terça-feira, 29 de março de 2016

Nota de Repúdio às agressões sofridas pelo Terreiro Manzo Ngunzo Kaiango

por Carlos Eduardo Marques
Nos últimos tempos, alguns setores tem promovido um massacre religioso contra as Religiões Tradicionais de Matriz Africana, perpetrando uma contínua, incansável, declarada e brutal perseguição aos praticantes dessas religiosidades.
Os principais alvos são o Candomblé e a Umbanda, religiões brasileiras edificadas com base nas tradições milenares de culto aos Orixás, N’kisis e Voduns. Religiões estas que são modos de resistência do povo negro e contribuem de forma significativa para a formação nacional brasileira através de seus saberes, fazeres, viveres que tanto qualificam a vida das pessoas quanto os processos culturais e de identidade dos brasileiros.
 No entanto,  a violência contra os afro-religiosos vai muito além da desvalorização de suas experiências culturais e sagradas. Para as comunidades tradicionais de matriz africana, os danos causados pela intolerância à diversidade cultural e religiosa são incalculáveis, atingindo desde os seus espaços sagrados e seus templos, que são destruídos e fechados, até agressões diretas aos praticantes como o ocorrido na sexta-feira última no Terreiro de Manzo.
Na sexta-feira última dia 25/03/16 , enquanto membros do Terreiro faziam preparativos e rituais para uma festa a ser realizada no sábado ultimo, um vizinho da comunidade, que se apresenta como  policial militar e evangélico atacou um dos membros da comunidade, chegando inclusive a lhe dar voz de prisão, após lhe agredir com xingamentos racistas e de baixo calão em flagrante ato de INTOLERANCIA RELIGIOSA E RACISMO. Não contente se dirigiu a matriarca e líder religiosa da comunidade em termos pejorativos, como “macaca” e ameaçou caso a festa ocorresse colocar “fogo no Terreiro”. Mametu Muiandê, a matriarca e liderança religiosa da Comunidade vilipendiada em termos tão desumanizadores é referência no Candomblé da Nação Angola em Minas Gerais e em todo Brasil, razão pela qual, é atualmente Professora Mestra por notório saber do Curso de Formação Transversal em Saberes Tradicionais da Universidade Federal de Minas Gerais.
Diante de ameaças – ressalte-se que não são as primeiras – a Comunidade e suas lideranças comunicaram o fato a Polícia Civil e ao Ministério Público para que esses tomem as devidas providencias. É NECESSÁRIO REFORÇAR QUE NÃO SE TRATA DE UM DESENTENDIMENTO DE VIZINHANÇA, MAS UM CRIME DE CONOTAÇÃO RACISTA, uma vez que se buscou atacar e atingir a COMUNIDADE e SUAS LIDERANÇAS EM RAZÃO DE SUA FÉ E SUA CRENÇA.
Diante disso, nós que assinamos essa nota, solicitamos:
1) Que seja instaurado um inquérito civil público e criminal para a apuração dos fatos apresentados;
2)  Que sejam ajuizadas ações de cunho civil e criminal, objetivando a aplicação de sanções penais e civis, mas principalmente visando o combate ao RACISMO e a INTOLERÂNCIA RELIGIOSA.
O Povo de Santo, em particular os quilombolas e candomblecistas de Manzo já vitimado por tantos atos de violência – inclusive estatais – é alvo de mais uma manifestação de ódio. Manifestamos assim nosso apoio e solidariedade a luta de Manzo, que é a luta de todos nós por uma sociedade mais justa, democrática e plural.

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