terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Se não pode ajudar, deixe o meu cabelo em paz!

Ailton Ferreira, A Tarde


Se um cantor negro deixasse a barba crescer, vestisse um shortinho, amarrasse um lencinho na cabeça e subisse num trio elétrico durante o carnaval de Salvador nos anos 80, certamente seria chamado de ridículo e idiota.
Se esse mesmo cantor, negro de barba e lencinho, arrastasse uma multidão com o seu potente som e deixasse um rastro de pancadaria, murros, socos e ponta-pés e uma multidão sem as suas carteiras e bolsas durante a passagem do seu trio, vixe!
Estaríamos diante de um caso para intervenção no carnaval, pois o tal cantor seria convidado a se retirar do circuito sob a acusação de quebra da ordem pública, crime de desordem e outras tipificações.
Mas aqui em Salvador isso acontece, as pessoas tomam porrada, perdem os seus pertences e no final tudo vira uma brincadeira. As soluções são da logística do carnaval para adequar as estruturas e situações de mobilidade ao furacão musical chamado Bell.
O cantor que provocou rios de lágrimas baianas ao deixar a sua antiga banda, agora resolveu devolver ao povo, que por ele tanto chorou, o seu “agradecimento”, ao provocar a negritude baiana e brasileira, debochando de valores que nos custam tão caros. Resolveu mexer não com as cinturas incautas, mas com a nossa afirmação estética. Resolveu convidar as negras a alisarem os seus cabelos, numa atualização retrógrada e descontextualizada daquela antiga marchinha de carnaval, composta em 1929, que dizia: “O teu cabelo não nega mulata…” Uma pena, quanta ignorância, quanto afastamento do Brasil real, quanta falta de leitura ou quanta perversidade. Parece até que não souberam das Marchas do Empoderamento Crespo que sacudiram o
Brasil, parece que não viram a Marcha das Mulheres Negras em Brasília, no mês passado. Parece mesmo?
Se o cantor Bell soubesse da dor da minha mãe grávida – alisando o cabelo com ferro quente para ir à maternidade parir o meu irmão, pois sabia ela que, com o seus cabelos crespos, o tratamento no hospital não seria dos melhores –, talvez entendesse a delícia de ser como ela é, talvez não brincasse com coisa séria.
Ele, por ser uma voz ouvida, não tem o direito de machucar as pessoas em público, de ferir as mulheres negras naquilo que é o mais profundo na sua afirmação estética, em um país que hierarquizou e estereotipou pessoas pela cor da pele, em especial as mulheres, profundamente agredidas em sua identidade, onde o cabelo tem um lugar muito especial.
Saio da avenida para o Candeal, no bairro de Brotas, onde uma revolução estética musicada, coma participação do cantor e compositor Carlinhos Brown, animou as tardes e noites da comunidade com as presenças de gente da Bahia e de turistas; onde os moradores tinham ocupação e renda, melhoraram as suas casas, vendiam os seus produtos em dias de espetáculos com artistas famosos que, para o gueto, eram atraídos pela genialidade de Carlinhos Brown – Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Zeca Baleeiro, Margareth Menezes, Sandra de Sá e tanta gente boa que deixou de ir ao Candeal. Lá os shows foram proibidos em defesa da ordem pública. Nunca soube de murros, facadas e ponta-pés, muito menos de arrastões, mas soube que o barulho incomodava os moradores do entorno.
Quando um cantor negro incomoda, o racismo sabe como agir. Parece até piada.
Parece?

sábado, 12 de dezembro de 2015

Emicida no Rio de Janeiro: "Ninguém chora Por 5 moleque tipo nóiz"

Ele dedicou o final de seu show no Imperator aos jovens assassinados pela PM carioca quando voltavam da comemoração pelo primeiro salário de um deles
Primeiro, destruíram as vidas em torno de um rio. E diante do pouco que pode se fazer após a tragédia anunciada, veio a solidariedade e a memória: elas foram relembradas em um show na cidade de Belo Horizonte, na terça.

A seguir, mais cinco vidas foram metralhadas pela PM carioca. E para estes “cinco moleque tipo nóiz”, Emicida dedicou os últimos minutos de seu show no Imperator – Centro Cultural João Nogueira, em que interpretou músicas do sambista Cartola.

