma democracia de fato, mas de baixo teor democrático, que mantém a ideia de que povo é aquele que vota no representante de um partido cuja capacidade de governar em nome dos que o elegeram deve se manter inquestionável, em nome da sobrevivência da democracia. A democracia representativa, no entanto, depende de uma forma de representação que está em crise, cuja história gira em torno da impossibilidade de representação de um objeto ao sujeito, do mundo a um eu, de uma realidade a um conceito; crise que tem nos obrigado a pensar novas formas de fazer política e de pensar o mundo. Não apenas pela necessidade de crítica à forma partido, como a um dos objetivos inerentes ao seu formato unificado: tomar o poder e, uma vez ali, reproduzir os mesmos mecanismos de exclusão que se pretendia combater.
O filósofo Jacques Rancière faz uma crítica importante quando diz que toda democracia representativa é hoje uma forma disfarçada de oligarquia, que se mantém no poder em nome da defesa dos seus próprios interesses. Nesse sentido, a filosofia de Derrida e a sua formulação de democracia porvir me ajuda a pensar sobre a forma partido, recusada por ele em prol de tomadas de posições políticas sobre inúmeros temas contemporâneos. Quem diz posições, diz contingência, evoca palavras como acidental, fortuito, aleatório, imprevisível, indeterminado. São formas que não cabem em partidos políticos cujas premissas devem estar previamente estabelecidas em plataformas fechadas. A forma partida nos mostra partidos incapazes de nos representar, é porque talvez a política feita a partir dos partidos primeiro exija uma totalização a partir da qual a política passa a ser feita por lideranças partidárias, instâncias de representação de um conjunto que foi forjado a fim de criar a liderança. E, como disse um manifestante na Praça Tahrir, no Egito: “Não estamos procurando um líder que nos governe, mas uma consciência”.
Propostas de democracia direta, movimentos políticos, formação de conselhos populares, reconhecimento de um parlamento pautado principalmente pelos seus próprios interesses são só alguns dos sinais – não exclusivos da política brasileira – de que partir, quebrar, fragmentar, fraturar caminham ao lado de designações como dar início, começar, lançar-se, pôr-se a caminho de um certo destino ainda desconhecido.
Venho pensando na crise da representação ao longo de toda a minha trajetória filosófica, movida por uma mesma questão: como transformar a democracia formal em democracia de fato? Resumo o debate a este ponto para retomar um argumento feminista clássico. Nunca houve um regime que pudesse se autodenominar democracia antes que as mulheres tivessem direito ao voto. É uma reivindicação lógica: se as mulheres são metade da humanidade, nenhum regime representativo consegue fazer justiça a essa denominação se as mulheres não tiverem participado da escolha. Se retomar o argumento de Rancière, posso dizer que as oligarquias são sempre masculinas.
Historicamente, mulheres foram subrepresentadas na estrutura democrática, uma espécie de deficiência originária na história da democracia desde a Grécia antiga. Criar um partido feminista, portanto, poderia ser uma estratégia política decisiva para suprir esse diferença. A conquista pelas mulheres do direito ao voto é resultado de inúmeras lutas. De batalha em batalha, desempenhamos importante papel no processo de aprimoramento do sistema representativo. Somos hoje muito poderosas, mas somos minoria na esfera política, o que importa muito se tomarmos aqui uma diferença entre poder como capacidade de realizar e política como capacidade de decidir o que realizar.
Estas questões estão em debate na proposta da partidA, numa referência explícita ao gênero feminino – A – e num deslocamento da letra maiúscula para o final, porque se A indica força, que esta força esteja no gênero feminino que a palavra assim grafada apresenta. A partidA carrega a ideia de iniciar, mover, movimentar, daí a gíria que Marcia Tiburi recupera: #partiu e que por isso faz parte do meu título. partidA me parece indicar duas transformações necessárias na forma de fazer política representativa, capazes de responder a pelo menos duas críticas. A primeira crítica: um dos problemas dos partidos representativos tem a ver com a exigência de uma univocidade interna, de uma coerência que estabilize diferenças, e portanto acabe, contraditoriamente, impondo uma forma única para aquilo que só tem potência política se for disforme, plural, equivocado. A segunda crítica: um partido político corre o risco de manter-se no poder não em função daqueles que o elegeram, mas apenas em função de seus próprios interesses de se manter no poder, o que se pode ver à esquerda ou à direita.
