quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O que você escolheria: um bom hospital público ou um bom plano de saúde?, por Leonardo Sakamoto

Seria populismo idiota, é claro. Mas, ao mesmo tempo, historicamente pedagógico e até socialmente transformador se os ocupantes de cargos públicos eletivos fossem obrigados, uma vez na vida, a utilizarem um pronto-socorro do Sistema Único de Saúde (SUS) em caso de emergência.
E aproveitando que estou me refestelando em demagogia inútil, incluiria também a permissão a toda mulher pobre a usar o SUS para fazer a interrupção de uma gravidez, independentemente do motivo. Afinal, famílias mais ricas já usam, há anos, clínicas em bairros nobres nas grandes cidades. Sei que as clínicas são ilegais e, portanto, isto é apenas retórica. Mas se a realidade é hipócrita, sonhemos um pouco.
Parte da população vive no século 21 da medicina, enquanto outros ainda engatinham pela Idade Média das esperas em hospitais, dos remédios inacessíveis, da falta de saneamento básico, da inexistência de ações preventivas e, mais recentemente, da incapacidade de governos de entenderem que as mudanças climáticas vão aumentar os focos de doenças tropicais.
Com a escassez hídrica causada pelo vácuo de ações públicas em São Paulo e no Rio, o desespero, principalmente em casas humildes que não têm nem caixa d’água, levou ao armazenamento em baldes e barris e, consequentemente, à proliferação de criadouros de mosquitos. Pois, na periferia, o racionamento pesado já existe há tempos.
Quem consegue jogar xadrez com a Dona Morte e enganá-la por mais tempo somos nós, os mais ricos, que possuem os meios para tanto. Temos um falso pudor em assumir isso publicamente, mas os mais pobres, por mais que tenham força de vontade e queiram continuar vivendo, não necessariamente conseguem a façanha.
Vão apenas tocando como podem, apesar de tudo e de todos, ajudando com seu trabalho e, algumas vezes, como cobaias de novos remédios, os que ganharam na loteria da vida a terem uma existência mais feliz.
Contentam-se em saber, pela TV, que médicos de alguma universidade nos Estados Unidos descobriram que faz bem para a saúde trabalhar até morrer. Pois isso vai acontecer antes com homens-placa e trabalhadoras empregadas domésticas, porque não têm dinheiro para pagar pela própria saúde.
A causa aparente de um problema na fila de um hospital público pode até ser um servidor incompetente, relapso ou que tentou e não conseguiu cumprir o seu dever por falta pontual de estrutura e recursos. Mas a responsabilidade pela falência do sistema é política e não técnica.
Todos concordamos que o Estado deveria garantir condições mínimas de qualidade de vida da população. Daí aparece a divergência, do que seria essas “condições mínimas”.
Pois pedimos mais saúde, mais educação, mais segurança, mais transporte. Mas isso, claro, tem um custo. E o Estado brasileiro, desde a redemocratização, gasta cada vez mais para cobrir a crescente demanda da população.
Demanda que não vai parar de crescer, pois aprendemos o que é cidadania e queremos parte do bolo que, durante a ditadura, nos pediram para esperar porque ia crescer para ser dividido.
E mesmo se um dia conseguirmos reduzir significativamente a vergonhosa sangria da corrupção que envolve, historicamente, todos os níveis administrativos, não haverá “recursos” para fazer as vontades de todo o mundo. O montante que será recuperado no âmbito da Lava Jato e o que deveria ser na operação Zelotes não seriam suficientes, por exemplo, para fazer frente a todas essas demandas.
Há quem defenda que o Estado não deveria ser tão responsável pela saúde. Ou seja, ao invés de sustentar com impostos a manutenção e ampliação do Sistema Único de Saúde, por exemplo, destinaria o dinheiro para o bolso das famílias – que usariam o que foi economizado para comprar um bom plano de saúde.
Outros defendem que o poder público deve atuar redistribuindo riqueza e, através de impostos cobrados de forma mais pesada dos mais ricos do que dos pobres, custear um Estado que cuide do bem estar da parte de sua população que não poderia adquirir esse serviço de outra forma.
O fato é que pedir mínima participação do Estado não casa, necessariamente, com a garantia de serviços públicos de saúde de qualidade e universalizados. Só que muita gente no debate público não faz essa associação.
Há economistas falando em mexer na Previdência Social, aumentando o tempo que uma pessoa tem que ficar trabalhando para evitar que o país quebre. E há os que defendem a ampliação da terceirização e uma reforma que diminua direitos trabalhistas para reduzir custos. Outros defendem uma reforma tributária, aliviando a taxação do consumo e aumentando, de forma progressiva (quem ganha mais, paga mais), os impostos sobre renda do trabalho e, principalmente, do capital. Movimentos sociais defendem taxar grandes heranças e fortunas. Sem contar os que falam da repatriação de bilhões de brasileiros que estão ilegalmente no exterior.
Cada um de nós têm uma posição sobre como o Estado deveria captar e gastar frente aos recursos limitados – posição que precisa ser confrontada, de forma tranquila no espaço público e no Congresso Nacional, para que voltemos a construir um projeto de país. Porque nenhum partido político do governo e da oposição tem um projeto claro para o Brasil (lembrando que entregar de volta aos militares não é projeto, é doença).
O problema é que tem sido bastante difícil travar um debate honesto e racional nesses ambientes. Um debate em que ninguém te xingue ou dê as costas quando não concorde, que não queira “ganhar” no grito, que apresente argumentos e dados comprovados e não obscuros e refutados pela comunidade científica.
Como já perguntei aqui antes: o que você quer do Estado brasileiro – para além da premissa básica de que ele não desvie, via corrupção, dinheiro dos seus cidadãos? Um Estado mínimo ou Estado de bem-estar social?
E o seu representante político no Congresso pensa como você ou você só votou nele porque o anônimo no WhatsApp disse que era adversário do grupo que você não curte?

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