Em sua fala, destacou a importância de não “selecionar pelo que você chora”, a exemplo da tragédia em Paris, já que ninguém precisa ser vítima de terrorismo, em lugar nenhum. Mas, ressaltou que o que lhe causou indignação, mesmo, foi o assassinato dos cincos jovens em Costa Barros. Eles voltavam de uma comemoração no Parque de Madureira, já que um dos meninos tinha recebido seu primeiro salário. A PM comemorou também, disparando 111 tiros no carro. Trinta deles, acertaram os alvos.

Por eles, Emicida prosseguiu:


5 moleque tipo nóiz
5 moleque tipo nóiz

Que acabaram assim
Que fim, sem voz
Silêncio dos verme
Medalha pro algoz
Quando eles mata
5 moleque tipo nóiz
Não vai ter hashtag
Nem hoje, nem pós
Ninguém chora
Por 5 moleque tipo nóiz
Pra forjar crime que num existe
O jornal é veloz
Triste sina, de 5 moleque tipo nóiz
Pense se fossem brancos
Se fossem playboys
Mas num era
Era 5 moleque tipo nóiz
Então que a mãe de cada um
Chore a sós
É sempre assim quando
É 5 moleque tipo nóiz
Mais luto pra quem sempre luta
Gargantas e nós
Nunca esqueça
Eram 5 moleques tipo nóiz
Je suis porra nenhuma
Somos todos atroz
Quando o corpo é de
5 moleque tipo nóiz
O que mudou
Desde o tempo de nossos avós
Quando acertam
5 moleque tipo nóiz
Mortos como o rio doce
Sangue prum tapajós
Sai do corpo de
5 moleques tipo nóiz
Nessa guerra desigual
Só tem contras, não prós
Sem novidade pra
5 moleques tipo nóiz

O blog O Furor fez o registro em vídeo, e uma análise que compartilhamos em parte aqui:

Nós não vivemos na pele. Nós não sabemos o que é ser um “muleque tipo nós”. E é nisso que o poema do Emicida toca. Ele faz com que nós, que somos incapazes de imaginar o que é ser alvo de preconceito sistemático e institucionalizado por séculos, comecemos quem sabe a ter uma ideia do que isso é; dá voz a um pouco dessa opressão que foi calada durante estes mesmos séculos, que foi relegada aos rodapés dos livros de história, àquele capítulo curto sobre os quilombos, sobre a resistência negra; e, mais que tudo, talvez dê força para que essa resistência continue.


Fonte: https://blogdoemicida.wordpress.com/2015/12/10/emicida-no-rio-de-janeiro-cinco-moleque-tipo-noiz/

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Artistas e escritores divulgam carta contra o impeachment de Dilma