As diversas ondas do feminismo são marcadas por fatos históricos, mas não acho que seja necessário aqui relembrá-los. Gostaria de pensar para além, pensar se somos capazes de imaginar qual seria o fato histórico com o qual as feministas do futuro irão identificar isso que estamos tentando fazer hoje.
Para pensar sobre isso, gostaria de retomar um dos debates propostos pela filósofa Judith Butler, que há 25 anos questionou a possibilidade de não mais fazer das mulheres o motor da política feminista. Se a partir dali parecia que ela anunciara o fim do feminismo, de fato suas provocações estavam apontando um paradoxo importante: de nada adiantava primeiro exigir das mulheres uma configuração estabilizada em uma identidade para depois pretender libertá-las. Era preciso, argumentava Butler, interrogar as próprias exigências de identidade. Tratava-se de poder pensar um feminismo que não seja feito em função de representar o “sujeito mulher”, o que exige uma identidade prévia do referente mulher a ser representado e, contraditoriamente, obriga a um fechamento no lugar onde se quer reivindicar abertura.
Somos muito diferentes entre nós para sermos reduzidas à categoria mulher. E ao mesmo tempo estamos, nessa categoria, reduzidas ao lugar de subalternidade. É um problema político estabelecer os termos contra os quais se vai lutar contra a hierarquia de gênero, que é também uma hierarquia de raça e de classe. Por isso, com Butler talvez se possa pensar em fazer política em direção a um referente vazio de conteúdo, capaz de representar não um grupo previamente restrito a certas características identitárias, mas a todas as singularidades (o que, a rigor, redunda numa outra forma de universalidade, não mais totalizante ou unificadora).
Butler estava nos provocando a pensar sobre como fazer um feminismo que não tivesse apenas as mulheres como sujeito da emancipação, ao mesmo tempo desconstruindo a categoria mulher e ampliando a política feminista para toda forma de subalternidade e propondo pensar que fazer política é tomar como político os próprios termos em que se estabelece o que é objeto da política.
O que estou tentando pensar, a partir da leitura que faço da Butler, é se a luta contra a subalternidade pode ser o objeto de uma política feminista hoje, uma bandeira que conseguiria reunir mulheres diante da constatação de que a subalternidade é feminina. Num texto clássico dos estudos subalternos, a feminista indiana Gaiatri Spikav pergunta: “pode o subalterno falar?” Sua resposta – não – é um performativo, porque dizer não já é dizer algo. É sobre essa subalternidade, alega Spivak, que nenhuma estrutura de representação pode dar conta (muito menos a representação partidária). No contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história, não pode falar, e é irremediavelmente heterogêneo. Nesse contexto, o sujeito subalterno feminino é ainda mais profundamente ignorado, invisível, silenciado. No contexto brasileiro, o sujeito subalterno feminino negro, a mulher negra, é ainda mais profundamente ignorada, invisível, silenciada e explorada. É um gesto político fundamental reconhecer que a subalternidade da mulher negra e pobre é diferente da subalternidade da mulher branca, e talvez em torno da subalternidade como denominador comum se possa encontrar aquilo que Butler chama de “fundamentos contingentes” para arregimentar partidas feministas em torno e contra a subalternidade feminina.
Quero dizer arregimentar para não dizer representar, por que entendo que a crise da representação é a nossa maior e mais importante crise política, e é com ela e a partir dela que podemos trazer algo de novo. Não se trata mais de feministas intelectuais representando ativistas, de mulheres brancas falando em nome de mulheres negras, de mulheres urbanas representando mulheres rurais, de mulheres burguesas falando por mulheres proletárias. Trata-se de, tomando o contundente não, o subalterno não pode falar, de Spivak, mesmo assim ter voz. Não uma voz única em nome da mulher, mas milhares de vozes ensurdecedoras e insurgentes. Vozes que emergem da subalternidade para denunciar a subalternidade.
