terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Carta de Ngúzu


Nós, afrodescendentes, candomblecistas, angoleiros, acadêmicos, militantes dos movimentos negro e demais organizações sociais populares, reunidos entre os dias 1 e 16 do ano de 2016, durante a Menha Kambuka “Águas de Lemba” (ritual dedicado ao nkisi Lemba), verbalizamos por meio desta muzonga (chamamento alto):
Nossa saudação a Lemba, que, ao reger esse novo ano que se inicia, possa através do ciclo de suas águas (re)energizar nosso planeta, nosso povo, nosso terreiro, nossos igbás e as nossas vidas, celebrando um tempo de paz, prosperidade, solidariedade e justiça social.
Destacamos a contribuição descolonizadora que as Comunidades e Povos de Terreiro, comprometidas com os cultos de matriz africana, exercem na sociedade, pois as mesmas possuem um importante protagonismo do povo negro de classes populares, destacando o papel atuante das mulheres e o respeito às identidades sexuais para além do padrão heteronormativo.
Diante desse contexto é que denunciamos o caráter repressor do estado brasileiro, que vem violando sistematicamente ao longo de séculos as expressões afrodescendentes e indígenas, através de uma hegemonia conservadora imposta pela elite do país que têm se utilizado dos meios de comunicação ‘‘massificados” e da representação política institucional para exacerbar todo o seu racismo e violência religiosa. Pois no cenário atual podemos constatar o crescimento exponencial dos casos de ódio e discriminação, materializados na violação dos direitos básicos fundamentais para a efetivação do estado democrático de direito como: liberdade de culto, laicidade do estado e até mesmo o respeito à vida humana.
Ao ressaltar a importância da década internacional dos afrodescendentes (2015 a 2024), a Comunidade Caxuté, convida a tod@s para defendermos as políticas públicas e ações afirmativas, conquistadas com muita luta e organização pelo movimento negr@.
Durante nosso ciclo de atividades, nos empenhamos em pedir ao nosso Tate‘etu (pai)  Lembá que fortaleça nosso mutuê (cabeça) para que, ao cuidar dos Igbás (a simbolização da iniciação e fundamento do Candomblé), possamos compartilhar ngúzo (energia vital) pelo mundo, tendo como alicerce o respeito mútuo e as raízes ancestrais dos nossos Mikisi, Orixás, Voduns, Caboclos e seres das luz.
Que avancemos cada vez mais no entendimento da necessidade de estabelecermos uma existência coletiva, potencializando as conexões entre humanidade e natureza em uma verdadeira simbiose “co-evolutiva”, de maneira que possamos construir nossa ukaielu “maneira de viver” a partir de ações plenas e verdadeiras rumo ao “bem viver” entre tod@s habitantes dos cosmos.
COMUNIDADE TERREIRO CAXUTÉ
16 de Janeiro do ano de 2016, Cajaíba/Valença – BA.

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