Um grupo de artistas e intelectuais assinou manifesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
O texto, divulgado nessa terça-feira (8) na página do escritor Fernando Morais no Facebook, tem o apoio de 84 personalidades. Entre eles, o cantor e compositor Chico Buarque, as atrizes Camila Pitanga, Bete Mendes, Betty Faria e Letícia Sabatella, e os atores Paulo Betti e José de Abreu.
No manifesto, intitulado Carta ao Brasil, eles defendem que os preceitos democráticos sejam respeitados e alertam para o risco de retrocesso político em caso de destituição da presidente.
“Independente de opiniões políticas, filiação ou preferências, a democracia representativa não admite retrocessos. A institucionalidade e a observância do preceito de que o Presidente da República somente poderá ser destituído do seu cargo mediante o cometimento de crime de responsabilidade é condição para a manutenção desse processo democrático”, afirma o grupo.
“Não admitiremos, nem aceitaremos passivamente qualquer prática que não respeite integralmente este preceito”, acrescenta o texto, que também tem o apoio de jornalistas, cineastas, escritores, advogados e professores universitários, entre outros.
Leia a íntegra do texto:
“Carta ao Brasil
Artistas, intelectuais, pessoas ligadas à cultura que vivemos direta e indiretamente sob um regime de ditadura militar; que sofremos censura, restrições e variadas formas de opressão; que dedicamos nossos esforços de forma obstinada, junto a outros setores da sociedade, para reestabelecer o Estado de Direito, não aceitaremos qualquer retrocesso nas conquistas históricas que obtivemos.
Independente de opiniões políticas, filiação ou preferências, a democracia representativa não admite retrocessos. A institucionalidade e a observância do preceito de que o Presidente da República somente poderá ser destituído do seu cargo mediante o cometimento de crime de responsabilidade é condição para a manutenção desse processo democrático.
Consideramos inadmissível que o país perca as conquistas resultantes da luta de muitos que aí estão, ou já se foram. E não admitiremos, nem aceitaremos passivamente qualquer prática que não respeite integralmente este preceito.
8 de dezembro de 2015
Afonso Borges, produtor cultural
Altamiro Borges, jornalista
André Klotzel, cineasta
André Iki Siqueira, escritor e documentarista
André Vainer, arquiteto
Anibal Massaini, produtor de cinema
Antônio Grassi, ator
Antônio Pitanga, ator
Antonio Prata, escritor
Arrigo Barnabé, compositor
Audálio Dantas, jornalista e escritor
Bete Mendes, atriz
Beto Rodrigues, cineasta
Betty Faria, atriz
Camila Pitanga, atriz
Carolina Benevides, produtora de cinema
César Callegari, sociólogo
Chico Buarque, compositor, cantor, escritor
Claudio Amaral Peixoto, diretor de arte e cenografia
Cláudio Kahns, cineasta
Clélia Bessa, produtora de cinema
Conceição Lemes, jornalista
Dacio Malta, jornalista
Daniela Thomas, cineasta
Dira Paes, atriz
Eduardo Lurnel, produtor cultural
Eliane Caffé, cineasta
Emir Sader, sociólogo
Eric Nepomuceno, escritor
Felipe Nepomuceno, documentarista
Fernando Morais, jornalista e escritor
Francisco (Ícaro Martins), cineasta
Gabriel Priolli,jornalista
Galeno Amorim, jornalista
Giba Assis Brasil, cineasta
Guiomar de Grammont, escritora e professora universitária
Hildegard Angel, jornalista
Ingra Liberato, atriz
Isa Grinspum Ferraz, cineasta
Ivo Herzog, diretor do Instituto Vladimir Herzog
Izaías Almada, escritor
João Paulo Soares, jornalista
José de Abreu, ator
Jose Joffily, cineasta
José Miguel Wisnik, músico
José Paulo Moutinho Filho, advogado
Jose Roberto Torero, escritor
Letícia Sabatella, atriz
Lincoln Secco, professor da USP
Lira Neto, escritor
Lírio Ferreira cineasta
Lucas Figueiredo, jornalista e escritor
Lucy Barreto, produtora de cinema
Luís Fernando Emediato, editor
Luiz Carlos Barreto, produtor de cinema
Marcelo Carvalho Ferraz, arquiteto
Marcelo Santiago, cineasta
Marcos Altberg, cineasta
Marema Valadão, poeta
Maria Rita Kehl, psicanalista
Marília Alvim, cineasta
Marina Maluf, historiadora
Marta Alencar Carvana, produtora
Martha Vianna, ceramista
Maurice Capovila, cineasta
Miguel Faria, cineasta
Murilo Salles, cineasta
Padre Ricardo Rezende, diretor da ONG Humanos Direitos
Paula Barreto, produtora de cinema
Paulo Betti, ator
Paulo Cesar Caju, jornalista
Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro de direitos humanos
Paulo Thiago, cineasta
Pedro Farkas, cineasta
Renato Tapajós, cineasta
Roberto Farias, cineasta
Roberto Gervitz, cineasta
Roberto Lima, dramaturgo e gestor cultural
Roberto Muylaert, jornalista
Romulo Marinho, produtor de cinema
Rosemberg Cariri, cineasta
Sebastião Velasco e Cruz, Cientista Político
Sergio Muniz, cineasta
Solange Farkas, curadora
Tata Amaral, cineasta”
Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/12/artistas-e-escritores-divulgam-carta-contra-o-impeachment-de-dilma.html

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

LUIZ GAMA TERÁ FILME SOBRE LUTA CONTRA ESCRAVIDÃO



'Advogado dos escravos', o baiano Luiz Gama (1830-1822) terá sua história contada em série e filme, com produção esperada para ter início ainda neste ano; jurista e ativo republicano, ele passou a infância como escravo, vendido pelo próprio pai; "Espero que o sucesso de '12 Anos de Escravidão' alavanque o interesse pela história de Gama e tantos ex-escravos brasileiros", diz a escritora Ana Maria Gonçalves, que trabalha no roteiro da série e do filme sobre o personagem