Para falar da subalternidade feminina, vou tomar um exemplo da revolta dos curdos que aprendi lendo a dissertação de mestrado de Fabian Cantieri, orientada pela professora Carla Francalanci. Os curdos são um grupo étnico em torno de 30 milhões de pessoas que, após a Primeira Guerra Mundial, perderam suas demarcações territoriais e se separaram em quatro países: Turquia, Síria, Irã e Iraque. Em cada um destes Estados, sob diferentes condições, os curdos enfrentaram opressão. Nos anos 70, enquanto os olhos do ocidente se voltavam para as revoltas em Paris, havia no oriente um efervescente movimento marxista leninista e maoista radical, e das universidades e prisões surge o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Öcalan era o mais importante representante deste partido e pretendia conquistar a independência curda através da revolução. Para isso, manteve uma guerrilha intensa contra o estado turco ao longo dos anos 80 e 90. Conforme a guerrilha cresceu, o papel da mulher, que sempre havia sido um modelo de determinação, independência e igualdade diante das armas, começou a ser contestado, quando muitos homens da zona rural aderiram ao movimento, recusando-se a reconhecer as guerrilheiras mulheres como iguais. Nos anos 1990, enquanto o partido sofria imensas crises devido aos intensos ataques turcos, um movimento autônomo feminista começava a contestar seu papel subalterno na hierarquia patriarcal do partido – lutar contra a opressão deveria começar internamente. Öcalan foi preso em 1999 e depois disso, com a força exercida pelo movimento autônomo feminino, ele reformulou suas ideias sobre o papel das mulheres. Eu gostaria de citar aqui um trecho da sua mea-culpa, porque me parece adequada a muitas das situações políticas que enfrentamos hoje:
“O monopólio do homem vem sendo mantido sobre a vida e o mundo da mulher por toda a história, não é como o monopólio em cadeia do capital sobre a sociedade. Mais importante, é o mais velho e poderoso monopólio. Nós poderemos tirar conclusões mais realistas se avaliarmos a existência da mulher como o mais velho fenômeno colonial. Pode ser mais preciso chamar a mulher de o mais velho povo colonizado que jamais virou uma nação. A família, nesse contexto social, desenvolveu-se como o pequeno Estado do homem. A família como instituição tem sido continuamente aperfeiçoada por toda a história da civilização, somente por causa do reforço que fornece ao poder e ao aparato estatal.”
A partir daí, houve uma mudança drástica no movimento, que teve como consequência a Revolução Rojava, primeiro e mais promissor embrião da primavera árabe. O que o exemplo dos curdos pode nos fazer pensar? E como esse exemplo se articula com a crise da representação e a formação de partidos políticos?
Em primeiro lugar, me parece que posso retornar a Butler para pensar com ela sobre as estruturas que criamos para nos libertar – a guerrilha, um partido político, um movimento feminista – e que pode reproduzir internamente os mesmos mecanismos de dominação dos quais gostaríamos de nos emancipar. Em parte, o que aconteceu com as mulheres curdas é o que acontece com todas nós, mulheres, o tempo todo: somos relegadas a um lugar de subalternidade diante dos homens. Neste ponto, eu gostaria de citar uma feminista francesa, a Monique Wittig, cujo radicalismo nos anos 1970 ainda é atual: “Como não existem escravos sem amos, não existem mulheres sem homens. […] É a opressão que cria o sexo, e não o contrário”.
O problema é que nós, mulheres, também podemos incorrer no equívoco político de produzir novas subalternidades em relação a nós. Hierarquias entre intelectuais e ativistas, entre brancas e negras, entre hetero e homossexuais, cis e trans, por exemplo, são facilmente percebidas no interior do movimento de mulheres.
Ao mesmo tempo, pensar a subalternidade como fundamento contingente pode ser tentar colocar em prática novas formas de fazer política, nas quais não se precise ou procure um denominador comum unificador, mas se encontre pontos de contato em tornos dos quais alianças podem frutificar. Pontos de contato que não exijam configurações únicas, mas partidas. Talvez essas possam vir a ser as nossas heranças, talvez não. É nesse talvez que está a nossa possibilidade de provocar alguma mudança, pensando sobre as estruturas falogocêntricas de poder e buscando formas políticas de parti-las.
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Texto apresentado no seminário Feminismo hoje: urgência e atualidade, realizado pelo Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP de 18 a 20 de agosto.

Semana da Diversidade Sexual da Maré 2015


A Semana da Diversidade Sexual na Maré chega a sua 4ª edição se consolidando como um espaço aberto de reflexão e proposição voltado para a garantia de direitos da população LGBT de favelas. Durante os dias 03, 04, 05 e 06 de setembro a Maré receberá uma programação que vai de seminário, exposição de fotografias e curtas sobre a luta LGBT, à Feira de Saúde, encerrando o domingo com a tradicional Parada LGBT, a partir das 17h na Rubens Vaz.
Este ano, além da programação, o Grupo Conexão G – realizador da Semana da Diversidade Sexual da Maré – fará uma homenagem as pessoas que apoiam a luta pelos direitos LGBT nas favelas. Para isso, foi criado o Prêmio Direitos Humanos, Cultura e Cidadania LGBT Atila Ramalho, que faz referência a um dos fundadores do Conexão G.
O objetivo da Semana da Diversidade Sexual da Maré é mobilizar, dialogar, articular e levar a comunidade a refletir sobre as diversas formas de preconceito e a incidência da AIDS na população. O evento é realizado pelo Grupo Conexão G, com patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura através do prêmio de Ações Locais, em parceria com o Observatório de Favelas, CAP 3.1, Luta Pela Paz, Redes de Desenvolvimento da Maré e FASE, IBASE e o Instituto Promundo.
Sobre o Conexão G
O Grupo Conexão G é uma organização da sociedade civil, fundada em março de 2006, porém originada de um grupo de jovens que resolveram realizar ações de reflexões sobre a homossexualidade em favelas. A trajetória desse coletivo é caracterizada por um interesse comum dos jovens de trabalhar com a minimização dos preconceitos vivida por este segmento, de forma integrada e abrangente, com o foco nos Direitos Humanos e na Promoção da Saúde da população LGBT moradoras de favelas, relativas à cidade do Rio de Janeiro.
Programação da Semana da Diversidade Sexual da Maré
03/09/2015 I Quinta-feira I
18:30 – Favela, LGBT, o que tenho a ver com isso?
Local: Observatório de Favelas – Rua Teixeira Ribeiro, 535 – Rio de Janeiro
Expositores:
Danielle Lopes – Promundo
Gilmara Cunha – Grupo Conexão G
Raquel Willadino – Diretora do Observatório de Favelas
04/09/2015 I Sexta-feira I
18h30 – Prêmio Direitos Humanos, Cultura e Cidadania LGBT Atila Ramalho
Local: Centro de Artes da Maré – CAM – Rua Bittencourt Sampaio, 181. Próximo à passarela 10 da Avenida Brasil.
Lançamento do Site do Grupo Conexão G
Lançamento da Cartilha LGBT de Favelas
05/09/2015 I Sábado I
16h – Atividade na Rua!
Local: Em frente ao Conexão G
Exposição de curtas LGBT, das 18h às 22h
Exposição do trabalho fotográfico desenvolvido pelos jovens do projeto “Juventude, Direito à cidade e Justiça Ambiental”
06/09/2015 I Domingo I
7h às 16h – Feira de Saúde Maré Saudável
Local: Rua Teixeira Ribeiro, próximo ao Observatório de Favelas
7h às 8h: Café da manhã (montagem das barracas)
10h: Abertura: Gilmara Cunha – Conexão G
10h15: Representante da Rede de Comunidade Saudável
10h30: Representante do Fórum ONG AIDS
10h45: Apresentação cultural e início dos serviços oferecidos pela Feira
* Serviços de ação social (orientação para a retirada de documentos, regularização do processo de inserção em escolas para a população, encaminhamento de denúncias de violência por orientação sexual, homofobia, entre outros.
12h: Almoço
13h30: UBS Nova Holanda
14h: UBS Helio Smit
14h30: UBS Parque União
15h: UBS Vila do João
15h30 Clinica da Família
16h: Coffee Break de encerramento
17h: Concentração – Carreata da Parada LGBT
Local: Saindo da Rubens Vaz
20h às 2h: Festival de Cultura, Direito e Cidadania LGBT de Favelas
Local: Rua Teixeira Ribeiro, próximo ao Observatório de Favelas

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