Bahia 247 - A história do abolicionista baiano Luiz Gama (1730-1822) será contada em série e filme, com produção esperada para ter início ainda neste ano, conforme matéria do jornal Folha de São Paulo. Advogado e ativo republicano, Gama passou a infância como escravo, vendido pelo próprio pai.
"Espero que o sucesso de '12 Anos de Escravidão' alavanque o interesse pela história de Gama e tantos ex-escravos brasileiros", diz a escritora Ana Maria Gonçalves, que trabalha no roteiro da série e do filme sobre o personagem.
Deve parar na TV também o livro de Gonçalves 'Um Defeito de Cor', romance que conta história da vida da provável mãe de Luiz Gama, Luiza Mahin. Depois de chamar a atenção do cineasta Fernando Meirelles, o texto pode virar série global, com direção de Luiz Fernando Carvalho, ainda segundo a Folha de São Paulo.
Luiz Gama nasceu na Bahia, filho de africana com pai baiano. Ele foi enviado ao Sul, exposto em leilões pelo próprio pai e acabou em São Paulo, onde serviu o comerciante Antônio Pereira Cardoso por sete anos.
Aos 17, contrariando todas as expectativas, ele aprendeu a ler e escrever com um pensionista de seu senhor, o estudante de direito Antônio Rodrigues do Prado Júnior. Obteve os documentos que provaram que nascera livre e deixou o cativeiro.
Seu relato dos anos como escravo está em uma carta escrita em 1880 ao amigo Lúcio de Mendonça.
"A carta de Gama é um documento único da história do Brasil. Nos EUA, as narrativas de escravos e ex-escravos estão no nascedouro da literatura negra. Aqui, só conhecemos esse documento de um ex-escravo que tenha se tornado figura pública proeminente", diz Lígia Fonseca Ferreira, professora da Unifesp e especialista na obra de Gama.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Está na moda ser preto, desde que você não seja preto

ta na moda ser negro
É bem comum encontrar nas redes sociais algumas pessoas defendendo a ideia de que o racismo não existe (em geral pessoas brancas, mas ainda é possível encontrar algumas pessoas pretas com a síndrome de Holiday) usando argumentos batidos como o da “democracia racial” e de que no Brasil o problema é social e não racial.
Vejo também um esforço muito grande em disfarçar todos esses problemas com uma atitude que não consigo deixar passar batida, algo que faz parte do movimento “ser negro ta na moda”. Neste movimento vemos pessoas brancas se vestido com temas africanos, usando turbante, fazendo parte de diversos movimentos negros e até renegando a cor da sua pele (é, sei que não faz sentido, mas vamos lá).
Quem me conhece sabe que sou totalmente a favor da integração entre povos e culturas. Sabe que vejo com bons olhos jovens pretos e brancos juntos, discutindo o destino do nosso país. O que me incomoda é ser preto apenas quando lhe convém.
Ser preto no samba, no hip hop, no candomblé, ser preto assim é fácil. Gostaria que essas mesmas pessoas fossem “pretas” quando a polícia abordou com violência meu irmão na rua, quando uma pessoa perde uma vaga de emprego por ser preta. Quando um canal de TV exibe um programa com teor racista.
Gostaria que fossem pretos na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza.
Na verdade o que vejo são pessoas se apropriando da nossa cultura, esvaziando seu significado, usufruindo apenas dos benefícios e ignorando as desvantagens.
Por que, quando seu amigo foi humilhado na escola você não disse nada? Por que você não se mostrou indignado quando fizeram aquele comentário racista sobre os haitianos no trabalho? Por que você não rebateu seu familiar quando, num almoço de família, disse que “agora tudo é racismo” e que não podemos dar ouvidos a esse mi mi mi?
Não fez nada porque ser preto está na moda, desde que você não seja preto.
Estudei em uma escola pública, mas que por muitos motivos era composta por muitos alunos brancos, e sei que o silêncio do “amigo” dói tanto quanto a piada racista.
O Brasil precisa de pretos fortes e de brancos desconstruídos e conscientes dos seus privilégios, pois só assim vamos avançar para uma cultura integrada.
Quer desconstruir? Acha o sistema racista odioso? Venha para o nosso lado, mas venha inteiro, não pela metade.
Fonte: https://dentedileao.wordpress.com/2015/08/12/esta-na-moda-ser-preto-desde-que-voce-nao-seja-preto/

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | JCpenney Printable Coupons